sábado, 20 de julho de 2013

Cabral e a Falência do Discurso Vazio, ou ‘Olha eu aqui de novo’

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Por Sérgio Bruno Martins


No Rio de Janeiro, ao longo das últimas semanas, o curso das manifestações tomou um rumo singular. Nenhum governante de qualquer outra cidade ou estado brasileiro foi colocado sob fogo tão cerrado quanto o governador Sérgio Cabral Filho. ‘Fora Cabral’ e ‘vai cair’ são gritos que se tornaram onipresentes nos protestos da capital carioca e parecem ter renovado o fôlego dos manifestantes: marchas contra o governador já acontecem dia sim, dia não, e a mais recente – no dia 17 de julho, no Leblon – reuniu pelo menos duas mil pessoas. Concomitantemente, pelo menos duas linhas de argumento vem ponderando sobre a real eficácia desse ímpeto anticabralino, a saber: 1) que é pura e simples ingenuidade achar que Cabral pode cair por conta dos protestos; e 2) que sua queda será no fundo inócua (frente ao problema maior do peemedebismo) e pode inclusive revelar-se um tiro pela culatra (no caso de uma possível vitória do ex-governador Anthony Garotinho em 2014). Embora eu discorde de ambas, acredito que estas são ponderações absolutamente honestas, e que por isso merecem uma reflexão cuidadosa.

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Meu desacordo com o primeiro ponto passa por uma questão de linguagem. Na raiz da atual onda de protestos, a meu ver, há um aspecto fundamental da atuação do Movimento Passe Livre: sua insistência quase que cega (não fosse profundamente lúcida) na demanda específica e concreta das tarifas. O efeito dessa insistência foi neutralizar o discurso vazio e a tergiversação, que seriam as respostas políticas padrão para esse tipo de situação, especialmente se considerarmos que as demandas do MPL saiam da boca de ‘garotos’. Não é por menos que as fotos da reunião destes garotos com a Dilma quase que exalava condescendência – algo como ‘pronto, olha que bonitinho, vocês estão falando com a presidente feito gente grande’. Pois eles não só estavam conscientes dessa percepção como souberam revertê-la, causando assim um desconcerto ainda mais agudo. Daí terem saído da reunião sem titubear, invertendo a acusação de infantilidade: ‘a presidente não estava preparada para discutir propostas concretas.’ Da mesma forma, a atitude aparentemente infantil de outro grito frequente nas passeatas contra Cabral – ‘olha eu aqui de novo’ – é na verdade uma expressão de pura insistência diante da surdez do governo e da truculência da polícia. O que pode soar como um ludismo inconsequente é na verdade um sinal de compreensão profunda (e coletiva) do que está em jogo, e também uma estratégia perfeita: entrar em diálogo com o discurso vazio, isso sim, seria cair numa armadilha de linguagem. Mais eficaz é desarmá-lo formalmente através de uma insistência cega, que de tola só tem a aparência. O discurso vazio não tem respostas, ele é só repetição. Ele se alimenta de ser levado a sério, sem o que sua repetição se desgasta.

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A prova disso é que Cabral já não consegue mais sustentar seus enunciados pela via da impessoalidade da autoridade pública e democrática, ou melhor, na expectativa de sentido que se costuma a ter em relação ao que vem desse lugar – essa expectativa já desapareceu por completo, desgastada pela repetição de chavões que só revelam a incapacidade do governo de dar qualquer mínima consistência às suas respostas. Isso o obriga a se escorar na tese do complô e do bode expiatório (as manifestações seriam orquestradas por Garotinho), que nada mais são do que figuras de compensação pela perda da autoridade discursiva. No jargão lacaniano, seria como dizer que transpareceu aí a inconsistência do grande Outro, levando o governador a tentar substituí-lo por avatares débeis – o ‘medo Garotinho’ é invocado, nesse sentido, justamente como um bode expiatório que possa servir de apoio, como algo contra o qual a fala do governador ainda pode pretender se colocar e se escorar. Portanto, acreditar prontamente na ameaça Garotinho é, antes de mais nada, cair no blefe desesperado do próprio Cabral.

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É claro que nada disso impede que Garotinho seja realmente eleito em 2014. Mas aí vale lembrar outra tese lacaniana: mesmo que a mulher esteja efetivamente traindo o marido, como este desconfia, isso não torna seu ciúme menos patológico. Ou seja: mesmo que aconteça o pior e o Garotinho seja eleito governador – o que, de toda forma, está muito longe de ser uma certeza – isso não vai justificar retroativamente o medo dele hoje; pelo menos não quando o assunto é tentar levar às últimas consequências a investida contra o atual governo.

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E quanto a Cabral e o PMDB? Antes de mais nada, ingênuo seria acreditar que o peemedebismo vai cair de maduro, sem algum evento simbólico potencialmente capaz de desencadear seu desarranjo. Nesse sentido, Cabral pode muito bem se mostrar, pelo menos em alguma medida, o telhado de vidro trincado do peemedebismo (ressalto que digo isso sem nenhuma intenção de idealizar o PT). É por isso também que não vejo a crítica contra Cabral na chave simplesmente da crítica pessoal a um político. Quer ele tenha ou não essa centralidade, as manifestações o constroem simbolicamente não como um desvio para longe do que realmente importa, mas, ao contrário, como um foco de convergência de tudo o que mais importa: violência da polícia militar, remoções, loteamento do interesse público, exclusão social sistemática, e por aí vai. Por fim, se a cabeça do Cabral rolar, quem sabe isso não significa que rolou a cabeça do boneco de ventríloquo do discurso vazio? Alguns talvez reclamem que não rolou a do próprio ventríloquo. Mas isso é perder de vista o que realmente importa: que existem muitos bonecos por aí, mas que o ventríloquo, na verdade, não existe.

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