sábado, 3 de novembro de 2012

HAVANA VELHA: Salas de aulas, museus e reconhecimentos




Aproximadamente 12 mil crianças desfrutaram de um dos projetos reconhecidos pela Unesco, numa comunidade de alto valor patrimonial

Por Yenia Silva Correa


Quando lhes perguntam o que querem ser quando sejam mais velhas o alvoroço é imediato. Jonathan admite, corando, que quer ser motorista de ônibus, Jorge Ignacio, engenheiro; María Carla, professora de balé; Carlos Manuel, astronauta; Abraham, chefe de cozinha…

Apenas ultrapassam os nove anos, estudam na quarta série, na Escola Simón Rodríguez e numa sala de aulas, acondicionada especialmente para elas, na biblioteca Rubén Martínez Villena, no centro histórico da antiga Havana, se preparam para atingir seus sonhos.


A poucos passos de distância, um grupo de crianças da sexta série, do ensino fundamental, se reúne com sua professora, na Casa dos Árabes. Andy, aluno da escola primária Carlos Manuel de Céspedes, quebra o gelo com uma confissão própria de seus anos: “Aprendi muitas coisas”.

A diferença das primeiras, estas crianças repetem a experiência de serem instruídas numa sala de aulas-museu, do Gabinete do Historiador da Cidade, pois no ano letivo anterior receberam aulas no Convento de Belém.

Com um discurso muito mais fluente os professores elogiam os benefícios deste programa. O professor Aniel Rosell Pérez trabalha, pela terceira vez, no projeto e assinala as atividades com a família e a comunidade, derivadas deste contato entre crianças e museus.

“Aqui na biblioteca temos oficinas com os pioneiros durante todo o curso e as experiências são melhores porque, à medida que avança o projeto, as crianças estão mais ligadas a outros museus da localidade”, enfatiza o jovem docente.

Mercedes Guilló, por seu lado, lembra sua experiência na sala de aula-museu da Casa Humbolt e as habilidades que desenvolveram seus alunos, ao entrarem em contato com a instituição.

DA NECESSIDADE À CRIATIVIDADE

O projeto Salas de Aulas-Museus — um dos tantos que compreende o programa social infantil do Gabinete do Historiador da Cidade — surgiu em 1995, para dar resposta à situação criada durante a restauração da Praça Velha.

“O ruído — refere a chefa do Departamento de Pesquisa Sociocultural e Programas Educativos, Aliec Vega — impedia desenvolver adequadamente o processo docente educativo na escola primária Ángela Landa. Perante uma exigência da comunidade, o historiador da Cidade decidiu incorporar os escolares às instituições culturais do centro histórico”.

O que naquele momento se apresentou como uma alternativa nova e criativa se estendeu ininterruptamente a diversos centros, durante estes 17 anos, período em que conseguiu “ajustar-se às necessidades dum contexto, procurando respostas a cada momento, com a intenção de vincular a comunidade, que é o objetivo mais importante”, sustenta Vega Montero.

Atualmente, na Havana Velha, funcionam oito salas de aulas-museus, cada uma delas relacionada com uma escola primária da localidade. As instituições que as albergam são: a Casa do México, a biblioteca Rubén Martínez Villena, a Casa da África, o jardim ecológico Hans Christian Andersen, a casa onde nasceu José Martí, a Casa dos Árabes, a Casa Oswaldo Guayasamín e a Vitrina de Valônia.


As atividades realizadas nestes centros com os alunos são múltiplas e variadas. A especialista do programa social infantil, Ingrid Fernández Pérez, destaca a Festa do Livro Infantil, a Hora do Conto, os encontros de dança e teatro para crianças, o espaço semanal na emissora Havana Rádio, os concursos e workshops.

A Direção de Gestão Cultural do Gabinete do Historiador e a Direção Municipal de Educação (DME) são as responsáveis por realizar as coordenações, para escolher as escolas e os grupos que assistem às salas de aulas-museus.

“A partir das necessidades da DME avalia-se a qual escola interessa beneficiar — talvez por trabalhos de reparação — e que nós possamos apoiá-la. Por outro lado, o projeto serve de estímulo a determinado grupo, porque ficou demonstrado que influi positivamente nos indicadores do processo docente educativo, as crianças se desenvolvem e é importante que assistam ao projeto”, acrescenta Ailec Vega.

No presente ano letivo aproximadamente 165 alunos de escolas da Havana Velha fazem parte da iniciativa. Seu estágio nas salas de aulas-museus compreende o período do ano letivo, embora se possa prolongar para dois.

Durante o horário da manhã recebem as aulas do currículo escolar e na tarde há atividades desenhadas pelos especialistas do museu, como parte do programa de educação patrimonial.

O RECONHECIMENTO AO EMPENHO

O conhecimento adquirido, desde o surgimento das salas de aulas-museus até agora, não só serviu para validar o trabalho dos especialistas e instituições envolvidas, mas também para estender esta prática a outros territórios do país.


“A partir da experiência do projeto Salas de Aulas-Museus, que em seus inícios foi monitorado por especialistas da DME — assinala a chefa do Departamento de Pesquisa Sociocultural e Programas Educativos — decidiu-se estendê-lo a outras províncias e hoje existe em Santa Clara, Santiago de Cuba, Trinidad e noutros municípios de Havana”.

Na Havana Velha aproximadamente 12 mil estudantes participaram deste projeto. Isto permitiu que não poucas crianças da década de 1990 sejam atualmente pais dos alunos que hoje recebem aulas nas salas de aulas-museus.

Nos anos 2001 e 2002, respectivamente, o Projeto Salas de Aulas-Museus mereceu o reconhecimento outorgado no Terceiro Concurso Internacional Somos Patrimônio, do Convênio Andrés Bello e o prêmio internacional Pilar pela Paz, conferido pela Unesco. 


Fonte: Granma


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Cuba: “As medidas adotadas para atualizar a política migratória respondem ao momento histórico atual da Revolução”




Por Dalia González Delgado e Sergio Gómez Gallo


“AS medidas adotadas para atualizar a política migratória cubana respondem ao momento histórico atual da Revolução e têm em conta as transformações econômicas e sociais que vive o país”, afirmou o secretário do Conselho de Estado, Homero Acosta, durante um programa especial informativo, transmitido quarta-feira, 24 de outubro, pela televisão cubana.
Acosta precisou que é preciso entender, ainda, as regulamentações implementadas, numa dada altura, pela Revolução, em legitima defesa. “Hoje mudamos porque também a Pátria está mudando”, precisou.

“As medidas aprovadas foram adotadas por decisão soberana do Estado cubano, não respondem a pressões nem imposições de ninguém. Cuba não busca com elas uma certidão de boa conduta”, afirmou.

Acosta expressou que alguns meios de comunicação tentam manipular o tema, e não reconhecem que o movimento de cubanos para o exterior não começará em 14 de janeiro próximo, quando entre em vigência a nova lei migratória.

Segundo dados oficiais, entre o ano 2000 e 31 de agosto de 2012, dos cubanos que solicitaram, 99,4% deles recebeu permissão de saída. Somente 0,6% foi denegado, por razões fundadas. Nesse mesmo período, viajaram ao exterior, por assuntos particulares, 941,953 pessoas, das quais 120,275 (12,8%) não retornaram. Do total de viajantes, 156,068 eram graduados universitários, e deles 10,9 não retornou. “Estes números confirmam — disse — que a grande maioria dos cubanos que viaja ao exterior retorna ao país”.

Apesar disso, o governo dos EUA persiste em sua política de subversão contra Cuba, “financia a contrarrevolução interna e externa e mantém vigente a Lei de Ajuste Cubano, de 1966, que facilita de forma expedita a obtenção da permissão de residência aos cubanos que cheguem por qualquer via ao território norte-americano. Ainda, aplica a política de pés-secos, pés-molhados, alentando uma emigração ilegal e insegura, que provocou inúmeras mortes”, afirmou Acosta.

“Da mesma forma — acrescentou — Washington mantém um programa para subtrair nossos médicos, particularmente os que colaboram noutros países”.

Tudo isto “obriga a estabelecer determinadas regulamentações que limitem as consequências negativas que esta política tem para o país, particularmente as que contribuem a salvaguardar o capital humano formado pela Revolução”.

Respondendo uma pergunta dos jornalistas acerca das regulamentações para as viagens dos profissionais, a ministra da Justiça, María Esther Reus, explicou que esses mecanismos somente serão aplicados àquelas pessoas que realizam “atividades vitais”, que estariam identificadas pelos chefes dos organismos e as instituições.

“Isto não quer dizer que não possam viajar por assuntos particulares”, precisou. Somente, caso decidirem emigrar, se lhes impõe um limite de tempo prudente para a capacitação dum substituto para o cargo. No caso dos universitários, esse limite pode estender-se até cinco anos, e no caso dos técnicos até três anos.

Segundo explicou Reus, são os chefes das entidades os responsáveis por autorizar a saída desses cidadãos ao exterior. A ministra afirmou que se trabalha na criação dum mecanismo, por parte do Ministério do Trabalho e Previdência Social, para que os próprios sujeitos, alvo destas regulamentações, conheçam quais são seus direitos e deveres.

Homero Acosta esclareceu que com a normativa vigente, além da permissão de saída e a carta de convite, todos os profissionais tinham que pedir licença em seu local de trabalho. A partir de 14 de janeiro, somente “um número limitado de pessoas” terá que solicitar a autorização.

Insistiu em que não é que os profissionais sujeitos a essas regulamentações não possam viajar, senão que deverão cumprir um mecanismo diferente.
“Estas medidas, próprias de Cuba, respondem à legítima defesa do Estado revolucionário, ante a atitude subversiva dos Estados Unidos”, reiterou.

O secretário do Conselho de Estado anunciou, aliás, algumas medidas adicionais que não aparecem no decreto-lei.

Deste modo, se normaliza a entrada temporária no país daquelas pessoas que emigraram ilegalmente, depois dos acordos migratórios de 1994, caso terem decorrido mais de oito anos após a sua saída. Na mesma situação estarão os profissionais da saúde e esportistas de alto rendimento, que abandonaram o país depois de 1990, se já decorrerram mais de oito anos desse fato. Exceto aqueles que saíram através da Base Naval de Guantánamo, por razões de defesa e segurança nacional.

Igualmente, se ampliam as causas de repatriação, por exemplo, para os que saíram do país, menores de 16 anos, e também por outras razões humanitárias. Também, se regularizam as visitas dos que emigraram ilegalmente, menores de 16 anos, em cujo caso não têm que esperar os oito anos.

O secretário do Conselho de Estado explicou que, nos últimos anos, muitas pessoas que têm a condição de emigrados, solicitaram sua repatriação e foram recebidos. Na resolução do Ministério do Interior se explicam os procedimentos que devem seguir.

“Um dos objetivos essenciais da atualização da lei migratória — afirmou Homero — é favorecer as relações com a emigração cubana que, com o decurso do tempo, mudou de forma considerável, de uma eminentemente política, nos primeiros anos da Revolução, a outra motivada por razões econômicas”.

No ano 2011, viajaram a Cuba mais de 400 mil cubanos residentes no exterior, dos quais cerca de 300 mil residiam nos EUA. “Esses mesmos que nesse país chamam de refugiados e que, realmente, são cidadãos que residem nesse país, por uma ou outra razão, a maioria dos quais mantém uma posição favorável, em sentido geral, com seu país e com a Revolução, e se opõe, majoritariamente, às medidas de hostilidade que os EUA mantêm contra Cuba”, referiu.

Johana Tablada de La Torre, vice-diretora da América do Norte, do ministério das Relações Exteriores cubano, falou sobre a reação do governo dos EUA, diante as medidas adotadas pelo Estado cubano no tema migratório.

 O porta-voz para o Hemisfério ocidental, do Departamento de Estado, William Ostick, esclareceu que para viajar aos EUA os cubanos continuarão necessitando visto.
“Essa declaração — esclareceu Tablada — esquece que o decreto-lei favorece a emigração legal, torna mais baratos os custos e fortalece a opção do movimento legal dos cubanos”.
Entretanto, a porta-voz do Departamento de Estado, Victoria Nuland, afirmou no mesmo dia que Cuba publicou a lei, que não havia mudanças na “letra” das legislações norte-americanas, referindo-se à Lei de Ajuste Cubano.

Segundo Johana Tablada, essa atitude do governo de Washington é coerente com a política que mantém a respeito do tema migratório, logo após o triunfo da Revolução.

ESCLARECIMENTOS DE INTERESSE GERAL

O coronel Lamberto Fraga Hernández, segundo chefe do Departamento de Imigração e Assuntos Estrangeiros, do ministério do Interior (Minint), expôs que a partir de 14 de janeiro, além dos atuais escritórios de imigração e assuntos estrangeiros, serão habilitados os escritórios do documento de identidade para fazer os trâmites do passaporte. Somente será necessário apresentar o cartão de identidade, e no caso dos menores de idade, uma carta de consentimento dos pais.

Fraga lembrou que, para viajar, além do passaporte é necessário o visto do país aonde se pretende ir.

A respeito da saída dos jovens em idade do Serviço Militar, esclareceu que estes estão sujeitos à Lei de Defesa Nacional, e têm que cumprir as regulamentações que esta estabelece.
Por seu lado, a ministra de Justiça esclareceu que aquelas pessoas que tinham obtido seu passaporte antes da entrada em vigência da norma, poderão atualizá-lo depois de 14 de janeiro e não necessitam um passaporte novo.

Reus também explicou que o decreto-lei anula a lei 989 sobre a nacionalização por confiscação dos bens das pessoas que se ausentem definitivamente do país. A partir de agora, isto estará regulamentado nas leis específicas: por exemplo, as de habitação na Lei Geral da Habitação, e as pessoas antes de emigrar podem dispor de seus bens.

A funcionária explicou que, depois de concluir os 24 meses estabelecidos para que um cubano esteja no exterior, se pode solicitar uma extensão desse prazo por motivos fundamentados. Desta forma, se considera emigrado àquela pessoa que esteja mais de 24 meses sem autorização.

“Para a residência legal no exterior se ampliam os motivos, que podem ser por causas humanitárias e familiares, bem como por uma união matrimonial não só formalizada”, segundo afirmou Reus.

Na despedida de Sua Santidade Bento XVI, em 28 de março passado, o presidente cubano expressou: “Reconhecemos a contribuição patriótica da emigração cubana, desde a contribuição decisiva à nossa independência dos tabaqueiros de Tampa e Cayo Hueso e todos os que foram apoio dos anelos de José Martí, até os que hoje se opõem àqueles que atacam Cuba e manipulam o tema migratório com fins políticos. Temos realizado inúmeros esforços para a normalização plena das relações de Cuba com sua emigração, que sente amor por sua Pátria e por suas famílias e persistiremos nisso, pela decisão comum de nossa Nação”.


Fonte: Granma

terça-feira, 30 de outubro de 2012

O referendum islandês e os silêncios da mídia


Com cerca de 70% dos votos, referendo abre o texto básico de nova Constituição islandesa. Delegados escolhidos pelo voto direto da população, redigem texto desafiando as imposições financeiras, e sondam a estatização de todo seus recursos naturais.
Por Mauro Santayana, em seu blog
Os cidadãos da Islândia referendaram, ontem, com cerca de 70% dos votos, o texto básico de sua nova Constituição, redigido por 25 delegados, quase todos homens comuns, escolhidos pelo voto direto da população, incluindo a estatização de seus recursos naturais. A Islândia é um desses enigmas da História. Situada em uma área aquecida pela Corrente do Golfo, que serpenteia no Atlântico Norte, a ilha, de 103.000 qm2, só é ocupada em seu litoral. O interior, de montes elevados, com 200 vulcões em atividade, é inteiramente hostil – mas se trata de uma das mais antigas democracias do mundo, com seu parlamento (Althingi) funcionando há mais de mil anos. Mesmo sob a soberania da Noruega e da Dinamarca, até o fim do século 19, os islandeses sempre mantiveram confortável autonomia em seus assuntos internos.
Em 2003, sob a pressão neoliberal, a Islândia privatizou o seu sistema bancário, até então estatal. Como lhes conviesse, os grandes bancos norte-americanos e ingleses, que já operavam no mercado derivativo, na espiral das subprimes, transformaram Reykjavik em um grande centro financeiro internacional e uma das maiores vítimas do neoliberalismo. Com apenas 320.000 habitantes, a ilha se tornou um cômodo paraíso fiscal para os grandes bancos.
Instituições como o Lehman Brothers usavam o crédito internacional do país a fim de atrair investimentos europeus, sobretudo britânicos. Esse dinheiro era aplicado na ciranda financeira, comandada pelos bancos norte-americanos. A quebra do Lehman Brothers expôs a Islândia que assumiu, assim, dívida superior a dez vezes o seu produto interno bruto. O governo foi obrigado a reestatizar os seus três bancos, cujos executivos foram processados e alguns condenados à prisão.
A fim de fazer frente ao imenso débito, o governo decidiu que cada um dos islandeses – de todas as idades – pagaria 130 euros mensais durante 15 anos. O povo exigiu um referendum e, com 93% dos votos, decidiu não pagar dívida que era responsabilidade do sistema financeiro internacional, a partir de Wall Street e da City de Londres.
A dívida externa do país, construída pela irresponsabilidade dos bancos associados às maiores instituições financeiras mundiais, levou a nação à insolvência e os islandeses ao desespero. A crise se tornou política, com a decisão de seu povo de mudar tudo. Uma assembléia popular, reunida espontaneamente, decidiu eleger corpo constituinte de 25 cidadãos, que não tivessem qualquer atividade partidária, a fim de redigir a Carta Constitucional do país. Para candidatar-se ao corpo legislativo bastava a indicação de 30 pessoas. Houve 500 candidatos. Os escolhidos ouviram a população adulta, que se manifestou via internet, com sugestões para o texto. O governo encampou a iniciativa e oficializou a comissão, ao submeter o documento ao referendum realizado ontem.
Ao ser aprovado ontem (21/10), por mais de dois terços da população, o texto constitucional deverá ser ratificado pelo Parlamento.
Embora a Islândia seja uma nação pequena, distante da Europa e da América, e com a economia dependente dos mercados externos (exporta peixes, principalmente o bacalhau), seu exemplo pode servir aos outros povos, sufocados pela irracionalidade da ditadura financeira.
Durante estes poucos anos, nos quais os islandeses resistiram contra o acosso dos grandes bancos internacionais, os meios de comunicação internacional fizeram conveniente silêncio sobre o que vem ocorrendo em Reykjavik. É eloqüente sinal de que os islandeses podem estar abrindo caminho a uma pacífica revolução mundial dos povos.
Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.

domingo, 28 de outubro de 2012

“Chama o Pepe Mujica!”


Dá vontade de invocar o presidente do Uruguai, com seu estilo informal e suas reformas ousadas, cada vez que nos deparamos com mais um sinal de conservadorismo do Congresso brasileiro
Por Leonardo Sakamoto, em seu blog
O Senado do Uruguai aprovou, nesta quarta (17), lei que autoriza a interrupção da gravidez até a 12ª semana para qualquer mulher, com exceção das vítimas de estupro – que terão duas semanas a mais para fazer a opção. O texto, que havia sido aprovado na Câmara dos Deputados, segue agora para a certa sanção presidencial de Pepe Mujica. A lei prevê que as interessadas em fazer o aborto recebam orientação sobre as consequências da interrupção da gravidez e as opções disponíveis e tenham um tempo de reflexão – tal como ocorre em alguns países onde o direito ao aborto é garantido. Por fim, a decisão final caberá apenas à mulher – como as coisas deveriam ser.
A oposição do país de 3,5 milhões de pessoas quer um plebiscito sobre o tema, correndo o risco de uma vexatória derrota, uma vez que a mídia apontou que a maioria da população é favorável à lei.
Ex-preso político na luta contra a ditadura uruguaia (1973-1985), Mujica  – que renegou o palácio presidencial e continuou morando em sua chácara na periferia de Montevidéu, usa um Fusca 1987, doa a maior parte de seu salário (ficando com menos de R$ 3 mil), tem ojeriza a gravatas e manteve um estilo sem (rufem os tambores) ostentação – caminha para aprovar outros dois projetos importantes.
O primeiro, que legaliza o casamento homoafetivo (a união civil já é reconhecida), deve ser aprovado até o final do ano. O outro prevê a legalização da maconha, com consumo controlado pelo Estado, que também seria responsável por sua produção e distribuição.
O que mostra, mais uma vez, que podemos até ganhar a discussão sobre quem tem um futebol mais bonito e eficiente mas, em termos de civilidade, o Brasil tem a aprender com o irmão do Sul.
Não há força suficiente entre os representantes políticos mais progressistas no Congresso Nacional brasileiro para ampliar a efetividade dos direitos humanos. Da mesma forma, as bancadas religiosas não conseguem juntar número o suficiente para um movimento contrário, ou seja, o de cancelar direitos já existentes. Sobra, então, para o Supremo Tribunal Federal.
Pesquisas com células-tronco embrionárias, união civil homoafetiva, direito a reivindicar a descriminalização das drogas, punir a violência contra a mulher mesmo sem a denúncia por parte desta foram decisões do Supremo que garantiram mais direitos. Não perguntei para o crucifixo que está à espreita no plenário do STF se todas essas decisões tomadas pelos ministros da corte demonstram um padrão. Mas há esperança que sim. No que pese a sabatina de Teori Zavascki, novo indicado para ministro do STF, ter demonstrado que ele seguirá pela via conservadora do ex-ocupante da vaga, Cezar Peluso.
Tenho inveja do país que consegue avançar através da decisão clara de seus representantes políticos em defesa da dignidade humana, como foi com o Uruguai.
Como já disse aqui, apesar da influência de grupos religiosos contrários à mudança, mais cedo ou mais tarde, leis serão alteradas no Brasil também, garantindo dignidade, combatendo o preconceito, ampliando as liberdades. Afinal de contas, meia dúzia de autodeclarados representantes da Verdade (se é que a Verdade existe…) não podem decidir se o restante da população terá ou não dignidade. O problema é que essa marcha está sendo bem lenta quando, em verdade, deveria correr rápida para dar tempo às pessoas que hoje vivem de desfrutarem uma nova realidade.
Ao defender o direito ao aborto (que é diferente da defesa do aborto em si, pois não há pessoa em sã consciência que ache a interrupção da gravidez uma coisa divertida de ser feita), o Estado uruguaio preocupa-se com as mortes e danos permanentes à saúde das mulheres pobres que realizam abortos ilegais. E abre caminho para a efetivação do direito da mulher ao seu próprio corpo. Que é dela, não do feto.
É extremamente salutar que todos os credos tenham liberdade de expressão e possam defender este ou aquele ponto de vista para os seus fiéis. Mas o Estado brasileiro, laico (sic), não pode se basear em argumentos religiosos para tomar decisões de saúde pública ou deixar de ampliar direitos.
A justificativa de que o embrião tem os mesmos direitos de uma cidadã nascida é, no mínimo, patética. Da mesma forma, dá vontade de fazer cafuné em quem defende que os heterossexuais sejam cidadãos de primeira classe em detrimento aos demais. Acho que só com muito carinho é  possível fazer um intolerante entender que não pode defender que suas crenças, físicas ou metafísicas, se sobreponham à dignidade dos outros.
Consciência não se aprende na escola, nem é reserva moral passada de pai para filho nas famílias. Mas sim na vivência comum na sociedade, na tentativa do conhecimento do outro, na busca por tolerar as diferenças. O Congresso Nacional daqui, que hoje está sentado em cima de propostas de mudança, é fruto do tecido social em que está inserido. Ou seja, eles somos nós. Para mudá-los, precisamos, mudar o lado de cá.
Começando por enterrar a idiotice de chamar um material contra a homofobia, seja ele produzido pela gestão federal do PT ou estadual do PSDB, de “Kit Gay”. Para isso, sugiro uma opção que poderia ser feita com a contribuição dos colegas jornalistas que cobrem campanhas eleitorais. Sim, eles mesmos, que são xingados, vilipendiados, ultrajados, vítimas de ironia e, apesar disso, respiram fundo e sorriem, tomando um chope claro ou escuro ao final do expediente.
Que tal lançarmos um “Kit Bom Senso” para ser distribuído nos comitês de candidatos que pregam a intolerância antes do início da campanha eleitoral? Explicaríamos, com o kit, que não é pregando a violência contra o semelhante que conseguiremos fortalecer a cidadania no Brasil. Pelo contrário, isso é exatamente o oposto que se espera de um gestor público. Se sobrarem unidades, sugiro que sigam também para o Congresso Nacional, para algumas denominações religiosas e, por que não, para o próprio governo federal que, diante de chiadeiras infantis de pseudo-lideranças, voltou atrás e não distribuiu o material contra a homofobia que havia produzido.
E se, mesmo assim, o pessoal continuar com essa esbórnia, chama o Mujica.