segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Balanço do Colapso da União Soviética - Sobre as causas de uma traição e as tarefas futuras dos comunistas

Pôster - Pôster do 65º aniversário de formação da União Soviética. As bandeiras são das federações-membro da URSS. Ao fundo, um foguete espacial Soyuz. Fonte: http://www.corbis.com - Fotolog

Por Ludo Martens


Na União Soviética, o primeiro Estado socialista do mundo, o país natal de Lénine e de Stáline, onde, após esforços heróicos e sacrifícios imensos, os trabalhadores criaram uma nova sociedade sem classes exploradoras, neste país, caro aos revolucionários do mundo inteiro, o capitalismo foi agora restaurado.

É dever de todos os revolucionários do mundo inteiro reflectir sobre as causas desta tragédia e fazer uma análise meticulosa dos factos em causa.

Obviamente, os capitalistas dos cinco continentes aproveitaram este acontecimento inesperado para propagar milhões de vezes a mensagem de que «o socialismo não funciona e o capitalismo cria prosperidade». E em todos os países, os oportunistas desertaram para o lado da democracia imperialista, fechando os olhos ao facto de o capitalismo, que «funciona tão bem», assentar em milhões de cadáveres, vítimas da opressão e da exploração do Terceiro Mundo.

Porém, ecoava ainda o clamor da vitória histórica do capitalismo, tivemos de concluir que o restabelecimento do capitalismo na Europa Oriental e na União Soviética havia agravado todas as contradições fundamentais no mundo, e que nos aguardavam grandes convulsões e agitações. Longe de testemunharmos o fim da história, como havia declarado um membro do governo norte-americano, ou assistirmos ao fim da luta de classes, estávamos no início de uma nova fase da luta global dos oprimidos contra um sistema imperialista mundial que se tornara incompatível com a simples sobrevivência de centenas de milhões de seres humanos. Efectivamente, a revolução socialista transformara-se numa questão de sobrevivência para a vasta maioria da população mundial. A traição final do revisionismo não podia apresentar com maior clareza esta situação.

No entanto, se a parte oprimida da humanidade tem de avançar para a sua libertação, ela precisa da ajuda de organizações combativas que tenham uma compreensão clara das leis fundamentais da revolução. Os comunistas de todo o mundo têm de reavaliar o rumo tomado na União Soviética. Terão de distinguir claramente revolução de contra-revolução e marxismo-leninismo de revisionismo. O resultado do curso oportunista tomado na União Soviética permite-nos colocar algumas questões fundamentais, que têm sido objecto de acaloradas discussões desde 1956. As experiências positivas bem como as negativas provam que a adopção de uma linha orientadora justa é decisiva para o futuro do Partido Comunista e da revolução.

Lénine, Stáline e a ditadura do proletariado

As primeiras fábricas, os gérmenes da sociedade industrial europeia, surgiram na sequência do genocídio dos povos da África negra e da América. Levando a «civilização» aos impérios asteca e inca, os exploradores europeus causaram cerca de 60 milhões de mortos entre a população nativa. Isto, é claro, além de terem saqueado enormes quantidades de ouro e prata. Desde princípios do século XVI, os comerciantes europeus capturaram e venderam entre 100 milhões a 200 milhões de escravos africanos. Dezenas de milhões de homens e mulheres perderam a suas vidas na Ásia e na África à medida que as conquistas coloniais do século XIX lançavam as sociedades locais no caos, provocando a fome, transmitindo doenças desconhecidas, difundindo o abuso do álcool e do ópio. Durante os séculos XVIII e XIX, a revolução industrial na Europa causou, entre outras convulsões, a expulsão violenta de milhões de camponeses das suas terras e o trabalho forçado de mulheres e crianças de 12 a 15 horas por dia. Na I Guerra Mundial, os estados burgueses europeus lançaram-se às gargantas uns dos outros, com o fim de uma nova partilha dos domínios coloniais. Dez milhões de trabalhadores pagaram com as suas vidas esta rivalidade colonial.

Perante estas realidades, o socialismo não podia desenvolver-se e sobreviver senão através da organização da ditadura do proletariado, para unir todas as classes populares contra a burguesia. Esta experiência fundamental de Lénine e de Stáline adquiriu um importante significado no recente contexto dos povos que aspiram a libertar-se da «democracia» imperialista. A derrota da via reformista no Chile em 1973 e a eliminação do poder sandinista na Nicarágua, depois de amplas concessões à burguesia, mostram a importância destes princípios revolucionários defendidos por Lénine e Stáline.

Os operários e camponeses russos já sofriam a opressão tsarista há séculos quando pagaram um preço excessivamente alto durante a I Guerra Mundial: quase três milhões de mortos. Deste sofrimento insuportável, os bolcheviques extraíram a energia, a coragem e a determinação necessárias para organizar a revolução socialista e quebrar a ditadura burguesa pela força. A terra e os meios de produção tornaram-se propriedade pública, a máquina opressiva do Estado do regime tsarista foi sistematicamente desmantelada e substituída por um Estado de operários e camponeses.

Apoiados pelos exércitos intervencionistas britânicos, franceses e checos e outras tropas estrangeiras, as classes reaccionárias e as forças tsaristas desencadearam o Terror Branco contra o socialismo. Praticamente sozinhos contra o resto do mundo, os bolcheviquesconseguiram trazer para o lado da classe operária as amplas massas de camponeses e organizaram o terror em massa contra os seus inimigos. Neste baptismo de fogo, o bolchevismo criou raízes firmes nas classes do campesinato e entre os pobres. Sem este decidido Terror Vermelho, o socialismo não teria triunfado na Rússia e o Terror Branco teria restabelecido o aparelho opressivo, que mantém os operários e povos inteiros sob o seu jugo. Teria reinstalado esse baluarte da reacção mundial, que constituía o tsarismo.

Foi Lénine que elaborou os princípios essenciais do desenvolvimento socialista sob a ditadura do proletariado. Todavia, quando morreu em 1924, o seu trabalho tinha apenas começado.

Entre 1924 e 1953, o Partido Bolchevique, sob a liderança do camarada Stáline, levou a cabo a parte essencial dos planos de Lénine. Com um heroísmo popular sem precedentes, a União Soviética construiu o sistema socialista e defendeu-o da agressão fascista. Em geral, o Partido Bolchevique e o povo soviético, sob a liderança de Stáline, conseguiram realizar as tarefas colocadas por Lénine.

O Partido Bolchevique realizou a industrialização socialista entre 1921 e 1941, o que permitiu responder às necessidades básicas dos trabalhadores e adiar o ataque dos exércitos fascistas.

A colectivização da agricultura contrariou eficazmente a tendência espontânea para a diferenciação de classes no campo, em particular o desenvolvimento dos kulaques, a classe dos proprietários fundiários ricos, que seriam uma ameaça fatal para o desenvolvimento do socialismo na URSS. Graças à colectivização, o sistema foi capaz de alimentar a população urbana em rápida expansão.

Com a organização da revolução cultural, a União Soviética conseguiu, em apenas 15 anos, que dezenas de milhões de camponeses analfabetos, que viviam em condições medievais, entrassem no século XX. Este esforço produziu um exército de técnicos e especialistas bem qualificados e politicamente conscientes, que desempenharam um importante papel na guerra antifascista.

Desde os anos 20 até aos anos 50, o Partido Bolchevique contribuiu decisivamente para o reforço do movimento comunista internacional. A simples existência da União Soviética tornou possíveis revoluções socialistas na Europa Oriental e a revolução na China, que foi uma vitória com ressonância mundial. O êxito da reconstrução socialista na União Soviética, combinado com uma política externa que promovia a independência e a paz, deu um forte impulso ao movimento de descolonização na África e na Ásia.

Aqui chegados é importante reflectir um pouco sobre certos aspectos da luta liderada por Stáline, que continua a provocar intensa controvérsia. Referimo-nos à colectivização e às purgas.

Na União Soviética, em 1928, sete por cento dos camponeses não tinham terra, 35 por cento eram camponeses pobres, 53 por cento podiam classificar-se como relativamente abastados e cinco por cento eram agricultores ricos, os chamados kulaques, que controlavam 20 por cento dos cereais comercializados. O curso natural da situação reforçou esta classe de ricos agricultores, dado que, através do seu crescente controlo sobre os stocks de cereais colocados no mercado, podiam privar de alimentos as cidades e sabotar a industrialização socialista. A modernização da agricultura medieval, em que predominavam ainda os arados de madeira e a tracção animal, era uma necessidade absoluta para o êxito da industrialização. Se a mecanização fosse introduzida no campo, mediante os meios de capital fornecidos pela classe rica dos kulaques, a exploração, a miséria e a fome teriam sido uma consequência inevitável para a maioria dos camponeses. Além disso, uma classe burguesa agrária revigorada teria indubitavelmente atacado o socialismo, assim que se sentisse capaz disso. Para defender o poder dos trabalhadores não havia outra via senão a colectivização. Neste processo libertou-se o ódio reprimido durante anos pelos camponeses pobres contra a classe rica dos kulaques. Esta luta de classes organizada pelos camponeses pobres e médios demonstrou ser o facto decisivo na colectivização. Como o Partido Bolchevique não dispunha mais do que 200 mil membros no campo, o seu impacto permaneceu limitado naqueles primeiros anos. O processo de colectivização decorreu à medida que a guerra civil eclodia de novo no campo. Os ricos proprietários fundiários assassinaram um grande número de quadros e líderes camponeses e abateram parte do gado para sabotar a economia colectiva. A repressão conduzida pelos camponeses pobres contra os kulaques foi em grande parte uma reacção a séculos de opressão e de humilhação que se tornou incontrolável.

As purgas organizadas pelo Partido Bolchevique, entre 1937 e 1938, justificavam-se tendo em conta a aproximação da guerra. No entanto, estas purgas foram acompanhadas de graves erros, na sua maior parte inevitáveis dada a complexidade da luta. Stáline sabia bem que a deterioração da situação internacional e a possibilidade crescente de uma guerra de agressão contra a União Soviética lançava uma luz particular sobre a luta política no interior do Partido. Tendo em conta a aproximação do conflito mundial, suspeitou justamente que a Alemanha nazi e outras potências imperialistas estavam a enviar espiões, sabotadores e outros agentes para o país. Entre as classes burguesas derrotadas, dentro e fora da União Soviética, havia bastantes candidatos ciosos de vingança para ajudar a causa imperialista.Oportunistas e derrotistas no interior do Partido, impressionados pela «superioridade» do sistema imperialista, podiam tentar estabelecer contacto com o inimigo. Stáline organizou uma vasta mobilização do povo em apoio à purga. A depuração do movimento visava dois tipos de adversários do socialismo. O primeiro tipo eram elementos das antigas classes opressoras, que desejavam vingar-se da sua derrota, capitulacionistas e elementos pró-germânicos, que esperavam que o ataque nazi os viesse «libertar». O segundo tipo de inimigos que o poder popular combateu eram burocratas e tecnocratas, que se tinham afastado das massas e se estavam rapidamente a transformar-se numa nova burguesia, pronta a submeter-se ao mais poderoso, ou seja, à Alemanha de Hitler, com vista a defender as sua posições. Assim, a purga do movimento socialista era uma necessidade política absoluta. Nas condições da época, isso também significava que muitos erros seriam seguramente cometidos. Por vezes os burocratas conseguiam desviar o escrutínio para pessoas inocentes, com o fim de defenderem as suas posições. Oportunistas faziam acusações falsas para subirem nas suas carreiras partidárias. Agentes inimigos infiltrados no Partido fabricavam «provas» para incriminar comunistas leais, e comunistas honestos cometeram excessos esquerdistas. Em geral, no entanto, as purgas atingiram os seus objectivos. Isto ficou demonstrado na guerra antifascista, quando, contrariamente à situação de outros países, houve muito poucos colaboracionistas que apoiaram os nazis na União Soviética. Na Europa Ocidental, comoStáline previra, muitos oportunistas juntaram-se às fileiras das forças nazis ocupantes. Proeminentes figuras dos sociais- democratas belgas aclamaram publicamente Hitler como um libertador. Em França, a maioria dos sociais-democratas votou a favor da atribuição de plenos poderes ao regime colaboracionista de Pétain. Se tivermos em mente estes factos, não surpreende que as facções burguesas denunciem unanimemente as «purgas criminosas» organizadas pelo Partido Bolchevique. O poder estabelecido, a maior parte dos barões da indústria, os banqueiros, quadros de partidos nacionalistas, partidos cristãos, liberais e sociais-democratas, todos colaboraram com os nazis enquanto a sua vitória parecia assegurada.

Perante a recente restauração completa do capitalismo na URSS sob Gorbatchov, podemos agora compreender melhor alguns aspectos das purgas de 1937-38. Stáline afirmou que os trotskistas, os partidários de Bukhárine e os nacionalistas burgueses defendiam uma política burguesa e, de facto, os interesses das classes opressoras derrotadas. Com as suas acções ajudaram estas classes e outros grupos anti-socialistas a reagrupar forças. Khruchov iniciou o processo afirmando que esta análise era errónea e tinha levado a actos arbitrários. As teses nacionalistas e as ideias de Trótski e de Bukhárine começaram a reaparecer nas políticas do PCUS. Finalmente, Gorbatchovreabilitou os trotskistas, os bukharinistas e os nacionalistas burgueses como «gente boa» e «vítimas do stalinismo». Dois anos mais tarde, a restauração do capitalismo tornou-se um facto. A história provou que visão de Stáline sobre esta questão estava inteiramente correcta.

Khruchov: a primeira ruptura com a revolução socialista

Recordemos agora quatro teses essenciais apresentadas há 30 anos por Khruchov, que nos permitirão compreender melhor os acontecimentos recentes na URSS.

Primeira tese: Na União Soviética o poder deixou de ser da classe operária. O Estado da classe operária foi substituído pelo Estado de todo o povo, um Estado para todas as classes. «Assegurada a vitória total e definitiva do socialismo — a primeira fase do comunismo — e a transição da sociedade para a construção em grande escala do comunismo, a ditadura do proletariado cumpriu a sua missão histórica e do ponto de vista dos objectivos do desenvolvimento interno deixou de ser necessária na URSS. O Estado, que surgiu como Estado da ditadura do proletariado, transformou-se na actual nova etapa no Estado de todo do povo, num órgão que expressa os interesses e a vontade de todo o povo.»(1)

Esta ideia conduziu ao abandono da luta contra as tendências burguesas e reaccionárias sob influência do imperialismo. Igualmente tornou possível uma espécie de tranquilidade para a burocracia que procurava separar-se dos trabalhadores. Num «Estado de todo o povo»,esta burocracia podia instalar-se confortavelmente, adquirir privilégios e obter benefícios pessoais através dos cargos políticos e económicos. Afinal de contas, já não podiam desenvolver-se contradições de classe entre ela e as massas laboriosas, pelo menos assim foi declarado.

Segunda tese: Khruchov anunciou, em 1962, que a União Soviética alcançaria o comunismo em 1980 e que, nessa altura, teria ultrapassado os Estados Unidos. «Não demorará muito até que a União Soviética ultrapasse os Estados Unidos no campo económico. Na competição pacífica com os Estados Unidos, a União Soviética alcançará uma vitória histórica de importância universal (...) Teremos nós tudo o que é preciso para criar a base material e técnica do comunismo no espaço de duas décadas? Sim, camaradas, temos tudo o que precisamos. »(2) Assim, actualmente, a União Soviética deveria estar a gozar a eterna felicidade do comunismo totalmente desenvolvido, a abundância para todos, e tudo isto desde 1980. Na realidade, estas promessas de um futuro ideal serviram para acalmar as massas, nas quais as ideias da revolução, do socialismo e do comunismo eram muito populares, e para consolidar as posições dos burocratas e tecnocratas no poder.

Terceira tese de Khruchov: Declarou que o capitalismo entraria em colapso em todo o mundo à medida que o socialismo marchava para a vitória final. O rápido progresso da União Soviética atrairia a simpatia dos trabalhadores em todo o mundo, enquanto o capitalismo, gravemente enfraquecido, não seria capaz de resistir. Explicava-se assim que seria possível tomar o poder na Europa e no resto do mundo por via pacífica e parlamentar. «Na sequência da vitória do socialismo na União Soviética, surgiram condições mais propícias para a vitória do socialismo noutros países. O vasto campo de países socialistas, cuja população já ultrapassa os 900 milhões de habitantes, continua a crescer e a reforçar-se. As ideias do socialismo criaram profundas raízes no espírito em toda a classe operária. O capitalismo tornou-se muito mais fraco. Os partidos burgueses de direita e os seus governos fracassam cada vez mais». Isto cria a possibilidade de «conquistar uma maioria sólida no parlamento e transformar este parlamento num instrumento de verdadeiro poder popular.»(3) Estas posições, que embelezam a sociedade imperialista e a ditadura da burguesia, constituem uma mudança radical de política.

O quarto ponto de Khruchov refere-se à atitude para com os Estados Unidos. A superpotência imperialista havia sido até então considerada como o polícia mundial número um, intervindo e perseguindo agressivamente os seus interesses nos cinco continentes. Entretanto, Khruchov declarou: «Queremos ser amigos dos Estados Unidos e cooperar com eles na luta pela paz e segurança dos povos. Comprometemo-nos a alcançar este fim com boas intenções e sem propósitos ocultos». Isto foi dito num momento em que as nações do Terceiro Mundo, na sua maioria, seja na Ásia, África ou América do Sul, estavam envolvidas num luta terrível contra o imperialismo americano, que queria submetê-las ao domínio neocolonial.

Bréjnev: a degeneração acelera-se

Depois chegou Bréjnev. Alguns comunistas pensaram que ele se tinha distanciado pessoalmente dos erros mais flagrantes de Khruchov. A análise dos quatro congressos realizados sob a sua presidência não confirma esta opinião.

Nikita Khruchov tinha proclamado três temas chave: o fim da luta de classes, um Estado de todo o povo, a defesa da burocracia privilegiada.

Bréjnev continuou por este caminho. Apresentou ao público imagens brilhantes de uma sociedade sem classes, que ocultava uma crescente diferenciação de classes e estratos sociais. Aplaudiu «a eliminação do fosso entre classes e grupos sociais». «A nossa intelligentsia considera ser seu dever dedicar toda a sua energia criativa à construção da sociedade comunista.» Dizia isto apesar de nesse momento uma parte importante desta intelligentsia já estar completamente despolitizada e fascinada pelo Ocidente. Nos sonhos de Bréjnev, não eram só as diferenças de classe que desapareciam, mas também as distinções entre nacionalidades. Bréjnev inventou a noção de «povo soviético», segundo a qual as classes e as nacionalidades teriam desaparecido sem deixar rasto. «No nosso país temos sido testemunhas da formação de uma nova comunidade histórica: o povo soviético. Novas relações harmoniosas entre classes, grupos sociais e entre nações e nacionalidades surgiram do trabalho comum.» Com Bréjnev, o marxismo-leninismo transformou-se de ciência da luta de classes em ideologia. Por « ideologia» entendemos aqui a falsa consciência que representa os interesses de um grupo privilegiado separado dos trabalhadores. Nunca naqueles quatro congressos, Bréjnev abordou a realidade viva das diferentes classes, estratos sociais e forças políticas, com vista a definir algumas orientações de luta ou de mobilização.

Sob o regime de Bréjnev, a elite burocrática entrincheirou-se quase completamente. O brejnevismo assegurou o conforto à nova classe burguesa. Um dos partidários de Khruchov, Jaurés Medvédiev, escreveu: «Na época de Stáline, os dirigentes do Partido sentiam mais a potencial ameaça do aparelho de segurança do que os cidadãos comuns.» E acrescenta: «Bréjnev não era um verdadeiro líder em 1964. Era mais o representante da burocracia, que procurava uma vida fácil com privilégios crescentes e garantidos. O seu eleitorado era a elite burocrática. Neste aspecto, Bréjnev também mudou o sistema porque, mais do que qualquer outro, criou as condições propícias para a expansão de uma autêntica elite privilegiada, uma autêntica nomenklatura.»

Com uma vida confortável assegurada, os membros da elite não se contentaram com os seus rendimentos legais. «A estabilidade garantida à elite teve um outro efeito negativo. A corrupção dos funcionários desenvolveu-se rapidamente em todos os níveis. A disciplina do partido diminuiu, o nepotismo tornou-se uma prática corrente e o prestígio ideológico e administrativo do Partido foi conspurcado. A grande corrupção dos altos funcionários soviéticos tornou-se numa espécie de “doença profissional”. A distinção entre propriedade pública e privada deixou de ser respeitada.»

Longe de denunciar os erros de Khruchov, Bréjnev seguiu pelo mesmo caminho desastroso, tornando ainda pior o desvio revisionista.

Além disso, Bréjnev imprimiu uma orientação militarista a toda a política soviética. Contava quase exclusivamente com a expansão do poder militar soviético para defender e ampliar as posições da União Soviética. «O reforço do Estado soviético pressupõe a expansão máxima da capacidade de defesa da nossa pátria». Congratulou-se com «o equilíbrio militar e estratégico atingido pela URSS e pelos Estados Unidos.» O caminho para a « paridade militar e nuclear» com o complexo militar-industrial ocidental não era praticável e era destrutivo para um país socialista. Estando já no Museu da História a mobilização das massas, a continuação da luta de classes e a educação revolucionária, Bréjnev optou por um conceito militar digno dos seus adversários. Tudo aquilo que constituía a força de defesa do socialismo na época de Stáline desapareceu. O esforço militar desproporcionado minou por completo a economia civil da União Soviética.

Efectivamente, através dos efeitos combinados do revisionismo e do hegemonismo, Bréjnev arruinou o movimento comunista internacional. Em 1966 «excomungou» a China e a Albânia, acusando estes países de «stalinismo» e de «desvios esquerdistas», porque tinham manifestado a sua desaprovação ao revisionismo de Khruchov. Três anos mais tarde, Bréjnev transformou a política de confrontação com a China num conflito armado.

Intoxicados com as «novas ideias» de Khruchov, numerosos partidos comunistas inclinaram-se para a reconciliação com a burguesia nos seus próprios países, provocando a ulterior desintegração do movimento comunista internacional.

Nos países socialistas da Europa de Leste, Dubcek e outros da sua laia propuseram a liquidação dos últimos vestígios da ditadura do proletariado e a introdução do sistema social-democrata burguês. Os partidos que recusaram aceitar o modelo soviético como a única referência e que se opuseram aos ditames e à intervenção soviética foram marginalizados por Bréjnev pelo seu «nacionalismo» e «anti-sovietismo». Finalmente só restaram aqueles que mostravam uma lealdade incondicional à URSS. Bréjnev chamou- lhes «autênticos marxistas-leninistas». Dado que o revisionismo corroía as bases do socialismo na Europa de Leste, Bréjnev teve de recorrer ao controlo militar para manter a aparência de unidade no seu campo. Proclamou então: «As fronteiras da comunidade socialista são invioláveis e inexpugnáveis. A irmandade dos países socialistas unidos é a melhor defesa contra as forças que tentam atacar e enfraquecer o campo socialista. Sob qualquer ponto de vista, a União Soviética demonstra deste modo a sua lealdade ao internacionalismo proletário.» Mas a sua interferência e tendência crescente para o controlo directo desgastaram este socialismo enfermo. A teoria de «defender a União Soviética como a melhor protecção do socialismo» era um fiasco. A melhor defesa do socialismo será sempre a mobilização dos trabalhadores, o desenvolvimento da sua consciência, o seu esforço independente para defender o seu poder. Nesta base, um país socialista pode pedir ajuda a outra nação amiga, mas apenas em circunstâncias excepcionais e por um período de tempo limitado. Assim fez por exemplo a República Democrática da Coreia quando foi atacada pelo exército norte-americano em 1950.

A «revolução mundial», tal como era vista por Bréjnev, consistia essencialmente no alargamento da influência soviética a todo o globo, seguindo o modelo da Europa de Leste. Bréjnev negou que o socialismo mundial nasceria da mistura de diferentes experiências revolucionárias nacionais. Não reconheceu o facto de que os partidos revolucionários têm de estar ancorados na realidade específica do seu país, que devem mobilizar as amplas massas para a luta revolucionária e que têm de esmagar o imperialismo e a reacção local. Bréjnevrejeitou a ideia de que só as massas populares armadas podem constituir um baluarte eficaz contra o imperialismo e a reacção. Continuou a enganar os povos do Terceiro Mundo apresentando o Exército Soviético como o garante da sua liberdade. Bréjnev: «O socialismo é a melhor defesa dos povos que lutam pela sua libertação e independência.» Sob a liderança de Bréjnev, a União Soviética apoiou reformistas (Chile), putchistas e aventureiros (Etiópia, Afeganistão), bem como militaristas (Egipto, Síria), os quais apresentava invariavelmente como artesãos da revolução socialista. Como a União Soviética estava do « seu lado» e o seu exército «constituía a melhor defesa da sua liberdade», Bréjnev interveio em vários países para manter as forças reformistas pró-soviéticas no poder. Esta política aventureira atingiu o auge com as invasões do Kampuchea e do Afeganistão.

Gorbatchov: a restauração do capitalismo

A melhor análise das realidades existentes nos países socialistas durante o período entre 1956 e 1990 continua a ser a que foi feita, nos anos 60, pelo camarada Mao Tsé-Tung. Hoje esta análise pode ser definida como mais precisão e corrigida em alguns pontos, à luz dos recentes acontecimentos ocorridos na Europa de Leste, na URSS e na China.

Mao via assim o futuro do socialismo:
«A sociedade socialista cobre um período histórico extremamente largo. Durante todo este período a luta de classes entre a burguesia e o proletariado continua. A questão sobre qual sistema sairá vitorioso, o capitalismo ou o a via socialista, permanecerá em aberto durante este período. Isto significa que o perigo da restauração do capitalismo se mantém.» «A revolução socialista realizada exclusivamente no campo económico (no que respeita à propriedade dos meios de produção) não é suficiente e não garante a estabilidade. Tem de haver também uma revolução socialista completa nos campos da política e da ideologia. No domínio da política e da ideologia, a luta para decidir a disputa entre capitalismo e socialismo prolongar-se-á por muito tempo. Algumas décadas certamente que não serão suficientes; cem, talvez centenas de anos serão necessários para a vitória final. Durante este período histórico do socialismo temos de manter a ditadura do proletariado e levar a revolução socialista até ao fim, se quisermos prevenir a restauração do capitalismo. Temos de empreender a reconstrução socialista de modo a criar as condições necessárias para a passagem ao comunismo.» «Antes de Khruchov chegar ao poder, as actividades dos novos elementos burgueses eram limitadas e em grande parte reprimidas. Mas desde que Khruchov chegou ao poder, e gradualmente tomou o controlo da direcção do Partido e do Estado, esses novos elementos burgueses começaram a aparecer em posições dominantes no coração do Partido e do governo, no campo da economia, assim como no sector da cultura e outros. Tornaram-se uma classe privilegiada na sociedade soviética.» «Mesmo sob o domínio de Khruchov e da sua facção, a massa dos membros do PCUS e do povo seguiu as gloriosas tradições revolucionárias cultivadas por Lénine e por Stáline, aderindo ao socialismo e aspirando avançar para o comunismo. Um grande número de quadros soviéticos continua a apoiar as posições revolucionárias do proletariado na via para o socialismo. Estão firmemente contra o revisionismo de Khruchov.» «A luta de classes, a luta pela produção e a experimentação científica são os três movimentos revolucionários principais na construção de uma nação socialista poderosa. Estes movimentos representam uma garantia segura, que permite aos comunistas combater a burocracia, armarem-se eles próprios contra o revisionismo e dogmatismo e manterem-se invencíveis para sempre. Constituem a garantia futura que permitirá ao proletariado unir as amplas massas laboriosas e praticar uma ditadura democrática. Vamos supor que, na ausência destes movimentos, os latifundiários, os agrários ricos, os contra-revolucionários, os elementos obscuros e outras criaturas de diversos tipos terão rédea solta. Suponhamos ainda que, em certos casos, os nossos quadros fecham os olhos e já não distinguem entre o inimigo e nós próprios e que colaboram com o inimigo e se deixam corromper e desmoralizar. Se os nossos quadros foram atraídos desta maneira para o campo do inimigo ou se o inimigo logrou infiltrar-se nas nossas fileiras e se muitos dos nossos operários, camponeses e intelectuais ficaram indefesos perante as tácticas brutais do inimigo, se estas suposições se tornarem realidade, então num curto espaço de tempo, talvez alguns anos ou um década, terá lugar inevitavelmente uma restauração contra-revolucionária à escala nacional. Neste caso não demorará muito até o Partido marxista-leninista se tornar num partido revisionista ou fascista e toda a China mudará de cor.»

No país de Lénine, Khruchov tomou o poder em 1956, depois de três anos de hábeis manobras e complexos preparativos. Depois de assumir o controlo, teve de consolidar o seu poder dentro do partido eliminando a maioria do Bureau Político, no decurso da luta contra o«grupo antipartido de Mólotov, Malenkov e Kaganóvitch». Com ataques políticos e ideológicos contra os princípios essenciais da construção do socialismo, Khruchov prosseguiu a alteração da orientação fundamental do PCUS. Isto serviu de pretexto para permitir que os quadros burocráticos e oportunistas adquirissem privilégios e se desenvolvessem numa classe social distinta. Já depois do afastamento deKhruchov, alguns quadros destacados fizeram tentativas para regressar aos princípios marxistas-leninistas. A base da sociedade socialismo ainda não tinha sido destruída e milhões de comunistas prosseguiam o seu trabalho revolucionário. No entanto, durante o período deBréjnev, a classe dirigente continuou a acumular privilégios e a enriquecer por vias ilegais, vegetando como parasitas numa base económica e política que não lhes pertencia. Os verdadeiros comunistas continuavam a defender um conjunto de conquistas da classe operária. As leis socialistas, medidas favoráveis aos trabalhadores e a ideologia marxista-leninista continuavam a exercer uma grande influência em toda a sociedade. Mas a classe dirigente reduziu o marxismo a uma série de fórmulas feitas e importou todo o tipo de teorias ideológicas do Ocidente. Enquanto o pensamento socialista era mutilado, ideologias burguesas ultrapassadas ganhavam um novo impulso. Num número crescente de sectores, os novos elementos burgueses transformaram os meios de produção e a propriedade do Estado em propriedade privada sua. Permitiam o alargamento do sector informal e faziam acordos secretos com os novos capitalistas, cujo surgimento favoreceram.

No final da era de Bréjnev, uma nova classe capitalista tinha-se consolidado e perseguia os seus próprios interesses, opostos aos interesses dos trabalhadores. Esta nova classe, agora totalmente desenvolvida, tentava cada vez mais instalar abertamente a sua própria ditadura. Para isso tinha de desenvencilhar o país das últimas influências e aparências do marxismo-leninismo. Em Gorbatchov encontrou uma bandeira, na glasnost um meio de expressão e na perestroika a legitimação dos seus projectos restauracionistas. Depois de um período de paralisia, conformismo e militarismo, sob a liderança de Bréjnev, tivemos a impressão de que as coisas estavam a mudar e que alguns dos erros mais graves de Bréjnev estavam a ser revelados. Mas depressa se tornou claro que Gorbatchov criticava Bréjnev a partir do ponto de vista dos liberais e pró-ocidentais. Gorbatchov apenas aprofundou o revisionismo de Khruchov e de Bréjnev, o que conduziu à renúncia total e aberta dos princípios marxistas-leninistas.

A União Soviética teve dois pontos de ruptura com o socialismo: o relatório de Khruchov, em 1956, que continha a rejeição de alguns princípios essenciais do leninismo, e a perestroika de Gorbatchov, que preparou o terreno para o restabelecimento da economia de mercado em 1990.

O revisionismo de Khruchov abriu o período de transição do socialismo para o capitalismo. Os velhos e novos elementos burgueses precisaram de 30 anos para ganhar força suficiente para tomar e consolidar as suas posições na política, no campo da ideologia e na economia. O processo de degeneração, iniciado em 1956, precisou de três décadas para acabar com o socialismo.

Os ataques contra o legado de Stáline desempenharam um papel importante ao longo de todo este processo de degeneração. Na União Soviética, os revisionistas trabalharam 35 anos para demolir Stáline. Uma vez Stáline demolido, Lénine seguiu-se quase de imediato.Khruchov incitou toda a gente contra Stáline, e Gorbatchov, durante os cinco anos da sua glasnost, prosseguiu a cruzada contra stalinismo. Alguém terá reparado que a demolição das estátuas de Lénine não foi precedida de nenhuma campanha política contra a sua obra? A campanha contra Stáline foi suficiente. Dado que todas as ideias políticas de Stáline foram atacadas, denegridas e arrasadas, era simples concluir, ao mesmo tempo, que as ideias de Lénine também tinham sido destruídas. Khruchov iniciou a sua missão destruidora, sublinhando que criticava «o culto da personalidade» de Stáline, com vista a restabelecer o leninismo na sua forma pura e melhorar o sistema comunista. Gorbatchov fez a mesma promessa enganosa para desorientar as forças de esquerda. Hoje podemos ver o óbvio: usando o pretexto de um «regresso a Lénine», Gorbatchov convidou o tsar, e usando o pretexto de melhorar o socialismo, implantou o capitalismo selvagem.

II - As lições históricas da experiência da União Soviética e dos países do Leste da Europa

A liderança do Partido Comunista é decisiva na construção do socialismo

No decurso do desenvolvimento da luta de classes temos visto, em muitos países, que todos partidos burgueses e pequeno-burgueses tentam contrariar as forças revolucionárias. Em países tão diferentes como a Rússia, China, Cuba ou a República Democrática Alemã, a revolução acabou por triunfar sob a direcção do Partido Comunista, o único partido verdadeiramente revolucionário. Para a vitória da revolução e a construção do socialismo, é necessária a direcção política justa do Partido Comunista, aplicando criativamente os princípios do socialismo científico, de acordo com a realidade de cada país. Fora do Partido Comunista não pode haver qualquer futuro para o socialismo!

Para a burguesia, que vive sob o socialismo, a questão chave é: Como alargar a democracia? Para os burgueses é muito importante criar um espaço legal para os seus velhos partidos destroçados durante a revolução. Para o proletariado e os trabalhadores a pergunta chave é a seguinte: Como assegurar que o Partido Comunista mantém o seu espírito revolucionário, a sua linha socialista e a sua ligação às massas? Se o Partido cometer demasiados erros graves, a revolução será derrotada ou a construção do socialismo entrará numa crise que pode ser fatal.

O revisionismo no Partido Comunista representa a influência e a pressão da burguesia e do imperialismo. Se os quadros agem de uma forma burocrática, perdem o contacto com as massas, se apropriam de vantagens e privilégios e se comportam como tecnocratas sem consciência revolucionária, sucumbindo à corrupção, então, inevitavelmente, desenvolve-se uma tendência oportunista no Partido favorável ao retorno à velha ordem, baseada na sociedade de classes e na exploração do homem pelo homem.

No socialismo, a luta de classes tem de ser prosseguida para consolidar a ditadura do proletariado

Os trabalhadores têm de estar ideológica e praticamente preparados para travar a batalha contra as forças anti-socialistas, desenvolvida pelos inimigos de classe e encorajada pela intervenção e subversão organizada pelo imperialismo.

Enquanto existir, o imperialismo nunca deixará de preparar o seu regresso aos países socialistas. Primeiro tentará ocupar o campo político-ideológico, apoiando forças sinistras hostis ao Partido Comunista, exigindo liberdade para a imprensa burguesa, encorajando os sindicatos a agir independentemente do Partido Comunista e criando partidos legais e ilegais hostis aos comunistas.

A luta para eliminar as bases internas e externas para a restauração do capitalismo é uma luta de várias gerações. Durante um longo período histórico, a ditadura das massas laboriosas tem de ser mantida contra os velhos e os novos exploradores. Se a ditadura das massas laboriosas é relaxada, a burguesia renascerá e iniciará a batalha para a restauração da sua própria ditadura.

Na União Soviética formos testemunhas disso: mesmo passados 70 anos da sua derrota, os partidários do tsarismo, os feudalistas, os burgueses e kulaques tinham conseguido manter, e mais tarde alargar, a sua influência ideológica e política numa parte das massas.

Tendo em conta o desenvolvimento das forças produtivas e o aumento da produção em geral, é possível que um país socialista seja obrigado a aceitar, durante um período de tempo significativo, a existência de um sector de pequenos capitalistas e empresários privados e mesmo investimentos capitalistas estrangeiros. Será igualmente necessário aceitar várias formas de relações comerciais, financeiras e científicas com o mundo imperialista. Todos estes factores tornam o reforço do trabalho ideológico e a manutenção da ditadura do proletariado uma necessidade absoluta.

No socialismo, o Partido tem de utilizar a ciência marxista para analisar de um modo materialista a diferenciação social que se desenvolve na sociedade. Na União Soviética, os revisionistas afirmaram que as camadas exploradoras já não existiam e que os operários, camponeses e intelectuais tinham o mesmo interesse em defender o socialismo. Fomentando este ponto de vista, destruíram a vigilância de classe e permitiram o desenvolvimento da burocracia, do oportunismo e da tecnocracia nas fileiras dos quadros e intelectuais. Deste modo, uma nova classe surgiu no coração da sociedade socialista.

O Partido Comunista é o instrumento essencial para a correcta aplicação da ditadura do proletariado. Se o Partido for tomado por tendências oportunistas, o coração do socialismo será infectado. O Partido tem de permanecer uma organização de luta política, educando e mobilizando os trabalhadores para a consolidação do seu poder. O exército socialista e a milícia popular têm de estar prontos para responder a eventuais acções de forças hostis e agressões das forças imperialistas em geral.

O socialismo consolida-se através da democracia socialista

Se o Partido Comunista actuar de maneira verdadeiramente revolucionária, e a luta de classes for mantida correctamente contra os inimigos do socialismo, a democracia socialista tem um amplo espaço para se desenvolver.

O modo como a democracia socialista se desenvolve depende, naturalmente, da situação nacional e internacional da luta de classes. O Partido Comunista tem de se esforçar para aperfeiçoar e alargar continuamente a democracia socialista. Um dos aspectos mais fundamentais desta democracia é a possibilidade das massas laboriosas poderem observar e julgar as acções e posições dos membros e quadros do Partido e dos funcionários do Estado socialista.

Para desenvolver esta democracia, o governo socialista tem de assegurar uma educação geral científica de alta qualidade, treino e educação política a todos os cidadãos.

O Partido Comunista tem de criar as condições para a participação activa dos trabalhadores e das suas organizações representativas de massas na governação nos assuntos locais e na governação regional e nacional. A lei tem de estabelecer os direitos e as obrigações dos cidadãos no quadro da sociedade socialista.

A revolução científica e tecnológica é essencial para demonstrar a superioridade do socialismo

O desenvolvimento da ciência e da tecnologia tem grande importância na luta global entre socialismo e capitalismo. Nestes campos, apoiando-se em cinco séculos de pilhagem em todo o mundo, o imperialismo continua a dispor de grande vantagem. O socialismo não poderá nunca alicerçar-se sem adquirir o conhecimento científico mais avançado. A revolução cultural, científica e tecnológica deve ser firmemente estimulada sob a direcção da ideologia socialista. Um país socialista tem de fazer todos os esforços para assimilar as descobertas científicas e tecnológicas e o uso das técnicas desenvolvidas no mundo capitalista. Não obstante, é preciso ter sempre em conta que todas estas descobertas foram feitas no contexto da estrutura social burguesa baseada na exploração dos trabalhadores. Com frequência, pertencendo à burguesia e vivendo em condições privilegiadas a maioria dos cientistas, engenheiros e gestores do mundo capitalista mantêm uma visão burguesa ou mesmo reaccionária do mundo. Esta ideologia reflecte- se inclusivamente na concepção e aplicação de algumas das suas descobertas científicas. A assimilação da ciência e da tecnologia do mundo capitalista tem de ser feita sob a direcção do Partido e a partir de um ponto de vista socialista. A educação marxista-leninista e a luta política contra as influências burguesas têm de acompanhar este processo de assimilação. Este é um aspecto importante da luta de classes sob a ditadura do proletariado. Efectivamente, a experiência da União Soviética demonstra o papel contra-revolucionário desempenhado por numerosos cientistas e outras intelectuais altamente prestigiados, que se comprometeram inteiramente com a concepção burguesa do mundo.

O Partido tem de manter o marxismo-leninismo e o internacionalismo proletário adoptar uma posição independente

Há aqui dois aspectos de uma contradição, cujas relações e oposições devemos discernir com clareza.

Acima de tudo é essencial a linha marxista-leninista e uma prática consistente do internacionalismo proletário. A classe operária é eminentemente uma classe internacionalista. A sua posição em todas as sociedades exploradoras é fundamentalmente a mesma, e as leis básicas que podem ser deduzidas da luta revolucionária são, em sentido lato, comuns a todos os países.

Beneficiando de uma visão retrospectiva, podemos ver claramente que certos oportunistas recusaram estas posições básicas, invocando injustamente o princípio de uma «posição independente». Em 1948, Tito defendeu «o direito de seguir na Jugoslávia uma via específica para o socialismo». Sob este pretexto apregoou de facto uma política de reconciliação e de oposição à ditadura do proletariado. A recente catástrofe na Jugoslávia, devastada por guerras civis de tipo nacional e fascista, foi a última consequência desta posição de Tito.

Durante os anos 70 e 80, o Partido Comunista Italiano também fez grande alarido sobre a sua «independência», elogiando os méritos da «via italiana para o socialismo». Sob esta bandeira desfizeram-se dos últimos princípios do marxismo-leninismo, romperam todos os laços com a União Soviética e finalmente entraram no campo das posições verdadeiramente sociais-democratas.

Se um Partido Comunista faz uma viragem numa direcção oportunista, a intervenção de outros partidos comunistas nos assuntos internos desse Partido não pode resolver o problema, antes pelo contrário. Não obstante, o internacionalismo proletário significa que os outros partidos, durante as suas discussões com o Partido em causa, devem travar uma luta de princípios contra o oportunismo e o revisionismo. O partido criticado pode, com toda a independência, aceitar ou recusar essa análise e observações, uma vez que continuará a ser o único responsável pela sua linha política perante a classe operária e o povo do seu país.

Um problema de natureza completamente diferente surgiu nos países socialistas do Leste da Europa. Em 1945, os partidos comunistas destes países eram muito fracos, mas com a ajuda do Partido Bolchevique, travaram a luta de classes, implantaram a ditadura do proletariado e lançaram as fundações de uma economia socialista independente. Após a morte de Stáline, Khruchov interveio nos seus assuntos internos para afastar os quadros revolucionários que foram rotulados de «stalinistas». Os oportunistas que posteriormente chegaram ao poder aceitaram todas as teses antimarxistas de Khruchov. A maioria não só liquidou o marxismo-leninismo, mas também vendeu barato a sua independência, seguindo todas as voltas e reviravoltas da política soviética. O Partido Comunista Romeno, embora tenha também secundado as posições advogadas por Khruchov, manteve no entanto uma certa independência. A rejeição tanto do marxismo-leninismo como do princípio da independência foi a causa do fracasso do socialismo nos países do Leste da Europa.

Na época, todavia, um outro pequeno país socialista mostrou uma via alternativa. O Partido do Trabalho da Coreia manteve sempre contactos com os partidos do Leste da Europa, que poderiam ter beneficiado da experiência coreana. Na verdade, mesmo antes de o revisionista Khruchov ter tomado o poder, Kim Il Sung afirmou o seguinte:

«O que é que nós estamos a fazer? Não estamos a fazer a revolução num país estrangeiro, mas sim a revolução na Coreia. Todo o trabalho ideológico tem de se subordinar aos interesses da revolução coreana. Se estudamos a história do PCUS ou da revolução chinesa, ou se estudamos os princípios universais do marxismo-leninismo, apenas o fazemos com vista a realizar correctamente a nossa revolução.» «Devemos estudar cuidadosamente a nossa própria realidade e aprender a conhecê-la muito bem. De contrário não seremos capazes de resolver os novos problemas, com que nos confrontaremos, de uma forma criativa, que esteja em consonância com a nossa realidade.» «Vários camaradas bebem de um trago o marxismo-leninismo em vez de o digerir e aprender a utilizá-lo. É perfeitamente lógico que não possam empreender iniciativas revolucionárias. Devemos reger-nos inexoravelmente pelos princípios marxistas-leninistas e aplicá-los de modo criativo, em função das condições concretas do nosso país e da nossa nação. O marxismo-leninismo não é um dogma, é um guia para a acção e uma doutrina criativa. O marxismo-leninismo só pode dar provas do deu poder invencível se for aplicado de uma forma criativa em função da situação concreta de cada país.»

Em 1970, quando Bréjnev praticava a política de «soberania limitada» Kim Il Sung expôs o conceito fundamental da independência com ainda maior clareza:

«O estabelecimento da ideia de “Juche”(4) significa a adopção de uma boa atitude em relação à revolução e à reconstrução do próprio país. Significa manter uma posição independente, rejeitando o espírito de dependência em relação aos outros; significa ter confiança nos próprios líderes e nas nossas próprias forças e, mantendo um espírito revolucionário, resolver sempre os problemas assumindo a nossa própria responsabilidade. Também significa adoptar uma posição criativa, contrária ao dogmatismo. Os princípios universais do marxismo-leninismo e as experiências de outros países devem ser aplicadas de acordo com as condições históricas e características nacionais do nosso próprio país. A experiência histórica mostra que se o Partido se submeter às grandes potências, isso conduzirá declínio da revolução e do desenvolvimento.»

É importante sublinhar que o conceito de independência desenvolvido por Kim Il Sung se baseia na lealdade aos princípios revolucionários. Manter uma posição independente é acima de tudo confiar nas próprias forças para fazer a revolução e construir o socialismo, dando assim uma importante contribuição para a luta pela libertação do proletariado mundial. Não obstante, o Partido não pode vencer um inimigo poderoso, levar a cabo experiências sociais e resistir à pressão, à sabotagem e à intervenção imperialista se não educar o povo num autêntico espírito marxista-leninista. Sem este espírito, o Partido não poderá suster-se sobre os seus próprios pés (ou seja, as suas próprias massas conscientes e organizadas), e por conseguinte não será capaz de manter o sistema socialista e a sua independência face à interferência e agressão do mundo imperialista.

Podemos também dizer que durante o «Grande Debate» no movimento comunista internacional (1956-1964), o Partido do Trabalho da Coreia viu claramente o perigo do revisionismo, adoptou uma posição independente e fez um esforço para manter a unidade do movimento comunista internacional.

Neste preciso momento, quando vemos certos antigos países socialistas restaurar a iniciativa privada e promover a invasão das multinacionais, é interessante recordar a análise que Kim Il Sung fez do revisionismo em 1970:

«O revisionismo é uma corrente ideológica oportunista, que tende a privar o marxismo-leninismo do seu espírito revolucionário. O revisionismo é prejudicial porque nega a linha marxista-leninista do Partido e a ditadura do proletariado. Opõe-se à luta de classes, faz com que as demarcações entre nós e o inimigo pareçam nebulosas e incertas e capitula face ao imperialismo norte-americano, assustado com a chantagem nuclear. É também prejudicial devido aos seus comprometimentos com o imperialismo, enquanto alega manter as suas posições anti-imperialistas; desiste da luta contra o imperialismo e procura arranjar acordos com ele. O revisionismo significa espalhar medo da guerra, as ideias pacifistas burguesas e ilusões sobre o imperialismo e a reacção em geral, com vista a desarmar o povo ideologicamente. Detesta os povos oprimidos e impede as suas revoluções. Por fim é preciso sublinhar que o revisionismo é ainda mais prejudicial porque se opõe à disciplina da organização revolucionária; promove o liberalismo burguês, incentiva o egoísmo e leva o povo à indiferença, à decadência e à indolência. Em resumo, o revisionismo é uma ideologia perigosa, que mina o socialismo e conduz à restauração do capitalismo.»

Esta análise, estas predições revelaram-se exactas. E hoje devemos reconhecer que os oportunistas ignoraram estes alertas em nome da «luta contra o dogmatismo e o stalinismo», para, passo a passo, retirarem para o campo do imperialismo, da guerra e do terror contra os povos.

No caminho de grandes convulsões no mundo

A nova burguesia na União Soviética proclamou a sua ditadura política sobre a sociedade durante o XXVIII Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em Julho de 1990. A partir desse momento, a intervenção política e o controlo financeiro e económico dos Estados Unidos e da Alemanha cresceram sistematicamente, conduzindo ao colapso da União Soviética e à criação de «repúblicas independentes» apoiadas pelo mundo imperialista. A aceleração do processo contra-revolucionário foi saudada pela burguesia no Ocidente como uma «autêntica revolução» que garantiria a «paz, liberdade e democracia» para toda a eternidade. Na Bélgica, todas as formações burguesas e pequeno-burguesas, desde os fascistas aos sociais-democratas, dos ecologistas aos restos do moribundo «Partido Comunista», todos saudaram esta «revolução de paz, liberdade e democracia». Passaram dois anos apenas, e no entanto podemos ver facilmente que a contra-revolução no Leste e na União Soviética não conduziu à paz, à liberdade e à democracia, mas à guerra, à opressão, à exploração e ao fascismo.

Pouco tempo depois de a União Soviética ter desertado para o campo ocidental, o imperialismo desencadeou uma guerra de agressão contra o povo iraquiano, que provocou entre 150 mil e 250 mil mortos iraquianos, civis e militares. A manutenção do boicote económico desde a guerra custou a vida de mais de 170 mil crianças até agora. Esta guerra criminosa revelou uma série de características novas nos métodos usados pelo imperialismo para dominar o Terceiro Mundo. As grandes potências imperialistas estão prontas a utilizar as mais sofisticadas tecnologias militares, como fizeram no Iraque, contra os países do Terceiro Mundo que ousem defender a sua independência e soberania. Somos testemunhas do desenvolvimento de um terrorismo de Estado desumano e bárbaro.

A Guerra do Golfo nunca teve como objectivo salvaguardar a independência do Kuwait, mas sim assegurar a sua separação do mundo árabe, a sua anexação como uma espécie de 53.° estado americano, e o confisco por parte do Ocidente dos recursos petrolíferos do Médio Oriente.

«O dever de intervir» é o novo slogan com o qual o imperialismo recusa a soberania aos países do Terceiro Mundo e desmantela o direito internacional, para o substituir pelas seus próprios regulamentos de tipo colonial, criando enclaves, estrangulando lentamente países com o boicote económico e organizando abertamente forças políticas pró-imperialistas.

As condições de rendição impostas ao Iraque provam que a recolonização económica, em grande parte realizada nos anos 80, foi agora completada com a recolonização política e militar. Estamos a regressar com efeito à escravatura colonial.

Os partidos Democrata e Republicano nos Estados Unidos, os partidos democratas-cristãos, liberais, nacionalistas, conservadores e socialistas na Europa, tomaram todos parte na agressão. A democracia ocidental demonstra uma vez mais desta forma que o seu pluralismo funciona principalmente a favor das forças que apoiam a barbárie imperialista.

O Ocidente está pronto para mobilizar todo o seu capital e toda a sua tecnologia para alargar a exploração e o terror. O imperialismo transformou-se num sistema diabólico cuja existência é incompatível com a simples sobrevivência de milhares de milhões de pessoas no Terceiro Mundo.

Para esmagar um pequeno país com 18 milhões de habitantes no Terceiro Mundo, os Estados Unidos tiveram de mobilizar uma quantidade considerável de dinheiro e de forças armadas. Esta grande força destrutiva concentrada num pequeno ponto do globo revela fraqueza no plano estratégico. Num momento em que a opressão e a miséria se tornam cada vez mais intoleráveis, desenvolvem-se favoravelmente as condições objectivas para um movimento revolucionário em grande escala. Arruinados e gemendo sob a pressão de uma crise após outra, os países do Terceiro Mundo oferecem algumas oportunidades para investimentos lucrativos. Por conseguinte, para conservar um sistema injusto, as potências imperialistas são obrigadas a recorrer cada vez mais à solução militar para manter a ordem. O imperialismo não tem mais nada a oferecer às massas do Terceiro Mundo e é alvo de um ódio crescente por parte dos povos.

Depois do colapso do socialismo no Leste, ideólogos famosos anunciaram que, a partir de agora, seria apenas o capitalismo a escrever a história. Mas o capitalismo aparece sob a forma de três grandes potências que se vigiam nervosamente umas às outras, prontas para empunhar as suas armas. O mercado mundial, que agora se expande muito lentamente, tornou-se demasiado pequeno para acomodar os três gangsters insaciáveis — Estados Unidos, Japão e Alemanha. Cada um mantém a sua parte com a ajuda de investimentos colossais, sempre crescentes, aumentando a tendência para a baixa da taxa de lucro. As suas modernas instalações produzem em série enormes quantidades de produtos, que são absorvidos com dificuldade por mercados que quase não se expandem. A cada dia surge um novo conflito comercial entre as três grandes potências nos sectores da produção automóvel, do desenvolvimento da indústria aeronáutica e espacial, das comunicações, dos químicos, etc. O mundo imperialista dirige-se lentamente para uma grande crise económica e financeira.

Se as estruturas minadas do socialismo na Europa de Leste se desmoronaram tão depressa quando demora a demolir um muro, a frágil estrutura do mundo capitalista pode ruir tão subitamente como a do seu adversário. Sob a pressão de três poderes que se confrontam entre si, o futuro do mundo capitalista apresenta-se sombrio.

Afirmou-se que o colapso do socialismo era a prova do perfeito estado de saúde do sistema capitalista e que proporcionaria ao capitalismo novas oportunidades de expansão. É verdade que a conquista do Leste pode acrescentar mais cinco por cento à taxa de crescimento da economia germânica nos próximos anos. Mas isto será feito à custa da destruição das estruturas económicas do Leste e da antiga União Soviética, onde já se verificou uma queda de 20 por cento do Produto Nacional Bruto no espaço de dois anos. Graças à livre iniciativa, cerca de dez milhões de trabalhadores, dos quais 2,2 milhões só na Polónia, já perderam os seus meios de subsistência.

Os desempregados, que não beneficiam de qualquer protecção social, e os pensionistas idosos encontram-se num pantanal de miséria. Os números dos suicídios aumentam, tal como sobe a taxa de criminalidade. Desenvolve-se um capitalismo sem escrúpulos, criminoso, selvagem: aqueles que prometeram um «socialismo de rosto humano» trouxeram o capitalismo mais desumano que conhecemos. Em 1989, o Ocidente estimulou o êxodo dos alemães de Leste para desestabilizar politica e economicamente a RDA. Aqueles que passaram a fronteira foram aclamados como «heróis da liberdade» pela imprensa burguesa. Hoje há milhões de potenciais «heróis da liberdade»desses, milhões de polacos, húngaros, romenos que tentam fugir à pobreza e encontrar um trabalho no Ocidente. Agora, a mesma imprensa burguesa manifesta-se preocupada com o «perigo de uma invasão de Leste» e apela ao encerramento das fronteiras.

As «revoluções da liberdade» foram amplamente aclamadas. Certamente que a principal liberdade de um povo é a independência de qualquer dominação estrangeira. Em apenas alguns anos, os antigos países socialistas caíram numa situação de crescente dependência económica e financeira. O imperialismo dita as suas leis, tal como o faria em qualquer país neocolonial do Terceiro Mundo. A União Soviética tinha um défice nacional de 30 mil milhões de dólares em 1985. Hoje atingiu os 80 mil milhões e continua a aumentar. A nova burguesia fez crer ao povo que o capital ocidental iria investir no seu bem-estar. Todavia, o grande negócio não correu riscos e limitou os seus investimentos, comprando as melhores empresas a preços muito baixos. A riqueza nacional dos antigos países socialistas foi assim desbaratada.

O país que sem dúvida mais tem ganho com estas vendas é a Alemanha, que também beneficia das relações da RDA com os outros antigos países socialistas. A Alemanha é de longe o maior credor e o mais activo a comprar empresas altamente lucrativas. É o mais importante parceiro comercial. Deste modo, graças ao seu domínio sobre a Europa de Leste, a Alemanha possui alguns trunfos na luta global que trava com os concorrentes japoneses e americanos. Já dominante dentro da Comunidade Europeia, a Alemanha abre um novo campo imenso de exploração no Leste. Isto agudiza as tensões entre este gigante dominador e os países menos bem sucedidos da Comunidade Europeia.

Em dois anos, a democracia nos antigos países socialistas, ou seja a democracia burguesa, promoveu a reabilitação dos líderes fascistas da II Guerra Mundial: Stepan Bandera na Ucrânia, Tiso na Eslováquia, Antonescu na Roménia e Ante Pavelic na Croácia. A nova burguesia no Leste e na antiga União Soviética refugiou-se no chauvinismo e na ideologia nacionalista para granjear o apoio dos trabalhadores aos seus novos exploradores. As velhas formações nacionalistas e fascistas que medraram sob o regime nazi estão a regressar em força. A Jugoslávia já está a ser devastada por guerras civis reaccionárias. Guerras civis nacionalistas também estão em curso entre arménios e azéris, russo e moldavos. Graves distúrbios estão a ser preparados na Ucrânia.

Prevendo um colapso económico, o caos total e a guerra civil na União Soviética, a Alemanha e a França, esta um aliado incómodo da primeira, pressionam para a criação de um exército europeu, capaz de manter a ordem no Leste e em certas «repúblicas independentes». Um envolvimento militar num tal pantanal poderá ter consequências imprevisíveis, como demonstraram os acontecimentos que conduziram à I Guerra Mundial nesta região.

No auge do seu triunfo, o capitalismo demonstra que não tem mais nada para oferecer senão fome, repressão severa, agressão militar e destruição geral. Nas ruínas do socialismo derrotado, o capitalismo não tem nada para oferecer senão desemprego, pobreza, sobre-exploração, fascismo e guerra civil. Mesmo no coração do «mundo civilizado», o capitalismo só pode prometer um futuro de desemprego e de regressão social, a que se deve acrescentar o racismo, o crime, o fascismo e a intervenção militar.

A traição dos revisionistas não pode encobrir de forma nenhuma a verdadeira natureza do capitalismo e do imperialismo. A verdadeira natureza do capitalismo revela um sistema sangrento e desumano, que no decurso da sua expansão provoca contínuas crises económicas, sociais, políticas e morais, as quais, à medida que o tempo passa, se aprofundam cada vez mais à escala mundial.

A dura realidade deste mundo expôs totalmente a falsa arrogância do oportunismo.

Quando a burguesia proclama o colapso final do comunismo, socorre-se da triste bancarrota do revisionismo na Europa de Leste e na União Soviética para reafirmar o seu ódio à inestimável obra realizada no passado por Marx e Engels, Lénine e Stáline. Ao fazê-lo, a burguesia pensa mais no futuro do que no passado. A burguesia quer fazer-nos acreditar que o marxismo-leninismo foi enterrado para sempre, porque conhece muito bem a actualidade e a vitalidade da análise comunista na presente situação do mundo. Os quadros da burguesia também fazem avaliações científicas sobre o futuro do mundo. Também predizem grandes crises, convulsões globais e guerras de todo o tipo. Ante o abismo do desemprego, da pobreza, da exploração e da violência, que se abre para as massas laboriosas em todo o mundo, só o marxismo-leninismo pode mostrar o caminho para a libertação nacional e social. Cabe aos comunistas de todo o mundo assumir este desafio.


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Notas de rodapé:

(1) XXII Congresso do Partido Comunista da União Soviética, 17-31 de Outubro de 1961, relato estenográfico, Gossudárstvenoi Izdátelstvo Politítcheskoi Literaturi, Moscovo, 1962, t. 3, p. 303. [O autor não menciona referências bibliográficas neste artigo. A presente citação encontrámo-la por semelhança no Programa do PCUS aprovado no XXII Congresso. (N. Ed.)] (retornar ao texto)

(2) Idem, Discurso de Khruchov sobre o Programa do PCUS, ed. cit., t.1, p.169. Apenas a última frase constitui uma citação exacta deste discurso, estando a anterior presente em várias passagens, o que nos leva a concluir que se trata de uma síntese do autor. (N. Ed.) (retornar ao texto)

(3) No programa do PCUS aprovado no XXII Congresso do PCUC, atrás citado, pode ler-se uma afirmação com conteúdo semelhante a esta citação não referenciada pelo autor: «Nas condições actuais, numa série de países capitalistas, a classe operária, dirigida pelo seu destacamento de vanguarda, tem a possibilidade, na base de uma frente operária e popular e de outras formas possíveis de acordos e de cooperação política com diferentes partidos e organizações sociais, de unir a maioria do povo, conquistar o poder de Estado sem guerra civil e assegurar a passagem dos principais meios de produção para as mãos do povo. Apoiando- se na maioria do povo e repudiando decididamente os elementos oportunistas, incapazes de recusar a política de conciliação com os capitalistas e latifundiários, a classe operária tem a possibilidade de derrotar as forças reaccionárias e antipopulares, conquistar uma sólida maioria no parlamento, transformá-lo em instrumento ao serviço do povo trabalhador, desenvolver fora do parlamento uma ampla luta de massas, quebrar a resistência das forças reaccionárias e criar as condições necessárias para a realização pacífica da revolução socialista». Programa do PCUS, XXII Congresso do Partido Comunista da União Soviética, 17­31 de Outubro de 1961, ed. cit., t. 3, pp. 256-257. (N. Ed.)(retornar ao texto)

(4) O Juche é um sistema filosófico e ideológico desenvolvido pelo próprio Kim II Sung, como adaptação do marxismo-leninismo à cultura local e às especificidades da revolução coreana. Baseia-se na ideia de que o indivíduo é responsável pelo seu próprio destino e tem a sua parte de responsabilidade no destino da comunidade, devendo por isso participar com independência e criatividade na revolução e reconstrução do país. (N. Ed.) (retornar ao texto)



domingo, 25 de agosto de 2013

O que você precisa saber sobre médicos cubanos






Profundo conhecedor da realidade de Cuba e membro do núcleo de estudos cubanos da Universidade de Brasília, o jornalista Hélio Doyle produziu diversas análises técnicas, e sem ranço ideológico, sobre a importação de 4 mil profissionais pelo governo brasileiro.
Os textos foram cedidos ao 247 e permitem uma maior compreensão sobre um tema que tem gerado tanto debate. Leia abaixo seus artigos:
O QUE NÃO SE DIZ SOBRE OS MÉDICOS CUBANOS
A grande imprensa brasileira, que nos últimos anos exacerbou, por incompetência e ideologia, a superficialidade que sempre a caracterizou, tem sido coerente ao tratar da vinda de quatro mil médicos cubanos: limita-se a noticiar o fato e reproduzir as críticas das associações corporativas de médicos e dos políticos oposicionistas. Mantém-se fiel à superficialidade que é sua marca, acrescida de forte conteúdo ideológico conservador e de direita.
Não conta, por exemplo, que médicos cubanos já trabalharam no Brasil, atendendo a comunidades pobres e distantes nos estados de Tocantins, Roraima e Amapá. Não houve nenhuma reclamação quanto à qualidade desse atendimento e nenhum problema com o conhecimento restrito da língua portuguesa. Os médicos cubanos tiveram de deixar o Brasil por pressão do corporativismo médico brasileiro – liderado por doutores que gostam de trabalhar em clínicas privadas e nas grandes cidades.
A grande imprensa não conta também que há mais de 30 mil médicos cubanos trabalhando em 69 países da América Latina, da África, da Ásia e da Oceania, lidando com pessoas que falam inglês, francês, português e dialetos locais. Só no Haiti, onde a população fala francês e o dialeto creole, há 1.200 médicos cubanos – que sustentam o sistema de saúde daquele país e, como profissionais com alto nível de educação formal, aprendem rapidamente línguas estrangeiras.
O professor John Kirk, da Universidade Dalhousie, no Canadá, estudou a participação de equipes de saúde de Cuba em vários países e é dele a frase seguinte: “A contribuição de Cuba, como ocorre agora no Haiti, é o maior segredo do mundo. Eles são pouco mencionados, mesmo fazendo muito do trabalho pesado”. Segredo porque a imprensa internacional – especialmente a estadunidense — não gosta de falar do assunto.
Kirk contesta o argumento de que os médicos cubanos que atendem as comunidades pobres em vários países não são eficientes por não dominar as últimas tecnologias médicas: “A abordagem high-tech para as necessidades de saúde em Londres e Toronto é irrelevante para milhões de pessoas no Terceiro Mundo que estão vivendo na pobreza. É fácil ficar de fora e criticar a qualidade, mas se você está vivendo em algum lugar sem médicos, ficaria feliz quando chegasse algum”.
O problema dos que contestam a vinda de médicos estrangeiros e, em especial dos cubanos, é que as pessoas que passam anos ou toda a vida sem ver um médico ficarão muito felizes quando receberem a atenção que os corporativistas do Brasil lhes negam e tentam impedir.
SOCIALISMO E GUERRA FRIA
Duas informações referentes à vinda de médicos cubanos para o Brasil e que podem ser úteis aos que querem ir além do que diz a grande imprensa:
- Cuba é um país socialista e por isso, gostemos ou não, as coisas não funcionam exatamente como em um país capitalista. Como é um país socialista, há a preocupação de manter baixos os índices de desigualdade econômica e social. Por isso nenhuma empresa ou governo estrangeiro contrata trabalhadores cubanos diretamente, em Cuba ou no exterior (nesse caso quando a contratação é resultado de um acordo entre estados). Todos são contratados por empresas estatais que recebem do contratante estrangeiro e pagam os salários aos trabalhadores, sem grande discrepância em relação ao que recebem os que trabalham em empresas ou organismos cubanos. Os médicos que trabalham no exterior recebem mais do que os que trabalham em Cuba. Mas algo como nem muito que seja um desincentivo aos que ficam, nem tão pouco que não incentive os que saem.
- O governo dos Estados Unidos tem um programa especial para atrair médicos cubanos que trabalham no exterior. Eles são procurados por funcionários estadunidenses e lhes são oferecidas inúmeras vantagens para “desertar”, como visto de entrada, passagem gratuita, permissão de trabalho e dispensa de formalidades para exercer a atividade. Os que atuam na América Latina são os mais procurados e uma condição para serem aceitos no programa é que critiquem o sistema político cubano e digam que os médicos no exterior são oprimidos e mantidos quase como escravos. Os que aceitam as ofertas dos Estados Unidos, os que emigram para outros países ou ficam no país que os recebe depois de terminado o contrato representam cerca de 3% dos efetivos.  No Brasil, mantida essa média, pode-se esperar que até 120 dos quatro mil médicos cubanos “desertem”.

UM SISTEMA IRREAL

A citação a seguir é do New England Journal of Medicine: “O sistema de saúde cubano parece irreal. Há muitos médicos. Todo mundo tem um médico de família. Tudo é gratuito, totalmente gratuito. Apesar do fato de que Cuba dispõe de recursos limitados, seu sistema de saúde resolveu problemas que o nosso [dos EUA] não conseguiu resolver ainda. Cuba dispõe agora do dobro de médicos por habitante do que os EUA”.
Menções elogiosas ao sistema de saúde cubano e a seus profissionais são frequentes em publicações especializadas e ditas por autoridades médicas e organizações internacionais, como a Organização Mundial de Saúde, a Organização Panamericana de Saúde e o Unicef. Mas mesmo assim, querendo negar a realidade, médicos e políticos brasileiros insistem em negar o óbvio, chegando ao absurdo de dizer que nossa população está correndo riscos ao ser atendida pelos cubanos.
Para começar, os indicadores de saúde em Cuba são os melhores da América Latina e estão à frente dos de muitos países desenvolvidos. A mortalidade infantil, por exemplo (4,8 por mil), é menor do que a dos Estados Unidos. Aliás, para os que gostam de dizer que Cuba estava melhor antes da revolução de 1959, naquela época era de 60 por mil. A expectativa de vida dos cubanos é também elevada: 78,8 anos.
Outro aliás quanto aos saudosistas: em 1959, Cuba tinha seis mil médicos, sendo que três mil correram para os Estados Unidos quando viram que não haveria mais lugar para o sistema privado de saúde e que os doutores elitistas e da elite perderiam seus privilégios. Hoje tem 78 mil médicos, um para cada 150 habitantes, uma das melhores médias do mundo. Isso permite a Cuba manter mais de 30 mil médicos no exterior. Desde 1962, médicos cubanos já estiveram trabalhando em 102 países.
Em 2012 formaram-se em Cuba 5.315 médicos cubanos em 25 faculdades públicas e 5.694 estrangeiros, que estudam de graça na Escola Latino-americana de Medicina (Elam). A Elam recebe estudantes de 116 países, inclusive dos Estados Unidos, e já formou 24 mil estrangeiros.
Os médicos cubanos se formam após seis anos de graduação, incluindo um de internato, e mais três ou quatro anos de especialização. Os generalistas, que atendem no sistema Médico da Família (um médico e um enfermeiro para 150 a 200 famílias, e que moram na comunidade que atendem) são preparados para atuar em clínica geral, pediatria, ginecologia-obstetrícia e fazer pequenas cirurgias.
Dos quatro mil médicos que vêm para o Brasil, todos têm especialização em medicina de família, 42% já trabalharam em pelo menos dois países e 84% têm mais de 16 anos de atividade. Grande parte já atuou em países de língua portuguesa, na África e em Timor-Leste. Foi em Timor, a propósito, que ocorreu o fato seguinte: o embaixador estadunidense exigiu do então presidente Xanana Gusmão que expulsasse os médicos cubanos. Xanana perguntou quantos médicos dos Estados Unidos havia no Timor-Leste e quantos o país mandaria para substituir os mais de duzentos cubanos que estavam lá. Diante da resposta, de que havia apenas um, que atendia os diplomatas norte-americanos, e que não viria mais nenhum, Xanana, simplesmente, disse que os cubanos ficariam. E estão lá até hoje. Falando português.
OS LIMITES DO CORPORATIVISMO
1 – Sindicatos de trabalhadores existem para defender os interesses das categorias profissionais que representam. São corporativistas por definição.
2 – É natural que esses interesses conflitem com os de seus empregadores, especialmente em questões ligadas à remuneração e condições de trabalho.
3 – Muitas vezes os interesses de uma categoria batem de frente com interesses de outras categorias, e aí cada sindicato defende seus representados, o que também é natural.
4 – Outras vezes os interesses de uma categoria colidem com interesses do país e da sociedade. Essa é uma questão complicada: quem tem legitimidade para definir os interesses nacionais é a população, que só é consultada quando elege seus governantes e representantes. E esses governantes e representantes têm, muitas vezes, sua legitimidade contestada.
A contradição entre interesses corporativos e interesses nacionais e da sociedade, assim, só pode ser resolvida pelos que têm legitimidade para expressar esses interesses nacionais e da sociedade em seu conjunto.
Nos últimos dias, tivemos três bons exemplos de como os interesses corporativos colidem com os da sociedade. São três causas que podem interessar às categorias profissionais, mas violam a legislação e ferem os direitos humanos e sociais:
- O sindicato dos servidores no Legislativo defendeu que funcionários da Câmara e do Senado recebam remunerações que superam o teto salarial que deve vigorar para todos.
- O sindicato dos aeroviários defendeu a tripulação que criou absurdos e desnecessários constrangimentos a uma criança de três anos e a sua família, por causa de uma doença não infecciosa.
- Os sindicatos de médicos são contra o trabalho de médicos estrangeiros no Brasil, mesmo não havendo médicos brasileiros interessados no trabalho que eles vão fazer.
O corporativismo é inevitável, e os interesses corporativos devem ser discutidos e considerados. Não podem é prevalecer quando contrariam interesses e direitos da sociedade: o teto salarial dos servidores tem de ser respeitado, ninguém pode ser submetido a constrangimentos por causa de uma doença e as pessoas têm o direito de receber assistência médica, seja de um brasileiro ou de um estrangeiro.
SISTEMA CUBANO DÁ “DE LAVADA”
As frases a seguir são de um médico cubano radicado no Brasil desde 2000. Insuspeito, pois abandonou Cuba. Formou-se lá e se especializou em epidemiologia e administração da saúde. Trabalhou por dois anos em Angola e veio para Santa Catarina em um acordo da prefeitura de Irati  com o governo de Cuba. Dois anos depois resolveu ficar no Brasil, onde vive com a mulher e quatro filhos. Critica o sistema de pagamento aos médicos, dizendo que ficava com 50% do que era pago pela prefeitura. Mesmo tendo “desertado”, não entra na onda dos médicos brasileiros e dos oposionistas de direita que atacam a vinda dos cubanos.
 O que o médico cubano Alejandro Santiago Benítez Marín, 51 anos, disse ao portal G1:
“Em dois meses, eu já entendia perfeitamente tudo (diferenças culturais, língua). Fazer medicina é igual em todo o lugar, só muda o endereço”.
“Eu não sou contra que eles venham, não. Os médicos cubanos são muito bons, nossa medicina é a melhor do mundo. Só não concordo com a forma como o governo quer pagar, repassando o dinheiro para Cuba e Cuba vai decidir a quantia que vai repassar. Isso não tem cabimento”.
 “Há médicos cubanos fazendo um excelente trabalho no Norte e Nordeste. O Conselho Federal de Medicina tem nos ofendido sem necessidade desde o início, chamando-nos de curandeiros, feiticeiros. Eu sou incapaz de ofender um médico brasileiro, mesmo conhecendo médicos brasileiros que cometem erros, a imprensa publica sempre. Tem médico ruim e bom tanto no Brasil quanto em Cuba. Não temos culpa do que está acontecendo no Brasil e que os médicos de fora têm que vir”.
 “Em Cuba é bem mais fácil o atendimento, não tem esta fila que há hoje no SUS, em que há a demora de três meses para a realização de exames simples, como ultrassonografia ou ressonância. Em Cuba este exame é feito no mesmo dia ou na mesma semana. Esta demora faz o diagnóstico médico ter que esperar”.
 “O sistema cubano dá ‘de lavada’ no SUS, tanto no atendimento normal quanto de emergência. A especialização nossa é muito boa, tanto que Cuba exporta médicos para mais de 70 países”.

Fonte: Tribuna Hoje

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O vandalismo




“Os protestos são legítimos desde que não haja vandalismo”. Quem nunca ouviu este mantra nos últimos tempos? Não vale a pena buscar no velho socialista Houaiss a definição do vocábulo. Vandalismo é tudo aquilo que destoa da mensagem dos monopólios dos meios de comunicação. Assim, compara-se a quebra de uma vitrine de um Banco a um ato violento. Ora, a violência é uma relação social entre pessoas.
É estranho que o espancamento de manifestantes seja tratado como “confronto” e o ataque a símbolos da ostentação capitalista seja algo violento. É só assim que a desumanização do discurso burguês chega ao paroxismo. A reunião para protestar nas ruas torna-se formação de quadrilha, especialmente se pretende denunciar a verdadeira quadrilha do PSDB que assaltou o Estado de São Paulo ou a administração desavergonhada de Cabral no Rio de Janeiro.
É verdade que manifestantes cometem excessos. Atacam por vezes o bem público. Além disso, as manifestações são infestadas por grupelhos fascistas e policiais infiltrados. Mas mesmo quando se excedem os manifestantes jamais podem ser comparados à violência do opressor. Afinal, por que aquele jovem negro e mascarado da periferia que disse que a polícia matou o seu pai não colocaria pedras na mochila?  É mais do que um ato pessoal. É um ato político. Deixo aos especialistas a análise antropológica de Black Blocs, “estética” das manifestações etc.
Um jovem massacrado pelas dimensões desumanas da cidade, impossibilitado de se apropriar dela pela configuração do espaço urbano desenhado pela malha viária capitalista (como mostra Ivan Illich em seu estudo “Energia e equidade”) tende a protestar sem luvas de pelica. Mesmo os de classe média, agora acordados pelo caos da retomada do desenvolvimento capitalista periférico.
Recordo-me quantos jovens de periferia nos anos 1980 não hesitavam entre o sufocado ranger de dentes e a raiva aberta aos que simplesmente tinham automóvel, telefone em casa* ou moravam em bairros “nobres”. Quantas vezes não cuspiam na vidraça de um restaurante que supunham luxuoso ou chutavam uma lixeira, aliviados. Ou permaneciam sem dinheiro na porta da velha Ledslay vendo os “playboys” da Zona Leste (!) paulistana entrar. Bem, para falar a verdade eles estavam longe de serem playboys…
O ódio da Polícia era unânime. As batidas terminavam com armas de grosso calibre nas nucas. Coisas piores podem ser lidas no excelente Rota 66 de Caco Barcelos. Ao contrário de muitos militantes atuais da ação direta, eram desenraizados e só mais tarde “educados” pela pedagogia de uma esquerda que não chegava à periferia, mas nascia nela. Numa pequena área da Zona Leste (Cangaíba e Engenheiro Goulart) havia 4 núcleos: dois do PT, um do PMDB e outro do PCB. O PC do B, MR-8 e tendências de esquerda do PT tinham militantes nas escolas secundárias.
Hoje o bairro é muito melhor. A estação de trem foi remodelada e há até um campus da USP. Mas a política do protesto foi embora e a violência persistiu. Um sofista diria que a periferia não é um “sujeito abstrato” que gera violência. Claro, ela é um resultado concreto de uma violência que não provêm dela, mas da política consciente de governantes que perpetuam a desigualdade social.
A verdade é que uma adequada quantidade de violência é inerente ao regime de classes. O que incomoda os de cima não é a violência inorgânica. Como sabemos, ela é dispersa em baixo, de modo a justificar o apoio das classes trabalhadoras à ideologia da segurança, como mostrava Florestan Fernandes num texto seminal chamado “Nos marcos da violência”.
Todavia, ela é concentrada no topo e subdividida em algumas corporações especializadas no seu uso funcional para a reprodução da ordem burguesa: a polícia, as forças armadas e os órgãos de vigilância legais e ilegais.
Que tipo de violência realmente incomoda os porta-vozes das classes dominantes? Os tipos disfuncionais. São eles: a contra-violência dos protestos das classes subalternas quando ultrapassam os “limites” e a violência revolucionária. Estamos longe desta, portanto é a simples autodefesa dos movimentos das ruas que se torna um problema para a ordem.
Para a direita, toda violência permitida deve vir de cima e de maneira concentrada. Toda violência tolerada deve vir de baixo desde que de maneira desorganizada.
O que choca é o fato de grupos de jovens se organizarem para proteger os manifestantes desarmados, resistindo à violência e à identificação policial com as “armas” que as ruas sempre forneceram: paus, pedras, estilingues, bolinhas de gude, vinagre, keffiyeh palestino para cobrir o rosto, escudos, tocas, máscaras, casacos e calças jeans resistentes a arranhões, lixeiras arrancadas, mastros de bandeira de caibro (e não de PVC), miguelitos, coquetéis de garrafas plásticas com busca-pé de pavio e a simulação de uma “guerra de movimento”: desaparecer e aparecer em outro local para confundir e dividir a repressão. Cada geração reaprende que a pressão é uma dada força sobre determinada área: basta aumentar a zona de cobertura que o contingente de repressão se rarefaz.
Evidentemente a polícia sabe disso tudo, mas o seu contingente é limitado pelas liberdades democráticas conquistadas nos anos 1980 e pela difusão de imagens de desmandos policiais em tempo real via telefones móveis. A “publicidade” das lutas é que garante o sucesso das “armas” de rua.
No Brasil vivemos um descompasso entre a dinâmica da economia capitalista do centro e o funcionamento daquilo que Carlos Marighella denominava “democracia racionada”. A forma desta democracia é a rotinização da violência burguesa e a condenação perene da autodefesa dos que lutam.
O que os protestos do Movimento Passe Livre conquistaram não pode ser perdido e sim aprofundado. Trata-se da absorção construtiva da violência organizada dos trabalhadores, dos jovens e inconformados na construção de uma democracia anticapitalista.
Não é justo que o povo tenha medo da polícia. E que a polícia continue a ter o papel que lhe parece natural: o poder de vida e morte de pobres e pretos. É preciso ensinar respeito à polícia. Pela primeira vez na história recente do país ela experimentou o medo das multidões.

A contraditória etapa de um continente

Para o economista argentino Claudio Katz, o neodesenvolvimentismo adotado por alguns países latino-americanos não significa uma ruptura como o modelo neoliberal.

Márcio Zonta,
de Guararema (SP)

Com o olhar sobre uma América Latina em permanente disputa econômica, política e cultural entre grandes grupos internacionais capitalistas, burguesias regionais e governos de esquerda, o economista argentino Claudio Katz afirma que o neodesenvolvimentismo adotado por alguns países não rompeu com o neoliberalismo.
O professor da Universidade de Buenos Aires acredita que o Brasil deixou de lado somente algumas medidas neoliberais mais rígidas. “Lula e Dilma fomentaram apenas políticas que se afastaram do neoliberalismo ortodoxo”, comenta.
Em entrevista ao Brasil de Fato, Katz analisou as políticas econômicas e a participação de Brasil e Argentina em busca de uma verdadeira integração do continente.
“Tanto Brasil quanto Argentina têm uma ambiguidade entre seus interesses econômicos; dúvidas se aprofundam em suas relações econômicas com os países do Mercosul ou outros mercados pelo mundo”, diz.
Ademais, Katz chama atenção para os investimentos na América Latina advindos do capital financeiro internacional para exploração dos recursos naturais, sobretudo, no setor agromineral.
“Esse é o principal perigo estratégico que tem o continente hoje. A crise atual do capitalismo é uma crise de reestruturação neoliberal. Onde a América Latina tem totalmente pré-determinadas suas funções no mercado mundial, como abastecedora de matéria-prima”, alerta.
Abaixo, confira a entrevista na qual o economista também fala sobre a União de Nações Sul-Americanas (Unasul), bases estadunidenses no continente e as características atuais das elites regionais.

Em disputa
Existem projetos em disputa no continente. Um exemplo foi o projeto da ALCA [Acordo de Livre Comércio das Américas], que hoje em dia continua com os Tratados de Livre Comércio (TLC). A ideia de que a ALCA foi derrotada é certa enquanto projeto, mas houve uma contraofensiva estadunidense que conseguiu tecer acordos econômicos de livre comércio consolidada com a NAFTA, no México, além de TLCs firmados com Colômbia, Peru, Chile e vários países da América Central. Obama, ademais, concebeu uma estratégia da Aliança do Pacífico, que articula todos os países que formaram Tratados de Livre Comércio com os Estados Unidos, Canadá e países asiáticos.
Em segundo lugar, temos ainda um projeto de integração muito frágil no Mercosul, que tem se consolidado como tentativa de integração nos últimos dez anos, principalmente em torno da Argentina e do Brasil. Porém, tanto Brasil quanto Argentina têm uma ambiguidade entre seus interesses econômicos, principalmente. Dúvidas se aprofundam em meio a suas relações econômicas com os demais países do Mercosul ou outros mercados pelo mundo.
Uma potência regional tem que pensar aonde vai concentrar seus recursos, e vemos, nos últimos dez anos, que não houve avanço na região puxado pelo Brasil, que não ajudou na criação do Banco do Sul. O país não participa de nenhum debate sério sobre a criação de moeda comum no continente e está ausente na discussão de um projeto financeiro regional de manejo comum para uma reserva econômica.
Por outro lado, o que mais teve progresso foi a ideia da Aliança Bolivariana para as Américas (ALBA). Essa sim é um concepção de integração econômica muito densa fomentado pela Venezuela, Bolívia, Nicarágua, Equador, entre outros.
É no bloco desses países, aliás, que estão as ideias mais fortes de integração, como a moeda de Sucre, a ideia de um fundo de troca entre os países, e a formação do Banco do Sul. E, naturalmente, esses processos de integração têm muita fragilidade porque depende muito do petróleo venezuelano para avançar.

Cenário Político
Se tem registrado uma mudança muito grande no cenário político em relação à década passada na América Latina, pois se constituiu uma força política que fez declinar a Organização dos Estados Americanos (OEA) e levantou a Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos (CELAC) e o MERCOSUL. Isso sim são fatores muito contundentes na geopolítica sul-americana. Realizar reuniões entre países latinos sem a presença dos Estados Unidos é inédito. Ter a Venezuela com presença no Mercosul é fato simbólico inimaginável há uma década.
Ou seja, em um plano geopolítico existe uma mudança. Entretanto, ainda não sabemos se esse ritmo de conquistas geopolíticas se converterá em ganhos econômicos para o continente.
Uma das funções da ALBA é fazer com que ambos se cruzem positivamente: avanço geopolítico e a economia. Porém, sem uma força social desde baixo, eu não acredito que vai avançar para além do que já existe.

Unasul
Também dentro da Unasul existe um conflito, uma disputa porque a instituição não só tem países com TLC, como tem também um problema geopolítico mais complicado. Por exemplo, a Colômbia com as bases militares estadunidenses. Portanto, dentro da Unasul temos a intervenção militar estadunidense por meio do Exército da Colômbia.

Recolonização
Esse é o principal perigo estratégico que tem o continente hoje. A crise atual do capitalismo é uma crise de reestruturação neoliberal, na qual a América Latina tem totalmente pré-determinadas suas funções no mercado mundial, como abastecedora de matéria-prima.
Os capitais estrangeiros que entram no continente, atualmente, vão direto ao setor extrativista, aos recursos naturais. Uma situação que traz um grande perigo para a região, que tem sua história marcada por uma inserção periférica, que sempre dependeu da oscilação da necessidade da matéria-prima pelos países centrais.
Assim, quando mudam os ciclos econômicos, os efeitos são nefastos para a população. Lamentavelmente, não existe uma consciência sobre isso, pois de novo há um espírito de satisfação por essa posição e um suposto pensamento de que esse ciclo de exploração dos recursos naturais pode durar para sempre.
Isso é uma velha mitologia exportadora liberal da América Latina, que volta a circular, como se não tivéssemos tido esses ciclos de exploração no século passado.

Desindustrialização
Diante desse contexto de tentativa de recolonização do continente, se está criando uma brecha em términos industrial muito grande entre América Latina e Ásia, justamente entre duas regiões que participavam com condições periféricas. A Coreia do Sul é mais industrializada, se comparar, com qualquer país latino-americano.
O que se torna mais grave é a enorme associação de grupos capitalistas latino-americanos nesses processos.
As oligarquias exportadoras dos recursos naturais do final do século 19 não existem mais. O modelo atual é composto por empresas capitalistas brasileiras, argentinas e mexicanas que atuam com muito mais perversidade, pois trabalham visando a exploração de um recurso até a destruição plena.
Provavelmente, é o setor que mais enriqueceu nos últimos anos estando vinculado ao agronegócio. O pior é que muito deles atuam dentro dos projetos da Unasul e Mercosul.

Burguesia regional
Existem mudanças estruturais na burguesia regional. Já desapareceu o papel da velha oligarquia como existia antes. Antigamente, uma pessoa era dona de uma grande extensão de terra improdutiva e ficava praticamente ausente nessa propriedade sem investir na mesma.
A principal mudança estrutural é que a velha burguesia industrial brasileira, argentina e mexicana, muito centrada na produção de bens para o mercado interno, também tem declinado.
Uma nova burguesia está totalmente focada na exportação associada ao capital estrangeiro, e trabalha com horizontes regionais e internacionais. As grandes companhias brasileiras e argentinas são transnacionais multilatinas.
Essa é uma característica muito nociva à classe trabalhadora porque o lucro dessas empresas é pensado por meio do lucro do salário comparado. Ou seja, quando o salário no Brasil sobe muito, elas colocam seus negócios no Paraguai, como acontece agora.
Eu não gosto de chamá-los de burguesia lúmpen. Não me parece adequado porque gera uma imagem desconexa. Lúmpen é a burguesia do narcotráfico que existe à margem do Estado. Essa burguesia regional, pelo contrário, são estruturas que atuam com a base do Estado.
Portanto, são classes capitalistas menos nacionais e divorciadas de seus povos, e mais associadas ao capital estrangeiro.

Neoliberalismo ou Neodesenvolvimentismo?
O que temos visto na América Latina é o ingresso de países em processos diferenciados do neoliberalismo por conta de rebeliões populares. Parte da população do continente se revoltou justamente contra o tripé da base neoliberal: flexibilização nos direitos trabalhistas, abertura comercial e privatizações.
Portanto, houve mudanças contra essas características mais centrais do neoliberalismo e os Estados recuperaram fundos e recursos financeiros que utilizam politicamente para o assistencialismo.
Agora, essa mudança é muito complicada, e não se trata de um abandono do neoliberalismo por alternativa de mesmo nível com uma política econômica coerente e definida.
O neodesenvolvimentismo no momento não está competindo com o neoliberalismo em sentido de um programa econômico sólido.
Ademais, não é uma ruptura radical com o neoliberalismo, pois não altera a característica de redistribuição de renda.
FHC e Lula: neodesenvolvimentismo não rompeu com o neoliberalismo - Foto: J. Freitas/ABr



Essa é a grande diferença de políticas econômicas redistributivas reais, como as ocorridas na Venezuela, onde sim houve uma ruptura com o sistema neoliberal, porque passou a ter verdadeiramente uma redistribuição dos ingressos econômicos do país.
Dessa forma, muitas das tradicionais políticas neoliberais seguem no Brasil e seguem na Argentina. A política financeira no Brasil, ou a política de mineração na Argentina são neoliberais clássicas.
O neodesenvolvimentismo, portanto, é uma tentativa de maior regulação de Estados na economia, o que se diferencia do neoliberalismo. Porém, a discussão é: para quem vai servir? Para que grupos?
Por fim, penso que a Argentina tem uma tentativa de política neodesenvolvimentista, o Brasil não, porque Lula e Dilma fomentaram apenas políticas que se afastaram do neoliberalismo ortodoxo.
Já a Argentina tomou duas medidas: nacionalizou os fundos de pensão e nacionalizou a principal empresa petroleira. São duas ações que indicam mudanças significativas e marcou um tipo de ruptura, algo que não ocorreu no Brasil.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Sair ou não sair do governo Cabral - Nota da Articulação de Esquerda


Muito se tem especulado sobre a saída do PT do governo Cabral. Na imprensa, durante a última semana, foi publicado que o grupo CNB (Construindo um Novo Brasil) não quer sair, sendo esta a posição da sua principal chapa nas eleições internas do PT, marcadas para novembro. Também foi publicado que a Articulação de Esquerda é a tendência mais incisiva na defesa da saída.
 
O fato é que há muito o governo Cabral demonstra na prática as diferenças programáticas e ideológicas com as posições históricas do PT. Descaso com os serviços públicos em geral, que o Rio de Janeiro paga os piores salários do país para professores, bombeiros, extensionistas rurais; mercantilização da educação e péssimos desempenhos nas avaliações do MEC, desdém com os interesses do povo e favorecimento dos grandes empresários como a privatização do Maracanã e concentração dos investimentos na Zona Sul e Barra; postura autoritária e arrogante com os movimentos reivindicatórios, prendendo senhora que manifestava contra o Obama, truculência com os bombeiros e repressão violenta contras as manifestações de junho e julho. Importante observar que apesar do fluxo de verbas oriundos do governo federal, a gestão estadual só conseguiu avançar na segurança pública com as UPPs e mesmo assim precisando de muitas correções.
 
Mesmo que as lideranças da CNB e Mensagem queiram ignorar esses fatos, não é possível aceitar o argumento de que sair agora do governo Cabral seria oportunismo. Oportunismo é ficar em um governo em que não se tem identidade. Oportunismo é ficar com cargos até o final do ano e dizendo que terá candidato próprio ao Palácio Guanabara contra a candidatura da continuidade. Quem está sendo oportunista?
 
Também é importante dizer que para Cabral é interessante a permanência do PT, alem de não enfraquecer ainda mais seu combalido governo, ganha tempo para chantagear petistas e seus aliados e causar dúvidas sobre a possível candidatura Lindbergh Farias ao governo do estado. Quem acha que a palavra chantagem é forte é bom lembrarmos que, para aprovar as OSs na saúde, ele exonerou Carlos Minc e Rodrigo Neves para votarem o projeto na Alerj e enquadrar o partido com ameaça dos cargos.
 
Para aqueles que não consideram as diferenças programáticas e ideológicas relevantes, e estes tem crescido no PT (contra isso só votando em Renam Brandão para presidente estadual e na chapa Um Novo Tempo), ao menos deviam dizer ao governador: "Achamos que não é correta a nossa permanência no governo, já que vamos apresentar uma proposta alternativa para o desenvolvimento do nosso estado." 
 
Importante repetir, OPORTUNISMO É CONTINUAR NO GOVERNO CABRAL.
 
O PED no PT-RJ tem 21 chapas inscritas apoiando 4 candidatos a presidente. Até agora apenas o candidato Renam Brandão, da chapa Um Novo Tempo, se posicionou abertamente pela saída do governo Cabral. Os outros candidatos ainda não disseram claramente o que defendem.
 


Direção Estadual da Articulação de Esquerda

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Juntos na Contramão - Novo Site


No final de 2008 criei o blog Contramão. Ele era a livre expressão daquilo que eu pensava, me incomodava ou emocionava. Isto não me satisfaz mais! Num mundo onde tentam nos impor uma visão única da realidade, nos levando a não reflexão e resignação, não quero mais apenas a contramão. Quero a afirmação coletiva da contramão como negação disto que aí está. Negação do mundo que produz mais alimentos do que necessário e assiste parte de sua população morrer de fome. Que cinicamente faz campanhas pela paz enquanto se silencia diante da triste estatística que nos mostra que uma mulher é agredida a cada 5 minutos no Brasil. Que silencia ante a polícia que mais mata no mundo e que tem como suas vítimas o jovem, negro e favelado.
Negar esta sociedade é, antes de mais nada, afirmar nossa crença na nossa ação transformadora. É nos afirmarmos humanos na construção cotidiana de um mundo mais justo.
Eis aqui uma trincheira. Eis aqui uma praça, uma rua, uma mesa de bar, um livro, uma qualquer coisa onde, juntos, seremos melhores. Eis aqui, mais uma semente de uma outra sociedade.
Aqui recebemos qualquer um que esteja na contramão. Qualquer um que queira dividir planos e ações transformadoras. Aqui pensamos na radicalidade democrática. Não a democracia, palavra banalizada, que brota sem sentido da boca de nossos algozes. Mas a democracia que nos fará sujeitos plenos de nossa história. Democraticamente, portanto, deixamos claro, preconceituosos, conservadores, elitistas e defensores da sociedade desigual e perversa que vivemos, não participarão deste espaço. Aqui podemos divergir sobre os caminhos que seguiremos, mas nunca sobre onde queremos chegar! Aqui estamos na contramão e, cada vez mais, juntos!

Grande abraço,

Marcelo Biar



Link para acessar o novo site: Juntos na Contramão

domingo, 18 de agosto de 2013

RIO: ATIVISTAS PEDEM NOVO PRESIDENTE PARA CPI DOS ÔNIBUS


Da Agência Brasil

Manifestantes contrários à composição da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Ônibus na Câmara de Vereadores bloquearam as avenidas Rio Branco e Evaristo da Veiga, na altura da Cinelândia nesta quinta-feira (15).
O bloqueio começou por volta das 11h30, com manifestantes caminhando entre os carros. Eles sentaram e deitaram no meio das pistas. Alguns estavam mascarados e carregavam cartazes com a frase: “CPI não acabe em pizza”. Outros gritavam palavras de ordem pedindo apoio aos professores da rede pública do estado e da capital, que estão em greve por tempo indeterminado.
Os manifestantes protestam contra a eleição do vereador Chiquinho Brazão (PMDB) para a presidência da comissão. Eles reivindicam que o cargo seja ocupado pelo vereador Eliomar Coelho (PSOL), que propôs a instalação da CPI.
Policiais militares que estavam posicionados na entrada lateral da Câmara de Vereadores foram para a Avenida Rio Branco. De acordo com a Polícia Militar (PM), cerca de 300 homens de cinco batalhões acompanharam o protesto.
CPI
A primeira reunião da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Ônibus, na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, foi realizada nesta quinta-feira (15) no Palácio Pedro Ernesto. Dez manifestantes, com fitas pretas na boca, já estavam no interior da Casa e também acompanharam a reunião. Logo no início, o vereador Eliomar Coelho (PSOL), que propôs a criação da CPI, se retirou da sala em protesto por não ter sido escolhido para presidir os trabalhos.
Na reunião, que durou quase uma hora, foram aprovados requerimentos e agenda com as datas das audiências. A primeira audiência está marcada para o próximo dia 22.
Impasse
Na segunda-feira (12) os vereadores, Eliomar Coelho, Jefferson Moura, Renato Cinco, e Paulo Pinheiro, do PSOL, além de Teresa Bergher (PSDB), Leonel Brizola Neto (PDT), Márcio Garcia (PR) e Reimont (PT) se reuniram e decidiram manter o pedido de renúncia de quatro colegas que não assinaram a instauração da CPI.
O apelo para que eles renunciem às vagas na comissão foi feito no plenário de forma individual.
Os vereadores querem também anular a sessão de sexta-feira (9), quando houve a instalação da CPI e as eleições do vereador Chiquinho Brazão (PMDB) como presidente e do vereador Professor Uóston (PMDB) para relator. Os dois, e mais os vereadores Renato Moura (PTC) e Jorginho da SOS (PMDB), integrantes do colegiado, não assinaram o pedido de criação.
“Eles não assinaram o requerimento de instauração da CPI, então eles são contra a CPI. Se são, não tem por que representarem a Câmara Municipal nesta CPI”, disse o vereador Márcio Garcia.
Os parlamentares pretendem ainda alterar o Regimento da Câmara para impedir que vereadores que não participem dos pedidos de criação de uma CPI integrem o colegiado e para garantir que o parlamentar autor do requerimento de instauração seja automaticamente eleito presidente.
Por isso, segundo o vereador Márcio Garcia, o colega Eliomar Coelho, autor do pedido de criação da CPI dos Ônibus, deveria ser eleito presidente.
Apesar de admitir que não assinou o requerimento de criação da CPI, o relator, vereador Professor Uóston, disse que a instalação da comissão foi legal e seguiu o Regimento Interno da Câmara. Ele informou que não vai renunciar ao posto e garantiu que os outros integrantes, incluindo o presidente Chiquinho Brazão, não pensam em se afastar da CPI.
“O regimento da Casa determina que os membros da CPI serão escolhidos de forma majoritária entre partidos ou blocos e pelo critério da proporcionalidade”, disse.
Os vereadores contrários à instalação da CPI marcaram ainda um encontro na terça-feira (13) com o procurador-geral de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, Marfan Vieira, para pedir a interferência do Ministério Público na questão.
Na segunda (12), também a Câmara fez a primeira sessão desde que o plenário foi ocupado por um grupo de dez manifestantes na sexta-feira (9). Eles deixaram o plenário e foram para as galerias depois de uma negociação com alguns vereadores. A sessão, no entanto, foi encerrada por falta de quórum. Logo depois, os manifestantes, que pedem alterações na composição da CPI, voltaram a ocupar o plenário.
Professores
Mais de seis mil professores fizeram uma passeata pela zona sul da cidade na quarta-feira (14). Eles marcharam em direção ao Palácio da Cidade, sede oficial da prefeitura.
Os manifestantes fizeram uma assembleia no Largo do Machado e decidiram caminhar até o palácio para tentar uma audiência com o prefeito Eduardo Paes. Os professores da rede municipal estão em greve desde o último dia 8.
O Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do Rio (Sepe-RJ) se reuniu na terça-feira (13) com representantes das secretarias municipais de Gestão, de Educação e da Casa Civil, mas, segundo o próprio Sepe, não houve avanço nas negociações.
Os professores querem um aumento real acima de 19%, a implantação de um plano de cargos e salários unificado, eleição direta para diretores de escolas e abono dos dias de paralisação, entre outras reivindicações. Mais de 80% das escolas aderiram à paralisação.
Cabral
Além da passeata dos professores, foi realizada uma manifestação pedindo a saída de Sérgio Cabral do governo do estado. Quando os manifestantes tentaram se aproximar do Palácio Guanabara, sede do governo fluminense, no bairro de Laranjeiras, zona sul da cidade, policiais da Tropa de Choque usaram bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral para os dispersar.
Com a dispersão, os manifestantes se espalharam por ruas internas do bairro e os policiais continuaram o patrulhamento no local, usando, inclusive, carros blindados, conhecidos como caveirões.
Além de protestarem contra o governador, os manifestantes cobraram a localização do pedreiro Amarildo de Souza, desaparecido há um mês, no dia 14 de julho, na Rocinha, e defenderam pautas como o passe livre no transporte e a desmilitarização da Polícia Militar.