segunda-feira, 8 de abril de 2013

Periferia: “mesmo céu, mesmo CEP, no lado sul do mapa?”

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Crise dos anos 1990 forjou identidade rebelde das quebradas. Mas ao retratá-la, em 2002, Mano Brown antecipava, angustiado, outro momento

Por Antonio Eleilson Leite, editor da coluna Literaturas da Periferia

(Segunda parte de ensaio sobre o rap Da Ponte pra cá, dos Racionais MCs e as transformações vividas pelas periferias brasileiras, seus habitantes e artistas. Leia aqui o primeiro e o terceiro segmento) 

II. Lavando o ódio embaixo do sereno

Da ponte pra cá é uma composição, cujo tema teve pelo menos dois anúncios prévios publicados por Mano Brown. O primeiro foi no ano 2000 no livro Capão Pecado, do escritor Ferréz, no qual, Brown escreve um texto intitulado A número 1 sem troféu1. O segundo foi no ano seguinte, na sua participação no CD solo do K L Jay, DJ dos Racionais. Este CD, de título KL Jay na Batida, vol. 3 Equilíbrio, lançado em 20012, traz a participação tanto de Mano Brown como do Edi Rock, os dois compositores do Racionais. No álbum duplo, Edi Rock abre o CD 1 e Mano Brow encerra o CD 2. Ambas as faixas tem o mesmo nome: “Privilégio”. Edi Rock canta a “Privilégio 1 que tem subtítulo Século 20 -21 que é um rap do qual participam os sócios de KL Jay na produtora 4 P, Rappin Hood e Xis. Um breve rap de 2,51 minutos. Já na faixa Privilégio 2 – O tempo é rei, com Mano Brown temos um depoimento do cantor que tem duração de 18m32s. Nessas duas colaborações em obras alheias, Brown antecipa vários elementos que estruturam o rap “Da ponte pra cáe indica o tom melancólico da composição encoberto por uma melodia dançante e harmonia vibrante que conduzem o ouvinte a um clima diferente do que o conteúdo da letra sugere.

A número 1 sem troféu:

No livro de Ferréz, o texto A número 1 sem troféu, o elemento central do rap “Da ponte pra cá já é dado no seguinte trecho:

Sem pretensão, a gente aqui do Capão nunca ia conseguir chamar a atenção do resto do mundo, porque da ponte João Dias pra cá é outro mundo, tá ligado?

Fica claro aqui a que ponte se refere a composição. Trata-se da Ponte João Dias que dá acesso aos distritos do Jardim São Luiz, Capão Redondo e Campo Limpo, entre outros bairros a partir de Santo Amaro, último bairro do lado lá. Via elevada sobre o Rio Pinheiros, continua em avenida homônima que depois passa a se chamar Estrada de Itapecerica da Serra, outra via citada em momento fundamental do rap. Esses três distritos somam mais de 1 milhão de habitantes e possuem características semelhantes compondo uma área urbana muito representativa do processo de periferização da região Sul de São Paulo: alta densidade populacional, serviços públicos escassos, assentamentos precários, falta de saneamento e transporte, entre outros direitos e altos índices de violência. Tais predicados eram ainda mais acentuados nos anos 1990 e início da primeira década do século XXI, época em que foi composto o rap “Da ponte pra cá. O próprio autor, baseado na sua percepção cotidiana da realidade afirma no texto:

São Paulo massacra os + pobres e aqui no extremo sul eu senti na pele o que é ser preto, pobre, filho de mãe solteira negra, que veio da Bahia com 12 anos de idade. Aprendi a não gostar de polícia (…) No Capão Redondo é onde a foto não tem inspiração para cartão postal (…) Capão Redondo é a pobreza, injustiça, ruas de terra, esgoto à céu aberto, crianças descalças (…) tensão e cheiro de maconha o tempo todo.

Porém, há no texto uma construção simbólica que define o Capão Redondo e as adjacências como um “mundo diferente”. Um mundo diferente, mas não um mundo à parte. O rapper situa esse distinto lugar dentro da cidade de São Paulo. Logo na segunda faixa do CD 1 (Vivão e Vivendo), a narrativa também se situa o contexto na Capital paulista: Você está nas ruas de São Paulo / Onde o vagabundo guarda o sentimento na sola do pé. Essa distinção não se restringe às carências relacionadas à precariedade urbana do lugar. Brown parece anunciar uma subjetividade coletiva traduzida no orgulho de ser deste local, apesar de todas as dificuldades que lhe são próprias. Veja:

São Paulo não é a cidade maravilhosa, e o Capão Redondo no lado sul do mapa, muito menos. Aqui as histórias de crime não têm romantismo nem heróis. Mas aí! Eu amo essa porra! No mundão eu não sou ninguém, mas no Capão Redondo eu tenho meu lugar garantido, morô, mano? (…) Capão Redondo, uma escola.

Nestes trechos citados no texto A número 1 sem troféu”, temos já três elementos fundamentais presentes na letra do rap “Da ponte pra cá: a) a definição geográfica e social (da Ponte João Dias pra cá / Lado sul do mapa / Pobreza, injustiça / Cheiro de maconha o tempo todo); b) a dimensão simbólica (Outro mundo / No mundão não sou ninguém, mas no Capão tenho meu lugar) e c) a dimensão subjetiva (Capão Redondo, uma escola / Amo essa porra!). 

Na letra do rap, composto mais tarde, o primeiro elemento se define principalmente no verso do refrão: O mundo é diferente da ponte pra cá. Os aspectos sociais relacionados à pobreza não são trabalhados no rap de forma direta, como em Negro Drama e nas duas versões de Vida Loka, por exemplo. Há uma abordagem indireta e irônica na seguinte passagem: Hey truta, eu tô louco, eu tô vendo miragem / Um Bradesco bem em frente à favela é miragem. Esses versos apontam a improbabilidade de uma instituição bancária se instalar junto a um lugar de concentração de pessoas de baixa renda. Passados dez anos, isso não só deixou de ser “miragem”, como até virou estratégia dessas empresas na busca pelas classes C e D. 

Ainda sobre primeiro elemento, destacamos os versos: Nunca mudou, nem nunca mudará / O cheiro de fogueira vai perfumando o ar / Mesmo céu, mesmo cep no lado Sul do mapa. O “cheiro de fogueira” pode ser uma referência cifrada a cheiro de maconha citado no texto. Não creio que seja um atenuante de censura dado pelo autor. Talvez seja uma opção em função da rima interna: cheiro/fogueira. Se fosse maconha, a sílaba tônica não ficaria bem encaixada no verso. Não obstante, a fogueira em seu sentido literal é algo muito próprio da periferia, ou pelo menos era até a época em que o rap foi composto. Além do mais, é uma madrugada fria de inverno, período em que se torna ainda mais comum o hábito de se acender uns gravetos no centro de uma roda de conversa entre rapazes, prática cultural já citada em outras composições do Racionais3

Já o termo lado sul do mapa é idêntico ao do texto como se vê. O dado novo, me parece, é o CEP – código de endereçamento postal. A habilidade poética no uso deste termo que faz uma composição rítmica com céu (mesmo céu, mesmo CEP) resultou numa expressão que repercutiu junto a outros artistas e movimentos culturais de periferia, como identificou Heloisa Buarque de Hollanda4 e reforça o aspecto geográfico com uma sutileza muito interessante.

Sobre o segundo elemento, aparecem no rap, entre outras, as seguintes passagens: Nas ruas da Sul eles me chamam Brown / Maldito vagabundo, mente criminal / O que toma uma taça de champagne também curte / Desbaratinado, tubaína tutti-frutti. (…) Jardim Rosana, Três Estrelas e Imbé / Santa Tereza, Valo Velho e Dom José / Parque (Santo Antônio), Chácara (Santana), (Jardim) Lídia, Vaz (de Lima) / Fundão / Muita treta pra Vinícius de Moraes! Nos primeiros versos Brown retoma o tema fundamental da trilogia: “Negro Drama, Jesus Chorou e Vida Loka I e II. Enfatizando que o acesso a bens como champagne, supostamente adquirido em função da elevação de renda decorrente do sucesso comercial de sua música, não tira dele o apreço pelo refrigerante popular muito consumido nas periferias, símbolo de um segmento social do qual ele não se desvincula simbolicamente. Como é dito no rap Negro Drama: O dinheiro tira o homem da miséria / mas não pode arrancar dele a favela (primeira parte – Edi Rock) e Você sai do gueto, mas o gueto nunca sai de você (segunda parte – Mano Brow). O apego ao bairro e toda a “rapa” é algo indissociável para o autor, razão de ser da sua visão de mundo e de seu lugar no mundo. 

Faz muito sentido aqui a noção de frátria, definida por Maria Rita Kehl como “um campo de identificações horizontais” que justifica o tratamento de “mano”, indicando uma “ intensão de igualdade”5. O sentimento de igualdade derivado da condição fraterna entre os manos estende-se para os bairros de onde procedem essas pessoas. A forma como é citado cada um desses lugares dá a impressão de que “os manos” da periferia formam uma legião com alto grau de identificação e coesão. Indica a existência de um amplo movimento social, predominantemente juvenil, majoritariamente negro e pobre, pronto para o confronto. Daí, talvez a menção enigmática a Vinícius de Moraes. Este consagrado poeta é citado na letra do rap na sequência de uma série de bairros da periferia da Zona Sul de São Paulo, numa composição onde o aspecto geográfico é fundamental. 

Não faz sentido, aparentemente, que seja uma alusão à pessoa de Vinícius de Moraes (e sua condição de poeta, músico e intelectual ligado às classes médias) e sim um lugar de base territorial que leva seu nome. Como há um elemento de tensão explícito (muita treta), a citação sugere um lugar de oposição aos bairros citados. Essa oposição não seria, ao meu ver, de conflito interno (embora haja passagens na letra que revelam conflitos internos à frátria) e sim um fator exógeno. 

Minha hipótese é que o autor esteja se referindo à Praça Vinícius de Moraes no bairro do Morumbi, conhecido reduto da burguesia e classe média alta paulistana. Trata-se de uma praça muito ampla, ao lado do Palácio dos Bandeirantes, sede do Governo do Estado, onde os moradores locais costumam se exercitar e passear com seus cachorros. Faço este destaque para debater com a dedução, ao meu ver equivocada, de Leandro Pasini, em texto citado anteriormente, no qual afirma:

(…) após enumerar alguns bairros da periferia da Zona Sul de São Paulo, Brown arremata: Muita treta pra Vinícius de Moraes! Ou seja, o rapper conclui que a violência de lá está muito acima das possibilidades expressivo-paisagística desse outro poeta-cantor que é Vinícius de Moraes”6

O elemento subjetivo, expresso no texto “A número 1 sem troféu” através da referência a “escola” e ao amor que o autor expressa pelo lugar, aparece mais explicitamente nos seguintes versos do refrão: Não adianta querer, tem que ser, tem que pá / Não adianta querer, tem que ter pra trocar. Logo depois do primeiro refrão: Da ponte pra cá antes de tudo é uma escola / Minha meta é dez, nove e meio nem rola e nos versos finais do rap: Senhor, guarda meus irmãos nesse horizonte cinzento / Nesse Capão Redondo, frio, sem sentimento/Os mano é sofrido e fuma um sem dá guela / É o estilo favela e o respeito por ela/Os moleque tem instinto e ninguém amarela / Os coxinha cresce o zóio na função e gela.

Temos aqui a expressão do eu-lírico em três passagens fundamentais desta composição. No refrão a sentença de que a frátria está formada. Tem gente (mais de 50 mil manos anunciados no CD anterior) e território (da ponte pra cá). A adesão (à banca ou à frátria), entretanto, não é algo que se possa conseguir de forma voluntária, mas por merecimento, proceder e procedência. Zé povinho, playboy, malandrão vândalo, vermes e traíras e mulheres de certo tipo – quase nenhuma é digna, no universo misógino dos Racionais –, não entram. 

No rap “Da ponte pra cá, dividido em três partes, em cada uma delas um tipo social é rejeitado. Na primeira parte, os playboy: Playboy bom é chinês, australiano / Fala feio, mora longe não me chama de mano / Três vezes seu sofredor, odeio todos vocês. Na segunda parte, são os manos de quebrada que desandaram em busca de fama E tá tirando dez de havaiana (cumprindo pena na prisão). E por fim os bandidos “vândalos”, criminosos sem ética, Batendo no peito feio e fazendo escândalo. Identificados os elementos destoantes da irmandade, o rapper apela a Deus para guardar os “manos sofrido”, “ estilo favela” que botam medo nos policiais, referidos aqui pelo designação de “coxinha”, atribuída aos PMs devido ao costume de pararem em botecos e padarias para fazerem lanche.

Mano Brown, ainda que se mantenha inserido no mesmo contexto social de sua origem, encontra-se nele numa condição dúbia de pertencimento. Um lugar de dentro e ao mesmo tempo de fora, que lhe permite a tudo observar (“eu vejo tudo e ninguém me vê”) e formular juízo moral (não moralista) sobre o que se passa na quebrada que ele tanto ama, sua escola de vida. Seria ele o poeta épico freudiano (aquele que assume para si a autoria coletiva da morte do pai tirano)?7 Talvez se coloque como o guardião de uma irmandade na qual vive o conflito tenso e indissolúvel de pertencer, podendo dela se desprender pois seus laços não são mais materiais , mas apenas simbólicos.

O Tempo é rei:

Esse conflito fica ainda mais evidente no teor do depoimento do autor no CD de KL Jay, “Privilégio 2 – O tempo é rei. Na sua fala, aborda um outro aspecto que aparece depois na letra do rap “Da ponte pra cá”. É a crise de ordem existencial que o autor reconhece em si, mas principalmente na irmandade e me parece se revelar no seguinte trecho da letra de “Da ponte pra cá: Outra vez nós aqui vai vendo / Lavando o ódio embaixo do sereno / Cada um no seu castelo, cada um na sua função / Tudo junto cada qual na sua solidão / (…) Óh, filosofia de fumaça, analise / E cada favelado é um universo em crise.

Mano Brown chega ao estúdio da gravadora Trama onde Kl Jay produz seu CD e anuncia o tempo e o espaço em que se encontra. Uma quarta-feira do outono de 2001, por volta das 23h30. Os momentos que antecedem sua chegada serão a partir daí o enredo de seu depoimento. Saindo do Capão na companhia de alguns manos, passa pelo Jardim Miriam (outro bairro da Zona Sul, porém bem distante do Capão Redondo), onde observa a precariedade das residências de tijolo exposto, escadas quebradas, ruas de terra e bares lotados as 19h. Põe-se a refletir sobre o apelo que o bar exerce nos trabalhadores que se dirigem a este tipo de comércio antes mesmo de chegar em casa. “Entre o bar e o Jornal Nacional, não sei o que é pior”, resigna-se o rapper. “Sou um cara observador” define-se para anunciar em tom desesperançoso: “O mundo todo está em crise. Você não vê felicidade em ninguém, nem no pobre, nem no rico. Tá todo mundo desorientado. Eu também”, admite, embora reconheça que sabe o que quer, qualificando sua desorientação como um espasmo, um momento isolado de desconexão. 

Recupera na memória o momento de saída do Capão Redondo naquele dia. Expressa seu desânimo: “Lugar pra ter gente frustrada igual à Zona Sul, tô pra ver”. Relata ter visto os manos, cerca de trinta cara fumando maconha, rindo, porém, percebia no fundo do olho de cada um uma profunda tristeza. Mais um rolê, observa os barracos de uma favela no Capão, o som estridente da sirene de uma viatura da Polícia e imagina o sofrimento de alguém quando souber da notícia. Chama a atenção para a quantidade de ladrões: “na periferia, de dez, oito está roubando”. Tem mãe, diz ele, que fica aliviada ao saber que o filho está preso, pois assim se sente mais segura. 

Brown continua sua reflexão. Diz que jamais entraria no crime. Primeiro porque tem que sustentar o filho que está com seis anos. Depois, sua mãe não aguentaria saber de uma notícia dessas. Nesse momento, enaltece, como sempre faz, o amor que tem por sua mãe. Em tom confidencial, conta que seu respeito por dona Ana é tão grande que ele não é capaz de fumar na frente dela, admitindo ter queimado os dedos várias vezes ao apagar o cigarro às escondidas. Termina o depoimento agradecendo ao rap e a família Racionais. Reproduz frase que acabara de ver num outdoor que lhe fascinou e que diz: “a vida é desenhar sem borracha”

Mano Brown dá, em seu depoimento a devida dimensão do que realmente pensa sobre a quebrada, a irmandade, despido das rimas e da batida do rap “Da ponte pra cá. Toda a fragilidade está exposta num ambiente de crise social profunda como foi a que marcou a virada de século no Brasil e na Cidade de São Paulo em particular. Este rap expressa, na sua poesia e na fala de seu autor, que a frátria está dilacerada e que o esforço civilizatório do rap na periferia de São Paulo, como sinaliza Maria Rita Keh8 é uma tarefa tão grandiosa quando improvável. 

Talvez por isso, “Da ponte pra cá termine com uma espécie de epitáfio, um apelo a Deus para proteger os irmãos sofridos num “Capão frio, sem sentimento, nesse horizonte cinzento”. Um quadro desolador também reconhecido por Ferréz no livro Capão Pecado, “lugar abandonado por Deus, batizado pelo Diabo”.9 Todo carga conflituosa e sombria deste rap destoa da melodia e da harmonia, bem como da interpretação no CD. A forma estética da música seduz o ouvinte, conduzindo-o a um estado de agitação e expectativa que destoa daquilo que sugere o conteúdo da composição. Citando os cursos de estética de Hegel, Walter Garcia nos explica o seguinte:

Da parte do ouvinte, sem muito risco de errar, pode-se dizer que a atenção dos sentidos é despertada antes da atenção do raciocínio, isto é, antes da compreensão efetiva do tema que se canta. Nisso o rap não é diferente de nenhuma outra forma de canção: seduz e arrebata antes de tudo pela sonoridade, ainda que justamente a letra indique o “que é mais preciso no conteúdo”.10

Da ponte pra cá, é um rap que exige a uma audição atenciosa. À primeira vista pode parecer uma composição de exaltação sustentada em apologia à periferia, despertando um rancor com o outro lado da ponte, embalada por uma melodia dançante e harmonia vibrante. Não é bem isso que revela a letra. Este rap é auto-crítico com a quebrada, vai fundo na miséria da existência humana, nas tensões e conflitos endógenos e busca luz numa instância divina para proteção de um povo que, embora forte (que “não amarela”), está à deriva, sem esperança. É “estilo favela”, mas em cada favelado há “um universo em crise”. Daí os versos , ao meu ver, centrais: Outra vez nóis aqui, vai vendo / Lavando o ódio embaixo do sereno. Talvez esse estado de crise e desesperança seja a razão deste rap aparecer como um apêndice do CD como dito no início deste texto. Não é nem “chora agora”, nem ”ri depois”. O sentimento aqui não é polarizado, é melancólico com variação de intensidade conforme o foco do narrador que vê “vermes e leões no mesmo ecossistema”.

III. É o estilo favela

No CD Nada como um dia após o outro dia, há uma faixa intitulada “12 de Outubro (faixa do 8 CD 1 – Chora agora). Não é um rap. É um depoimento de Mano Brown tendo como fundo um solo de violão. Nela, o rapper, novamente num rolê pela quebrada, sai da região do Capão Redondo, mais especificamente do Parque Santo Antonio, atravessa a ponte no sentido da Vila Santa Catarina no final da então avenida Águas Espraiadas (atual Roberto Marinho) e passa por um grupo de crianças numa favela. Cumprimenta os meninos e fica sensibilizado pela história de um deles que ganhou da mãe, no dia das crianças, um tapa na cara. A agressão materna foi uma reação contra o garoto que protestou por não ter ganho presente. Indignado, Brown faz um discurso em tom de protesto atribuindo aos governantes, de forma generalizada, uma violência entre família e vê naquele garoto, inexoravelmente, um futuro adulto amargurado, revoltado. Identifica a origem de um círculo vicioso no qual só os pobres se dão mal.

Temos aí uma crônica expressa de forma oral. Talvez pudesse virar um rap. Quem sabe, Brown tenha tentado. Na impossibilidade de compor a canção, não quis deixar de fora o tema, gravando-o como depoimento. Tenho a impressão de algo semelhante ter acontecido com o rap Da ponte pra cá. Observando a narrativa de O tempo é rei, fico com a impressão que ali está boa parte do conteúdo da letra desta canção que acabou por ser composta em forma de rap, gravada em CD e DVD. Entre uma e outra gravação, há um espaço de quatro anos. 

Em outra obra, o DVD Mil trutas, mil tretas, entre as quinze músicas do show realizado no SESC Itaquera, estão quase todas as faixas do CD Nada como um dia após o outro dia e três clássicos do CD Sobrevivendo no Inferno (“Fórmula Mágica da Paz; Tô ouvindo alguém me chamar e “Diário de Um Detento – todos de Mano Brown11). O rap “Da ponte pra cá é a faixa nº 6 do DVD, meio do espetáculo, portanto. Bem diferente do lugar em que se encontra no CD. Neste momento do show ficaram agrupados os raps mais sombrios. “Da ponte pra cá está exatamente entre duas músicas do Edi Rock: faixa 5, “O crime vai, o crime vem e faixa 7, “Expresso da Meia noite. Parece-me um dado relevante. 

Este último rap é tragédia do início ao fim: tios embriagados, favelas, chacina, assassinato, pai espancando filha, menina que faz aborto com 15 anos, criança que nasce de estupro. Não há refrão, mas estes dois versos são particularmente marcantes: A vida no Fundão é desiquilibrada / Hebrom, Piqueri, Jova Rural, Serra Pelada. Percebo nesta passagem uma associação pertinente que reforça o tom melancólico e trágico que identifiquei no rap “Da ponte pra cá. A letra faz referência a um conjunto de bairros do extremo norte da Cidade de São Paulo, divisa com Guarulhos, muito próximos da Rodovia Fernão Dias, todos bairros surgidos nas décadas de 1980 e 1990, dois deles à base de ocupações feitas por movimentos de moradia e que se tornaram assentamentos muito precários12. Cenário de carência e violência muito semelhante ao Capão Redondo, palco do rap Da ponte pra cá. Edi Rock, porém, não aponta nenhuma saída, nem o apelo a Deus como há na composição de Mano Brown. O tom de desesperança e resignação toma conta. 

Por outro lado, a interpretação de Mano Brown e Ice Blue do rap “Da ponte pra cá no DVD é sisuda o tempo todo. Olhar raivoso e triste. Vários rapazes (manos) na parte de trás do palco, junto ao cenário, formam uma coletividade aguerrida e dançarinos de break fazem performances com máscaras toscas de monstros, dando forma final ao cenário desolador da periferia retratado neste rap e nos outros dois que o ladeiam no set list do show. Brown termina o rap com uma frase expressa de cabeça baixa: “Minha parte eu fiz”. Seria o ato de renúncia do poeta épico? “Borrou a letra triste do poeta” (“Jesus Chorou). Prevaleceram a melancolia, tristeza e desolação no coração do rapper durão. Um homem sensível e frágil por trás de um rap aparentemente de exaltação conduzido por uma sonoridade dançante e vibrante.

* Antonio Eleilson Leite edita Estéticas das Periferias. Para ler edições anteriores da coluna, clique aqui.

> Leia também as 35 edições de Cultura Periférica, a seção que Antonio Eleilson Leite publicou, entre outubro de 2007 e dezembro de 2008, no Caderno Brasil do Le Monde Diplomatique.

1Na primeira edição deste livro, publicada no ano 2000 pela Editora Labortexto, o texto de Mano Brown aparece na abertura da primeira, das cinco partes da obra. Outros rappers escrevem também sobre o Capão Redondo na abertura das demais partes do livro. Na edição de 2005 e suas sucessivas reimpressões, o texto de Mano Brow passou para a orelha do livro. Porém, diferente da primeira edição, nesta, não é anunciada a participação de Brown na capa da publicação.

2Obra lançada pela 4P, produtora de KLJ (em sociedade com os rappers Xis e Rappin Hood) e a gravadora Trama, São Paulo, 2001.

3No rap a A fórmula mágica da paz do CD Sobrevivendo no Inferno , por exemplo, há o verso: Na roda da função, mó zoeira / Tomando vinho seco , em volta da fogueira

4BUARQUE DE HOLLANDA, Heloisa: Escolhas, uma autobiografia intelectual, Rio de Janeiro, Lingua Geral, Carpe Diem, 2009 (pag. 153) 

5KEHL, Maria Rita, A frátira órfã: o esforço civilizatório do rap na periferia de São Paulo. In: ____ (org.) Função fraterna. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000, pag. 212.

6PASINI, Leandro, op. Cit. (pag. 102) 

7KEHL, M.R, op cit. (pag. 217)

8KEHL, op cit (

9FERRÉZ, Capão Pecado, São Paulo, objetiva, 2010

10GARCIA, Walter, Sobre uma cena de Fim de Semana no Parque, do Racionais MC’s. In: Revista Estudos Avançados, volume 25, 71, janeiro/abril 2011– Dossiê São Paulo Hoje, IEA, USP (pag. 226)

11Diário de Um Detento é uma parceria de Mano Brpwn e Jocenir

12Falo aqui por conhecimento. Fui morador dessa região, tendo participado em 1984 do movimento de ocupação de terra que deu origem ao Jardim Filhos da Terra, citado no rap pelo apelido de Serra Pelada, em função do aspecto desordenado das moradias no declive de um vasto morro. O Jova Rural já foi uma concessão do Estado e e foi estruturado como conjunto habitacional do qual meu irmão, Antonio Silvestre Leite, foi o primeiro presidente da associação local. O jardim Hebron foi outra ocupação e o Piqueri, este sim, um bairro mais estruturado de expansão mais organizado, exatamente onde eu morava. Mas é tudo quebrada.



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