terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Venezuela: um filho das elites prega abertamente o golpe

Ligado à oligarquia e petroleira, criticado até mesmo pela oposição
 conservadora, Leopoldo Lopez quer depor a qualquer custo governo eleito democraticamente …


Por Rodrigo Vianna, em seu blog
O perfil é o de um típico mauricinho do Leblon. Ou dos Jardins. Um coxinha – como se costuma dizer agora. Só que um coxinha perigoso. Leopoldo Lopez é criticado até por setores da oposição – por ter decidido sozinho chamar os jovens às ruas pra derrubar o governo eleito da Venezuela. Hemrique Capriles, o outro líder da oposição, quer usar as ferramentas legais para derrotar o chavismo. Lopez quer o golpe.
Ele teve prisão decretada. Os EUA pressionam para que não seja detido. Por que? Lopez é apontado como homem de confiança, na Venezuela, do ex-presidente colombiano Alvaro Uribe – de extrema-direita.
Quando se diz que a elite venezuelana não aceita o que Chavez fez, tirando a estatal petroleira (PDVSA) das mãos de famílias que usavam a estatal como propriedade privada, a definição cai como uma luva para Leopoldo Lopez“Ex-prefeito do munícipio de Chacao (2000-2008), López, de 43 anos, vem de uma das famílias da elite venezuelana, ligada ao setor industrial e petroleiro.”
A definição acima está em reportagem produzida não por algum jornal chavista, mas pela site da inglesa BBC. Confira a seguir
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por Claudia Jardim, na BBC Brasil
Popular, carismático, imprevisível, arrogante e sedento de poder. Essas são algumas das características que analistas e líderes políticos costumam usar para definir Leopoldo López, o mais novo inimigo público do governo venezuelano de Nicolás Maduro.
Referência da ala radical da oposição venezuelana, López está sendo procurado pela Justiça venezuelana. A polícia chegou a fazer buscas em sua casa neste domingo, mas ele não estava lá.
O opositor não é visto em público desde quarta-feira, quando milhares de estudantes sairam às ruas, liderados por ele, para exigir uma mudança de governo.
No entanto, ele divulgou um vídeo neste domingo, dizendo ser inocente e desafiando as autoridades a prendê-lo durante uma marcha que ele convocou para a terça-feira.
“Não tenho nada que temer, não cometi nenhum delito, sou um venezuelano comprometido com nosso país, como nosso povo. Se há alguma decisão legal de me prender, estarei pronto para assumir essa perseguição e essa decisão infame por parte do estado”, disse.
Ele é acusado de ser o autor intelectual da onda de protestos violentos que tomou a capital do país nos últimos dias. As marchas se tornaram mais violentas na quarta-feira, quando três homens foram mortos durante um protesto contra o governo. Maduro acusa López de incitar a violência, enquanto a oposição afirma que os homens foram assassinados por milícias pró-governo.
“López ordenou que todos esses jovens violentos, treinados por ele, destruíssem metade de Caracas e então resolveu se esconder”, disse o presidente. “Se entregue, seu covarde!”
‘Golpe’
López se converteu na mais nova dor de cabeça do ex-candidato presidencial e governador Henrique Capriles – líder do setor moderado da coalizão opositora – desde que decidiu colocar em prática o plano chamado “A saída”. Apoiado pelo movimento estudantil, o plano consiste em intensificar a onda de protestos no país até levar o presidente à renúncia.
“Ainda acreditam que devemos esperar até 2019 (fim do mandato de Maduro) para sair deste regime?”, questionou López, em seu perfil no Twitter, ao convocar os protestos.
Essa declaração foi interpretada pelo governo como um chamado a um golpe de Estado.
A escalada de violência que tem marcado o tom dos protestos nos últimos dias preocupa aos “moderados” da oposição. Um dos membros da Mesa de Unidade Democrática (MUD) afirmou à BBC Brasil que o setor moderado da oposição tentou dissuadir López de sua “aventura” com os estudantes.
Conservador, vinculado aos partidos de direita da região, López é visto como um “maverick” – jargão político para definir quem desobedece as linhas do partido – na avaliação do analista político Carlos Romero, professor da Universidade Central da Venezuela. “López tem um estilo muito personalista, pouco institucional. Ele está sempre em permanente busca de protagonismo”, afirmou Romero.
A seu ver, a polêmica decisão de levar a população às ruas para promover uma mudança de governo é uma manobra que tem como objetivo “ambições pessoais”, mas que pode levar à crise toda a coalizão opositora. “Leopoldo é um dirigente que neste momento está promovendo danos importantes à oposição democrática”, afirmou.
Sua habilidade em promover rupturas entre aliados políticos também foi destacada com preocupação por um conselheiro político da embaixada dos Estados Unidos em Caracas. Em documento desclassificado de 2009 vazado pelo Wikileaks, Robin D. Meyer, qualificou a López como uma “figura divisora da oposição, arrogante, vingativo e sedento de poder”, diz o documento que tinha como enunciado “O problema Leopoldo”.
A historiadora Margarita López Maya caracteriza a López como um político “audaz, ambicioso e carismático”. Em sua opinião, ele é capaz de capitalizar os anseios da juventude que não vê saídas, se não o protesto, como mecanismo de pressão para debilitar o chavismo.
“Levá-lo prisão seria convertê-lo em um mártir e ele seria catapultalo a uma candidatura presidencial”, avaliou a historiadora.
Entre os jovens que estão protestando nas ruas, López é visto como um ícone da rebelião anti-chavista e um potencial presidenciável. “Se ele for preso, o movimento estudantil irá às ruas defender sua liberdade. Compartilhamos com ele a visão de que é preciso mudar esse governo. Vamos continuar nas ruas até a renúncia do presidente”, afirmou à BBC Brasil o dirigente estudantil Daniel Alvarez.
Carreira
Ex-prefeito do município de Chacao (2000-2008), López, de 43 anos, vem de uma das familias da elite venezuelana, ligada ao setor industrial e petroleiro.
Como prefeito, participou ativamente dos protestos que culminaram no golpe de Estado que derrocou brevemente o governo Chávez. Desde então, não pode se desvincular do rotulo de “golpista”, atribuido pelo governo e seus seguidores.
Em 2008, uma acusação de mau uso de recursos públicos, como prefeito de Chacao, fez com que o político fosse inabilitado politicamente pela justiça da Venezuela. Essa decisão do tribunal, impediu que lider opositor se projetasse como potencial candidato presidencial.
Formado em Harvard, sua carreira politica começou no partido Primeira Justiça, o mesmo de Capriles. Um racha interno o levou a abandonar o grupo. Ele então se filiou ao partido conservador Um Novo Tempo, onde permaneceu pouco tempo, até fundar seu atual partido Voluntad Popular.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Virando o Mito da Corrupção de Cabeça Para Baixo

mapa-transparencia-internacional

Por Jason Hickel

A Transparência Global publicou recentemente seu último Índice de Percepção da Corrupção (IPC), apresentado num atraente mapa mundial no qual as nações menos corruptas são alegremente marcadas em amarelo e as mais corruptas numa mancha vermelha estigmatizante. O IPC define corrupção como “o mal uso do poder público para benefício privado”, e baseia suas informações em 12 instituições diferentes, incluindo o Banco Mundial, a Freedom House e o Fórum Econômico Mundial.
Quando vi o mapa pela primeira vez fiquei chocado com o fato de a maioria das áreas em amarelo ser de países ocidentais ricos, incluindo os EUA e a Inglaterra, enquanto que o vermelho cobre quase todo o Sul global, com países como Sudão, Afeganistão e Somália marcados em tons ainda mais escuros.
Esta divisão geográfica encaixa-se perfeitamente com as opiniões dominantes, que vêem a corrupção como a praga do mundo em desenvolvimento (por exemplo, as imagens clichês de ditadores na África e subornos na Índia). Mas esta narrativa estaria correta?
Muitas organizações internacionais de desenvolvimento afirmam que a persistência da pobreza no Sul global é em grande parte causada pela corrupção entre funcionários públicos. Em 2003, este debate deu origem à criação de uma Convenção na ONU que afirmava que, apesar da corrupção existir em todos os países, este “fenômeno do mal” é mais destrutivo no Sul global, onde seria um “elemento chave da má performance da economia e um enorme obstáculo à melhoria da pobreza e ao desenvolvimento”.
Só há um problema com esta teoria: ela simplesmente não é verdade.
Corrupção, Estilo, Superpoder
Segundo o Banco Mundial, a corrupção na forma de suborno e roubo por membros do governo, que é o alvo principal da Convenção da ONU, custa entre 20 e 40 bilhões de dólares por ano aos países em desenvolvimento. É bastante dinheiro. Mas é uma porção extremamente pequena – apenas 3% – do total de fluxos ilícitos que vazam dos cofres públicos. Sonegação de impostos, por outro lado, soma mais de 900 bilhões por ano, dinheiro que corporações multinacionais roubam de países emergentes através de práticas como a avaliação incorreta de preços [trade mispricing].
Este enorme fluxo de saída de riqueza é facilitado por um obscuro sistema financeiro que inclui paraísos fiscais, empresas fantasmas, contas anônimas e fundações falsas, com a Cidade de Londres no coração disso tudo. Mais de 30% do investimento global estrangeiro é agenciado através de paraísos fiscais, que escondem atualmente 1/6 do total da riqueza privada mundial.
Esta é uma causa gigantesca – fundamental, na verdade – da pobreza no mundo em desenvolvimento, e no entanto não consta na definição usual de corrupção. Está ausente da Convenção da ONU, e raramente aparece na agenda de organizações de desenvolvimento internacional, se é que alguma vez apareceu.
Com a Cidade de Londres no centro de uma rede global de paraísos fiscais, como a Inglaterra pode ser vista como limpa pelo IPC?
O fato de que Londres seja imune a muitas das leis democráticas da Inglaterra, e livre da vigilância do Parlamento, torna a questão ainda mais problemática. Como resultado deste status especial, Londres manteve diversas tradições antiquadas e plutocráticas. Considere o seu processo eleitoral, por exemplo: mais de 70% dos votos para as eleições nos Conselhos não são de moradores, mas de empresas – bancos e empresas financeiras em sua maioria. Quanto maior a corporação, mais votos ela possui, com as maiores chegando a ter 79 votos cada. Isto eleva a “personalidade corporativa” tipo norte-americana [US-style corporate personhood] a um outro patamar.
Sejamos honestos: este tipo de corrupção não é totalmente fora de lugar num país em que a família real é dona de 120 mil hectares de terra e consome cerca de 40 milhões de libras dos fundos públicos a cada ano. E há também o Parlamento, no qual a Casa dos Lordes é preenchida não por eleição, mas por indicação, com 92 assentos herdados por famílias aristocratas, 26 reservados para os maiores líderes religiosos do país, e dúzias de outros à venda para multi-milionários.
Nos EUA, a corrupção é só um pouquinho menos evidente. Embora os assentos do Congresso ainda não estejam disponíveis para compra, a decisão Cidadãos Unidos vs FEC permite às corporações gastar quantidades ilimitadas de dinheiro em campanhas para certificarem-se de que seus candidatos serão eleitos, uma prática justificada sob o manto Orwelliano da “liberdade de expressão”.
O Fator Pobreza
A Convenção da ONU tem razão em dizer que a pobreza em países em desenvolvimento é causada pela corrupção. Mas a corrupção com a qual nós deveríamos estar mais preocupados tem suas raízes nos países marcados em amarelo no mapa do IPC, não em vermelho.
Os paraísos fiscais não são o único culpado. Sabemos que a crise financeira de 2008 foi causada pela corrupção sistêmica de funcionários do governo dos Estados Unidos intimamente ligados aos interesses de Wall Street. Além da transferência de trilhões de dólares dos cofres públicos para bolsos privados através dos socorros aos bancos [bailouts], a crise varreu um naco enorme da economia global. Teve um efeito devastador nos países emergentes, secando as demandas por exportações, causando ondas massivas de desemprego.
Uma história similar pode ser contada sobre o escândalo Libor na Inglaterra, quando grandes bancos londrinos conspiraram para fraudar as taxas de juro de modo a tragar, muito além do litoral britânico, cerca de 100 bilhões de libras. Como poderia qualquer um destes escândalos não ser definido como “o mal uso do poder público para benefício privado”? Subornos e desvios de verba no mundo em desenvolvimento parecem provincianos quando comparados ao alcance global deste tipo de corrupção.
Mas esta é somente a ponta do iceberg. Se nós realmente quisermos entender como a corrupção impacta a pobreza em países emergentes, precisamos começar observando as instituições que controlam a economia global, como o FMI, o Banco Mundial e a OMC.
Durante as décadas de 1980 e 1990, as políticas que estas instituições impuseram ao Sul global, na esteira do Consenso de Washington, causaram uma queda de quase 50% no crescimento da renda per capita. O economista Robert Pollin estimou que, durante este período, países emergentes perderam cerca de 480 bilhões de dólares por ano em PIB. Seria difícil exagerar a devastação humana que estes números representam. No entanto, corporações ocidentais se beneficiaram enormemente deste processo, ganhando acesso a novos mercados, mão-de-obra barata e matérias-primas, e novas aberturas para a circulação de capital.
Estas instituições disfarçam-se como mecanismos de governança pública, mas são profundamente anti-democráticas; por isso conseguem safar-se mesmo que suas políticas violem o interesse público de forma tão direta. O poder de voto no FMI e no Banco Mundial são distribuídos de modo que, juntos, os países emergentes – a vasta maioria da população mundial – possuem menos de 50% dos votos, enquanto o Tesouro dos EUA tem poder de veto. Os líderes destas instituições não são eleitos, mas escolhidos pela Europa e os EUA, e entre eles há muitos oficiais militares e executivos de Wall Street.
Invertendo a Culpa
Se estes padrões de governança fossem adotados em qualquer nação do Sul global, o Ocidente logo gritaria “corrupção!”. Mas esta corrupção é normalizada nos centros de comando da economia mundial, perpetuando a pobreza nos países em desenvolvimento, enquanto a Transparência Internacional desvia a nossa atenção.
Mesmo se decidirmos nos concentrar na corrupção localizada em países emergentes, temos que reconhecer que ela não existe num vácuo geopolítico. Muitos dos ditadores mais famosos da história – como Augusto Pinochet, Mobutu Sese Seko, e Hosni Mubarak – foram sustentados pelo constante fluxo de ajuda do Ocidente. Hoje, não são poucos os regimes entre os mais corruptos do mundo que foram instalados ou apoiados pelos EUA, entre eles o Afeganistão, o Sudão do Sul, e os guerreiros da Somália – três dos lugares mais escuros no mapa do IPC.
Isto levanta uma questão interessante: o que é mais corrupto, a ditadura miúda ou o superpoder que a instala? Infelizmente, a Convenção da ONU ignora, de forma conveniente, estas dinâmicas, e o mapa do IPC nos leva a acreditar incorretamente que a corrupção de cada país está restrita às suas fronteiras nacionais.
A corrupção é com certeza uma das maiores causas da pobreza. Mas se quisermos levar este problema a sério, o mapa do IPC não nos ajuda muito. A maior causa da pobreza em países emergentes não é o suborno e a roubalheira localizada, mas a corrupção que é endêmica ao sistema de governança global, a rede de paraísos fiscais, e os setores bancários de Nova York e Londres. É hora de virar o mito da corrupção de cabeça para baixo e começar a demandar transparência onde ela é realmente necessária.

N.E.  Tradução por Antonio Engelke. Original em inglês http://www.aljazeera.com/indepth/opinion/2014/01/flipping-corruption-myth-201412094213280135.html

link para o “mapa da corrupção”: http://cpi.transparency.org/cpi2013/results/

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Resumo da história sobre a morte do cinegrafista na manifestação



Por Samuel Braun

Os 10 passos de uma história que não deve nada ao carro explodido pela ditadura no RioCentro.

1 - Fabio se entrega voluntariamente à polícia, acompanhado de um advogado particular.

1.A - Nenhum manifestante (ou PM) se entregou até hoje, em nenhuma manifestação.

1.B - Fabio não estava foragido, nem procurado, ele resolveu se apresentar 'voluntariamente'.

2 - Seu advogado é o mesmo que fez a defesa de ex-vereador miliciano preso em penitenciaria federal.

2.A - O miliciano preso é irmão de outro miliciano preso, Jerominho, do mesmo partido (PMDB) do governador e do prefeito, alvos dos protestos.

2.B - Quando defendia o miliciano, responsável pela morte de diversas pessoas em chacinas, este advogado não entregou seu cliente em nenhuma delegacia.

3 - Advogado denuncia, através de seu assistente, o deputado Freixo como ligado aos atos criminosos em apuração.

3.A - Após fazer questão de comunicar esta versão ao delegado e registrá-la, voltou atrás. Não antes de toda mídia dar ampla divulgação.

3.B - Freixo concorreu contra Eduardo Paes e se constituiu como único candidato forte de oposição ao atual governo.

4 - Fabio alega que apenas entregou o artefato, que outra pessoa o detonou, mas não sabe quem foi.

4.A - Fabio repentinamente conhece alguém, que conhece alguém que sabe nome, apelido e CPF deste que teria acendido o artefato.

4.B - O tal denunciante não é revelado, e o advogado é que assume a responsabilidade pela denúncia.

5 - O advogado Jonas denuncia à polícia quem teria sido o detonador do artefato. A estratégia da defesa de Fabio é responsabilizar Caio, negro de cabelo curto e duro.

5.A - As imagens apontam um rapaz claro, cabelos lisos e volumosos.

5.B - Polícia vai a caça de Caio na casa de sua família. Jonas, o advogado denunciante vai junto.

6 - Partem num avião um delegado do Rio, o advogado denunciante e a imprensa para prenderem Caio na Bahia, após sua família ser pressionada a entregá-lo.

6.A - Caio é preso pelo delegado e pelo advogado denunciante. Um trunfo para a defesa de Fabio.

6.B - Inexplicavelmente, o advogado de Fabio, denunciante e auxiliar na captura, vira defensor TAMBÉM de Caio.


7 - Jonas, que não entregou Natalino, mas entregou Fabio, acusou e prendeu Caio agora defende Caio contra Fabio e Fabio contra Caio.

7.A - a polícia aceita que um advogado da parte ré participe de uma operação policial.

7.B - Autoridade policial aceita, sem estranhamento, que advogado de um réu que denunciou outro e auxiliou na prisão deste siga como defensor deste.

8 - Jonas, o advogado que faz prisões, e a Globo, que teve permissão pra cobrir com exclusividade a operação (porque, porque?) dizem que Caio afirmou que "políticos aliciam para manifestações".

8.A - Caio não assinou nenhuma declaração nesse sentido. Um vídeo mostra que ele disse claramente que pessoas são convocadas (não aliciadas) e que é papel da polícia investigar quem convoca (portanto, não acusou ninguém, muito menos políticos).

9- Senadores do PT, PRB e PP (aliança dos governos municipal e estadual, foco dos protestos) apresenta projeto que tipifica manifestação e greve como terrorismo. Outro senador do mesmo partido sobe na tribuna exigindo urgência na aprovação.

9.A - Secretário de Segurança do Rio apresenta projeto para Congresso (!!!) para tipificar também crime de desordem e incitação a desordem pública.

9.B - Imprensa, liderada pela Globo, exige maior repressão policial e jurídica ao que chama de atentado à liberdade de imprensa.


10 - Instituições democráticas, partidos de esquerda, militantes e personalidades ligada aos governos apoiam a cruzada acima.

10.A - Em se aprovando os projetos, todas as atividades dos sindicatos, entidades estudantis e movimentos sociais serão considerados terrorismo e desordem pública.

10.B - Santiago foi a 10ª pessoa morta em decorrência das manifestações, a primeira por conta de manifestantes. Das outras 9, nem o nome se sabe direito.


Fonte: Página do Facebook

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A imprensa esqueceu das outras 11 vítimas fatais nas manifestações?


Por Mauro Donato
O misto de comoção e estardalhaço com que a morte do cinegrafista Santiago Andrade está sendo tratada na mídia é ao mesmo tempo compreensível e incômodo.
Compreensível, pois a morte do cinegrafista é brutal sob todos os ângulos e dispensa mais comentários. Todos já foram feitos.
Incômodo, pois penso que deveria partir da mídia o equilíbrio e o bom senso nesse momento de tensão.
A trinca imprensa-manifestantes-polícia que coabita as ruas desde junho não fala a mesma língua e o clima esquentou de vez.
Um vídeo gravado em frente à delegacia durante o depoimento de Fabio Raposo — o tatuador que estaria envolvido no caso –, em que um manifestante ameaça outro cinegrafista de ser “o próximo” para imediatamente receber a câmera na cabeça, demostra qual o quadro atual.
Escorraçada das ruas durante os protestos, a “grande mídia”, acusada de mentir e manipular, ansiava pela hora do troco. E o fator que proporciona essa catarse foi nada menos que uma morte. Ou seja, nitroglicerina pura.
No entanto, a cobertura da morte de Santiago esqueceu as demais vítimas. Manchetes em letras gigantes anunciando “o primeiro morto por manifestantes” confirmam isso. É o primeiro vitimado por manifestantes, mas o décimo segundo caso de mortes relacionadas com as manifestações. As outras onze não contavam?
Foram vítimas de causas que vão desde inalação excessiva de gás lacrimogêneo a atropelamentos e ainda uma suspeita de assassinato da ativista carioca Gleisi Nana.
Hoje os números de agressões a jornalistas estão nos telejornais sendo que em outubro do ano passado este DCM já denunciava a preocupante escalada. Jornalistas free-lancers e “mídia independente” não são dignos de atenção? As matérias apresentadas em horário nobre na Band e Globo buscaram associar as agressões a manifestantes, distorcendo a estatística que aponta 78% dos ataques vieram da polícia (os números variam entre 117 e 126 casos, conforme a fonte).
Reforço para não ser mal interpretado: o que ocorreu com Santiago é gravíssimo. É o limite. Por isso mesmo que todos devem colocar as mãos na cabeça, refletir e não mais repetir os mesmos erros.
É preciso conter sensacionalismo se não quisermos acelerar medidas tão perigosas e carentes de debate como o projeto de lei que tipifica o crime de terrorismo (PL 499/2013). Por vingança rancorosa (e também para permanecer com seu alinhamento filosófico-político cheio de segundas intenções), a mídia tradicional precisa estancar sua verborragia que condena e criminaliza as manifestações. Criminosos são criminosos, manifestantes não o são.
A coisa chegou a esse estágio atual muito em consequência da narrativa desequilibrada da imprensa e é ela quem tem obrigação de reverte-lo. A decretação de morte cerebral não pode caber à imprensa como um todo.
Lista das vítimas fatais:
Cleonice Vieira Moraes, Marcos Delefrate, Valdinete Rodrigues Pereira, Maria Aparecida, Douglas Henrique de Oliveira, Santiago Andrade, Luiz Felipe Aniceto de Almeida, Igor Oliveira da Silva, Paulo Patrick, Fernando da Silva Cândido, Tasman Amaral Accioly e Gleisi Nana.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Lei “contra o terrorismo”: por que é possível evitar

Ceará, junho de 2013. Aposentado encara tropa de choque durante protestos.
Mobilizações seriam “atos de terror”?

Cresce consciência de que projeto é desnecessário — e pode restringir liberdades e mobilizações sociais. Debate será retomado no Senado semana que vem

Por Antonio Martins
A enorme pressão dos setores mais conservadores da sociedade para a aprovação de uma “lei antiterror” (leia texto rancoroso do jornalista Reynaldo Azevedo) encontrou ontem um obstáculo. Repercutiram no Senado, onde tramita a proposta relativa ao tema (PLS 449 / 2013), as críticas que, originárias de juristas preocupados em garantir a liberdade de manifestação, foram difundidas pelas redes sociais. A votação, que estava prevista para ontem, foi adiada para a próxima semana. Ficaram mais claras as diversas posições existentes no Congresso.
Os senadores mais claramente favoráveis à votação da nova lei são Aloysio Nunes (PSDB-SP) e Romero Jucá (PMDB-RR). Eles ecoam uma tese apelativa formulada por Reynaldo Azevedo, para quem o país precisa da nova norma, “ou a Copa do Mundo corre o risco de se encontrar com o caos”. Já os dois senadores do PT — Paulo Paim (RS) e Jorge Viana (AC) –, que atraíram os holofotes da mídia na véspera, ao defenderem votação imediata do projeto, recuaram parcialmente. Continuam defendendo a suposta importância da lei, mas afirmam que ela precisa garantir de forma explícita, em seu texto, que não haverá restrições à liberdade da manifestação. Viana chegou a declarar, ontem, que “se houver este risco, é melhor não ter lei”. Uma posição ainda mais clara, contra o projeto, foi manifestada pelos líderes do PT, Humberto Costa, e PSOL, Randolfe Rodrigues. O petista postou, em seu twitter: “Acabo de sair da reunião de líderes. No PT, cremos que esse projeto contra terrorismo é muito amplo e pode criminalizar movimentos sociais”. Randolfe foi ainda diretíssimo.  ”Eu não sei o que pode vir de uma lei que quer, claramente, tipificar movimento sociais como terroristas”, disse este último.
Sua posição coincide com o que pensam advogados que atuam com os movimentos sociais. Juliana Brito, que assessora os Comitês Populares contra a Copa, é uma delas. Ela lembrou que já há na legislação atual, dispositivos que permitem punir os autores de crimes previstos no PL 449 — como homicídio, destruição de patrimônio, emprego de explosivo e muitos outros. Mas advertiu: o projeto de “lei antiterror” está redigido de forma especialmente genérica e vaga, de modo a permitir amplo enquadramento — inclusive de manifestantes. Por exemplo: segundo o texto, “terrorismo”, punível com penas de 15 a 30 anos de prisão, é “provocar ou infundir terror ou pânico generalizado mediante ofensa ou tentativa de ofensa à vida, à integridade física ou à saúde ou à privação da liberdade da pessoa”. Juliana questiona: “É muito abstrato. Podemos compreender então que uma matéria [jornalística] distorcendo a realidade pode espalhar o terror ou o pânico, e aí a empresa responsável também seria enquadrada?”
Apoiando-se nos mesmos argumentos de Juliana, o jurista Pedro Abramovay escreveu ontem uma carta ao senador Jorge Viana (PT-AC), de quem se diz “um grande admirador”. Abramovay analisa o tema a partir do cenário internacional e das inúmeras legislações “antiterror” adotadas após o 11 de setembro. Ele lembra: “O mundo viveu uma onda de legislação antiterrorista após os atentados de 11 de setembro. Penas altíssimas. Países que não tinham nenhum problema com terrorismo passaram a aprovar legislações duras, flexibilizando direitos, criando noções bastante amplas do que vem a ser terrorismo. O resultado foi trágico. De Guantánamo aos centros de tortura espalhados pelo mundo. De grampos generalizados a perseguições a adversários políticos. A justificativa da luta contra o terrorismo deixou o mundo hoje um lugar menos livre. Os valores democráticos estão mais frágeis. E o mundo não está necessariamente mais seguro.”
O adiamento da votação no Senado, e as hesitações dos parlamentares que se mostraram mais afoitos em defender a nova lei são um ótimo sinal. Parece claro que há uma brecha para evitar o retrocesso. Dependerá, é provável, de repercutir mais amplamente argumentos como os de Juliana Brito e Pedro Abramovay — e de produzir mobilização em torno deles.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

A cultura do medo e da violência



Como bem definiu o pensador venezuelano Ludovico Silva, a televisão é o espaço privilegiado do sistema para aprisionar as pessoas na mais-valia ideológica


por Elaine Tavares



A mídia comercial, principalmente a televisão aberta, é, sim, uma tremenda usina ideológica. Num país onde a oralidade ainda é o mais eficaz meio de comunicação - em função dos analfabetos funcionais serem milhões - é justamente esse veículo que acaba sendo o meio mais importante de informação da maioria das pessoas. No mais das vezes, se apareceu na TV, o fato assume status de verdade. Se a pessoa não vê na TV, a coisa parece que não aconteceu, daí as estratégias "espetaculares" dos movimentos sociais para poderem aparecer na telinha. Não é sem razão. A Globo já foi mais poderosa no que diz respeito à audiência, mas, mesmo hoje, dividindo espaço com outros canais, como a Record, Band e SBT, segue ditando o modelo de jornalismo e de informação. No geral, todas as emissoras divulgam os fatos com a mesma abordagem, o que, sistematicamente, só fortalece o sistema atual vigente no mundo: o capitalismo - reino do consumo, do egoísmo, do individualismo, no qual o outro é o inimigo a ser eliminado.

Como bem definiu o pensador venezuelano Ludovico Silva, a televisão é o espaço privilegiado do sistema para aprisionar as pessoas na mais-valia ideológica. O trabalhador, já consumido pelo trabalho, chega em casa, depois de uma longa e terrível jornadas nos transportes públicos, e senta-se em frente à TV, única opção de "lazer". Com um copo de água gelada ou uma cerveja, ele pensa estar descansando enquanto as imagens que saltam da tela seguem aprisionando-o no mundo do trabalho. Compre isso, compre aquilo, veja a moda da novela, observe esse costume de vida. Tudo ligado na trama da mercadoria. E a pessoa vai absorvendo, completamente amarrada a grande roda do capital, no giro interminável do consumo. Consome-se até mesmo a própria vida. É claro que a pessoa não é um quadro branco onde as coisas são gravadas. Mas, o poder desse veículo é deveras avassalador. A pedagogia da sedução - usada com maestria pela publicidade - opera no cérebro e conquista os "consumidores" para coisas que sequer necessitam. E, assim, o trabalhador, durante o dia, entrega a mais-valia para o patrão, e à noite, segue entregando a mais-valia para outros patrões. É um círculo macabro. Uma forma bem bolada de domar o “rebanho desgovernado”, que era como o incensado teórico da comunicação, o estadunidense Walter Lippmann, chamava o povo.

A competição

Mas, além da sedução para o reino das coisas, o sistema capitalista preciso atuar em outra área na vida humana, para poder garantir a perpetuação do círculo. Há que incutir o medo do outro, para estimular a competição. Afinal, a regra é simples: para que um tenha muito, outro há que não ter nada. De alguém é preciso "chupar" o trabalho e a alma. O biólogo Humberto Maturana, ao discutir os sistema biológico da vida, insiste em dizer que a competição é uma coisa artificial, anti-humana, criada pelo sistema de opressão. Segundo ele, o que é natural no humano, e mesmo nos animais, é a cooperação. Na cooperação, todos podem ter o que precisam. Na competição, sempre um vai vencer - ter  - e outro vai perder, não-ter. Logo, é uma lógica de exclusão. Mas, se o natural é cooperar, como chegamos a esse mundo violento e competitivo? É, segundo ele, uma construção que tem por objetivo a consolidação de um pequeno grupo de poder. É o centro da opressão.

E, assim, a competição vai sendo incentivada em todas as áreas da vida. Desde a família, onde começa a educação para o sistema, passando pela escola, onde a criança vai se moldando mais ainda para a vida competitiva, chegando, depois, no trabalho, espraiando-se de maneira igual para a vida pessoal, as relações afetivas (não é sem razão que aumentam exponencialmente os casos de assassinato de mulheres, quando essas decidem sair de uma relação. O outro não suporta "perder". Prefere matar).

E todo esse processo de competição é igualmente incentivado e bombardeado na cabeça das pessoas pela maquinaria da indústria ideológica. As novelas, os programas de auditório e, agora, essa nova febre, os "shows de realidade", tipo Big Brother ou a Fazenda. Nesses espaços, que deveriam de entretenimento, toda a sociedade vai sendo alfabetizada e formada na lógica da competição. Para ganhar uma casa do Gugu, há que desbancar o outro. Para ganhar um carro novo no Hulk, há que vencer o outro. Para ganhar um milhão, há que eliminar os próprios amigos. É a pedagogia da selvageria lícita.

A pedagogia do medo

E todo esse processo segue uma ordem muito lógica. O próximo passo é incutir o medo. Fazer com as pessoas pensem que, em todo o canto, por toda a parte, tem alguém querendo "tirar-lhe" alguma coisa. Novamente a indústria ideológica age com sabedoria. Proliferam os programas policialescos, nos quais são apresentados crimes horrendos, assaltos, mortes e toda uma sorte de barbaridades. Assistir a esse programas nos leva a um terror abissal. Porque todos os dias, a todo instante, tem algo muito terrível acontecendo. Sair de casa pode significar a morte. Ficar em casa também. Não há escapatória. Tudo é apresentado como  se fosse algo natural. Todos os casos de violência cotidiana parecem brotar do nada, fruto apenas da "maldade" alheia. Não há relação nenhuma com a pedagogia da sedução - na qual se aprende a querer o que não se precisa - , nem com a pedagogia da competição - na qual o outro é sempre o inimigo. Não há história, não há contexto. É só a violência por si. O que é óbvio, porque se esses programas contextualizassem a violência desenfreada e crescente, ficaria claro para as pessoas os motivos disso. Não há interesse em criar conhecimento sobre a realidade. O objetivo da indústria ideológica é atuar no reino da sensação.


Com a pedagogia do medo vem a lógica da justiça invertida. A pessoa, submetida ao bombardeio ideológico, só consegue ver que a polícia é corrupta, os bandidos andam soltos, não há salvação. O que aparece nesses programas é que os cidadãos estão reféns de uma violência que não tem solução. Começa a se gestar aí o germe do "justiçamento". Se não há justiça, então eu mesmo vou fazer.

Não bastassem os Datenas e Rezendes da vida, ainda tem toda uma linha de filmes, da indústria cinematográfica da matriz do sistema, que exacerba ainda mais essa visão de mundo. Uma olhada nas séries de mais sucesso entre a classe média que pode pagar uma TV à cabo ou digital ( e que mais tarde vêm para a TV Aberta), o que se vê é que as do topo da lista são as dos "justiceiros". Aqueles mocinhos - geralmente brancos e ricos - que caçam e matam os bandidos que a justiça formal deixa escapar. Um caso extremo é o do seriado Drexler (maior audiência nos EUA), no qual um policial é o serial killer (assassino em série). Ele persegue, tortura barbaramente e mata aqueles que a justiça não aprisiona. É um psicopata que inclusive cataloga fotos e amostras de sangue de cada assassinado. Pois esse cara é um herói. E assim, poderíamos elencar outras séries e filmes que povoam nossas televisões, cotidianamente, fortalecendo a pedagogia do "justiçamento".

Por isso que a cena bárbara de um jovem negro sendo espancado por mais de 30 pessoas e amarrado num poste com uma corrente de bicicleta, parece natural a maioria das pessoas. Porque aquele guri negro, morador de rua, feio, maltrapilho, é o "inimigo" que povoa a cabeça de cada um que vive sob a opressão da usina ideológica - aí incluída a família, a escola, as relações pessoais. Então, nada pode parecer mais "certo" do que justiçar, fazer justiça com as própria mãos. Se não há polícia, se a corrupção grassa e eu vivo apavorado com o mundo ao meu redor, a qualquer sinal de ameaça, eu me defendo. É assim que as pessoas pensam. Estão intoxicadas com essa pedagogia voraz, que nos tira a humanidade, isso que Maturana chama de "natural cooperação".  


É o que ocorre também em relação aos homossexuais. As pessoas passam a vida toda ouvindo que aquilo é antinatural, que é vergonhoso, que é pecado, que é sujo, que são uns desavergonhados, umas aberrações, a escória do humano. Então, quando um grupo de jovens agride ou mata um homossexual, eles entendem que estão fazendo uma "limpeza", ajudando a sociedade. Foram alfabetizados nessa concepção. E não é coisa fácil de mudar. Há que se trabalhar toda uma nova pedagogia, que vença essa, que é hegemônica no mundo. Essa visão de mundo grega, que venceu no mundo ocidental, na qual o outro, que é diferente de mim, é o "não-ser", o "inimigo", o que precisa ser eliminado em nome do meu bem-estar. Enrique Dussel, um filósofo argentino, ensina que no mundo antigo, antes da vitória da visão grega, o outro não precisava ser igual a mim. Ele era respeitado como outro, diferente, mas real. Nesse mundo, cujas raízes ele encontra nos povos do deserto, o outro podia ser aceito na convivência, porque a matriz da existência era a cooperação. Dussel crê que essa forma de viver pode ser recuperada, mas não é coisa fácil. Há um longo caminho a percorrer, desfazendo toda essa teia ideológica que vem massacrando a humanidade por tantos séculos.

Hoje, quando as redes sociais deram espaço para a voz de tão distintas gentes, não deveria causar espanto as opiniões de um número expressivo de pessoas respaldando as ações de justiçamento ou de violência contra os que eles consideram "escória", aberrações. No mais das vezes, essas pessoas acreditam piamente - de boa fé -  nas "verdades" que foram sendo sedimentadas ao longo de uma vida. Estranhos, mas muito estranhos mesmos, são aqueles que, de alguma forma, observam essas verdades e duvidam delas, buscando criticamente uma explicação para os fatos, na história, no contexto, no ambiente. Porque não é fácil enxergar as falhas da "matrix", aquelas que nos permitem ver que, para além do mundo de sedução que o capitalismo nos oferece, há toda uma cultura de medo e violência que vem no pacote, fazendo com que vejamos como "inimigos" aquele que não compartilha - por opção ou por condicionantes históricas, econômicas e políticas - dessa ilusão.

O exemplo e a linguagem

Wittgenstein, um filósofo da linguagem, dizia que os limites da linguagem são os limites do mundo. Logo, para ele, se a pessoa não consegue verbalizar ou entender coisas como cooperação, solidariedade, amor, equidade, jamais poderá entender aqueles que falam sobre isso. Maturana, desde a biologia, concorda com o filósofo austríaco, mas oferece uma luz nesse universo que aparece tão determinista. Ele diz que o ser humano só se fez humano a partir do toque sensual, da carícia, do amor. E oferece muitos elementos científicos que podem comprovar sua teoria. Só depois veio a linguagem, essa, tal qual conhecemos. Logo, há uma pré-linguagem, calcada na emoção, no movimento do corpo, na ação. E é desde aí que pode vir a mudança. O que Maturana diz, cientificamente, já disseram os grandes avatares que caminharam sobre a terra, filósofos, homens de fé: o exemplo é poderoso. É a grande linguagem que chega ao mais profundo do humano. Assim, palavras como amor, solidariedade, respeito ao outro, cooperação, não podem ser ditas se não vierem acompanhadas de uma ação correspondente. Os astecas, nossos mais remotos ancestrais, já sabiam disso: "As palavras que não andam, não devem ser pronunciadas".


Com isso, o que quero dizer é que há uma larga batalha a ser travada contra as pedagogias da sedução, do medo e da violência. E ela não será ganha apenas no discurso falado. Ele precisa viver na ação cotidiana, no que se ensina aos filhos, no que se trabalha na escola, nas relações familiares e pessoais, no sindicato, no movimento social, no partido político. Para isso, precisamos da renitência, da ação diária e sistemática, da prática cotidiana desses valores humanos tão ancestrais. Gritar contra o racismo, contra a discriminação, contra a violência ao "outro", desigual. Mas também atuar, em todos os espaços da vida, em consonância com as palavras que usamos. Só assim elas começarão a andar.

Já no campo da política essa mudança não pode acontecer se não houver uma luta radical pelo controle dos meios de comunicação. Há que derrotar o monopólio, o oligopólio, que mantém a usina ideológica em funcionamento. Não basta atuar no campo da “democratização da comunicação”. Ajeitar o que está aí consolidado não é solução. Assim, ou derrubamos o poder dessa elite entreguista que hoje domina a mídia, ou seguiremos jogando palavras ao vento. Palavras que não terão pernas para andar. Soberania comunicacional, produção popular, reforma agrária no ar. Sem isso, o “rebanho desgovernado” de Lippmann seguirá domesticado, reacionário, racista e criminoso.

É tempo de desgovernar...


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Documentário 'A Caminho da Copa' aborda os impactos dos grandes eventos


Polifonia periférica - O documentário "A Caminho da Copa", desenvolvido pelo Ponto de Mídia Livre Pólis Digital, aborda a diversidade de opiniões a respeito dos impactos, positivos e negativos, da preparação dos megaeventos no cotidiano das principais cidades brasileiras. Raquel Rolnik, Carlos Vainer, Juca Kfouri, Toni Sando, Vicente Cândido e moradores de São Paulo e Rio de Janeiro atingidos por obras urbanas ligadas aos eventos da Copa do Mundo e Olimpíadas são entrevistados no filme.







Direção e roteiro: Carolina Caffé e Florence Rodrigues.

O documentário "A Caminho da Copa", desenvolvido pelo Ponto de Mídia Livre Pólis Digital, aborda a diversidade de opiniões a respeito dos impactos, positivos e negativos, da preparação dos megaeventos no cotidiano das principais cidades brasileiras. Raquel Rolnik (relatora especial da ONU para o direito à moradia adequada), Carlos Vainer (economista, sociólogo e docente do IPPUR-UFRJ), Juca Kfouri (ciêntista Social e comentarista esportivo), Toni Sando (Diretor da empresa São Paulo Convention & Visitors Bureau), Vicente Cândido (deputado Federal e formulador da Lei Geral da Copa) e moradores de São Paulo e Rio de Janeiro atingidos por obras urbanas ligadas aos eventos da Copa do Mundo e Olimpíadas são entrevistados no filme.

O PÓLIS DIGITAL é uma plataforma colaborativa, física e virtual, de produções em mídias livres que tratam sobre os temas relevantes da cidade e do contexto global.


Fonte: Diário Liberdade

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Cinco filmes de Eduardo Coutinho para ver na internet



“Cabra Marcado para Morrer”, “Babilônia 2000″, “Edifício Master”, “Jogo de Cena” e “Santo Forte” estão disponíveis na íntegra, na rede
Uma câmera na mão, ideia na cabeça e uma pergunta no ar: o estilo que consagrou Eduardo Coutinho, um dos maiores documentaristas do Brasil, fica como a maior herança deste legítimo representante do cinema verdade.
De renome internacional, Coutinho se destacou pela sua forma “nua e crua” de documentar diálogos, abordagens e retratos dos mais diversos temas, em filmes como “Edifício Master”, “Jogo de Cena”, “Babilônia 2000”, “Peões”, “Santo Forte” e “Cabra Marcado para Morrer” –  sempre marcados pela espontaneidade das cenas, seja do entrevistado ou entrevistador.
Aqui, o Catraca Livre faz um apanhado de sua obra com  títulos desde o início da carreira, nos anos 60, até produções mais recentes… Confira a homenagem!
Cabra Marcado para Morrer

Filme documentário, foi dirigido por Eduardo Coutinho inicialmente em fevereiro1964, sendo obrigado a interromper as filmagens devido ao golpe militar de 31 de março, quando as forças militares cercam a locação no engenho da Galiléia. Dezessete anos depois em 1984 retoma o projeto e chega ao cinema no seguinte em 1985.
Babilônia 2000


Na manhã do último dia de 1999, uma equipe de filmagens sobe o Morro da Babilônia, no Rio de Janeiro. Lá existem duas favelas, Chapéu Mangueira e Babilônia, as únicas situadas na orla de Copacabana e cujos moradores podem acompanhar ao vivo o réveillon de Copacabana.


Edifício Master





Registro do cotidiano dos moradores do Edifício Master, em Copacabana, no Rio de Janeiro, um prédio de 12 andares e 276 apartamentos, onde moram cerca de 500 pessoas. No filme, 37 contam suas histórias de felicidade, tristeza, desilusão, esperança e amor.

Jogo de Cena



O documentário faz um mergulho no universo feminino através de 23 relatos de mulheres, gravados por uma câmera estática, no Teatro Glauce Rocha, no Rio. As histórias foram selecionadas entre outras 60, que chegaram ao diretor depois da publicação de um anúncio no jornal.

Santo Forte



Em meio a visita do papa João Paulo II no Brasil, Eduardo Coutinho visita uma favela do Rio de Janeiro onde a religiosidade das pessoas se misturam entre varias crenças.