quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Ode ao burguês (Poema de Paulicéia Desvairada), de Mário de Andrade


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Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
O burguês-burguês!

A digestão bem feita de São Paulo!

O homem-curva!, o homem-nádegas!

O homem que sendo francês, brasileiro,italiano
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!


Eu insulto as aristocracias cautelosas!

Os barões lampiões! Os condes Jões, os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos,
e gemem sangue de alguns mil réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os " Printemps" com as unhas!

Eu insulto o burguês funesto!

O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!

Fora os que algarismam os amanhãs!

Olha a vida dos nossos setembros!

Fará sol? Choverá? Arlequinal!

Mas á chuva dos rosais

o extâse fará sempre o sol

Morte á gordura!

Morte ás adiposidades cerebrais

Morte ao burguês mensal,
ao burguês-cinema! ao burguês-tíburi!
Padaria suíssa! Morte viva ao Adriano!
"- Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
- Um colar... - Conto e quinhentos!!!
mas nós morremos de fome ! "

Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!

Oh! purée de batatas morais!

Oh! Cabelos nas ventas ! Oh! Carecas!

Ódio aos temperamentos regulares!

Ódio aos relógios musculares! Morte á infâmia!

Ódio á soma! Ódio aos secos e molhados!

Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!

Dois a dois! Primeira posição! Marcha!

Todos para a central do meu rancor inebriante!

Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!

Morte ao burguês de giolhos
cheirando religião e que não crê em Deus!

Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico

Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burguês!...



Paulicéia Desvairada - Mário de Andrade, 1922.

 

Mário de Andrade goza os burgueses, que ampliam suas barrigas à proporção que murcham o cérebro. A rebeldia social encontra correspondência estilística: em lugar de adjetivos são usados substantivos com função adjetiva (“homem-curva”, “homem-nádegas”). O Futurismo preconizava o abandono do adjetivo e da pontuação regular.

Em profundo desabafo pessoal, o poeta denuncia a mesquinhez, o pão - durismo dos imigrantes bem - sucedidos.

 Ode ao burguês é o poema mais famoso do autor. O título em si, parecia indicar um canto de triunfo (como eram as odes gregas) à burguesia, mas, na realidade, quando lido, revela sua intenção crítico - agressiva, pois o que se entende, ao pronunciá-lo é “Ódio ao Burguês”, o que o texto, efetivamente, é.

Repetindo a mesma técnica de composição fragmentária do poema, este poema é quase inteiriçamente, uma violenta declaração de ódio à aristocracia e à burguesia paulistanas, por causa de sua incapacidade de sonhar, de dar o verdadeiro valor às coisas do espírito. Este tipo de crítica vinha se desenvolvendo desde o romantismo, mas alcança neste texto, que é quase um panfleto político, um momento destacado. Nele o artista que aí se vinga o mundo da opressão burguesa e aristocrática, nos é apresentado como alguém capaz de humanizá-lo, pois tem o poder de produzir “o êxtase” que fará sol!”

No poema o tom agressivo e exclamativo, sugere os gritos e revolta; a irreverência contra a estrutura social; o uso do verso livre; e a substantivação dupla.

É um poema rebelde de Mário de Andrade, mostrando o ódio e insulto ao burguês, a mesmice do cotidiano artificial da burguesia citadina. Ódio ao burguês – níquel (dinheiro) que tem digestão em quanto muitos passam fome, as formas, as curvas, as nádegas, as preocupações com o corpo. Que tem sempre algo de francês italiano.

A subjetividade do poeta insulta a cautela o cuidado a aristocracia e critica os barões lampiões, donos de terra que são verdadeiros donos de bandos, jagunços, os condes joões, nobres com nomes populares e origem humilde e os duques zurros (vozes de burro) esses burgueses que vivem dentro de seus domínios (seus muros) e não coragem para mudar (pular o muro) chorando alguns mil – réis gastos com aulas de francês para as filhas.

O insulto ao burguês que diz ser mantenedor das tradições mas acha indigesto o feijão com toucinho, os que contam o amanhã autor pede morte à, gordura, a gordura cerebral, o burguês mensal dia – dia que frequenta o cinema com carruagens. O burguês que se vê obrigado a dar de aniversário da filha um cola 1500 réis mesmo que tenha de morrer de fome.

O burguês come a si, ele é um purê de batatas morais. Ódio ao comportamento regular, normal, as rotinas (o relógio muscular) hora de almoço, jantar ... ódio a soma (o capitalismo) ao comércio, a quem não se arrepende a quem não desmaia, as convenções sociais. Morte a falsa religião. Ódio vermelho, alusão ao comunismo, contra o burguês, sem perdão ao burguês.

Um comentário:

  1. Muito bom! Essa interpretação nos ajuda a entender melhor o poema.

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