sexta-feira, 5 de abril de 2013

Protestos fazem 'poderosos' tremer na Europa

Angela Merkel é comparada com Hitler em boneco feito por manifestantes em Lisboa, em Portugal


Por Hugo Souza

A exemplo dos seus vizinhos de Península Ibérica, nomeadamente o povo português, os espanhois vêm protagonizando nos últimos meses - a bem da verdade, nos últimos anos - ações coordenadas de classe em defesa dos seus direitos historicamente conquistados e do patrimônio público nacional, no contexto da crise profunda e generalizada dos monopólios.

Crise esta que, na Espanha, bem como em Portugal e em outros países ora sob um arrocho sem precedentes na história do capitalismo europeu, assume a nuance de "crise da dívida", expressão que denota a absoluta incapacidade de os Estados conseguirem pagar suas dívidas públicas sem a ajuda de terceiros, nomeadamente o FMI e o Banco Central Europeu, sendo isto resultado do aumento irracional dos níveis de endividamento nas últimas décadas para manter girando a roldana da economia burguesa há tempos agonizante, o que escancara a irracionalidade do próprio sistema de exploração do homem pelo homem.

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Quando o rastilho de pólvora da crise internacional estourou no Estado espanhol (e em Portugal, na Grécia, na Irlanda, etc), as classes dominantes começaram a lançar mão de medidas antipovo sem fim, anunciadas quase que diariamente, um golpe atrás do outro, tudo sob o chapéu de sucessivos "pacotes de austeridade".

É contra esta infâmia que o povo europeu não sai das ruas, em protestos cada vez mais agigantados. No dia 10 de março, o território espanhol tremeu sob as marchas de cerca de 300 mil trabalhadores em mais de 60 cidades diferentes. Os manifestantes marcaram um "basta" à escalada do desemprego, que na Espanha já aflige seis milhões de pessoas (mais de 26% da população; mais de 50% entre os jovens, ou seja, pessoas com menos de 25 anos de idade) e expressaram seu repúdio aos sucessivos cortes na educação, na saúde e da seguridade social.

França: operários ocupam entidade patronal

 

Dois dias antes das marchas coordenadas na Espanha que fizerem tremer a espinha do "primeiro-ministro" Mariano Rajoy, no vizinho espanhol do leste uma ação classista encheu o proletariado local de orgulho e inspiração. No dia 8 de março cerca de 200 operários da fábrica da montadora de carros Peugeot/Citroën em Aulnay-sous-Bois, Paris, capital francesa, ocuparam as instalações da União das Indústrias e Artes da Metalurgia, uma entidade patronal, em protesto contra o fechamento da fábrica, intenção que a Peugeot/Citroën pretende levar a cabo em 2014.

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Na fábrica que a companhia transnacional quer fechar, contando com a cumplicidade da administração "socialista" de François Hollande, para incrementar os lucros dos seus acionistas trabalham nada menos do que 2.800 pessoas. A ocupação da União das Indústrias e Artes da Metalurgia se deu no contexto de um incremento das ações dos operários em defesa do seu emprego. Entre estas ações está uma greve de fôlego, que naquele 8 de março já durava oito semanas. No alto da fachada da entidade patronal ocupada, os trabalhadores estenderam uma enorme faixa com os dizeres: "Os operários não são desordeiros, os desordeiros são os patrões".

Portugal também voltou a ser palco de um grande protesto contra as medidas antipovo sem fim. No dia 15 de março milhares de pessoas se reuniram em Lisboa para protestar contra o draconiano processo de demissão coletiva de funcionários públicos e contra os drásticos cortes de salários e de direitos dos trabalhadores.

Um dia antes, em 14 de março, uma multidão formada por pessoas de várias nacionalidades da Europa ocupou as cercanias da sede da União Europeia, em Bruxelas, na Bélgica, no momento do início do Conselho Europeu, que reuniu na capital belga os chefes de Estado e de governo da UE, para protestar contra a precarização geral do trabalho, contra as demissões em massa e o arrocho salarial.

Acossados e acuados, os poderosos da União Europeia já sentem os joelhos fraquejarem ante a autoridade das ruas. Ali mesmo, em Bruxelas, no primeiro dia do Conselho Europeu, enquanto a massa fazia barulho do lado de fora, do lado de dentro das paredes da União Europeia do capital monopolista o primeiro-ministro de Luxemburgo e presidente do Eurogrupo, Jean-Claude Juncker, confidenciou à imprensa burguesa o seu maior temor: "corremos o risco de ver uma revolução".


quarta-feira, 3 de abril de 2013

Chipre: que há por trás do silêncio da mídia

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Ensaio jornalístico de Roberto Savio revela quais as causas da crise; como oligarquia financeira impôs seus interesses; por que Alemanha pode ter conquistado vitória de Pirro.

Por Antonio Martins

Vista pelos jornais comerciais, a crise financeira vivida por Chipre, nas duas últimas semanas, parece um fenômeno tão inesperado e imprevisível quanto a queda de um meteoro na Rússia, em fevereiro. Surgiu do nada; não podia ser evitada; causou um número importante de vítimas; mas não afetou, no fim das contas, a rotina do planeta: será esquecida em breve e não há lições a tirar de sua passagem. Fundador da Agência IPS, participante destacado do movimento por uma Nova Ordem Mundial da Informação e Comunicação, nos anos 1970 e 80, o jornalista ítalo-argentino Roberto Savio percebeu que esta imagem pretendia ocultar algo.

Mas não se limitou a vociferar contra os oligopólios da mídia: foi à luta. Dedicou três dias inteiros da semana passada a uma busca minuciosa de informações. Como ferramentas, usou sua compreensão dos mecanismos financeiros contemporâneos e os infinitos terabytes de informação caótica disponíveis na internet. Produziu um ensaio esclarecedor e alarmante, que Outras Palavras está traduzindo e publicará nos próximos dias. Vele a pena antecipar ao menos três de suas conclusões:

1. Chipre não protegia investidores sujos, nem quebrou por servir à lavagem de dinheiro:

A “explicação” mais comum da mídia para a quebra do pequeno país insular é a suposta proteção que dava a investimentos de origem duvidosa, em especial os ligados às máfias russas. Não passa de mito, demonstra Savio. Segundo o Moneyval, organismo oficial do Conselho da Europa que avalia medidas de proteção contra lavagem de dinheiro, Chipre é um dos poucos países que aplica todas as regras definidas para coibir tal prática. Sua avaliação no Índice de Sigilo Financeiro [Financial Secrecy Index] é 408,5, o que indica muito mais transparência que no Reino Unido (616,5), Alemanha (669,8) ou Suíça (1879,2, numa escala em quanto mais alto o índice, mais opaco é o sistema).

O mimo da ilha aos investidores era outro: impostos extremamente reduzidos: 6 a 7% ao ano, ou metade dos 12% na Irlanda, conhecida por caçar investimentos concedendo-lhes privilégios tributários. A partir de 2004, quando Chipre ingressou na União Europeia, esta oferta foi aceita com entusiasmo pelas finanças globais. Elas inundaram a tal ponto a ilha de dinheiro que o volume de depósitos bancários chegou a oito vezes o PIB. A partir de 2008, uma crise financeira internacional prolongada impôs perdas sucessivas a estes depósitos e acabou tragando os bancos cipriotas em sua espiral.

2. Oligarquia financeira e governos europeus manipularam politicamente a crise:

Os 10 bilhões de euros oferecidos agora pela União Europeia (UE) para o “resgate” de Chipre são rigorosamente insignificantes: 17 vezes menos que o empréstimo à Grécia, ou 0,06% do PIB europeu. Desde junho de 2012, o então presidente cipriota, Dimitris Christofias, havia pedido assistência à UE. Mas as eleições presidenciais na ilha estavam próximas, e Christofias era o único chefe de Estado do Velho Continente eleito por um Partido Comunista.

O empréstimo foi adiado, enquanto a crise se agravava.  Em janeiro de 2013, diversos chefes de Estado europeus conservadores — inclusive a alemã Angela Merkel — visitaram a ilha para participar da campanha do opositor Nicos Anastasiades. Advogado ligado ao sistema financeiro, ele tornou-se presidente em 25/2, no segundo turno das eleições. Então, fez-se o empréstimo.

3. Uma decisão inédita pode abalar confiança na Europa e no sistema financeiro:

Na definição das condições para o “resgate”, prevaleceu a posição alemã. Criou-se um precedente. Pela primeira vez, a UE exigiu que seu empréstimo (os € 10 bilhões) seja complementado por dinheiro retirado dos próprios depositantes nos bancos cipriotas (eles perderão € 7 bilhões).  Em longa entrevista sobre o caso, o ministro das Finanças da Holanda (fortemente aliada a Berlim) anunciou que tal tipo de arranjo é a “nova estrutura” que será usada nos futuros empréstimos.

Isso valerá para Espanha e Itália, cuja situação financeira continua a se agravar? Dezenas de milhões de espanhóis e italianos perderão parte do que têm nos bancos, como ocorreu no corralito argentino de 2001? Savio vê na hipótese uma esperteza e, ao mesmo tempo, uma temeridade. Como os bancos alemães são vistos como os mais seguros da Europa, o precedente pode favorecê-los fortemente, no curto prazo. Se agora os depósitos bancários não estão mais garantidos pelos Estados europeus, é melhor guardar dinheiro nos bancos fortes, pensarão os depositantes. Ou, como disse o Nobel de Economia Paul Krugman, é como anunciar, num aviso de neon: “Traga seu dinheiro para o banco mais seguro dos países mais seguros, como a Alemanha ou a Suíça”…

Porém, que futuro terá uma Europa que radicaliza a tal ponto o abismo entre um punhado de países que ganham com a crise e a grande maioria, sob risco constante de ser tragada? E que credibilidade moral terá um sistema financeiro que especula desenfreadamente com o dinheiro de seus depositantes; alimenta, com os ganhos obtidos, salários e mordomias milionárias de seus altos executivos; mas, diante de eventuais prejuízos, avança sobre o bolso dos clientes?

Roberto Savio ainda não tem as respostas, mas aponta um dos desafios de nossa época: “ninguém ousa colocar de novo, na garrafa, o gênio da oligarquia financeira”.


terça-feira, 2 de abril de 2013

Iraque: os senhores da guerra, dez anos depois



Por Carta Maior 

 

Onde estão hoje e o que fazem os protagonistas da Cúpula dos Açores em 2003 – George W. Bush, Tony Blair, José Maria Aznar e Durão Barroso –, que deram luz verde à invasão do Iraque? Dez anos depois, o números de mortos de civis iraquianos gera dúvidas, mas está na casa das centenas de milhares

Lisboa – Em 15 de março de 2003, George W. Bush, Tony Blair e José Maria Aznar, tendo Durão Barroso como anfitrião, reuniram-se nos Açores e lançaram o ultimato que desencadeou a invasão do Iraque, mesmo sem o mandato das Nações Unidas. Dez anos depois, apenas Barroso se mantém em funções políticas, mas fora do seu país.

Tony Blair queixa-se das ofensas que ouve na rua

O ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair reconheceu numa entrevista recente à BBC que dez anos depois da invasão do Iraque ainda encontra pessoas “muito ofensivas” em relação a ele, e que desistiu de convencê-las de que a decisão de invadir foi correta. O entrevistador perguntara-lhe se se importava de que as pessoas o chamassem de mentiroso, de criminoso de guerra, e se era difícil andar na rua com tranquilidade.

A verdade é que Blair já passou pelo menos por quatro ocasiões em que cidadãos tentaram dar-lhe voz de prisão, executando uma “prisão cidadã” por crimes contra a paz. A iniciativa foi lançada pelo site Arrest Blair, que lista quatro objetivos a obter com as “prisões cidadãs”: 1) lembrar que a justiça ainda não foi feita; 2) mostrar a Blair que os assassinatos maciços de que ele é responsável não serão esquecidos; 3) pressionar as autoridades do Reino Unido e dos países por onde ele passa a processá-lo por crimes contra a paz; 4) desencorajar outros a repetirem o mesmo crime.

Criminoso de guerra

As acusações de que Blair é um criminoso de guerra têm-se multiplicado e quem o faz não são só os ativistas antiguerra. Personalidades mundiais, como o arcebispo Prêmio Nobel da Paz Desmond Tutu, um dos líderes do movimento antiapartheid na África do Sul, dizem o mesmo. Tutu foi mesmo mais longe: no final de 2012 defendeu que Tony Blair e George W. Bush fossem levados diante do Tribunal Penal Internacional de Haia por terem mentido sobre a existência de armas de destruição maciça. Tutu argumentou que o número de vítimas provocado pela invasão e a guerra que se seguiu são mais que suficientes para que Blair e Bush sejam julgados no TPI.

David Miliband, ex-secretário dos Negócios Estrangeiros e deputado trabalhista, irmão do atual líder do Labour, é da opinião que “a pior coisa que aconteceu a Tony Blair foi a eleição de George W. Bush, pela direção em que este levou o mundo”. O problema é que Blair chegou a argumentar que a sua proximidade a Bush lhe tinha permitido influenciar as decisões, mas a verdade é que todas as testemunhas dos bastidores da invasão agora confirmam que Blair limitou-se a dizer que qualquer que fosse a decisão de Bush, o Reino Unido apoiá-la-ia.

Blair não reconhece que o seguidismo em relação a Bush foi um erro, mas não é acompanhado pelos que lhe estavam próximos na altura. No início de março deste ano, John Prescott, que era o vice-primeiro-ministro de Blair, disse que a guerra que ele próprio apoiou “não pode ser justificada”. Prescott disse que tentou justificar a decisão, mas não conseguiu: “Não pode ser justificada como intervenção”, reconheceu.

Fim de linha em 2007

A invasão do Iraque foi o início do fim da carreira de Blair. O primeiro-ministro britânico ganharia ainda as eleições de maio de 2005, mas a maioria trabalhista de 160 deputados reduziu-se para 66. Em 27 de junho de 2007, Blair renunciou ao cargo e também ao mandato de deputado. Logo depois, foi confirmado como enviado da ONU ao Médio Oriente anunciando um novo plano de paz para a região, que nunca saiu do papel. A dedicação de Blair ao novo cargo também não foi melhor. Exemplo disso foi que nos primeiros nove dias da invasão de Israel a Gaza, o ex-primeiro-ministro manteve-se totalmente alheio, tendo porém sido visto na inauguração de uma loja Armani em Knightsbridge. Assessores de Blair disseram depois que ele se mantivera em contacto telefônico com líderes mundiais desde o início do conflito.

Fortuna pessoal

Calcula-se que a fortuna pessoal de Blair seja de 60 milhões de libras, a maioria acumulada depois que chegou ao cargo de primeiro-ministro. Em janeiro de 2008, o ex-líder trabalhista foi contratado como conselheiro do banco de investimentos JPMorgan Chase e como conselheiro para questões relacionadas às alterações climáticas do Zurich Financial Services. Além disso, Blair cobra 250 mil dólares por uma palestra de 90 minutos. Em julho de 2010 foi revelado que os seus guarda-costas custam às finanças públicas britânicas 250 mil libras ao ano.

Bush entrou no ranking dos piores presidentes dos EUA

Quando terminou o seu mandato na Presidência dos Estados Unidos, em janeiro de 2009, George W. Bush voou para o Texas e desde então tem vivido discretamente numa casa em Preston Hollow, nos arredores de Dallas.

As aparições públicas têm sido raras: participação via vídeo no programa de TV Colbert Report, ao funeral do senador Ted Kennedy, intervenções em seminários de Motivação, participação, a pedido de Obama e junto com Bill Clinton, num fundo para ajudar o Haiti. Em 2010, admitiu ter autorizado o uso de técnicas de tortura como o afogamento e afirmou que voltaria a fazê-lo “se fosse para salvar vidas”.

Em fevereiro de 2011, desistiu de uma visita que pretendia fazer à Suíça, temendo as ameaças de protestos durante um discurso que pretendia fazer em Genebra e sobretudo temendo a possibilidade de ser detido por ter autorizado o uso de tortura, violando as convenções internacionais sobre essa prática.

No outono de 2012, a revista ‘New York’ revelou que o ex-presidente descobrira recentemente a vocação da pintura, e que pintara dois autorretratos tomando banho e no chuveiro. Mais tarde, revelou-se que tinha cerca de 50 retratos de cães.

A rede de TV a cabo C-SPAN realizou em 2000 e atualizou em 2009 um ranking dos presidentes da República dos Estados Unidos, que colocou George W. Bush entre os piores presidentes da história do país, junto com Warren G. Harding, Andrew Johnson, Franklin Pierce e James Buchanan.

Duas mentiras derrotaram Aznar

Em dezembro de 2008, o ex-presidente do governo de Espanha, José María Aznar, reconheceu que não havia armas de destruição maciça no Iraque. “O mundo inteiro pensava que havia armas de destruição maciça e não havia, sei-o agora”, disse Aznar num ciclo de conferências. “Quando eu não sabia, ninguém sabia”, justificou.

Um ano antes já tinha dito que não se arrependia de ter envolvido o seu país na guerra do Iraque, porque foi “um dos momentos mais influentes da história do país”. “Nunca me vou arrepender de a Espanha ter vivido um dos momentos mais influentes da sua história e não me arrependo disso. Arrepender-me-ia de não ter estado à altura das circunstâncias”, disse, defendendo que era fundamental estar “ao lado dos aliados mais fortes possível”.

Nova mentira

Em março de 2004, o PP de Aznar perdeu as eleições depois de o chefe do governo atribuir à ETA a responsabilidade dos atentados que provocaram a morte de 191 pessoas e mais de 1.500 feridos. Muitos cidadãos consideraram que o governo mentia acerca da autoria do atentado para que não se considerasse que este era uma represália da Al-Qaeda pelo envio de tropas espanholas para o Iraque. Assim, duas mentiras – as armas de destruição maciça e a atribuição à ETA da responsabilidade do 11-M – selaram o futuro de Aznar.

“Ecologismo é o novo comunismo”

Derrotado nas eleições, Aznar foi presidir a Fundación para el Análisis y los Estudios Sociales (FAES), foi nomeado presidente de honra do PP e tornou-se membro do Conselho de Estado. Em junho de 2006, o ex-chefe do governo espanhol foi nomeado para o Conselho de Administração do grupo News Corporation, de Rupert Murdoch, que lhe paga 220 mil dólares anuais pelo cargo.

Aznar foi também nomeado presidente para a América Latina da J.E. Robert, empresa dedicada a grandes operações imobiliárias nos Estados Unidos e na Europa e também entrou no Comité Assessor da Centaurus Capital, uma empresa de capital de risco especializada em hedge funds, cargo que abandonaria em 2009.

As suas intervenções políticas posteriores foram marcadas fortemente pelo conservadorismo. Em outubro de 2008, por exemplo, afirmou que o ecologismo é o novo comunismo, mostrando-se cético em relação aos perigos das alterações climáticas.

Barroso disse que foi enganado

Em novembro de 2007, numa entrevista à TSF e ao Diário de Notícias, Durão Barroso afirmou que na Cimeira dos Açores foi enganado: “Houve informações que me foram dadas, a mim e a outros, que não corresponderam à verdade. Tive documentos na minha frente dizendo que o Iraque tinha armas de destruição maciça. Isso não correspondeu à verdade”, disse.

Ainda assim, Barroso defendeu que Portugal nada tinha a lamentar sobre o papel que assumiu, e a prova disso seria a sua própria situação. “Portugal, ao dizer que sim ao seu aliado norte-americano, não perdeu espaço com isso, nem tem que estar arrependido. Eu fui, depois dessas decisões, convidado a ser Presidente da Comissão Europeia, e tive o consenso de todos os países europeus.”

A 29 de junho de 2004, Barroso anunciou a sua demissão da chefia do governo português, para assumir o cargo de 12º presidente da Comissão Europeia, sucedendo neste cargo a Romano Prodi. Foi substituído no governo por Pedro Santana Lopes, mas, passados poucos meses, o presidente Jorge Sampaio dissolveu a Assembleia da República e convocou eleições antecipadas, vencidas por José Sócrates.

Em 2011, o ex-presidente francês Jacques Chirac publicou um segundo volume das suas memórias, “Le temps présidentiel”, onde criticou Durão Barroso pela sua posição pró-americana na guerra no Iraque, afirmando que avisou diversas vezes, pessoalmente, tanto Bush como os seus aliados, das consequências negativas da guerra e da decisão de atacar o Iraque sem mandato das Nações Unidas.

Retirado do site da Agência Carta Maior.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

A MÍDIA DE BRAÇOS DADOS COM A DITADURA

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Por Alexandre Haubrich

A relação das elites civis com os ditadores militares foi íntima desde o começo da ditadura brasileira. O Golpe de 1964 foi amplamente apoiado por diversos setores da sociedade civil – a Marcha da Família com Deus pela Liberdade é um bom exemplo –, incluindo os principais jornais do país, que, no dia da derrubada do governo popular – reformista – de João Goulart, estamparam manchetes que celebravam o fim do “perigo comunista” e a reação dos militares.

Nos primeiros dias de abril de 1964, O Globo, Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil, Estado de Minas e muitos outros jornalões publicaram manchetes como “São Paulo parou ontem para defender o regime” (Folha de S. Paulo) e “Fugiu Goulart e a democracia está sendo restabelecida” (O Globo), “Só há uma coisa a dizer a Goulart: saia!” (Correio da Manhã), “Democratas dominam toda a nação” (Estado de S. Paulo), “Lacerda anuncia volta do país à democracia” (Correio da Manhã), “Multidões em júbilo na Praça da Liberdade” (Estado de Minas). “Heroísmo”, “democracia”, “glória”, “patriotas” e “bravura” foram algumas formas pelas quais os primeiros movimentos dos militares golpistas foram referidos.

Durante os 20 anos de trevas, de censura e de gritos sufocados – sim, porque haviam muitos que gritavam – o apoio continuou. Grandes empresários de todos os ramos deram sustentação financeira, social e político aos militares que se abancaram no poder, e os barões da mídia não tiveram atitude diferente. Os episódios de uso de carros da Folha de S. Paulo por agentes da Ditadura e da mentira da TV Globo na cobertura do comício das Diretas Já são exemplos gritantes do que acontecia em silêncio cotidianamente: a colaboração entre militares e empresários da comunicação.

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Enquanto isso, jornalistas eram calados pelo governo e pelos patrões, e buscavam formas de contornar a censura. Dentro das próprias grandes redações o jornalismo intelectual e comprometido com o leitor – substituído hoje pelo jornalismo de tarefas comprometido com a empresa – era uma realidade. O patrão andava de braços dados com os generais, mas os jornalistas cuspiam na cara da ditadura. Porém, de formas diferentes – às vezes a censura, às vezes a tortura, outras vezes o assassinato – muitos acabaram pagando por desejarem liberdade.

Paralelamente, a mídia independente tornava-se imprescindível, e ganhava corpo, com o nascimento e a ascensão de veículos como O Pasquim – de Tarso de Castro –, o Coojornal – mais importante iniciativa de jornalismo formalmente cooperado na história brasileira – e O Movimento. Com personagens, ideários e condutas variadas, a imprensa alternativa – especialmente nos anos 70 – teve um caminho comum: o combate à ditadura.

Em 2008, quando o governo federal trouxe à tona o debate sobre a abertura dos arquivos da Ditadura Militar, boa parte da imprensa dominante brasileira alinhou-se aos militares de pijama e aos mais diversos setores da direita brasileira para dizer que se tratava de revanchismo. A gritaria foi tanta, fortalecida pelo discurso conservador da grande mídia, que os setores mais combativos do governo arrefeceram. A revisão da Lei da Anistia não saiu, os arquivos da Ditadura continuaram fechados, todos nós continuamos cegos, surdos e mudos, continuamos ignorantes, o conhecimento sobre o passado brasileiro está logo ali, mas ninguém pode tocá-lo. Index Librorum Prohibitorum.

A cada vez que esse debate ganha corpo, ou a velha mídia brasileira se esquiva ou fala em revanchismo para descaracterizar a simples e óbvia luta pela verdade e pela punição de criminosos do mais alto grau. As razões também são simples e óbvias: além do suporte dado por alguns desses veículos aos militares e seus aliados civis, também muitos atuais patrocinadores da grande mídia injetaram muito dinheiro para manter o regime ditatorial no Brasil. E também lucraram com isso. Ainda temos atuantes na cena política muitos nomes que colaboraram direta ou indiretamente para reprimir violentamente qualquer voz dissonante ao Regime, para torturar e assassinar uma grande quantidade de pessoas dos mais diversos tipos. No exército, na política institucional, no alto empresariado e na mídia, torturadores, assassinos e cúmplices destes crimes ainda têm seus lugares cativos.

Também questões factuais ligadas ao tema da Ditadura Militar são omitidas ou desviadas constantemente: os julgamentos dos assassinos militares argentinos e as discussões sobre o tema no Uruguai não são relacionados com o caso brasileiro. Ícones da repressão, como o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, têm artigos publicados nos nossos jornais. Um ex agente do DOPS processando um jornalista não é notícia. Jornalão chama ditadura brasileira de “Ditabranda”.

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A revisão da Lei da Anistia e a abertura de todos os arquivos da Ditadura Militar são ações essenciais se quisermos construir uma sociedade democrática. O silêncio e a impunidade alimentam a corrupção, o autoritarismo, a violência policial e outras mazelas presentes desde sempre na sociedade brasileira, mas tornadas rotineiras, quase moralizadas, no período ditatorial.

Conhecer nossas origens é fundamental para que nos reconheçamos como sujeitos da História. Conhecer as origens da nossa sociedade é pressuposto para entendermos quem somos. Todos temos o absoluto direito à verdade. Negar esse direito ou não punir quem o negou é ser, também, um braço ainda vivo da Ditadura.

Cabe aos comunicadores alternativos gritarem ainda mais alto em defesa do verdadeiro fim da Ditadura. A sociedade organizada e a mídia contra-hegemônica têm obrigação moral de encampar essa pauta em defesa da verdade e da história brasileira. É a defesa da sociedade, a defesa de quem lutou das mais diversas formas pelo fim da ditadura, a defesa do passado e do futuro. Bastião teórico da liberdade e da transparência, a velha mídia apoiou a Ditadura Militar e agora tenta impor-se como barreira à verdade histórica que o povo brasileiro tem direito de conhecer: sua própria história. Isso só acontecerá quando enterrarmos nossos mortos e deixarmos de admitir a tortura, a opressão estatal, a violência policial e os assassinatos cometidos pelo Estado – ontem e hoje. A mobilização nos blogs e nas redes sociais tem sido significativas, e o governo, em algum momento, terá que dar resposta aos apelos da sociedade organizada que pretende representar, ou se tornará dispensável.  Precisamos recusar o cumprimento da Ditadura, ou nossas mãos continuarão sendo esmagadas pelos braços unidos de ditadores e empresários da comunicação.



sábado, 30 de março de 2013

Criança, a alma do negócio - Link para Download

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Por que meu filho sempre me pede um brinquedo novo? Por que minha filha quer mais uma boneca se ela já tem uma caixa cheia de bonecas? Por que meu filho acha que precisa de mais um tênis? Por que eu comprei maquiagem para minha filha se ela só tem cinco anos? Por que meu filho sofre tanto se ele não tem o último modelo de um celular? Por que eu não consigo dizer não? Ele pede, eu compro e mesmo assim meu filho sempre quer mais. De onde vem este desejo constante de consumo?

Este documentário reflete sobre estas questões e mostra como no Brasil a criança se tornou a alma do negócio para a publicidade. A indústria descobriu que é mais fácil convencer uma criança do que um adulto, então, as crianças são bombardeadas por propagandas que estimulam o consumo e que falam diretamente com elas. O resultado disso é devastador: crianças que, aos cinco anos, já vão à escola totalmente maquiadas e deixaram de brincar de correr por causa de seus saltos altos; que sabem as marcas de todos os celulares mas não sabem o que é uma minhoca; que reconhecem as marcas de todos os salgadinhos mas não sabem os nomes de frutas e legumes. Num jogo desigual e desumano, os anunciantes ficam com o lucro enquanto as crianças arcam com o prejuízo de sua infância encurtada. Contundente, ousado e real este documentário escancara a perplexidade deste cenário, convidando você a refletir sobre seu papel dentro dele e sobre o futuro da infância.


Ficha Técnica:

49 min - Documentário Direção: Estela Renner País: Brasil Ano de lançamento: 2008

Link para Download via torrent: Criança, a alma do negócio

Para assistir online:

sexta-feira, 29 de março de 2013

Coreia do Norte prepara mísseis para eventual ataque aos EUA

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O líder norte-coreano, Kim Jong-un, ordenou nesta sexta-feira 29 o início dos preparativos para atacar com mísseis o território dos Estados Unidos e suas bases no Pacífico e na Coreia do Sul, indicou o órgão oficial do regime norte-coreano, a agência KCNA.

A ordem foi emitida durante uma reunião de emergência noturna com os líderes de alto escalão do exército, indicou a KCNA, e é uma resposta direta às manobras conjuntas dos Estados Unidos e da Coreia do Sul na península com bombardeiros furtivos americanos B-2, capazes de transportar armas nucleares.

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Em caso de provocação imprudente dos Estados Unidos, as forças norte-coreanas “deverão atacar sem piedade o (território) continental americano (…), as bases militares do Pacífico, incluindo Havaí e Guam, e as que se encontram na Coreia do Sul”, declarou Kim, citado pela agência oficial.

Na quinta-feira, em um contexto de escalada de tensões entre as duas Coreias, dois bombardeiros furtivos B-2 sobrevoaram a Coreia do Sul, uma maneira de os Estados Unidos ressaltarem sua aliança militar com Seul em caso de agressão do Norte.

 

Segundo a agência oficial, Kim Jong-un disse que o voo dos bombardeiros furtivos equivale a um “ultimato e demonstra que querem lançar a qualquer preço uma guerra nuclear”.

O chefe do Estado-Maior do Exército Popular da Coreia, o diretor de operações e o comandante de operações estratégicas e foguetes estiveram presentes na reunião de emergência, realizada nesta sexta-feira às 00h30 locais (12h30 de quinta-feira no horário de Brasília), segundo a KCNA.

Washington não costuma anunciar os voos de treinamento do B-2, um avião projetado para entrar nas linhas inimigas e bombardear alvos estratégicos a partir de uma grande altitude (até 15.000 metros).

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Considerado indetectável e capaz de voar perto da velocidade do som, o B-2 pode transportar até 18 toneladas de armas convencionais ou nucleares, incluindo 16 bombas de 900 kg guiadas por satélite e oito bombas GBU-37 antibunker.
 
A Coreia do Norte já havia ameaçado na terça-feira os Estados Unidos com ataques contra seu território e suas bases no Pacífico, mas se tratava de um anúncio, também através da agência oficial, proveniente do Exército. Neste caso trata-se de um alerta do líder do regime.

A China pediu nesta sexta-feira às partes interessadas “que façam esforços coletivos para resolver a situação”. “A paz e a estabilidade na península coreana são benéficas para todos”, declarou o porta-voz do ministério das Relações Exteriores chinês, Hong Lei.


A China é o único aliado da Coreia do Norte e seu principal sócio comercial, que lhe fornece recursos energéticos indispensáveis para sua economia.

Na quinta-feira, Washington disse mais uma vez estar “preparado para enfrentar qualquer eventualidade” procedente da Coreia do Norte, indicou o secretário de Defesa americano, Chuck Hagel.

Os especialistas militares americanos afirmam, no entanto, que até o momento o aumento da retórica belicista da Coreia do Norte não é acompanhado por ações militares.

Pyongyang, por exemplo, evitou ao máximo as tensões em torno das instalações industriais de Kaesong, compartilhadas com a Coreia do Sul, e que fornecem ao Norte receitas vitais para sua economia.

Desde o início de março e a adoção de novas sanções da ONU contra Pyongyang, depois de um terceiro teste nuclear, a Coreia do Norte aumentou o tom de suas declarações, ameaçando Seul e Washington com ataques estratégicos e com uma guerra total.

“Mas isso não deve ser interpretado como sinal de uma guerra iminente”, disse Kim Yong-hyun, um especialista sul-coreano da Universidade Dongguk. “É uma reação esperada e calibrada pela mobilização de B-2, e este jogo com os Estados Unidos vai prosseguir”, acrescentou.



Fonte: Carta Capital

quinta-feira, 28 de março de 2013

Eduardo Paes molecular ou Por outro norte da cidade!

O Governador Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes em momento descontraído



Por Bruno Cava, blogueiro e militante da UniNômade

Em 1º de março, apesar da greve dos rodoviários e do feriado da cidade, vários coletivos estiveram presentes no campus da Praia Vermelha da UFRJ, no Rio. Chamada pelo coletivo Norte Comum e pela rede Universidade Nômade, a reunião contou com participantes dos grupos Favela não se Cala, Justiça Global, Fórum Cidades Invisíveis, i-Motirõ, Centro de Teatro do Oprimido, Cursinhos Pré-Vestibulares para Negros e Carentes, Movimento Unido dos Camelôs, mandatos dos vereadores Renato Cinco e Reimont Otoni, ex-defensores e estagiários do Núcleo de Terras e Habitação da Defensoria Pública, entre outros. A tônica do encontro foi começar uma conversa e delinear coordenadas políticas para a atuação conjunta, nos moldes de um fórum transversal ou agregado de grupos autônomos, cujo primeiro evento se pretende realizar na zona norte da cidade, em abril ou maio. Os mandatos de luta no Rio de Janeiro estão convidados a participar, interessados em se deixar atravessar pelas mobilizações e movimentos.

Com a reeleição de Eduardo Paes, numa coalizão que engole a facção carioca do PT, o momento é de reorganização da pauta de movimentos e coletivos. Ante o esgotamento da esquerda mais tradicional nos partidos, repensar a organização dos movimentos e transformações que já existem e já exercem seus efeitos de resistência pela cidade. Vive-se no Rio um momento de perplexidade, em que ações francamente intoleráveis são justificadas a título de “interesse coletivo” ou até “socialismo” (o exemplo máximo disso foi o discurso do ex-secretário de habitação Jorge Bittar).

O poder constituído perdeu o pudor, oficializando políticas de higienização, gentrificação e acumulação dos ganhos. O modo “Banco Imobiliário” de governar se tornou abertamente discurso oficial. A cidade-empresa e a cidade-jazida continuam a ser construídas diariamente mediante operações e ações policiais de “choque de ordem”, “pacificação” e “remoção democrática”. Sem falar na remoção branca, que vai removendo escalonadamente os cidadãos a bairros mais distantes das praias, por causa da supervalorização dos aluguéis e aumento do custo de vida dos bairros “pacificados” e “glamourizados”.

Como comentou um militante do movimento Favela Não se Cala, o desafio agora é lutar no terreno da “pós-pacificação”. No momento em que as UPP se estabilizaram e até voltaram a negociar com antigos grupos de poder e violência que monopolizavam os territórios dos pobres. Momento também de enraizamento das redes de governança, com a formalização dos serviços e a exploração direta por meio da milícia — exemplo máximo da hibridação entre estado e mercado do capitalismo.

Quem olha a televisão, lê os jornalões ou analisa as estatísticas, não pode deixar de ter a impressão de que o Rio vive uma tempo maravilhoso. A cidade, finalmente, teria se redimido da perda do status de capital federal, deixando para trás 50 anos de um noticiário recheado de insegurança, corrupção e decadência. Vive-se o discurso do novo Rio, novamente elegante, terra de gente bonita e cartão-postal do Brasil Maior. O Rio é o portão de entrada para um país formado pela “nova classe média”, e uma nova safra de governantes-executivos, aliados a um empresariado empreendedor, um funcionalismo público renovado e uma creative class da classe-média branca e ilustrada, cujo símbolo máximo (e desavergonhado) é o recém-inaugurado Museu de Arte do Rio (MAR).

Como o governo Eduardo Paes (PMDB/PT) conseguiu construir tamanho consenso, representado em cores tão ufanistas pelas mídias “oficiais”? A ponto de obter 65, 70 ou até 80% dos votos em bairros pobres da cidade? Onde está o efeito de escala desse governo, sua lógica molecular, seu funcionamento concreto? Porque os velhos aparelhos de violência estatal, racismo e medo persistem.

Uma resposta rápida aponta para o esgotamento da própria política. A cidade, ainda que tradicionalmente insubmissa, estaria desmobilizada. Num cenário nacional de crescimento econômico e novas oportunidades, as pessoas estariam mais preocupadas em adaptar-se, ganhar dinheiro, “subir na vida”, do que na mobilização política. Esse argumento conduz invariavelmente à ideia que Eduardo Paes foi eleito no primeiro turno graças à desmobilização ou “alienação”. As pessoas votaram porque estão mal-informadas. Um argumento próximo da velha (e reacionária) tese do clientelismo populista (de Sérgio Buarque de Hollanda a Roberto DaMatta), em que os mais pobres, despidos de profunda espiritualidade, votariam guiados pelo estômago, — em vez de usar a sóbria e desinteressada razão em prol do interesse geral, qualidade exclusiva da classe média branca e ilustrada.

É a mesma tese disfarçada pela esquerda quando argumenta que falta “consciência de classe”, e que portanto o voto em Freixo ou no PSOL se concentraria mais na Zona Sul devido ao maior número de pessoas conscientes e interessadas na política. Isto é, noutros termos, devido à existência de uma forte classe média branca e ilustrada.

Outra resposta consiste em apontar a falência da democracia representativa, que desce aliás ao âmago do próprio conceito de representação, e que inclusive justificaria a proporção crescente de abstenções e votos nulos. Muitas pessoas estão desencantadas com as opções disponíveis no mercado eleitoral. Em vez de “alienadas” ou desmobilizadas, tem-se aí um ato de recusa. Dirigem seus esforços para outro lugar, porque desse mato não sai cachorro. Esse discurso repercute a tendência que vem das resistências no hemisfério norte: 15M, #nolesvote, movimento Occupy; ou nem tão do norte assim: que se vayan todos!, slogan argentino de 2001.

Paradoxalmente, o discurso mais abertamente antirrepresentativo encontra um ponto de toque com forças à direita que se apresentam como “apartidárias”, e mesmo acima de uma política pautada pela luta de classe. Esse estranho ponto de encontro se dá ao redor do discurso do vazio da política. Quer dizer, viveríamos a era do vazio da política, a debaclê das ideologias. Os âmbitos e instituições tradicionalmente perpassadas pela política estariam “despolitizadas”, corrompidas pelo interesse privado erigido à razão pública. No Brasil, um realinhamento eleitoral teria levado as forças partidárias a achatar-se essencialmente nas mesmas pautas e modos de existir, reduzindo a quase zero a diferença entre os programas.

Esse discurso, em tons indignados ou melancólicos, discurso de “fim da história”, ainda que seja à esquerda, costuma distribuir a culpa pela situação às próprias pessoas, além de criticar a corrupção do estado (e não o estado como a corrupção). As pessoas — e aqui existe um corte de classe — estariam “despolitizadas” ou “alienadas”, seduzidas pelo consumismo e a ilusão de ascensão social, domesticadas e imbecilizadas pela comunicação de massa. Trazida para a realidade carioca, essa linha de interpretação teima em culpar as pessoas, especialmente a maioria pobre, pela reeleição de Eduardo Paes em 2012. Não sabem o que fazem, ao votar em Paes.

Em artigo de avaliação do último pleito, Alexandre Mendes, da UniNômade, mostrou que o resultado não admite conclusões tão apressadas.

Nessa linha que assume o “vazio da política”, sua corrupção ou sua obsolescência, têm aparecido frentes que se propõem a renovar a política. A reinventá-la noutras formas, com novas maneiras de organizar a militância e novas concepções de representação e expressão. A ênfase no “novo” é fundamental. Daí, se reorganizaram alguns grupos existentes para lançar projetos com o apelo da novidade, tais como a Rede de Marina Silva, o Partido do Futuro, na Espanha (elogiado por Manuel Castells) e o 5Stelle encabeçado por Beppe Grillo, na Itália. Em comum, esses grupos canalizam uma insatisfação difusa com a política-que-está-aí e evitam se definir segundo o espectro clássico entre esquerda e direita. Isto significa, em parte, uma recusa em entrar nos esquemas do velho, para reforçar que, no mundo do século 21, é preciso reinventar a própria definição do que seja posicionamento político.

Isto traz várias complicações e armadilhas. Na resposta do “vazio da política”, os grupos parecem atribuir-se a responsabilidade histórica, quase missionária, de preencher-lhe. Se a política é velha e a militância ultrapassada, eles se põem no cenário como os arautos de uma nova política e um  ativismo mais “contemporâneo”, onde não haveria lugar, por exemplo, para os fantasmas da “luta de classe” ou do “comunismo”. Menos que uma recusa às utopias do século 20, tem-se aí uma recusa do próprio antagonismo como motor da história. São teóricos e ativistas “elevados”, acima dessa era rancorosa em que as pessoas lutavam com ódios ideológicos.

Os adjetivos “complicado” e “problemático” se aplicam perfeitamente a essas tendências, mas o destino político delas, guardada a reserva crítica, é preciso reconhecer ainda estar em aberto. Sem condescendência, mas também despojado de denúncia apriorística. Por sua vez, a rejeição do fetiche do novo não pode significar a apologia do velho, do espectro político-partidário existente, na quase totalidade engessado e capturado.

Outra possibilidade, talvez mais interessante, seja não cair nessa outra dicotomia que no lugar de opor esquerda e direita, opõe a novidade ao obsoleto, em conotação teleológica onde o tom moral nunca está distante. Além dessa linha, talvez seja caso de não afirmar algum “vazio da política”. Os pobres não estão despolitizados. Sua mobilização já acontece, só não conseguimos enxergá-la. A leitora de Foucault sabe que não existe vazio de poder. A política nunca dorme. O que sucede amiúde entre os meios de esquerda é não enxergar as coordenadas e os planos de composição em que essa política acontece. Falta generosidade no olhar e na construção das relações. E falta pesquisa militante junto de movimentos e forças vivas do trabalho, na conexão entre política e produção, entre luta e trabalho, o que os operaístas italianos chamariam de “composição de classe”.

Nesse sentido, volta a pergunta, onde está a política que reconduz Eduardo Paes à prefeitura com mais de 60% dos votos válidos, chegando a 70, 75 ou mesmo 80% nos bairros pobres? Quais são as formas, os métodos, as conexões político-produtivas que determinam os consensos de governança carioca? Como se fabrica um consenso que não tem qualquer vergonha em triturar pobres e negros, sob o aplauso unânime da grande imprensa? Em explorar o desenvolvimento da cidade e dirigi-lo abertamente à ainda mais desigualdade territorial e social, racismo e concentração dos ganhos? Denunciar o intolerável e a miséria do poder é fácil e até redundante. Difícil é explicar porque acontece. Interpretar para transformar. Explicar para se implicar melhor na constituição política do presente, e desse plano de composição tirar as linhas de corte, fuga e recomposição de classe.

O “preenchimento” talvez esteja acontecendo em múltiplos níveis, transescalarmente pelos muitos territórios, bairros e zonas do Rio de Janeiro. Dê-se por redes enraizadas que conseguem mobilizar, de uma maneira ou de outra, a força produtiva dos pobres. Isso passa por uma cauda longa de operadores estrategicamente posicionados, mais ou menos conscientes de sua posição na governança da cidade, dentro ou fora do “estado oficial”.

Agentes, articuladores, animadores em distintos graus de envolvimento com obras públicas, instituições locais, órgãos da prefeitura, redes varejistas, de comércio informal, esportes, cultura, políticas sociais, transporte público, equipamentos urbanos culturais, instâncias de controle territorial, lideranças comunitárias, igrejas, associações de moradores, milícia, tráfico, lavagem de dinheiro e longo etcétera — a equação é complexa. É a cidade policêntrica e sua rede que articula verticalidades e horizontalidades cujas
fronteiras são difíceis de precisar, mutantes, maleáveis. Tudo isso é também Eduardo Paes. Um Eduardo Paes molecular. Ou melhor, uma base material capilarizada sobre o que a governabilidade pôde construir e sustentar algo como o governo Eduardo Paes.

Nesse sentido, não basta denunciar um governo que sustenta o Grande Negócio (imobiliário, empreiteiro, midiático-esportivo, telefonia, transportes, lixo, bem como as finanças que estão em tudo) por baixo da violência e do intolerável cotidianos. Mas compreendê-los como produto de fluxos de poder, dos escoamentos de dinheiro e da colonização da subjetividade, fenômenos que se espraiam pela metrópole. A violência racista contra pobre deriva dessa estrutura produtiva. Uma estrutura que, na outra ponta, produz uma sensação, uma estética e um discurso de sustentação onde as pessoas podem se segurar e ser de alguma forma produtivas, produtivas como não eram, e a partir daí construir o seu futuro, e comprazer-se com a percepção, ainda que incipiente, de toda sorte reconfortante e motivadora, que podem “subir na vida”. O caso é compreender como o enunciado “subir na vida” está imbricado com uma ética do trabalho, o que envolve as igrejas neopentecostais, a televisão, a publicidade, mas também arranjos familiares e algum cooperativismo local.

Em vez de simplesmente condenar esse “subir na vida”, que mais do que ilusão é um fato vivido e sentido na pele pelos pobres, perceber como por dentro disso também há elementos produtivos, essencialmente políticos, ligados a um aumento de demandas, expectativas, e mesmo uma autopercepção de capacidades que, até pouco tempo atrás, não havia. Essa autopercepção é reapropriável como luta. A mobilização produtiva dos pobres, em grande escala, — algo muito menos perceptível há 15 ou 20 anos no Rio de Janeiro, — já implica formas de “consciência de classe” e uma politização que muitas vezes passa despercebida segundo os esquemas da esquerda brasileira. Condenar o “subir na vida” tem sido o diagnóstico geral, como se a classe média — extrato social mediador e legitimador de qualquer época capitalista — não se organizasse subjetivamente ao redor disso.

O verdadeiro problema talvez consista em entender como esse mesmo “subir na vida” termine apropriado para sustentar a governança desigual da cidade, atuando no sentido de manter a pirâmide do Grande Negócio e seus poucos e grandes proprietários. Sem condenar quem enuncia querer “subir na vida”, mas lhe distinguir os vários polos internos do enunciado, cujo sentido, ao fim e ao cabo, está em disputa. É a própria disputa no plano da subjetividade. Nem amor ad lazarus à moda narodnik, nem racismo de classe à direita ou à esquerda.

O caso possivelmente seja compreender, igualmente, como as políticas sociais e culturais — ainda modestas, mas não desprezíveis — aprofundadas com o governo Lula, também entram como dupla variável da equação. Dupla variável, pois mobiliza produtivamente (logo, politicamente), ao mesmpo tempo em que explora essa mobilização. Acontece com duplo polo: apropriação pelo poder, reapropriação pela “consciência de classe”, ou melhor, pela organização de redes territoriais. E tentar fazer um esforço interpretativo para entender como essas políticas podem ser (e no fundo já estão) tensionadas para a reapropriação das estruturas e mediações com que funciona o governo Eduardo Paes, e também o estadual e o federal — no sentido, por exemplo, da renda universal incondicionada, ou de conselhos territoriais articulados além da lógica militarizada e “pacificadora”.

Não é caso, de todo jeito, de simplesmente denunciar os aspectos negativos e tendencialmente de fechamento das políticas sociais e culturais, nem do “subir na vida” na base da produção de subjetividade que igrejas, governos e máfias também colonizam. Essa é uma tarefa fácil e, no final das contas, inútil. O trabalho exclusivo do negativo serve, no máximo, para alimentar o ciclo 7-24 das redes sociais, num transe de indignação e denúncia com soma final zero. A negatividade só exerce poder apoiada sobre uma positividade maior e mais interessante no presente.

O que fazer, então, não terá resposta num artigo ou numa reunião. Depende da copesquisa das coordenadas e condições dessa produção além das mediações e estruturas. Uma copesquisa que as redes de resistência-produção já fazem no dia a dia, ainda que de forma pouco integrada. O que fazer — a pergunta leninista que sempre volta — implica situar-se dentro da franja de subjetividade, e ver e enxergar e vivenciar como fugir das armadilhas, dos polos negativos das equações, e contribuir para vazar o excedente de luta, indignação e insatisfação implicado nas subjetividades. Esse trabalho não prescinde de uma análise da representação, das eleições, das instituições estatais, embora seja fundamental não se render ao estado como ponto de vista (mantendo todavia um ponto de vista sobre o estado).

Esse desafio para interpretar e transformar a constituição política do presente não passa por postular vazios para se oferecer como mais pleno. O salvacionismo dos pures et dures simplesmente esbarra na realidade, que não funciona segundo a lógica velho x novo, puro x impuro, verdade x mentira, limpo x corrupto. É preciso reconhecer que os espaços e tempos estão inteiramente preenchidos, que a política esteja pulsando por todos os lados, para um lado e para o outro, e que portanto seja preciso ocupar esses espaços-tempos. Posicionar-se na mobilização produtiva e, sem negá-la com ranços, derivar seus sentidos. Ocupá-los não para simplesmente disputar espaço, mas para transformá-lo, revolucionando a própria distribuição desigual dos espaços e tempos da cidade.

É um desafio de reapropriação da cidade desde baixo, desde as bases materiais de sua produção de vida e morte, desde as forças e os corpos que fazem o Rio de Janeiro. Um trabalho de remobilização que não prescinde de uma política forte da composição, para agregar e multiplicar os sentidos e afetos do outro Rio, do outro Rio que já subsiste nas entrelinhas deste. A nova política não é propriamente nova, mas sim recomposta. O trabalho da multidão está em copesquisar e recompor essa outra cidade,  linda e insubmissa, tanto vexada nos últimos tempos com a governança vigente, suas alianças mafiosas e suas redes de saqueio.