terça-feira, 9 de abril de 2013

Porto Alegre: sinais de Primavera Brasileira?

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Auto-convocados por redes sociais, jovens fizeram uma semana de mobilizações, até revogação do aumento dos ônibus. Que eles ensinam?

Por Samir Oliveira. no Sul21 | Imagens: Ramiro Furquim

Na segunda-feira (1), os porto-alegrenses realizaram um protesto como há muito não ocorria na cidade. Pelo menos 6 mil pessoas saíram às ruas para exigir a revogação do aumento da passagem de ônibus, numa época em que é bastante comum ouvir lamentos de que já não ocorrem mais grandes manifestações. Não são poucos os que dizem que, hoje em dia, existem apenas “ativistas de sofá”, em referência à convocação de mobilizações por redes sociais como Facebook e Twitter – expediente utilizado para organizar os atos contra o aumento da passagem na Capital.

Desconsiderando os grandes eventos — como o Fórum Social Mundial Temático, de janeiro de 2012, e o Fórum Social Mundial Palestina Livre, de dezembro do ano passado — , a cidade não recebia uma manifestação tão grande desde março de 2011, quando mais de duas mil pessoas foram às ruas para protestar contra o atropelamento em massa de ciclistas feito pelo funcionário do Banco Central Ricardo José Neis.

Sociólogos e cientistas políticos ouvidos pelo Sul21 avaliam que a intensidade do último protesto contra o aumento da passagem sinaliza uma revolta crescente contra políticas de restrição dos espaços públicos em Porto Alegre e dialoga com a lógica de movimentos autoconvocados em outros lugares do mundo, como as ocupações nos Estados Unidos e os Indignados na Espanha.

O perfil do Occupy da cidade de Barcelona, na Espanha, chegou a reproduzir uma imagem do protesto desta segunda-feira na Capital. Em uma artigo publicado nesta quarta-feira (3) no Jornal do Comércio, o jornalista Guilherme Kolling, que morou em Madri, comenta as semelhanças dos atos na Capital com a revolta dos jovens espanhóis. “’¡Manos arriba! ¡Eso es un atraco!’, gritavam os Indignados da Espanha, em uma manifestação em Madri no ano passado contra os cortes do governo central. ‘Mãos ao alto! R$ 3,05 é um assalto!’, bradavam os estudantes de Porto Alegre, ao protestar contra o aumento da passagem de ônibus na segunda-feira”, comparou.


Movimento pode consolidar cultura política para além da representação, avalia cientista político

Uma das características desse tipo de movimento é a ausência de grandes lideranças. Os atos costumam ser convocados no Facebook e reúnem grupos de diferentes linhas ideológicas, que atuam dentro ou fora da institucionalidade – além de uma ampla gama de participantes que não atuam em nenhum tipo de organização política.

Esse coletivo diversificado compõe o Bloco de Luta pelo Transporte Público, que é um dos principais aglutinadores de agentes sociais envolvidos nos protestos contra o aumento da passagem, mas cujos integrantes organizados — que participam de reuniões e assembleias — não são maioria entre os manifestantes. No primeiro protesto, no final de janeiro, os ativistas organizados em coletivos compunham parte expressiva da mobilização, que possuía algumas centenas de jovens. Entretanto, nos dois últimos atos, quando o número chegou à casa dos milhares, quem engrossou o caldo nas ruas foram jovens sem qualquer envolvimento com o bloco.

O cientista político e professor da Unisinos Bruno Lima Rocha observa que as organizações que apoiam e também convocam esses protestos não hegemonizam os atos. “No protesto de quarta-feira, claramente, havia pelo menos cinco forças políticas: PSTU, PSOL, Movimento Revolucionário, PCB e Federação Anarquista Gaúcha. Nenhuma delas é majoritária e consegue hegemonizar o ato. É um sintoma de que a manifestação transborda e se inverte. Quem está organizado em alguma instituição não consegue hegemonizar o que é convocado”, interpreta.

No final da manifestação de quarta-feira, muitos jovens gritaram para que os militantes partidários abaixassem suas bandeiras e bradaram: “O povo unido protesta sem partido!”. Na opinião de Bruno Lima Rocha, “o sentimento de não aceitar intermediários políticos é muito presente” nesse tipo de movimento. Ele acredita que isso pode “consolidar uma cultura política nova, que transborde a representação”. Mas alerta que também há riscos decorrentes dessa postura. “Na ausência de uma intermediação política, que acaba sendo deslegitimada, os atos podem deixar uma experiência, mas não um tecido social organizado”, ressalva.


“Quem pauta os protestos são os indivíduos, não as instituições”, observa sociólogo

Professor da Faculdade de Ciências Sociais da PUCRS, Adão Clóvis Martins dos Santos entende que Porto Alegre está consolidando uma nova cultura de manifestações – a partir de referências que chegam de experiências como o movimento Occupy nos Estados Unidos e os Indignados na Espanha.

“Existe um caldo de uma nova cultura e prática de mobilização se formando. É claro que existem partidos, diretórios estudantis e sindicatos que também organizam e convocam, mas quem pauta esses protestos são os diferentes indivíduos, não as instituições”, explica.

O professor afirma que essa estrutura fluída de organização confunde, inclusive, as autoridades públicas, que não estão compreendendo essa dinâmica. “Há algumas semanas eu ouvi de um policial militar que a polícia não sabe como agir em relação a esses movimentos. Não sabem qual o trajeto de uma marcha, pois não existe roteiro. O policial disse que é mais fácil lidar com o MST, que possui lideranças definidas, do que acompanhar um ato desses”, comenta.

Adão Clóvis observa que as causas que estão motivando os jovens a ir para as ruas hoje são diferentes das que mobilizavam a população entre os anos 1960 e 1980. “Um dos grandes movimentos de Porto Alegre hoje é a luta pelo espaço público democrático e pelo direito de ir e vir. A palavra de ordem desses grupos é contra a apropriação privada de espaços públicos. Questionam uma cultura que deseja que os jovens sejam segregados e confinados em espaços fechados, sem fazer ruído”, avalia.

O sociólogo acredita que o que levou pelo menos 6 mil pessoas às ruas na segunda-feira foi um processo de revolta contra diversas políticas restritivas, que acabaram tendo como estopim o aumento da passagem. “É uma reação a políticas que restringem o uso do espaço urbano e a capacidade do cidadão em se locomover por ele”, critica o professor, que também dá aulas sobre Teoria da Urbanização.

Apesar de reconhecer a predominância de indivíduos sobre instituições, Adão Clóvis entende que algumas organizações podem se readaptar a essa nova dinâmica de mobilização. “A partir de um determinado momento, DCEs importantes, como da PUCRS e da UFRGS, retornam às manifestações. Grupos recém iniciados na política chegaram à direção dessas instituições. Eles não possuem experiência, mas também não possuem os vícios de uma estrutura organizada”, entende.


“Vivemos movimento de explosão social que não ocorre pela via política tradicional”, diz professor da UPF
Professor de Sociologia da Universidade de Passo Fundo (UPF), Vinícius Rauber afirma que as mobilizações em Porto Alegre ganharam corpo porque o descontentamento em relação ao preço da passagem atinge boa parte da população da cidade. “A gênesis do movimento ocorreu com o fechamento de espaços de socialização da juventude. Com o aumento da repressão, a organização e as reclamações deixaram de ser apenas pela internet. No caso das passagens, o cidadão comum passa a se identificar com o movimento, pois vê que seu calo também está sendo pisado”, reflete.

Ele também reforça a semelhança dessas revoltas com os levantes em outros lugares do mundo, mas pontua diferenças. “Não é algo restrito a Porto Alegre. Vemos isso no Occupy desde 2010 e nas mobilizações da Primavera Árabe. Claro que, nesse último caso, tratava-se de sistemas totalitários que abrangiam toda população de um país. Mas o princípio é o mesmo: pessoas que se organizam na internet e vão para as ruas protestar contra a opressão de instituições do Estado”, qualifica.

Vinícius Rauber entende que as críticas que se proliferam à presença de partidos políticos nas manifestações refletem uma descrença na política institucional, mas não acredita que isso dê um caráter apolítico ao movimento. “Os protestos começaram como uma reação a uma política específica – como fechamento de bares –, depois foram aumentando, por conta da repressão, e se transformaram em manifestações de cidadania positiva. Estamos vivendo um momento de explosão social que não ocorre pela via política tradicional. A redemocratização brasileira ocorreu assim, com pequenos movimentos de esquerda demandando questões pontuais, até que a população se uniu em um movimento mais amplo. Estamos vivendo esta fase de transição e agregação“, resume.



Foto: Ramiro Furquim/Sul21

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Periferia: “mesmo céu, mesmo CEP, no lado sul do mapa?”

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Crise dos anos 1990 forjou identidade rebelde das quebradas. Mas ao retratá-la, em 2002, Mano Brown antecipava, angustiado, outro momento

Por Antonio Eleilson Leite, editor da coluna Literaturas da Periferia

(Segunda parte de ensaio sobre o rap Da Ponte pra cá, dos Racionais MCs e as transformações vividas pelas periferias brasileiras, seus habitantes e artistas. Leia aqui o primeiro e o terceiro segmento) 

II. Lavando o ódio embaixo do sereno

“Da ponte pra cá” é uma composição, cujo tema teve pelo menos dois anúncios prévios publicados por Mano Brown. O primeiro foi no ano 2000 no livro Capão Pecado, do escritor Ferréz, no qual, Brown escreve um texto intitulado “A número 1 sem troféu”1. O segundo foi no ano seguinte, na sua participação no CD solo do K L Jay, DJ dos Racionais. Este CD, de título KL Jay na Batida, vol. 3 Equilíbrio, lançado em 20012, traz a participação tanto de Mano Brown como do Edi Rock, os dois compositores do Racionais. No álbum duplo, Edi Rock abre o CD 1 e Mano Brow encerra o CD 2. Ambas as faixas tem o mesmo nome: “Privilégio”. Edi Rock canta a “Privilégio 1” que tem subtítulo Século 20 -21 que é um rap do qual participam os sócios de KL Jay na produtora 4 P, Rappin Hood e Xis. Um breve rap de 2,51 minutos. Já na faixa “Privilégio 2 – O tempo é rei”, com Mano Brown temos um depoimento do cantor que tem duração de 18m32s. Nessas duas colaborações em obras alheias, Brown antecipa vários elementos que estruturam o rap “Da ponte pra cá”e indica o tom melancólico da composição encoberto por uma melodia dançante e harmonia vibrante que conduzem o ouvinte a um clima diferente do que o conteúdo da letra sugere.

A número 1 sem troféu:

No livro de Ferréz, o texto “A número 1 sem troféu”, o elemento central do rap “Da ponte pra cá” já é dado no seguinte trecho:

Sem pretensão, a gente aqui do Capão nunca ia conseguir chamar a atenção do resto do mundo, porque da ponte João Dias pra cá é outro mundo, tá ligado?

Fica claro aqui a que ponte se refere a composição. Trata-se da Ponte João Dias que dá acesso aos distritos do Jardim São Luiz, Capão Redondo e Campo Limpo, entre outros bairros a partir de Santo Amaro, último bairro do lado lá. Via elevada sobre o Rio Pinheiros, continua em avenida homônima que depois passa a se chamar Estrada de Itapecerica da Serra, outra via citada em momento fundamental do rap. Esses três distritos somam mais de 1 milhão de habitantes e possuem características semelhantes compondo uma área urbana muito representativa do processo de periferização da região Sul de São Paulo: alta densidade populacional, serviços públicos escassos, assentamentos precários, falta de saneamento e transporte, entre outros direitos e altos índices de violência. Tais predicados eram ainda mais acentuados nos anos 1990 e início da primeira década do século XXI, época em que foi composto o rap “Da ponte pra cá”. O próprio autor, baseado na sua percepção cotidiana da realidade afirma no texto:

São Paulo massacra os + pobres e aqui no extremo sul eu senti na pele o que é ser preto, pobre, filho de mãe solteira negra, que veio da Bahia com 12 anos de idade. Aprendi a não gostar de polícia (…) No Capão Redondo é onde a foto não tem inspiração para cartão postal (…) Capão Redondo é a pobreza, injustiça, ruas de terra, esgoto à céu aberto, crianças descalças (…) tensão e cheiro de maconha o tempo todo.

Porém, há no texto uma construção simbólica que define o Capão Redondo e as adjacências como um “mundo diferente”. Um mundo diferente, mas não um mundo à parte. O rapper situa esse distinto lugar dentro da cidade de São Paulo. Logo na segunda faixa do CD 1 (Vivão e Vivendo), a narrativa também se situa o contexto na Capital paulista: Você está nas ruas de São Paulo / Onde o vagabundo guarda o sentimento na sola do pé. Essa distinção não se restringe às carências relacionadas à precariedade urbana do lugar. Brown parece anunciar uma subjetividade coletiva traduzida no orgulho de ser deste local, apesar de todas as dificuldades que lhe são próprias. Veja:

São Paulo não é a cidade maravilhosa, e o Capão Redondo no lado sul do mapa, muito menos. Aqui as histórias de crime não têm romantismo nem heróis. Mas aí! Eu amo essa porra! No mundão eu não sou ninguém, mas no Capão Redondo eu tenho meu lugar garantido, morô, mano? (…) Capão Redondo, uma escola.

Nestes trechos citados no texto “A número 1 sem troféu”, temos já três elementos fundamentais presentes na letra do rap “Da ponte pra cá”: a) a definição geográfica e social (da Ponte João Dias pra cá / Lado sul do mapa / Pobreza, injustiça / Cheiro de maconha o tempo todo); b) a dimensão simbólica (Outro mundo / No mundão não sou ninguém, mas no Capão tenho meu lugar) e c) a dimensão subjetiva (Capão Redondo, uma escola / Amo essa porra!). 

Na letra do rap, composto mais tarde, o primeiro elemento se define principalmente no verso do refrão: O mundo é diferente da ponte pra cá. Os aspectos sociais relacionados à pobreza não são trabalhados no rap de forma direta, como em “Negro Drama” e nas duas versões de “Vida Loka”, por exemplo. Há uma abordagem indireta e irônica na seguinte passagem: Hey truta, eu tô louco, eu tô vendo miragem / Um Bradesco bem em frente à favela é miragem. Esses versos apontam a improbabilidade de uma instituição bancária se instalar junto a um lugar de concentração de pessoas de baixa renda. Passados dez anos, isso não só deixou de ser “miragem”, como até virou estratégia dessas empresas na busca pelas classes C e D. 

Ainda sobre primeiro elemento, destacamos os versos: Nunca mudou, nem nunca mudará / O cheiro de fogueira vai perfumando o ar / Mesmo céu, mesmo cep no lado Sul do mapa. O “cheiro de fogueira” pode ser uma referência cifrada a cheiro de maconha citado no texto. Não creio que seja um atenuante de censura dado pelo autor. Talvez seja uma opção em função da rima interna: cheiro/fogueira. Se fosse maconha, a sílaba tônica não ficaria bem encaixada no verso. Não obstante, a fogueira em seu sentido literal é algo muito próprio da periferia, ou pelo menos era até a época em que o rap foi composto. Além do mais, é uma madrugada fria de inverno, período em que se torna ainda mais comum o hábito de se acender uns gravetos no centro de uma roda de conversa entre rapazes, prática cultural já citada em outras composições do Racionais3. 

Já o termo lado sul do mapa é idêntico ao do texto como se vê. O dado novo, me parece, é o CEP – código de endereçamento postal. A habilidade poética no uso deste termo que faz uma composição rítmica com céu (mesmo céu, mesmo CEP) resultou numa expressão que repercutiu junto a outros artistas e movimentos culturais de periferia, como identificou Heloisa Buarque de Hollanda4 e reforça o aspecto geográfico com uma sutileza muito interessante.

Sobre o segundo elemento, aparecem no rap, entre outras, as seguintes passagens: Nas ruas da Sul eles me chamam Brown / Maldito vagabundo, mente criminal / O que toma uma taça de champagne também curte / Desbaratinado, tubaína tutti-frutti. (…) Jardim Rosana, Três Estrelas e Imbé / Santa Tereza, Valo Velho e Dom José / Parque (Santo Antônio), Chácara (Santana), (Jardim) Lídia, Vaz (de Lima) / Fundão / Muita treta pra Vinícius de Moraes! Nos primeiros versos Brown retoma o tema fundamental da trilogia: “Negro Drama”, “Jesus Chorou” e “Vida Loka I” e II. Enfatizando que o acesso a bens como champagne, supostamente adquirido em função da elevação de renda decorrente do sucesso comercial de sua música, não tira dele o apreço pelo refrigerante popular muito consumido nas periferias, símbolo de um segmento social do qual ele não se desvincula simbolicamente. Como é dito no rap “Negro Drama”: O dinheiro tira o homem da miséria / mas não pode arrancar dele a favela (primeira parte – Edi Rock) e Você sai do gueto, mas o gueto nunca sai de você (segunda parte – Mano Brow). O apego ao bairro e toda a “rapa” é algo indissociável para o autor, razão de ser da sua visão de mundo e de seu lugar no mundo. 

Faz muito sentido aqui a noção de frátria, definida por Maria Rita Kehl como “um campo de identificações horizontais” que justifica o tratamento de “mano”, indicando uma “ intensão de igualdade”5. O sentimento de igualdade derivado da condição fraterna entre os manos estende-se para os bairros de onde procedem essas pessoas. A forma como é citado cada um desses lugares dá a impressão de que “os manos” da periferia formam uma legião com alto grau de identificação e coesão. Indica a existência de um amplo movimento social, predominantemente juvenil, majoritariamente negro e pobre, pronto para o confronto. Daí, talvez a menção enigmática a Vinícius de Moraes. Este consagrado poeta é citado na letra do rap na sequência de uma série de bairros da periferia da Zona Sul de São Paulo, numa composição onde o aspecto geográfico é fundamental. 

Não faz sentido, aparentemente, que seja uma alusão à pessoa de Vinícius de Moraes (e sua condição de poeta, músico e intelectual ligado às classes médias) e sim um lugar de base territorial que leva seu nome. Como há um elemento de tensão explícito (muita treta), a citação sugere um lugar de oposição aos bairros citados. Essa oposição não seria, ao meu ver, de conflito interno (embora haja passagens na letra que revelam conflitos internos à frátria) e sim um fator exógeno. 

Minha hipótese é que o autor esteja se referindo à Praça Vinícius de Moraes no bairro do Morumbi, conhecido reduto da burguesia e classe média alta paulistana. Trata-se de uma praça muito ampla, ao lado do Palácio dos Bandeirantes, sede do Governo do Estado, onde os moradores locais costumam se exercitar e passear com seus cachorros. Faço este destaque para debater com a dedução, ao meu ver equivocada, de Leandro Pasini, em texto citado anteriormente, no qual afirma:

“(…) após enumerar alguns bairros da periferia da Zona Sul de São Paulo, Brown arremata: Muita treta pra Vinícius de Moraes! Ou seja, o rapper conclui que a violência de lá está muito acima das possibilidades expressivo-paisagística desse outro poeta-cantor que é Vinícius de Moraes”6

O elemento subjetivo, expresso no texto “A número 1 sem troféu” através da referência a “escola” e ao amor que o autor expressa pelo lugar, aparece mais explicitamente nos seguintes versos do refrão: Não adianta querer, tem que ser, tem que pá / Não adianta querer, tem que ter pra trocar. Logo depois do primeiro refrão: Da ponte pra cá antes de tudo é uma escola / Minha meta é dez, nove e meio nem rola e nos versos finais do rap: Senhor, guarda meus irmãos nesse horizonte cinzento / Nesse Capão Redondo, frio, sem sentimento/Os mano é sofrido e fuma um sem dá guela / É o estilo favela e o respeito por ela/Os moleque tem instinto e ninguém amarela / Os coxinha cresce o zóio na função e gela.

Temos aqui a expressão do eu-lírico em três passagens fundamentais desta composição. No refrão a sentença de que a frátria está formada. Tem gente (mais de 50 mil manos anunciados no CD anterior) e território (da ponte pra cá). A adesão (à banca ou à frátria), entretanto, não é algo que se possa conseguir de forma voluntária, mas por merecimento, proceder e procedência. Zé povinho, playboy, malandrão vândalo, vermes e traíras e mulheres de certo tipo – quase nenhuma é digna, no universo misógino dos Racionais –, não entram. 

No rap “Da ponte pra cá”, dividido em três partes, em cada uma delas um tipo social é rejeitado. Na primeira parte, os playboy: Playboy bom é chinês, australiano / Fala feio, mora longe não me chama de mano / Três vezes seu sofredor, odeio todos vocês. Na segunda parte, são os manos de quebrada que desandaram em busca de fama E tá tirando dez de havaiana (cumprindo pena na prisão). E por fim os bandidos “vândalos”, criminosos sem ética, Batendo no peito feio e fazendo escândalo. Identificados os elementos destoantes da irmandade, o rapper apela a Deus para guardar os “manos sofrido”, “ estilo favela” que botam medo nos policiais, referidos aqui pelo designação de “coxinha”, atribuída aos PMs devido ao costume de pararem em botecos e padarias para fazerem lanche.

Mano Brown, ainda que se mantenha inserido no mesmo contexto social de sua origem, encontra-se nele numa condição dúbia de pertencimento. Um lugar de dentro e ao mesmo tempo de fora, que lhe permite a tudo observar (“eu vejo tudo e ninguém me vê”) e formular juízo moral (não moralista) sobre o que se passa na quebrada que ele tanto ama, sua escola de vida. Seria ele o poeta épico freudiano (aquele que assume para si a autoria coletiva da morte do pai tirano)?7 Talvez se coloque como o guardião de uma irmandade na qual vive o conflito tenso e indissolúvel de pertencer, podendo dela se desprender pois seus laços não são mais materiais , mas apenas simbólicos.

O Tempo é rei:

Esse conflito fica ainda mais evidente no teor do depoimento do autor no CD de KL Jay, “Privilégio 2 – O tempo é rei”. Na sua fala, aborda um outro aspecto que aparece depois na letra do rap “Da ponte pra cá”. É a crise de ordem existencial que o autor reconhece em si, mas principalmente na irmandade e me parece se revelar no seguinte trecho da letra de “Da ponte pra cá”: Outra vez nós aqui vai vendo / Lavando o ódio embaixo do sereno / Cada um no seu castelo, cada um na sua função / Tudo junto cada qual na sua solidão / (…) Óh, filosofia de fumaça, analise / E cada favelado é um universo em crise.

Mano Brown chega ao estúdio da gravadora Trama onde Kl Jay produz seu CD e anuncia o tempo e o espaço em que se encontra. Uma quarta-feira do outono de 2001, por volta das 23h30. Os momentos que antecedem sua chegada serão a partir daí o enredo de seu depoimento. Saindo do Capão na companhia de alguns manos, passa pelo Jardim Miriam (outro bairro da Zona Sul, porém bem distante do Capão Redondo), onde observa a precariedade das residências de tijolo exposto, escadas quebradas, ruas de terra e bares lotados as 19h. Põe-se a refletir sobre o apelo que o bar exerce nos trabalhadores que se dirigem a este tipo de comércio antes mesmo de chegar em casa. “Entre o bar e o Jornal Nacional, não sei o que é pior”, resigna-se o rapper. “Sou um cara observador” define-se para anunciar em tom desesperançoso: “O mundo todo está em crise. Você não vê felicidade em ninguém, nem no pobre, nem no rico. Tá todo mundo desorientado. Eu também”, admite, embora reconheça que sabe o que quer, qualificando sua desorientação como um espasmo, um momento isolado de desconexão. 

Recupera na memória o momento de saída do Capão Redondo naquele dia. Expressa seu desânimo: “Lugar pra ter gente frustrada igual à Zona Sul, tô pra ver”. Relata ter visto os manos, cerca de trinta cara fumando maconha, rindo, porém, percebia no fundo do olho de cada um uma profunda tristeza. Mais um rolê, observa os barracos de uma favela no Capão, o som estridente da sirene de uma viatura da Polícia e imagina o sofrimento de alguém quando souber da notícia. Chama a atenção para a quantidade de ladrões: “na periferia, de dez, oito está roubando”. Tem mãe, diz ele, que fica aliviada ao saber que o filho está preso, pois assim se sente mais segura. 

Brown continua sua reflexão. Diz que jamais entraria no crime. Primeiro porque tem que sustentar o filho que está com seis anos. Depois, sua mãe não aguentaria saber de uma notícia dessas. Nesse momento, enaltece, como sempre faz, o amor que tem por sua mãe. Em tom confidencial, conta que seu respeito por dona Ana é tão grande que ele não é capaz de fumar na frente dela, admitindo ter queimado os dedos várias vezes ao apagar o cigarro às escondidas. Termina o depoimento agradecendo ao rap e a família Racionais. Reproduz frase que acabara de ver num outdoor que lhe fascinou e que diz: “a vida é desenhar sem borracha”

Mano Brown dá, em seu depoimento a devida dimensão do que realmente pensa sobre a quebrada, a irmandade, despido das rimas e da batida do rap “Da ponte pra cá”. Toda a fragilidade está exposta num ambiente de crise social profunda como foi a que marcou a virada de século no Brasil e na Cidade de São Paulo em particular. Este rap expressa, na sua poesia e na fala de seu autor, que a frátria está dilacerada e que o esforço civilizatório do rap na periferia de São Paulo, como sinaliza Maria Rita Keh8 é uma tarefa tão grandiosa quando improvável. 

Talvez por isso, “Da ponte pra cá” termine com uma espécie de epitáfio, um apelo a Deus para proteger os irmãos sofridos num “Capão frio, sem sentimento, nesse horizonte cinzento”. Um quadro desolador também reconhecido por Ferréz no livro Capão Pecado, “lugar abandonado por Deus, batizado pelo Diabo”.9 Todo carga conflituosa e sombria deste rap destoa da melodia e da harmonia, bem como da interpretação no CD. A forma estética da música seduz o ouvinte, conduzindo-o a um estado de agitação e expectativa que destoa daquilo que sugere o conteúdo da composição. Citando os cursos de estética de Hegel, Walter Garcia nos explica o seguinte:

“Da parte do ouvinte, sem muito risco de errar, pode-se dizer que a atenção dos sentidos é despertada antes da atenção do raciocínio, isto é, antes da compreensão efetiva do tema que se canta. Nisso o rap não é diferente de nenhuma outra forma de canção: seduz e arrebata antes de tudo pela sonoridade, ainda que justamente a letra indique o “que é mais preciso no conteúdo”.10

“Da ponte pra cá”, é um rap que exige a uma audição atenciosa. À primeira vista pode parecer uma composição de exaltação sustentada em apologia à periferia, despertando um rancor com o outro lado da ponte, embalada por uma melodia dançante e harmonia vibrante. Não é bem isso que revela a letra. Este rap é auto-crítico com a quebrada, vai fundo na miséria da existência humana, nas tensões e conflitos endógenos e busca luz numa instância divina para proteção de um povo que, embora forte (que “não amarela”), está à deriva, sem esperança. É “estilo favela”, mas em cada favelado há “um universo em crise”. Daí os versos , ao meu ver, centrais: Outra vez nóis aqui, vai vendo / Lavando o ódio embaixo do sereno. Talvez esse estado de crise e desesperança seja a razão deste rap aparecer como um apêndice do CD como dito no início deste texto. Não é nem “chora agora”, nem ”ri depois”. O sentimento aqui não é polarizado, é melancólico com variação de intensidade conforme o foco do narrador que vê “vermes e leões no mesmo ecossistema”.

III. É o estilo favela

No CD Nada como um dia após o outro dia, há uma faixa intitulada “12 de Outubro” (faixa do 8 CD 1 – Chora agora). Não é um rap. É um depoimento de Mano Brown tendo como fundo um solo de violão. Nela, o rapper, novamente num rolê pela quebrada, sai da região do Capão Redondo, mais especificamente do Parque Santo Antonio, atravessa a ponte no sentido da Vila Santa Catarina no final da então avenida Águas Espraiadas (atual Roberto Marinho) e passa por um grupo de crianças numa favela. Cumprimenta os meninos e fica sensibilizado pela história de um deles que ganhou da mãe, no dia das crianças, um tapa na cara. A agressão materna foi uma reação contra o garoto que protestou por não ter ganho presente. Indignado, Brown faz um discurso em tom de protesto atribuindo aos governantes, de forma generalizada, uma violência entre família e vê naquele garoto, inexoravelmente, um futuro adulto amargurado, revoltado. Identifica a origem de um círculo vicioso no qual só os pobres se dão mal.

Temos aí uma crônica expressa de forma oral. Talvez pudesse virar um rap. Quem sabe, Brown tenha tentado. Na impossibilidade de compor a canção, não quis deixar de fora o tema, gravando-o como depoimento. Tenho a impressão de algo semelhante ter acontecido com o rap “Da ponte pra cá” . Observando a narrativa de O tempo é rei, fico com a impressão que ali está boa parte do conteúdo da letra desta canção que acabou por ser composta em forma de rap, gravada em CD e DVD. Entre uma e outra gravação, há um espaço de quatro anos. 

Em outra obra, o DVD Mil trutas, mil tretas, entre as quinze músicas do show realizado no SESC Itaquera, estão quase todas as faixas do CD Nada como um dia após o outro dia e três clássicos do CD Sobrevivendo no Inferno (“Fórmula Mágica da Paz”; Tô ouvindo alguém me chamar e “Diário de Um Detento” – todos de Mano Brown11). O rap “Da ponte pra cá” é a faixa nº 6 do DVD, meio do espetáculo, portanto. Bem diferente do lugar em que se encontra no CD. Neste momento do show ficaram agrupados os raps mais sombrios. “Da ponte pra cá” está exatamente entre duas músicas do Edi Rock: faixa 5, “O crime vai, o crime vem” e faixa 7, “Expresso da Meia noite”. Parece-me um dado relevante. 

Este último rap é tragédia do início ao fim: tios embriagados, favelas, chacina, assassinato, pai espancando filha, menina que faz aborto com 15 anos, criança que nasce de estupro. Não há refrão, mas estes dois versos são particularmente marcantes: A vida no Fundão é desiquilibrada / Hebrom, Piqueri, Jova Rural, Serra Pelada. Percebo nesta passagem uma associação pertinente que reforça o tom melancólico e trágico que identifiquei no rap “Da ponte pra cá”. A letra faz referência a um conjunto de bairros do extremo norte da Cidade de São Paulo, divisa com Guarulhos, muito próximos da Rodovia Fernão Dias, todos bairros surgidos nas décadas de 1980 e 1990, dois deles à base de ocupações feitas por movimentos de moradia e que se tornaram assentamentos muito precários12. Cenário de carência e violência muito semelhante ao Capão Redondo, palco do rap “Da ponte pra cá”. Edi Rock, porém, não aponta nenhuma saída, nem o apelo a Deus como há na composição de Mano Brown. O tom de desesperança e resignação toma conta. 

Por outro lado, a interpretação de Mano Brown e Ice Blue do rap “Da ponte pra cá” no DVD é sisuda o tempo todo. Olhar raivoso e triste. Vários rapazes (manos) na parte de trás do palco, junto ao cenário, formam uma coletividade aguerrida e dançarinos de break fazem performances com máscaras toscas de monstros, dando forma final ao cenário desolador da periferia retratado neste rap e nos outros dois que o ladeiam no set list do show. Brown termina o rap com uma frase expressa de cabeça baixa: “Minha parte eu fiz”. Seria o ato de renúncia do poeta épico? “Borrou a letra triste do poeta” (“Jesus Chorou”). Prevaleceram a melancolia, tristeza e desolação no coração do rapper durão. Um homem sensível e frágil por trás de um rap aparentemente de exaltação conduzido por uma sonoridade dançante e vibrante.

* Antonio Eleilson Leite edita Estéticas das Periferias. Para ler edições anteriores da coluna, clique aqui.

> Leia também as 35 edições de Cultura Periférica, a seção que Antonio Eleilson Leite publicou, entre outubro de 2007 e dezembro de 2008, no Caderno Brasil do Le Monde Diplomatique.

1Na primeira edição deste livro, publicada no ano 2000 pela Editora Labortexto, o texto de Mano Brown aparece na abertura da primeira, das cinco partes da obra. Outros rappers escrevem também sobre o Capão Redondo na abertura das demais partes do livro. Na edição de 2005 e suas sucessivas reimpressões, o texto de Mano Brow passou para a orelha do livro. Porém, diferente da primeira edição, nesta, não é anunciada a participação de Brown na capa da publicação.

2Obra lançada pela 4P, produtora de KLJ (em sociedade com os rappers Xis e Rappin Hood) e a gravadora Trama, São Paulo, 2001.

3No rap a A fórmula mágica da paz do CD Sobrevivendo no Inferno , por exemplo, há o verso: Na roda da função, mó zoeira / Tomando vinho seco , em volta da fogueira

4BUARQUE DE HOLLANDA, Heloisa: Escolhas, uma autobiografia intelectual, Rio de Janeiro, Lingua Geral, Carpe Diem, 2009 (pag. 153) 

5KEHL, Maria Rita, A frátira órfã: o esforço civilizatório do rap na periferia de São Paulo. In: ____ (org.) Função fraterna. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000, pag. 212.

6PASINI, Leandro, op. Cit. (pag. 102) 

7KEHL, M.R, op cit. (pag. 217)

8KEHL, op cit (

9FERRÉZ, Capão Pecado, São Paulo, objetiva, 2010

10GARCIA, Walter, Sobre uma cena de Fim de Semana no Parque, do Racionais MC’s. In: Revista Estudos Avançados, volume 25, 71, janeiro/abril 2011– Dossiê São Paulo Hoje, IEA, USP (pag. 226)

11Diário de Um Detento é uma parceria de Mano Brpwn e Jocenir

12Falo aqui por conhecimento. Fui morador dessa região, tendo participado em 1984 do movimento de ocupação de terra que deu origem ao Jardim Filhos da Terra, citado no rap pelo apelido de Serra Pelada, em função do aspecto desordenado das moradias no declive de um vasto morro. O Jova Rural já foi uma concessão do Estado e e foi estruturado como conjunto habitacional do qual meu irmão, Antonio Silvestre Leite, foi o primeiro presidente da associação local. O jardim Hebron foi outra ocupação e o Piqueri, este sim, um bairro mais estruturado de expansão mais organizado, exatamente onde eu morava. Mas é tudo quebrada.



sexta-feira, 5 de abril de 2013

Protestos fazem 'poderosos' tremer na Europa

Angela Merkel é comparada com Hitler em boneco feito por manifestantes em Lisboa, em Portugal


Por Hugo Souza

A exemplo dos seus vizinhos de Península Ibérica, nomeadamente o povo português, os espanhois vêm protagonizando nos últimos meses - a bem da verdade, nos últimos anos - ações coordenadas de classe em defesa dos seus direitos historicamente conquistados e do patrimônio público nacional, no contexto da crise profunda e generalizada dos monopólios.

Crise esta que, na Espanha, bem como em Portugal e em outros países ora sob um arrocho sem precedentes na história do capitalismo europeu, assume a nuance de "crise da dívida", expressão que denota a absoluta incapacidade de os Estados conseguirem pagar suas dívidas públicas sem a ajuda de terceiros, nomeadamente o FMI e o Banco Central Europeu, sendo isto resultado do aumento irracional dos níveis de endividamento nas últimas décadas para manter girando a roldana da economia burguesa há tempos agonizante, o que escancara a irracionalidade do próprio sistema de exploração do homem pelo homem.

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Quando o rastilho de pólvora da crise internacional estourou no Estado espanhol (e em Portugal, na Grécia, na Irlanda, etc), as classes dominantes começaram a lançar mão de medidas antipovo sem fim, anunciadas quase que diariamente, um golpe atrás do outro, tudo sob o chapéu de sucessivos "pacotes de austeridade".

É contra esta infâmia que o povo europeu não sai das ruas, em protestos cada vez mais agigantados. No dia 10 de março, o território espanhol tremeu sob as marchas de cerca de 300 mil trabalhadores em mais de 60 cidades diferentes. Os manifestantes marcaram um "basta" à escalada do desemprego, que na Espanha já aflige seis milhões de pessoas (mais de 26% da população; mais de 50% entre os jovens, ou seja, pessoas com menos de 25 anos de idade) e expressaram seu repúdio aos sucessivos cortes na educação, na saúde e da seguridade social.

França: operários ocupam entidade patronal

 

Dois dias antes das marchas coordenadas na Espanha que fizerem tremer a espinha do "primeiro-ministro" Mariano Rajoy, no vizinho espanhol do leste uma ação classista encheu o proletariado local de orgulho e inspiração. No dia 8 de março cerca de 200 operários da fábrica da montadora de carros Peugeot/Citroën em Aulnay-sous-Bois, Paris, capital francesa, ocuparam as instalações da União das Indústrias e Artes da Metalurgia, uma entidade patronal, em protesto contra o fechamento da fábrica, intenção que a Peugeot/Citroën pretende levar a cabo em 2014.

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Na fábrica que a companhia transnacional quer fechar, contando com a cumplicidade da administração "socialista" de François Hollande, para incrementar os lucros dos seus acionistas trabalham nada menos do que 2.800 pessoas. A ocupação da União das Indústrias e Artes da Metalurgia se deu no contexto de um incremento das ações dos operários em defesa do seu emprego. Entre estas ações está uma greve de fôlego, que naquele 8 de março já durava oito semanas. No alto da fachada da entidade patronal ocupada, os trabalhadores estenderam uma enorme faixa com os dizeres: "Os operários não são desordeiros, os desordeiros são os patrões".

Portugal também voltou a ser palco de um grande protesto contra as medidas antipovo sem fim. No dia 15 de março milhares de pessoas se reuniram em Lisboa para protestar contra o draconiano processo de demissão coletiva de funcionários públicos e contra os drásticos cortes de salários e de direitos dos trabalhadores.

Um dia antes, em 14 de março, uma multidão formada por pessoas de várias nacionalidades da Europa ocupou as cercanias da sede da União Europeia, em Bruxelas, na Bélgica, no momento do início do Conselho Europeu, que reuniu na capital belga os chefes de Estado e de governo da UE, para protestar contra a precarização geral do trabalho, contra as demissões em massa e o arrocho salarial.

Acossados e acuados, os poderosos da União Europeia já sentem os joelhos fraquejarem ante a autoridade das ruas. Ali mesmo, em Bruxelas, no primeiro dia do Conselho Europeu, enquanto a massa fazia barulho do lado de fora, do lado de dentro das paredes da União Europeia do capital monopolista o primeiro-ministro de Luxemburgo e presidente do Eurogrupo, Jean-Claude Juncker, confidenciou à imprensa burguesa o seu maior temor: "corremos o risco de ver uma revolução".


quarta-feira, 3 de abril de 2013

Chipre: que há por trás do silêncio da mídia

130402-Chipre

Ensaio jornalístico de Roberto Savio revela quais as causas da crise; como oligarquia financeira impôs seus interesses; por que Alemanha pode ter conquistado vitória de Pirro.

Por Antonio Martins

Vista pelos jornais comerciais, a crise financeira vivida por Chipre, nas duas últimas semanas, parece um fenômeno tão inesperado e imprevisível quanto a queda de um meteoro na Rússia, em fevereiro. Surgiu do nada; não podia ser evitada; causou um número importante de vítimas; mas não afetou, no fim das contas, a rotina do planeta: será esquecida em breve e não há lições a tirar de sua passagem. Fundador da Agência IPS, participante destacado do movimento por uma Nova Ordem Mundial da Informação e Comunicação, nos anos 1970 e 80, o jornalista ítalo-argentino Roberto Savio percebeu que esta imagem pretendia ocultar algo.

Mas não se limitou a vociferar contra os oligopólios da mídia: foi à luta. Dedicou três dias inteiros da semana passada a uma busca minuciosa de informações. Como ferramentas, usou sua compreensão dos mecanismos financeiros contemporâneos e os infinitos terabytes de informação caótica disponíveis na internet. Produziu um ensaio esclarecedor e alarmante, que Outras Palavras está traduzindo e publicará nos próximos dias. Vele a pena antecipar ao menos três de suas conclusões:

1. Chipre não protegia investidores sujos, nem quebrou por servir à lavagem de dinheiro:

A “explicação” mais comum da mídia para a quebra do pequeno país insular é a suposta proteção que dava a investimentos de origem duvidosa, em especial os ligados às máfias russas. Não passa de mito, demonstra Savio. Segundo o Moneyval, organismo oficial do Conselho da Europa que avalia medidas de proteção contra lavagem de dinheiro, Chipre é um dos poucos países que aplica todas as regras definidas para coibir tal prática. Sua avaliação no Índice de Sigilo Financeiro [Financial Secrecy Index] é 408,5, o que indica muito mais transparência que no Reino Unido (616,5), Alemanha (669,8) ou Suíça (1879,2, numa escala em quanto mais alto o índice, mais opaco é o sistema).

O mimo da ilha aos investidores era outro: impostos extremamente reduzidos: 6 a 7% ao ano, ou metade dos 12% na Irlanda, conhecida por caçar investimentos concedendo-lhes privilégios tributários. A partir de 2004, quando Chipre ingressou na União Europeia, esta oferta foi aceita com entusiasmo pelas finanças globais. Elas inundaram a tal ponto a ilha de dinheiro que o volume de depósitos bancários chegou a oito vezes o PIB. A partir de 2008, uma crise financeira internacional prolongada impôs perdas sucessivas a estes depósitos e acabou tragando os bancos cipriotas em sua espiral.

2. Oligarquia financeira e governos europeus manipularam politicamente a crise:

Os 10 bilhões de euros oferecidos agora pela União Europeia (UE) para o “resgate” de Chipre são rigorosamente insignificantes: 17 vezes menos que o empréstimo à Grécia, ou 0,06% do PIB europeu. Desde junho de 2012, o então presidente cipriota, Dimitris Christofias, havia pedido assistência à UE. Mas as eleições presidenciais na ilha estavam próximas, e Christofias era o único chefe de Estado do Velho Continente eleito por um Partido Comunista.

O empréstimo foi adiado, enquanto a crise se agravava.  Em janeiro de 2013, diversos chefes de Estado europeus conservadores — inclusive a alemã Angela Merkel — visitaram a ilha para participar da campanha do opositor Nicos Anastasiades. Advogado ligado ao sistema financeiro, ele tornou-se presidente em 25/2, no segundo turno das eleições. Então, fez-se o empréstimo.

3. Uma decisão inédita pode abalar confiança na Europa e no sistema financeiro:

Na definição das condições para o “resgate”, prevaleceu a posição alemã. Criou-se um precedente. Pela primeira vez, a UE exigiu que seu empréstimo (os € 10 bilhões) seja complementado por dinheiro retirado dos próprios depositantes nos bancos cipriotas (eles perderão € 7 bilhões).  Em longa entrevista sobre o caso, o ministro das Finanças da Holanda (fortemente aliada a Berlim) anunciou que tal tipo de arranjo é a “nova estrutura” que será usada nos futuros empréstimos.

Isso valerá para Espanha e Itália, cuja situação financeira continua a se agravar? Dezenas de milhões de espanhóis e italianos perderão parte do que têm nos bancos, como ocorreu no corralito argentino de 2001? Savio vê na hipótese uma esperteza e, ao mesmo tempo, uma temeridade. Como os bancos alemães são vistos como os mais seguros da Europa, o precedente pode favorecê-los fortemente, no curto prazo. Se agora os depósitos bancários não estão mais garantidos pelos Estados europeus, é melhor guardar dinheiro nos bancos fortes, pensarão os depositantes. Ou, como disse o Nobel de Economia Paul Krugman, é como anunciar, num aviso de neon: “Traga seu dinheiro para o banco mais seguro dos países mais seguros, como a Alemanha ou a Suíça”…

Porém, que futuro terá uma Europa que radicaliza a tal ponto o abismo entre um punhado de países que ganham com a crise e a grande maioria, sob risco constante de ser tragada? E que credibilidade moral terá um sistema financeiro que especula desenfreadamente com o dinheiro de seus depositantes; alimenta, com os ganhos obtidos, salários e mordomias milionárias de seus altos executivos; mas, diante de eventuais prejuízos, avança sobre o bolso dos clientes?

Roberto Savio ainda não tem as respostas, mas aponta um dos desafios de nossa época: “ninguém ousa colocar de novo, na garrafa, o gênio da oligarquia financeira”.