quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Com Aécio Neves a direita está no cio

aecio-direita

Uma coisa é o meu desejo, a outra coisa é o meu ponto de vista analítico, que pode ou não coincidir. O fiasco das eleições do ponto de vista popular. Diante disso não adianta nem rir, nem chorar, mas compreender.


Por Gilberto Felisberto Vasconcellos*


Esculhambar como partido de direita o PSDB é fácil; o difícil é explicar por que ele seduz o proletariado e o subproletariado em São Paulo. Basta examinar a fisionomia de Aécio (na foto: centro), de Alckmin (à direita), de Serra (à esquerda) e daí inferir o que essas personas podem seduzir a população andraja.

Tampouco a mim não me parece fácil explicar a recepção popular da fala desses tucanos. Não cabe aqui também apontar a chatice de seus discursos. Claro que são insuportáveis. Todavia eles já se tornaram uma generalizada mala sem-alça. Isso leva a supor que há alguma coisa que converte em denominador comum a vítima e o seu assassino. Para mim esse denominador comum é a comunicação de massa, mais especificamente o programa de auditório e a telenovela.

Não é absolutamente uma provocação afirmar que a política é um produto da telenovela. Isto já foi dito por mim quando escrevi em 1989 a plaquete intitulada Collor a cocaína dos pobres.

Atenção: a cocaína aí no caso, não era o pó branco aspirado para dar barato, mas sim a televisão como a droga dos pobres. Poderia ter usado a palavra ópio, mas não quis repetir Karl Marx.

Será que é um espanto constatar que o proletariado e o subproletariado de São Paulo votaram na plutocracia tucana?

Operários

Talvez fosse mais racional afirmar que a classe operária desintegrou-se como classe e tornou-se uma massa boçal. O que aliás já foi aventado pelo grande crítico Walter Benjamin na década de 30 em correspondência epistolar com Theodor Adorno, o qual foi desmarxizado pela bonecagem acadêmica local.

Atenção: não estou aqui a fim de repisar o estribilho segundo o qual a classe operária se perdeu como sujeito da história. A moda agora é afirmar que o motor da história não é mais a luta de classes, e sim a democracia, concepção esta que aglutina os petistas e os tucanos. Isto é mais um signo de que houve uma cópula linguística e política entre o PSDB e o PT. Essa cópula foi por mim batizada de petucanismo.

Não é preciso afirmar que separar agora o PT do PSDB não é uma operação fácil, sobretudo depois que houve um pacto de cavalheiros entre Lula e FHC em 2002. Ambos diversos, mas não adversos, colocaram debaixo do tapete suas supostas divergências. Isso ganhou o nome antipático de governabilidade.

O fundamento sociológico do petucanismo é a ideia colonial e lacaia de que os políticos devem administrar a dependência e não erradicá-la. Afinal, quem a administra melhor? A resposta vai ao som da valsa. É uma resposta pendular: ora Armínio Fraga, ora Mantega. Destarte, ambos são fãs um do outro, como aliás o amor secreto de Lula sempre foi FHC, e não aquele que rompia com o arranjo colonial: Leonel de Moura Brizola.

Ninguém nessa altura do campeonato espera que Lula vá ajoelhar-se no milho do arrependimento. A história não é uma dama afável que você tira para dançar. Também não se pode esperar da história gratidão. Quantas e quantas vezes Lula não teve o apoio de Leonel Brizola!

Houve protestos de rua, mas parece não ter havido conexão entre tais protestos e o resultado das eleições. Afinal, Alckmin não participou da barricada reivindicando a redução da tarifa de ônibus. O velho Trotsky estava certo: nem a miséria é a razão da transformação histórica, nem o protesto difuso e anárquico consegue alguma coisa duradoura se não tiver um partido revolucionário e uma direção revolucionária comandando este partido. E, convenhamos, não temos nem uma coisa nem outra.

Bandeirantes

Há um inequívoco sentimento de perplexidade, cuja origem remonta à expansão bandeirante no Planalto Paulista. Refiro-me à volúpia que a coletividade paulista sente pelo tipo policial que mata e arrebenta. Meu amigo Rogério Sganzerla filmou muito bem a viatura policial em São Paulo a fim de mostrar com isso que o paulista tem tesão é no cassetete, como se houvesse conexão entre o Borba Gato e o Bandido da Luz Vermelha.

Não vamos porém jogar os bandeirantes ao lixo. É que a razão do sentimento policial no eleitorado é uma reação ao desenvolvimento desigual do capitalismo na periferia, na qual São Paulo se converteu em ponta-de-lança do progresso às expensas de outras regiões.

Acontece porém que o paulista eleitor e leitor da Folha de São Paulo atribui esse progresso às qualidades intrínsecas da Avenida Paulista, na qual transita um povo trabalhador infatigável, enquanto nos outros brasis o que vinga é o tipo vagabundo, preguiçoso e malandro.

Então perguntada essa questão para o paulista boçal, seguramente ele vai defender e justificar a repressão policial para impedir que o campo cerque a cidade, como diria Mao Tsé-Tung.

Não vamos deixar de responsabilizar a produção intelectual da elite paulista, que são cúmplices desse desenvolvimento desigual iníquo, vivendo das migualhas da superexploração do trabalho, o que os levou a proclamar pela imprensa e universidade a obsolescência do conceito de imperialismo.

Imperialismo

Para a classe letrada paulista, o imperialismo é tesudo, é a flor da modernidade, portanto invejado na ânsia de falar inglês. O pior de tudo é que essa mentalidade grotesca e colonial se espraia por todos os brasis universitários, então o brasileiro em geral converteu-se num testa de ferro apaulistado, ainda que não tenha um maldito puto no bolso.

Estamos falando hoje em ofensiva da direita, todavia arriscaria dizer que estamos vivendo em pleno fascismo. A denominação ainda não surgiu nítida, se videofascismo, se fascismo virtual, se fasciopentecaevangélico, mas a realidade se apresenta antes do nome. O que na verdade nos define é menos o regime político do que a condição colonial de País subdesenvolvido.

Paranoia minha esse receio com o fascismo? Negativo. O cientista egípcio Samir Amim está alertando sobre o retorno do fascismo no capitalismo contemporâneo. Entre nós volta a discussão se a ditadura de 64 foi ou não fascista, assim como não está devidamente esclarecido se o Estado Novo de 1937 a 1945 terá sido uma espécie de regime fascista ou semi-fascista.

O importante é não deixar de perguntar: a quem serviu e favoreceu economicamente a ditadura de 64? Qual a classe social que abocanhou a mais-valia?

A ditadura serviu ao capital dominante estrangeiro.

Então, é possível que o regime atual possa servir às grandes empresas multinacionais sem que no entanto seja abolida a democracia formal, as eleições e os partidos políticos. Claro que pela metodologia do cinismo é melhor dependência econômica com democracia do que com Estado policial.

A malandragem tucana, ditada pelo Pentágono, foi denominar de "autoritarismo" o período iniciado em 1964, o que era uma maneira sacana de deixar oculto o domínio do capital estrangeiro. Essa perversidade, que não foi atacada como devia ter sido pelo governo do PT, não somente persiste hoje, como corre o risco de guiar o Estado se porventura o ventríloquo néscio de FHC tomar as rédeas do poder.

Não digo mais nada e nem me foi perguntado.


*Gilberto Felisberto Vasconcellos é jornalista, sociólogo e escritor.


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

“Quem aposta na via eleitoral para explicar Junho está completamente equivocado”


Lucas Legume, membro do Movimento Passe Livre (MPL), rebate as críticas que foram direcionadas às manifestações de junho de 2013 quando comparadas aos resultados das eleições: “Junho foi a prova de que a esquerda precisa voltar a fazer trabalho de base”

José Francisco Neto

Da Redação

Após o resultado do primeiro turno das eleições do dia 5 de outubro, diversas análises atribuíram a ascensão de parlamentares conservadores no Congresso Nacional às manifestações de junho do ano passado. As críticas foram voltadas, principalmente, a questão de que os protestos não foram eficientes, uma vez que o resultado das urnas foi um retrocesso.

Lucas Legume, membro do Movimento Passe Livre (MPL), movimento que iniciou as mobilizações em junho de 2013, rebate as críticas que foram direcionadas às mobilizações. De acordo com ele, quem estabelece uma correlação entre mobilização popular e votação tenta distorcer o sentido dos protestos que ocorreram.

“Quem aposta na via eleitoral para explicar a Junho está completamente equivocado. Se você espera que é a mobilização popular que vai alterar as eleições, você não entendeu nada sobre mobilização popular nem sobre eleições. A grande questão de junho é que foi uma via não institucional, que a gente apostou e que a gente continua apostando”, explica.

Legume reforça que a esquerda tinha que fazer uma autocrítica e rever sua ausência dos movimentos de base. “Então, se o projeto eleitoral não se realizou, isso não tem a ver com as mobilizações de junho. Junho foi a prova de que a esquerda precisa voltar a fazer trabalho de base, se organizar diretamente, para a partir daí poder crescer.”

O membro do MPL ainda ressaltou que o legado das Jornadas de Junho estimulou as pessoas a lutarem ainda mais e a se articularem de maneira autônoma. Legume também declarou que o posicionamento do movimento no segundo turno "será o mesmo."

“Não são das urnas que virão as transformações reais para a população, e sim da organização popular. As ruas não estavam pedindo um novo salvador, mas estavam se organizando para se criar outra coisa”, conclui.




sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A pilantragem é branca


O hip-hop amarga o êxito de Azalea e o fracasso do musical sobre Tupac Shakur.


por Francisco Quinteiro Pires


Em Fancy, Iggy Azalea imita o modo de falar de uma afro-americana, apesar de ser australiana e branca. Azalea atingiu o estrelato com Fancy, um rap, eleito pela revista Billboard a música do verão de 2014 nos Estados Unidos. E causou polêmica. Ela, dizem os críticos, seria o exemplo mais recente de apropriação cultural pelos brancos de uma arte que os negros inventaram. O anúncio de Fancy como o hit da estação mais quente se deu em paralelo aos protestos em Ferguson, no Missouri, onde um policial branco matou um afro-americano desarmado em 9 de agosto. “A cultura negra é popular, mas as pessoas negras não”, declarou o poeta B. Easy no Twitter. Easy fez coro com um estado de espírito comum nas mídias sociais quando se referiu ao fato de artistas pop, como Azalea, Miley Cyrus, Ariana Grande, Katy Perry, Justin Timberlake, Justin Bieber e Robin Thicke, usarem elementos do hip-hop a fim de angariar popularidade.

Para os admiradores, Azalea é uma evolução. “Os negros precisam aceitar que o hip-hop é uma cultura contagiosa”, afirmou Questlove, baterista do The Roots, em entrevista àTime. “Fancy é, de todas as músicas que ouvi, a mais capaz de mudar o jogo, pois nos força a compreender que o gênero abriu as suas asas.” Questlove lembrou com essa afirmação como o rap é indissociável das experiências de raça e classe no meio urbano. Apesar de a eleição de Barack Obama à Presidência dos EUA, em 2008, ter estimulado a previsão de “uma era multicultural” ou “pós-racial”, o entendimento do país sob uma perspectiva que prioriza a cor de pele é um dos hábitos mais recalcitrantes da sociedade norte-americana.

Esse fato veio mais uma vez à tona na última premiação do Grammy, em janeiro deste ano. Ao contrário das expectativas dos puristas, Good Kid, M.A.A.D City, de Kendrick Lamar, não triunfou na categoria de melhor álbum de rap. O prêmio foi para The Heist, do duo Macklemore e Ryan Lewis, dois rappers brancos de Seattle. Em seguida à premiação, Macklemore divulgou no Instagram uma mensagem de texto enviada por ele para Lamar, um afro-americano de Los Angeles. Lamentou ter sido o escolhido. “Você foi roubado. Eu queria que você tivesse ganhado. Você deveria”, escreveu.

Macklemore pediu desculpas pois tinha em mente as origens do hip-hop e uma noção de autenticidade. Quando surgiu no Sul do Bronx, na Nova York dos anos 1970, o gênero representava a diversão de afro-americanos, latino-americanos e imigrantes. Moradores pobres de uma região com alto desemprego, chamada de “necrópole” por Jeff Chang, autor de Can’t Stop, Won’t Stop – A history of the hip-hop generation (Picador), aqueles jovens criaram suas próprias festas ao samplear músicas de diferentes artistas. A primeira fase do rap entre 1978 e 1984 tratou sobretudo de dança e prazer, embora Grandmaster Flash and The Furious Five tenha falado de exclusão em The Message (1982), um dos primeiros raps “conscientes”. A fase seguinte (1985-1992), classificada de “idade de ouro” por Adam Bradley e Andrew DuBois, autores de The Anthology of Rap, representou a consolidação de letras líricas e ideológicas com o Public Enemy, LL Cool J, Run-DMC e Ice-T.


Em The Anthology of Rap (Yale University Press), considerado um clássico ao discutir a evolução do gênero e reunir cerca de 300 composições, Bradley e DuBois comparam o estilo musical à poesia lírica. Eles veem nessa arte uma contestação aoestablishment. Uma das suas características essenciais, defendem, é o fato de ser uma cultura em fluxo constante. “O hip-hop foi criado pelos negros norte-americanos, mas não pertence a eles”, diz Bradley, professor de Literatura Afro-Americana da Universidade do Colorado, em entrevista a CartaCapital. “A cultura rejeita aqueles que se proclamam os seus donos. Por isso, o rap tornou-se um idioma global cujas formas mudam sob a perspectiva de artistas de diversas cores e segundo as regiões onde se manifesta.”

Apesar das boas intenções, quem critica a troca cultural livre ameaça a criatividade dos artistas afro-americanos, de acordo com Bradley. “Se os críticos censuram Iggy Azalea, Miley Cyrus ou Robin Thicke porque esses fazem empréstimos de elementos da música dos negros, eles limitam a mesma fonte da genialidade negra: o impulso de usar o passado para inventar coisas novas e o diálogo que força a superação de barreiras raciais”, afirma. “Proibir Thicke de se apropriar de Marvin Gaye, ainda que ele o faça de maneira medíocre, é o mesmo que impedir retroativamente Afrika Bambaataa, um dos pioneiros do hip-hop, de usar com brilhantismo a arte do Kraftwerk (grupo de música eletrônica alemão).” A Billboard elegeu Blurred Lines, de Thicke, a música do verão de 2013.

Historicamente, Bradley lembra, diferentes gêneros musicais devem o seu surgimento à assimilação pelos negros de elementos de uma cultura associada à população branca. O jazz e o rock’n’roll representam os exemplos mais eloquentes. Ainda assim, para angariar uma aceitação maior, geralmente as obras precisam ser dissociadas dos afro-americanos. “Certos músicos negros foram passados para trás na hora de usufruir a criação de um novo estilo? Claro. Quando Elvis Presley cantou Hound Dog, ele não tomou para si o dinheiro e a audiência que deveriam ser da cantora original da música, a Big Mama Thornton. Ele criou um novo mercado para o público de adolescentes brancos.” O racismo, Bradley sugere, explica parte do sucesso de Presley. “Muitos consumidores brancos preferiram e ainda preferem consumir a sua música negra sem realmente ouvir a voz dos negros.”

Essa “preferência” pode ter contribuído para o fracasso de Holler If Ya Hear Me, musical da Broadway inspirado nas composições do rapper afro-americano Tupac Amaru Shakur, cujo assassinato em 1996 permanece sem solução. Embora dirigido por Kenny Leon, ganhador de um Prêmio Tony, o espetáculo não atraiu público. Saiu de cartaz seis semanas após estrear no fim de junho. O produtor Eric Gold apostou no “apelo universal” das letras de Shakur sobre a experiência dos negros na América. Jon Caramanica, crítico de música pop do The New York Times, lembrou que essa crença na universalidade da música do compositor nova-iorquino seria vista como “radical” por muita gente. “O público da Broadway é muito velho e branco para permitir o florescimento de uma história com raízes na música negra contemporânea? Ou, paradoxalmente, Shakur era uma figura histórica muito abstrata para os jovens que o espetáculo esperava atrair?”, perguntou Caramanica. Gold temia que, se Holler If Ya Hear Me não fosse bem-sucedido, dificilmente haveria espaço para um musical de rap na Broadway.

“O hip-hop existe hoje por causa e apesar da sua popularidade”, afirma Bradley. Ao se transformar no centro da indústria musical norte-americana, o rap chegou à saturação. Agora, o gênero experimenta o que Bradley chama de “fase pós-pop”. “O rap nunca vai ter o mesmo sucesso que gozou na década do Novo Milênio (2000-2010). Como qualquer outra forma de arte duradoura, ele tenta se expandir para atender às expectativas do presente.” Segundo o professor da Universidade do Colorado, a assimilação pelos brancos de uma música criada por negros pobres não significa a superação de diferenças entre raças e classes. Ela oferece outro tipo de mensagem, relacionada a uma utopia. “O rap pode servir como inspiração a quem deseja produzir uma arte inclusiva e experimental.” Essa nova abordagem seria um tanto diferente daquela do hip-hop dos anos 2000 e da primeira metade desta década, em que predominam nomes como Jay-Z, Beyoncé, Rihanna e Kanye West, considerados “imensas empresas culturais”.



terça-feira, 7 de outubro de 2014

Helicoca - O helicóptero de 50 milhões de reais


Chocante!

Uma das constatações mais infames para a História da Justiça Brasileira, onde, num caso descarado de flagrante de crime de tráfico internacional, Poder Judiciário, Ministério Público, Polícia Federal e imprensa, blindam e conseguem libertar todos os envolvidos no caso do helicóptero que transportava quase meia tonelada de cocaína, em fazenda, cujo o dono é um dos políticos mais influentes de Minas Gerais e com laços estreitos com candidato a presidente na próxima eleição.

Veja o vídeo abaixo.


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Ditadura econômica, o grande tabu das eleições?

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Sem reverter políticas que submetem sociedade às finanças, Brasil permanecerá paralisado. Mas tema não entra em debate, por estranhas razões.

Por Guilherme Boulos | Imagem: Rubem Grillo, Gula (1981)

Quem diria! Mal se passaram seis anos da crise em que as políticas neoliberais afundaram o mundo e eles já estão aí com todo o vigor. A aposta na mão invisível do mercado e na desregulamentação das finanças quase levou a maior economia do mundo ao colapso em 2008. Os Estados Unidos, a Europa e a economia mundial pagam o preço até hoje.

Não demorou, porém, para que os intelectuais da banca superassem a vergonha e o descrédito, saíssem do armário e recuperassem a autoconfiança para defender a mesma rota do fracasso. Abstraíram 2008 e reaparecem de cara lavada para apresentar as mudanças necessárias na economia brasileira.

Já foi dito que a história se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa. Neste caso até os personagens são os mesmos. Vejam vocês, Armínio Fraga! As últimas três campanhas presidenciais do PSDB o esconderam a sete chaves, assim como a FHC. Dizem que há lugares do país que quando seu nome é citado as pessoas correm para bater três vezes na madeira. Dá azar. Incrível, mas Aécio Neves teve a coragem de reabilitá-lo.

Aquele que quando foi presidente do Banco Central elevou a taxa de juros de 25% para 45%! O homem do arrocho e dos banqueiros. Que foi diretor do fundo de investimento de George Soros, símbolo da especulação financeira mundial.

E é o mesmo velho Armínio. Diz agora que os salários subiram muito ultimamente e que a redução de juros nos anos anteriores foi “preocupante”. Em entrevista à Folha de S.Paulo, esta semana, deixou claro que gostaria de rever as regras do seguro-desemprego, aumentar a idade mínima para aposentadoria e dificultar a concessão de pensões.

Tudo em nome do combate à inflação. Só deixa de dizer que ao fim de sua gestão no Banco Central, no governo FHC, a inflação era de 12,5% ao ano, quase o dobro da atual, que ele julga fora de controle. E isso com juros estrondosos.

Sorte tem o país que o candidato que o anunciou como futuro ministro da Fazenda está praticamente fora do páreo eleitoral.

Mas, como diz o povo mais acostumado a sofrer, desgraça pouca é bobagem. A queda de Aécio foi acompanhada da subida meteórica de Marina Silva. E Marina, talvez no afã de atrair o mercado para seu projeto, tinha já erigido como conselheiro econômico ninguém menos que Eduardo Giannetti da Fonseca. Economista da nata do neoliberalismo brasileiro.

Giannetti tem distribuído por aí a mesma cantilena que arruinou os trabalhadores no Brasil, produzindo desemprego, arrocho salarial e recessão econômica na década de 90. O discurso de Marina é da nova política, mas começa mal ao recorrer à velha economia.

Também em entrevista à Folha, no ano passado, Gianetti sistematizou sua listinha de desejos: autonomia do Banco Central, readequar a Petrobrás e os bancos públicos nos “critérios de mercado”, desatrelar o reajuste das aposentarias ao salário mínimo e por aí vai. O modelo de seus sonhos, disse ele, é o segundo mandato de FHC e o primeiro de Lula (o mandato mais conservador dos governos petistas). Cita como referência as “heroicas” privatizações e a desregulamentação de capitais por FHC.

Sua obsessão – agora repetida por Marina – é fortalecer o dito tripé macroeconômico. Austeridade fiscal, aumento do superávit primário e livre câmbio. Não é preciso ser economista nem ter sobrenome europeu para saber que isso implica cortes de investimentos e de gastos sociais do Estado. Austeridade fiscal é um nome elegante para dizer corte no orçamento público. Superávit primário é um termo técnico para se referir à reserva de recursos para pagar juros da dívida aos banqueiros – o que, por sua vez, implica cortes orçamentários.

Marina terá que se decidir. Ou quer manter e ampliar políticas sociais e investimentos públicos, ou quer fazer cortes. Do ponto de vista lógico, tentar conciliar os dois é tão impossível quanto empenhar-se em desenhar um círculo quadrado. Simplesmente não dá. Marina deve a todos esta resposta. Ou está com Giannetti ou está com Chico Mendes.

A reabilitação dos neoliberais, ao que parece, não foi apenas um apelo desesperado do PSDB, mas uma tendência do debate econômico nestas eleições. Não deixa de ser, de algum modo, a volta dos que não foram. Já que os governos petistas – Dilma inclusive – conservaram importantes aspectos neoliberais em sua política econômica. Não por acaso os lucros bancários foram recordes. O pré-sal foi concedido à exploração privada, assim como aeroportos e rodovias.

Mas tragicamente o discurso da mudança entre os principais candidatos não critica esse conservadorismo. Ao contrário, diz que ele foi insuficiente e volta-se contra as limitadas iniciativas de enfrentá-lo. A titubeante redução dos juros básicos, o uso de bancos públicos para baratear o crédito, a atuação das estatais na indução de investimentos e os gastos com assistência social, que não chegam a 4% do orçamento Federal.

A crítica é feita pelo viés conservador. E deixa claro que o debate econômico no Brasil ainda é pautado pelo interesse do mercado financeiro. Enquanto for assim teremos de conviver com o eterno retorno dos neoliberais.


sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Critica Vogue Kids mas lê Marie Claire



Por Antonio Engelke


A onda de repúdio que se instalou na esteira de um ensaio fotográfico que retratava crianças de modo sensualmente perturbador, publicado na Vogue Kids, talvez tenha mais a nos dizer do que o próprio ensaio. A crítica moral acusa a revista de explorar a sexualização precoce, auxiliando de lambuja a normalização de uma sensibilidade pedófila. A crítica economicista localiza na busca pelo lucro o motivo da transgressão das fronteiras do aceitável. A crítica sociológica afirma que o ensaio contribui para realizar a profecia que ele mesmo exibe: seduzido pela beleza das imagens e pela promessa das benesses da vida adulta, o público infantil da revista acabaria por mimetizar-lhe a estética. Tais críticas giram em torno de um investimento impróprio a uma idade, e têm sua razão de ser. Mas como toda estética comporta uma ética, cabe indagar se não haveria nesta equação um outro elemento qualitativo para além do temporal.

“Preservar a inocência” da criança não significa mantê-la protegida da sexualidade per se, mas permitir que faça suave e gradualmente a transição para uma sexualidade consciente de si. O escândalo suscitado pelo ensaio da Vogue Kids não poderia portanto advir de crianças retratadas como sujeitos sexualizados, o que elas de fato são, mas de sugerir que sua sexualidade tenha adquirido o molde adulto antes do tempo. Parece, então, que o problema estaria no fato de as fotografias assinalarem um corte, uma interrupção brusca nesta transição, impondo uma consciência erótica onde deveria haver somente impulsos naturais irrefletidos. Penso, contudo, que poderíamos entreter a hipótese de que o problema esteja também no conteúdo que vem a reboque dessa interrupção, e na necessidade de recalcá-lo. Dito de outro modo, o incômodo causado pelo ensaio poderia estar tanto nesta imposição brusca de uma sexualidade consciente à criança, quanto na substância específica desta consciência, e na recusa em assumi-la explicitamente.

O que as críticas deixam de fora é a rede de articulação discursiva dentro da qual um tal ensaio pode ser projetado, em ambos os sentidos da palavra. Os elementos que compõem essa rede (quem fala, de onde fala, como fala, em que suporte fala, para quem fala…) não são fatores externos relevantes à compreensão de um enunciado: fazem parte dele, na medida em que constitutivos da criação de seu sentido. Talvez seja possível enxergar aí uma relação, que se não chega a ser de causa-e-efeito nem por isso é desimportante, entre as fotos da Vogue Kids e a tirania do desejo que se materializa, por exemplo, na infinidade de revistas e programas de TV sempre dispostos a ensinar nirvanas orgasmáticos e truques sexuais capazes de levar nossos parceiros à loucura. Tal pedagogia será tanto mais eficiente quanto mais passar desapercebida: basta a repetição incessante da promessa do prazer para que o(a) leitor(a) internalize inconscientemente a obrigação de desfrutá-lo. Somos livres para tudo, exceto para não gozar (e, claro, não produzir). Como qualquer obrigação imposta ao aparelho psíquico, esta também irá gerar suas formas específicas de culpa, seja pelo excesso, a culpa de se saber levando o imperativo do gozo ao seu paroxismo, ou pela falta, o fracasso em fazê-lo.

Não poderia ser o caso de vermos a sombra desta culpa projetada na indignação dispensada ao ensaio? Boa parte das críticas a Vogue Kids veio de consumidores de Marie Claire e genéricos, incapazes de perceber o papel que desempenham na situação que tanto repudiam. É evidente que não queremos crianças assumindo a consciência de sua sexualidade sem a maturidade necessária à sua vivência; bem menos evidente, no entanto, é assumirmos que gostaríamos também que elas não experimentassem a sexualidade nos moldes em que nós a legamos. O que torna as fotos perturbadoras não é somente o fato de mostrarem crianças “sensualizando” quase como se adultos fossem; é que o exagero que as imagens veiculam – o excedente de consciência que surge deslocado, isto é, num lugar onde não deveria existir – nos confronta com a tirania que atravessa o Real da nossa relação com o sexo. É um efeito semelhante ao que o humor, quando bem feito, consegue alcançar: a sobreposição de elementos que não deveriam aparecer misturados resultando num estranhamento que nos permite enxergar uma verdade oculta da relação da qual esses elementos são parte. Mas, porque insuportável, tal verdade precisa ser recalcada, e o veículo de sua propagação surge então como um Outro conveniente ao trabalho de sua negação.



segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A gestão antiperspirante: rumo à pobreza inodora, incolor e insípida

Morte do ambulante Carlos Augusto Muniz
Ambulante Carlos Augusto Muniz foi atingido por disparo na cabeça



A morte de um ambulante faz parte da manutenção da ocultação da pobreza através da interface armada do Estado

por Luciana Itikawa*

Em menos de uma semana, dois episódios sobre o comércio ambulante mostram a capacidade mágica de ocultação da pobreza, quando ela teima em aparecer, porém, de forma trágica, com a morte de três ambulantes: um em São Paulo e dois no Rio de Janeiro neste mês de Setembro de 2014.

A morte, com certeza, é o extremo da gestão militarizada de uma questão, entre outras, urbana. Apesar de todo o esforço dos governos em aumentar e complementar seu efetivo repressivo às várias manifestações da pobreza, esses trabalhadores continuarão a expor seus suores, enquanto esta não for um espectro que aparece apenas nas estatísticas.

O comércio ambulante está profundamente ligado à constituição do trabalho livre no Brasil e à permanência sistemática de trabalhadores à margem do mercado formal de trabalho, malgrado um dos maiores índices de formalização de carteiras profissionais da história recente.

Por que, então, os ambulantes “teimam” em aparecer e desafiar esses policiais armados nas grandes cidades? Por que, eles ainda estão trabalhando, apesar do Prefeito paulistano anterior ter proibido todas as licenças na cidade em 2012? Por que eles são permitidos em alguns locais e em outros não? Aqui vão algumas ponderações:

Em primeiro lugar, por que, então, eles insistem em desafiar o Estado trabalhando sem licença? Existem 138 mil ambulantes no município e 158 mil na região metropolitana de São Paulo segundo o DIEESE em 2010, apesar do atual número irrisório de licenças na cidade (1.940) representando apenas 1,4% do total de trabalhadores no município. Os outros cerca de 136.000 trabalhadores, portanto, são obrigados a correr diariamente para fugir da fiscalização.

O ambulante morto na Lapa, Carlos Augusto Muniz de Souza, de 30 anos, era um deles. Ele havia prometido à esposa na noite anterior: “Não vamos mais correr da polícia”. Não deu tempo, esta morte faz parte da manutenção da ocultação da pobreza através da interface armada do Estado. A Operação Delegada atua na superfície visível da ponta do iceberg daqueles que estão à margem simultaneamente do direito ao trabalho, direito à cidade, direito à proteção social, etc. Vide a violenta reintegração de posse de um imóvel realizada pela polícia militar ocorrida pouco dias antes no Centro de São Paulo.

Em segundo, por que ainda permanece o limbo jurídico sobre a regulamentação das licenças deles? O prefeito anterior proibiu todas as licenças e mesmo aqueles 1.940 que ainda as teriam, enfrentam o constrangimento de trabalhar há 2 anos por força de uma liminar da Justiça cuja fundamentação foi calcada no direito à cidade. A Ação Civil Pública movida pela Defensoria Pública do Estado de São Paulo e pelo Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos ainda precisa ser julgada para que o impasse institucional entre Prefeitura e Justiça se resolva. 

Apesar da tentativa dos trabalhadores e da sociedade civil terem instituído no ano passado um canal de diálogo quinzenal com a Prefeitura por 6 meses para resolver politicamente, nada avançou para a resolução do problema.
Em terceiro, por que o abismo entre o número de licenças e o número total de ambulantes que trabalham por toda a cidade? Para quem frequenta todo dia os terminais intermodais espalhados nas periferias para embarcar ou fazer a baldeação às 5-6hs ou 21-22hs já deve ter visto algumas dezenas de ambulantes servindo a imensa população que se desloca entre casa- trabalho.

Isso não seria novidade para ninguém se não tivéssemos a dimensão de que quase um estado de Sergipe inteiro (1,9 milhão) se movimenta todos os dias de um lado pro outro na região metropolitana, segundo o estudo A Mobilidade pendular na Macrometrópole paulista.

Este estudo mostra que apesar do crescimento da população da região metropolitana ter estacionado, seus movimentos pendulares quase duplicaram (de 1,1 milhão em 2000 para 1,9 milhões em 2010). Esses espaços de conexões de transporte passaram a ser territórios de comércio e serviços a essa imensa população itinerante, apesar das leis e secretarias de transporte subestimarem este fato.

Por este motivo, os trabalhadores ambulantes em 2013 se organizaram e conseguiram incluir pela primeira vez em um Plano Diretor do município de São Paulo, a necessidade desse comércio atender esse imenso fluxo de pessoas pelo território. Este coletivo de trabalhadores, chamado de Fórum dos Ambulantes, se organizou em 2012 para participar das audiências públicas do Plano Diretor e encaminhou três propostas, apesar de apenas uma ter sido incorporada: “criação de centros comerciais populares em áreas de grande circulação, como terminais de transporte coletivo e estações de metrô e trem” (pag. 10 DOM – Centralidades Polares e Lineares).

Em quarto, por que eles são permitidos em alguns locais e em outros não? Existe apenas um tipo de licença no espaço público, a “permissão de uso”, que é dirigida aos artesãos, jornaleiros, ambulantes, food trucks e até parklets. Por se tratar de ocupação em logradouros públicos, a permissão tem que ser precária e sem segurança na posse, ou seja, pode ser retirada unilateralmente pelo Poder Público. Entretanto, por que a vista grossa em alguns locais e a intolerância em outros? O comércio ambulante faz parte das inúmeras manifestações de pobreza que têm sido exterminadas dos espaços públicos e privados das áreas em valorização quando estes ameaçam os interesses imobiliários ou políticos.

A desculpa é quase sempre a execução de obras de infraestrutura, transporte, etc., mesmo quando aquilo que ocupar o lugar seja o mesmo tipo de atividade, porém, mais elitizado. Esse é, por exemplo, o caso dos food trucks, que conseguiram 900 licenças no município; ou das empresas de bebidas durante a Copa, que conseguiram o direito de ocupar todo o Vale do Anhangabaú para comercializar com exclusividade seus produtos.

Os trabalhadores ambulantes da cidade real não são um fato isolado a ser vencido por força da cidade legal. As manifestações de pobreza irão sempre desafiar as gestões que ainda creem governar pela pobreza, contanto que elas não tenham cheiro, nem cor e nem gosto.

* Luciana Itikawa, arquiteta e urbanista, doutora e pesquisadora pela Universidade de São Paulo.



sexta-feira, 26 de setembro de 2014

EUA: um Estado terrorista e inimigo da humanidade



Hoje, ocupado por dezenas de milhares de mercenários ao serviço de empresas mafiosas, o Iraque é na prática uma terra humilhada e ocupada, onde o poder real é exercido pelas transnacionais que se apropriaram do seu petróleo e do seu gás.

Por Miguel Urbano Rodrigues

O chamado Estado Islâmico-ISIL, que se apresenta como refundador do Califado é a ultima aberração gerada pela estratégia de terrorismo de estado do imperialismo estado-unidense.

Essa estratégia surgiu como consequência de efeitos não previstos da execução do projeto de dominação perpétua e universal sobre a humanidade, concebido ainda em vida de Roosevelt, no âmbito do War and Peace Program, um projeto que identificava nos EUA o herdeiro natural do Imperio Britânico.

O Médio Oriente foi a área escolhida pelo Pentágono e o Departamento de Estado para a arrancada do ambicioso Programa, precisamente porque o Reino Unido, muito enfraquecido pela guerra, ter iniciado ali a sua política de retirada escalonada de bastiões imperiais no mundo islâmico.

Nas décadas seguintes, a CIA promoveu golpes na Região com destaque para o que derrubou Mossadegh e restabeleceu no trono do Irão o Xá Reza Pahlavi.

O PANTANO AFEGÃO

A partir de 1980, o governo Reagan financiou e armou as organizações terroristas sunitas de Peshawar que combatiam a Revolução Afegã. Alguns dos seus dirigentes foram recebidos cmo heróis na Casa Branca como «combatentes da liberdade»; Reagan saudou-os como combatentes da liberde e «novos Bolivares».Os bandos desses heróis cortavam os seios a mulheres que não usavam a burka ou cegavam-nas com ácido sulfúrico.

Nessa época, o saudita Bin Laden interveio ativamente como aliado de confiança dos EUA (seu pai fora amigo da família Bush) nas campanhas que visavam o derrubamento do governo revolucionário de Kabul.

Quando Mikhail Gorbatchov abandonou o Afeganistão e os 7 de Peshawar tomaram o poder no país, essas organizações desentenderam-se e iniciou- se um período de guerras fratricidas.

No final da Presidência de Bush pai, os EUA, que tinham patrocinado a guerra de Saddam Hussein contra o Irão, reagiram à ocupação do Koweit, desencadeando a primeira guerra do Golfo em l991. Com o apoio de uma grande coligação avalisada pelo Conselho de Segurança, os iraquianos foram rapidamente derrotados. Bagdad foi submetida a bombardeamentos destruidores, mas Washington não se opôs a que Saddam permanecesse no poder.

No Afeganistão, cujo subsolo encerra recursos fabulosos, a situação assumiu aspetos tao caóticos, com os senhores da guerra a digladiarem-se, que Washington abriu a porta à entrada em cena dos Taliban, uma organização terrorista que a CIA havia criado no Paquistão como «reserva».

Os autointitulados «estudantes de teologia» conquistaram facilmente o país e, instalados em Kabul, assassinaram Muhammad Najibullah, o ultimo presidente legitimo, asilado na Sede da ONU, e promoveram uma politica de fanatismo religioso que fez regressar o país à Idade Media. Bin Laden, mudando de campo, surgiu então como aliado preferencial do mullah Omar, chefe espiritual dos Taliban.

Os EUA recolhiam frutos amargos da sua política agressiva contra o Islão e de apoio incondicional ao Estado sionista de Israel.

Mas foi somente em 2001, apos os atentados contra o World Trade Center e o Pentágono, que a Casa Branca, onde então pontificava Bush filho, tomou a decisão de invadir e ocupar o Afeganistão. Bin Laden foi guindado a inimigo número 1 dos EUA e a Al Qaeda, por ele fundada, adquiriu na propaganda americana as proporções de um polvo demoníaco cujos tentáculos envolveriam todo o mundo islâmico.

Mas, contrariando as previsões de Washington, o povo afegão resistiu à ocupação do país pelos EUA e pela NATO.

O Presidente Obama, que prometera acabar com aquela guerra impopular, enviou para o país mais 100 000 militares. Sucessivas ofensivas de «pacificação» fracassaram e generais prestigiados foram demitidos. Anunciada para este ano a total retirada das forças de combate, a promessa não será cumprida.

Transcorridos 13 anos da invasão, a Resistência 

Afegã (que transcende largamente os Talibans) controla quase todas as províncias, com as tropas estrangeiras concentradas em Kabul e nas principais cidades. O país, devastado pela guerra, está mais pobre do que antes da chegada dos americanos, mas a produção de opio aumentou muitíssimo.

O assassínio de Bin Laden no Paquistão numa operação de comandos nebulosa, montada pela CIA e o Pentágono, não contribuiu, alias, para melhorar a imagem de Obama.

IRAQUE,LIBIA,SIRIA

Longe de extraírem lições da sua política para a Região, os EUA desencadearam em março de 2003 a segunda guerra do Iraque, desta vez sem o aval da ONU.

O pretexto invocado – a existência de armas de extermínio massivo- foi forjado por Bush e Tony Blair. Tais armas, como foi provado, não existiam.

Na invasão foram utilizadas armas químicas proibidas pelas convenções internacionais. Crimes monstruosos foram cometidos e as torturas (incluindo abusos sexuais) infligidas pela soldadesca americana aos prisioneiros iraquianos tornaram-se tema de escândalo de proporções mundiais.

Saddam Hussein foi executado ,apos um mjulgamento sumário, com o aplauso de um governo fantoche, mas, transcorrida mais de uma década, o Iraque regrediu meio seculo. Centenas de milhares de iraquianos morreram de doenças curáveis e de desnutrição.

Hoje, ocupado por dezenas de milhares de mercenários ao serviço de empresas mafiosas, o Iraque é na prática uma terra humilhada e ocupada, onde o poder real é exercido pelas transnacionais que se apropriaram do seu petróleo e do seu gás.

Incapazes de encontrar soluções para a sua crise estrutural, os EUA prosseguiram com a sua agressiva estratégia (ampliando-a) de dominação imperial.

A política de cerco à China e à Rússia intensificou-se. De documentos secretos do Governo federal, tornados públicos

por influentes media, constam planos para arruinar e desmembrar a Rússia, reduzindo-a a potência de segunda classe. 

A multiplicidade de objetivos a atingir quase simultaneamente tem contribuído, porem, para que os resultados dessa política não correspondam às esperanças da Casa Branca.

As mal chamadas «primaveras árabes» foram ideadas para produzirem no Islão um efeito comparável ao das «revoluções coloridas». E isso não aconteceu. No Egito, apos uma cadeia de crises complexas e um golpe de estado que derrubou o presidente Morsi, os EUA conseguiram o que pretendiam. No Cairo ocupa o poder um governo militar do agrado do imperialismo norte-americano e que Israel encara com simpatia.

Mas o balanço da intervenção militar na Líbia é desastroso. Derrubaram e assassinaram Kadhafi, numa guerra de agressão imperial, viabilizada pela cumplicidade da ONU, guerra em que participaram ativamente a França e o Reino Unido, preparada com antecedência pela CIA e os serviços secretos britânicos e a Mossad israelense,
Destruíram as infraestruturas do país para se apossarem do seu petróleo e do seu gás.

Mas o desfecho da operação criminosa não correspondeu ao previsto no organigrama da agressão.

A Líbia é hoje um país ingovernável. Uma parte significativa dos «rebeldes», treinados e armados pelo imperialismo para lutar contra Khadafi, passaram a atuar por conta própria, em milícias que desconhecem o governo títere de Trípoli. O terrorismo tornou-se endémico. O atentado terrorista contra a missão diplomática dos EUA em Bengasi confirmou o estado de anarquia existente e a incapacidade de Washington para controlar as organizações terroristas que o imperialismo introduziu no país.

Do caos líbio não foram porem extraídos também os ensinamentos neles implícitos.

A escalada de agressões prosseguiu. A Síria foi o alvo seguinte. Washington repetiu a fórmula. Uma campanha mediática ampla e ruidosa demonizou o presidente Assad, apresentado como ditador brutal. Depois, «rebeldes» patriotas – muitos dos quadros são estrangeiros – iniciaram a luta contra o governo legitimo do pais.

Contrariando as previsões da CIA, as forças armadas, unidas em defesa do presidente Assad, resistiram e as organizações terroristas, ostensivamente apoiadas pela Turquia e pela Arabia Saudita, sofreram severas derrotas.

Dezenas de milhares de civis, sobretudo mulheres e crianças, foram vítimas da guerra patrocinada pelos EUA.

Compreendendo finalmente que o plano elaborado em Washington estava a fracassar, Obama, numa guinada tática, informou num discurso ameaçador que tinha decidido bombardear a Síria.

A firme atitude assumida pela Rússia obrigou-o, entretanto, a recuar e a desistir da intervenção militar direta.

Essa inocultável derrota política tornou necessária uma revisão da estratégia global dos EUA para todo o Medio Oriente.

Apercebendo-se de que haviam avaliado mal a relação de forças, a Casa Branca e o Pentágono adiaram sine dia o projeto de agressão à Republica Islâmica do Irão, e abriram negociações sobre o tema nuclear com um governo que o imperialismo identificava como polo do «eixo do mal».

A CATÁSTROFE UCRANIANA

A derrota sofrida pelo imperialismo na Síria coincidiu praticamente com o desenvolvimento de outro projeto imperial, mais ambicioso, que visava a integração a medio prazo da Ucrânia na União Europeia e na NATO.

Dispenso- me de recordar, por serem amplamente conhecidos, os acontecimentos que conduziram ao poder em Kiev um governo neofascista apos o derrubamento do presidente Yanukovich. Era um aventureiro, mas havia sido eleito democraticamente.

Mais uma vez o plano golpista foi minuciosamente preparado em Washington.

Mas, novamente, a Historia seguiu um rumo diferente do previsto pelo sistema de poder imperial.

A integração da Crimeia na Rússia demonstrou que o governo de Putin e Medvedev‎ não se deixava intimidar pela agressiva estratégia de Washington.

A recusa das populações russófonas dos leste da Ucrânia a submeter-se aos golpistas de Kiev levou observadores internacionais a admitir que a ofensiva das forças armadas da Ucrânia contra os «separatistas» de Donetsk e Lugansk poderia ser o prólogo de uma III Guerra Mundial. Mas a prudência e serenidade de Putin contribuíram para uma redução de tensões na área, evitando o alastramento de um conflito que poderia ter trágicas consequências para a humanidade.

A crise persiste, mas a própria incapacidade militar do bando de Kiev conduziu ao atual cessar-fogo e às negociações de Minsk.

Na Ucrânia, o tiro saiu também vez pela culatra ao governo dos EUA cuja aliança com fascistas assumidos ilumina o desprezo pela ética política da Administração Obama.

O PESADELO JIHADISTA

Atolado no pantanal ucraniano, o imperialismo estado-unidense (e os seus aliados) enfrenta nestes dias um desafio assustador para o qual sabe não ter solução.

Inesperadamente, uma organização de islamitas fanáticos irrompeu no noroeste do Iraque e em poucas semanas ocupou um amplo território naquele país e no norte da Síria.

Assumindo-se como interpretes intransigentes da sharia, tal como a concebem, proclamaram a restauração do Califado árabe e declaram a sua intenção de promover a sua expansão territorial e espiritual.

Logo nas primeiras semanas, a passagem desses jihadistas por cidades e aldeias conquistadas ficou assinalada pela prática de crimes hediondos, inseparáveis do fanatismo exacerbado da seita jihadista.

O imperialismo sentiu que o empurravam para um impasse. Obama não pode aceitar a ajuda do governo de Bashar al Assad, nem a do Irão. Perderia a face também se recorresse a forças terrestres para combater os jihadistas depois de ter festejado como acontecimento histórico a retirada do Iraque das tropas de combate. Optou então pelo recurso a bombardeamentos aéreos. Recebeu o apoio dos governos de Hollande e de Cameron, mas os especialistas do Pentágono acham que esses bombardeamentos, ditos «cirúrgicos» terão uma eficácia muito limitada.

Os jihadistas responderam degolando dois reféns britânicos em seu poder e ameaçam abater outros se os bombardeamentos prosseguirem.

É imprevisível no momento o desfecho do confronto. Mas os generais do Pentágono afirmam que o exército iraquiano e as milícias do Curdistão autónomo, aliado de Washington, não têm capacidade militar para derrotar os jihadistas.

Em Washington a Administração está mergulhada num pesadelo. Os media mais influentes, do New York Times à CNN, também.

Muitos quadros jihadistas são, afinal, provenientes de organizações terroristas criadas e financiadas pelos EUA para combater regimes que não se submetiam à dominação imperial. Alguns foram treinados por oficiais da US Army.

O desconforto dos media também é compreensível.

As guerras de agressão que atingiram o Afeganistão, o Iraque, a Líbia e a Síria foram precedidas de gigantescas campanhas de desinformação. Durante semanas, os povos dos EUA e da Europa foram massacrados com um tipo de propaganda que apresentava as intervenções militares como exigência da defesa da liberdade e dos direitos humanos em prol da democracia,contra a ditadura e a barbárie.

Goebbels, o ministro da Propaganda de Hitler, afirmava que uma mentira à força de repetida é aceite como verdade. As técnicas de desinformação utilizadas na época parecem hoje brincadeira de crianças se comparadas com a monstruosa máquina mediática controlada pelo imperialismo para anestesiar a consciência dos povos e justificar crimes monstruosos.

O presidente Obama cumpre neste jogo criminoso o papel que lhe foi distribuído. Na realidade o poder real nos EUA está nas mãos do grande capital e do Pentágono. Mas isso nao atenua a sua responsabilidade; a máscara não funciona , o presidente desempenha com prazer e hipocrisia a sua função na engrenagem do sistema de poder. Comporta-se na Casa Branca como inimigo da Humanidade.

Nos últimos seculos somente a Alemanha de Hitler criou uma situação comparável pela monstruosidade dos crimes cometidos à resultante hoje da estratégia de poder dos EUA. Com duas diferenças importantes: a política do III Reich suscitou repúdio universal, mas apenas a Europa foi cenário dos seus crimes. No tocante aos EUA, centenas de milhões de pessoas são confundidas pela fachada democrática do regime, mas os crimes cometidos têm dimensão planetária.

Qual o desfecho da perigosa crise de civilização que ameaça a própria continuidade da vida na Terra?

Vivemos um tempo, após a transformação da Rússia num pais capitalista, em que as forças da direita governam com arrogância em quase toda a Europa. Em Portugal sofremos um governo em que alguns ministros são mais reacionários que os de Salazar.

Mas a Historia é há milénios marcada pela alternância do fluxo e do refluxo. O pessimismo, o desalento não se justificam. A maré da contestação ao capitalismo está a subir.

Não esqueço que Marx ,após a derrota na Alemanha da Revolução de 1848 -49, quando uma vaga de desalento corria pela Europa criticou com veemência o oportunismo de esquerda e o de direita, contaminando a Liga dos Comunistas. Dirigindo-se à classe operária, afirmou que os trabalhadores poderiam ter de lutar 15,20 ou mesmo 50 anos antes de tomarem o poder. Mas isso não era motivo para se desviarem dos princípios e valores do comunismo.

A revolução socialista tardou 70 anos. E não eclodiu na Alemanha ou na França ,mas na Rússia autocrática. O ensinamento de Marx permanece válido. Mas neste limiar do seculo XXI não será necessário esperar tanto tempo.

A vitória final depende das massas como sujeito da História.

A advertência de Rosa Luxemburgo nao perdeu atualidade. Ou o capitalismo, hegemonizado pelo imperialismo norte-americano, empurra a humanidade para o abismo, ou a luta dos povos o erradica do planeta. A única alternativa, creio, será então o socialismo.