domingo, 14 de abril de 2013

O novo velho Mano Brown – 2ª parte da entrevista

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“Como um país como o Brasil pôde tolerar os números de mortes em São Paulo, em 2012? Ninguém vê?”


Leia a segunda parte da entrevista com o rapper Mano Brown, capa da edição 120 da revista Fórum

Por Glauco Faria, Igor Carvalho e Renato Rovai. Fotos de Guilherme Perez

Fórum – Você nunca pensou em se envolver com política?
 
Brown – Dá preguiça. Vou ser preso por agressão… Primeira reunião é agressão, é foda, tem de ter sangue frio.

Fórum – No Rio de Janeiro, o MC Leonardo saiu candidato. Você não acha que o movimento deveria lançar mais candidatos?

Brown – Não houve sucessos nas últimas eleições, é a ideia que falei da disputa do cantor de rap, do padre e do policial, foi isso que aconteceu. Houve candidatos com votação inexpressiva. O MC Leonardo pegou o Rio de Janeiro de cabeça pra baixo, tá todo mundo embriagado com a UPP. Ele fez o movimento contrário, eu falei pra ele: “Você vai bater de frente com a UPP? O povo tá do lado. Sua bandeira é essa, então é difícil ganhar”. Deixou de ter excesso, UPP é a contenção dos excessos. Vai ter cocaína em todo lugar, maconha em todo lugar, na farmácia, na padaria você compra, vai ter o funcionário que vende a maconhinha… O problema é o excesso, polícia dando tiro, facção trocando tiro, garoto novo com arma.

Fórum – Como você chegou no Marighella? Você pegaria em armas por algum desses motivos que falou aqui com a gente?

Brown – Pegaria. Não sou mais do que ninguém, mas pegaria. Não vejo por que não pegar, mesmo que eu fosse um mau soldado. Faria de tudo pra ser um bom soldado.

Fórum – E o Marighella, como você chegou a ele?
 
Brown – Eu tinha ouvido falar do Marighella há alguns anos, alguém disse que a gente era parecido até fisicamente, e é mesmo né, mano? Através da esposa de um rapper, amigo nosso, me falaram que ia sair um filme e o pessoal queria falar comigo, porque tinha tudo a ver, Marighella e Racionais. Aí entrei em contato com o pessoal do filme e peguei a missão de fazer a música.

Fórum – Você se surpreendeu com a história dele? 

Brown – Me identifiquei demais com ele, pra caralho, como pessoa. Gostava de futebol, samba, poesia, mulheres e não tinha medo de morrer, por isso ele é um líder até hoje.

Fórum – E religião, você tem proximidade com alguma delas?

Brown – Minha mãe é seicho-no-iê, comecei a ir para a igreja por influência de amigos, estudei em colégio de ensino adventista, então tenho essa proximidade. Mas nasci dentro do candomblé e convivi com as duas culturas, uma conflitando com a outra. Imagina se eu sou confuso?

O adventista não agride tanto o candomblé ou qualquer outra religião, mas o neopentecostal é mais forte nisso, até porque os integrantes são tudo ex-filhos de santo, a maioria.

Fórum – As igrejas evangélicas estão cada vez mais presentes nas periferias de São Paulo…

Brown – Já foram mais.

Fórum – Qual a sua opinião sobre algumas lideranças religiosas, alguns pastores que estão enriquecendo? 

Brown – O povo tá injuriado com esse duplo sentido deles, essa dúvida sobre a honestidade que deixam no ar. E outra, tá meio neutralizado esse avanço, o povo fica de olho nessa dúvida que eles deixam.
Fórum – E o que mudou?

Brown – O que mudou é esse monte de escândalos em que eles se envolvem. “Ah, o cara é representante de Jesus”, mas quem deu esse direito a ele? “Ah, Jesus falou…”. Então tá, falou pra ele e por que não falou pra mim?

Fórum – Eles nunca tentaram chegar em você?

Brown – Não. Eles xingam os Racionais na TV, mas sem saber. Vou na igreja, gosto da ideia e da fé. Gosto de ajudar, de descer a favela, ir na cadeira, sou devoto dessa ideia, seja do candomblé, do evangélico ou do comunista, o cara que coloca em prática o que Jesus falou.

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“Eu como e bebo por causa da pirataria, é minha rádio. Minha música nunca parou de tocar por causa da pirataria, ganhei e perdi na mesma proporção. Tá bom”
 
Fórum – Você falou de pegar em armas. Na periferia já não existem grupos de garotos falando em reagir, vingar essas chacinas?

Brown – Essa resposta você vai ver em sete ou oito anos. Essa ferida não vai cicatrizar, quem mora naquele lugar onde morreu o Lah não vai esquecer, os moleques vão crescer, mano. Quem viveu aquilo não vai esquecer.

Fórum – O governador Geraldo Alckmin, na sua opinião, está pecando por omissão ou é conivente com essa situação?

Brown – Peca por negligência, peca por prevaricação, por não executar a lei.

Fórum – Uns dois anos atrás, você disse que queria mudar sua imagem, que estava ficando “mapeada e óbvia”. Você mudou? Quem é o novo Brown?

Brown – O novo Brown não existe, porque esse termo “imagem” não existe, imagem é nada. Eu sou o Brown mais velho, macaco velho. Estou menos óbvio, menos personagem e mais natural. Comecei a tomar cuidado. Nunca fui oportunista, vivo de música, não sou um político que faz música. Eu não estava falando de chacina, de nada disso, estava preparando um disco de música romântica, aí começou a morrer gente aqui e tive de fazer alguma coisa.

Fórum – Você sempre teve uma visão crítica da mídia. O que acha dela hoje?

Brown – Ando muito chateado com a mídia por conta da chacina do final do ano. Dá para ver quem são os mais contestadores, eles são mais jovens e não têm forças. Os mais velhos têm espaço, mas são conservadores. Quem é da mídia e queria falar estava amarrado, e quem poderia falar fechou com a polícia, meio que concordando, entendendo mais a polícia do que a gente. Ontem (6 de fevereiro), em outra chacina em Guarulhos, mataram três irmãos nossos, filhos da mesma mulher, que já não tinham pai. Típico. A mulher de 40 perde os filhos de 15, 18 e 21 porque um polícia morreu na quebrada deles e mataram cinco para vingar.

Fórum – A chacina em que morreu o Lah realmente marcou você…

Brown – Muito, mano. Eu estava acompanhando antes daquilo, na véspera da eleição eu falei, em novembro; avisei de novo, aí depois vem essa chacina… Foi uma ação suicida, deram tiro com a bala da delegacia, foi como se dissesse assim: “Governador, você não é homem, o Estado não existe. Brasil, você é uma merda. Vem me pegar se vocês quiserem, matei sete pessoas no bar, com arma da polícia, e não vai dar em nada”. Deixou o recado. Como um país como o Brasil pôde tolerar os números de mortes em São Paulo, em 2012? Ninguém vê? ONU? Unicef? Qual a justificativa para tantas mortes? Não estamos em guerra. Queria saber como a Dilma lidou com isso.

Fórum – Sua relação com o Lula sempre foi forte.

Brown – É uma relação de respeito, sem badalação. Desde adolescente, eu votava no Lula, eu era simpatizante do PT, criei empatia. Ele é um cara honesto, gosto do Lula.

Fórum – E você ainda tem simpatia pelo PT?

Brown – Tenho. O PT, com todos os defeitos, ainda é a única coisa que a gente tem para lutar contra o PSDB, o partido do Alckmin, do Serra, da polícia tal, do delegado tal.

Fórum – Olhando para trás, após 25 anos de Racionais, você consegue identificar por que os Racionais ficaram tão grandes?

Brown – Porque o povo é muito grande. De cara, eu e o KL Jay, a gente trabalhava juntos, e falávamos que a periferia é a maioria absoluta e não tinha para ninguém. Se eles vierem com a gente, tá feito. O rap é a única coisa que sabia [fazer] e acredito nele até hoje.

Fórum – Quantos discos o Racionais vendeu?

Brown – Não tenho ideia, uns 2 ou 3 milhões.

Fórum – O que você pensa da pirataria?

Brown – Ótimo. Eu como e bebo por causa da pirataria, é minha rádio. Minha música nunca parou de tocar por causa da pirataria, ganhei e perdi na mesma proporção. Tá bom.

Fórum – Seu disco novo vai vir mais romântico mesmo? Você sempre falou de sua admiração por Marvin Gaye e Barry White, está se inspirando neles?

Brown – Continuo sendo o mesmo cara, interessado pelas coisas políticas do Brasil, pelo povo. Musicalmente, sempre gostei de música romântica, do Jorge Ben, Djavan, Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho… Hoje em dia, as pessoas esperam do Brown aquele posicionamento combativo, de luta e guerra, mas aí é um personagem também, né? O Brown é um cara atuante, que tá buscando na vida novidade, força, inspiração, razões, buscando pessoas… É o que eu mais busco: pessoas. Quando as pessoas viram as costas e saem andando, você tem de saber por quê. Para dar continuidade ao trabalho, temos de caminhar pra frente, não voltar ao zero toda hora. A juventude precisa de rapidez, mobilidade de ideias, não dá pra ficar na mesma ideia todo dia. Seria uma atitude até covarde, fácil, ficar jogando mais lenha na fogueira. Então, você tem de buscar outras ideias, que passam pela raça também, com certeza.

Fórum – E essas novas ideias…

Brown – Passam pela raça, todas as ideias. Mas nenhuma ideia é desprezível.

Fórum – Você gosta de polêmicas, Brown?

Brown – O Brown está como sempre, velho e chato. Atuante, jamais calado ou inoperante. Tô aqui, ali, gesticulando, trazendo divisão de ideias, porque meu papel é esse também, trazer essas ideias, e tem de saber o que o povo quer também, não é só o que os intelectuais querem. Os comuns têm direito à opinião. E se a opinião dos comuns não for igual à dos intelectuais? Vai fazer uma ditadura, vai se isolar? Vai ter de interagir. Que nem quando escolheram o Serra, ficamos aqui, interagindo com as consequências da eleição do Serra [para prefeito, em 2004], encontrei gente na favela que votou nele. Quando a gente erra, o reflexo é violento.

Fórum – Você falou da eleição de policiais. A base de votos deles está na periferia. 

Brown – A base de voto de todo mundo. O público-alvo é a massa, os números estão aqui. Os partidos não conseguem se eleger com conceitos, é com números, com votos dos que não sabem o que estão fazendo e dos que sabem, dos brancos, índios, negros, confusos. Depois, quando estão lá em cima, decidem que direção tomar. Ter candidatos de dentro das comunidades seria bom, mas acho que isso ainda vai demorar um pouco. Do mesmo jeito que o rico se cerca com cerca elétrica, o pobre quer pular.

Fórum – Apesar de não ter candidato, a comunidade está exercendo um poder de pressão não pela via política, mas pela mobilização. Você vê que as pessoas estão experimentando novas formas de fazer política que não sejam necessariamente pelo voto?

Brown – Há quem diga que o povo que votou no Serra queria mudança, o que é uma forma de inteligência. Mas trouxe consequências gravíssimas na relação entre o povo e o poder, acabou o diálogo. Vamos ver o número de homicídios na periferia, não é possível que, por mais que sejam maquiados, que a informação seja negada, alguns excessos como essa chacina… No caso do DJ Lah, foi quando eu vi a revolta realmente, sete pessoas mortas em um lugar onde já tinha morrido um, prometida uma vingança… O povo vê a fragilidade, a opressão, o medo das famílias.

Um povo que não tinha noção de direito, de cidadania nenhuma, não sabe o que representa, o poder que tem, não confia em ninguém e, consequentemente, não respeita ninguém. Não vai respeitar o orelhão, não vai respeitar o ônibus, o que tem cheiro de sistema é alvo de agressões. É o orelhão que o moleque, por ignorância, quebra, até a casa onde ele picha. Então, a relação é entre seres humanos, não entre robôs, o comandante que está ali atrás da farda é um ser humano, o cara que dá a palestra na hora de formar o soldado é um ser humano, tem mulher, tem filhos. O que ele lê, o que assiste na TV, o que ele come, o que sofreu na infância dele pra ter esse comportamento?
  
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“Os comuns têm direito à opinião. E se a opinião dos comuns não for igual à dos intelectuais? Vai fazer uma ditadura, vai se isolar? Vai ter de interagir”

Fórum – Recentemente, você esteve em Nova York e encontrou o Criolo lá. Quando você sai do País, você vai nas periferias? Como você vê o comportamento da juventude nesses locais?

Brown – O negro brasileiro é caloroso, e o americano é arredio, é outro comportamento. Fui lá procurar uns contatos de uns negões, uns negros muçulmanos, pesado demais cara, sombria a parada. Os caras ensinando coisas ruins para os negões, ensinando a fazer bomba, vai vendo, vai só piorando, é foda [risos]. O cara coloca na cabeça dos meninos a religião e tira a preguiça do corpo, dão motivo para o cara querer lutar.

Fórum – O Racionais, de um tempo para cá, tem sido muito ouvido na classe média. Como você lida com isso?

Brown – Há quem diga que a classe média é que cresceu muito [risos]. Mas já estava lá. Vejo com respeito, ouço crítica, elogio, converso, é importante ouvir o que eles dizem. Acho da hora que eles venham falar, até pra explicar minhas teorias, há muitos que vão de embalo, mas no caso do Racionais, estamos meio à prova de “embalista”, porque estamos há dez anos sem lançar disco, curte quem gosta mesmo. Não tem “modinha” Racionais.

Fórum – Como você tem se relacionado com os movimentos culturais, como o Tecnobrega?

Brown – Apoio. Conheci a Gaby Amarantos na MTV, mina lutadora, a nossa luta é a mesma, ela como mulher e negra, a luta é duas vezes maior. Eu dialogo com todos, o pancadão, os saraus, a várzea, até a música gospel. Sou envolvido com o começo da música gospel no Capão, não como evangélico, mas como amigo dos caras, eu gostava dos caras e eles gostavam de mim do meu jeito, a cena é forte aqui.

Fórum – Como é a história daquele diálogo inicial do Vida Loka 1?

Brown – A gente correu um certo perigo naquela gravação, porque celular em presídio é proibido, tá ligado? E é passível de punição. Ele estava preso, o disco saiu assim e não pegou nada. Houve uma falha no sistema, que estava meio embriagado de poder e nem viu nada. Naquela época a cadeia estava cheia de celular, e aí, porra, a gravação foi feita daquele jeito, ele lá dentro, falando comigo aqui fora.

Fórum – E o Santos? Você é um dos torcedores símbolos do Santos.

Brown – Não reconhecido, o Santos nunca me chama para nada, eu até conheço o presidente do Santos. Inviabilizei a contratação do Rafael Moura, ah, melei mesmo, contrata a Xuxa também, tá de brincadeira [risos]. Aquela reunião foi treta, aí eu sugeri: “Traz o André aí”. O Santos tá com um complexo de pobreza que eu não compreendo, esse negócio ridículo de colocar vidro no estádio inteiro, não dá pra ouvir as vozes da torcida, diminui a pressão. Os caras ficam batendo nos vidros, ficam parecendo loucos, esse negócio de colocar televisão nos camarotes. O setor Visa é vazio o ano inteiro, eu já perguntei ao presidente pra quem que é bom o marketing da torcida vazia, abre a câmera e o estádio está vazio.

Fórum – E o Neymar?

Brown – O Neymar é sensacional, melhor coisa que aconteceu no Brasil depois da eleição do Lula. Só poderia ter nascido no Santos mesmo, é foda, não cabe em outro time, mano.


Agradecemos à Produtora Boogie Naipe pela colaboração
 

sábado, 13 de abril de 2013

O novo velho Mano Brown - 1ª Parte da Entrevista

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“A gente não foca na polícia, a polícia é um tentáculo do sistema, o mais mal pago. Mas é armado e chega com autoridade, é um tentáculo perigoso”

Confira a primeira parte da entrevista com o rapper Mano Brown, capa da edição 120 da revista Fórum

Por Glauco Faria, Igor Carvalho e Renato Rovai. Fotos de Guilherme Perez


“Eu sou o Brown mais velho, macaco velho. Estou menos óbvio, menos personagem e mais natural. Comecei a tomar cuidado. Nunca fui oportunista, vivo de música, não sou um político que faz música.” Essa é uma das formas pelas quais o líder e vocalista do Racionais MC’s se define hoje, 25 anos depois de o grupo de rap conseguir levar sua mensagem não apenas às periferias de todo o Brasil, mas também a muitos lugares e pessoas que não tinham intimidade com o ritmo.

A mensagem de Brown sempre foi forte e contundente, mas hoje o músico prepara o lançamento de um álbum solo, no qual o soul e o romantismo predominam. Isso não significa, nem de longe, que o seu pensamento tenha se modificado, até porque muito do contexto que propiciou o nascimento do Racionais ainda está presente na realidade brasileira. “Eu não estava falando de chacina, de nada disso, estava preparando um disco de música romântica, aí começou a morrer gente aqui e tive de fazer alguma coisa.”

O músico se refere à chacina que matou sete pessoas na região do Campo Limpo, zona sul paulistana, em 5 de janeiro. Entre as vítimas, DJ Lah, em um primeiro momento tido como autor de um vídeo que denunciava a execução de um comerciante no mesmo local, feita por policiais. A informação foi desmentida depois, mas o espectro de que se tratava de uma vingança paira sobre a população do lugar. E Brown fala sobre as possíveis consequências para quem viu e sentiu a tragédia de perto. “Essa ferida não vai cicatrizar, quem mora naquele lugar onde morreu o Lah não vai esquecer, os moleques vão crescer, mano. Quem viveu aquilo não vai esquecer.”

Na entrevista a seguir, Mano Brown fala sobre a falta de oportunidades na periferia, do racismo, de um sistema que oprime, mas também ressalta o que ele considera ser o nascimento de um novo Brasil, destacando o papel da nova geração. Assim, ele mesmo tenta se “reinventar” para seguir na luta que sempre foi dele e de muitas outras pessoas. “Para dar continuidade ao trabalho, temos de caminhar pra frente, a juventude precisa de rapidez na informação, não dá pra ficar debatendo a mesma ideia sempre. É fácil para o Brown ficar nessas ideias, fácil, é até covarde ficar jogando mais lenha, então fui buscar as outras ideias, que passam pela raça também, com certeza.”

Fórum – Você esteve em uma reunião do pessoal do rap com o então candidato a prefeito de São Paulo Fernando Haddad, e ali disse que não iria falar sobre cultura, mas sim denunciar que os jovens estavam morrendo na periferia. Recentemente, houve o assassinato do DJ Lah, e mortes violentas de músicos da periferia têm sido muito comuns em São Paulo, na Baixada Santista, por exemplo. Como definir essa situação?

Mano Brown – Esses moleques cantam o que eles vivem. Geralmente, quando você chega nas quebradas, têm poucos lugares que são espaços de lazer, e o lugar onde teve a chacina era um ponto de lazer, querendo ou não. Um ponto meio marginal, mas tudo que é nosso é marginal. Era um bar, tinha a sinuca, tinham os amigos, o bate-papo com a família, tem o fluxo, é o centro da quebrada. O barzinho vende de tudo, vende pinga, vende leite, vende tudo, e o Lah gostava de ficar por ali, vários caras gostavam, era o quintal das pessoas.

O que aconteceu ali foi execução, crime de guerra. Tem a guerra e tem os crimes de guerra. As pessoas não estavam esperando por aquilo ali, não estavam preparadas pr’aquilo. É o que tem acontecido neste começo de ano, e aconteceu no final do ano passado, as mortes todas têm o mesmo perfil: moleque pobre em proximidade de favela. Os caras encontram várias fragilidades ali, várias formas de chegar, matar e sair rápido, e o governo simplesmente ignora o que aconteceu. existem as facilidades. O cara vai lá e mata sabendo que não vai ser cobrado.

Fórum – Mas você acha que, por conta dessas ocorrências, há uma coisa dirigida contra o rap?

Brown – Acho que não, se dissesse isso seria até leviano, porque muitas pessoas que morreram não tinham nada a ver com o rap. Gente comum, motoboy, entregador de pizza, moleque que saiu da Febem e estava na rua, com uma passagenzinha primária e morreu… E o rap tá na vida da molecada mesmo, tá nos becos, nas esquinas, no bar, na viela, geralmente o moleque que curte rap tá nesses lugares. É uma coisa dirigida, mas é dirigida à raça. Dirigida a uma classe.

Se você for fazer a conta de quantas pessoas morreram no final do ano, mortes sem explicação, crimes a serem investigados, e somar o tanto de gente que morreu em Santa Maria… Morreu muito mais aqui. Lá foi comoção total pela forma que ocorreu, lógico, todo mundo é ser humano, mas veja a repercussão de um caso e a repercussão de outro caso, quanto tempo demorou pra mídia acordar pra chacina? Quanto tempo demorou pras pessoas perceberem a cor dos mortos? Coisa meio que normal, oito pretos mortos, quatro aqui, três ali… É uma coisa meio cultural, preto, pobre, preso morto já é uma coisa normal. Ninguém faz contas.

Fórum – E quem está matando nas periferias?

Brown – A polícia. O braço armado, conexões armadas, de direita.

Fórum – Você tem um histórico de estranhamentos com a polícia…

Brown – Houve a época em que soava o gongo, a gente saía dando porrada pra todo lado, não olhava nem em quem. Outra época, a gente procurava a polícia pra sair batendo. Hoje em dia, espera pra ver quem vai vir. Não é só a polícia, são vários poderes. A gente não foca na polícia, a polícia é um tentáculo do sistema, o mais mal pago. Mas é armado e chega com autoridade, é um tentáculo perigoso. E tem várias formas de matar, de matar o preto.

Fórum – Da última vez que você deu entrevista à Fórum, há mais de 11 anos, boa parte da conversa foi sobre isso. Você é um ator importante dentro desse cenário, como está atuando para mudar a situação, está fazendo intervenções no governo, conversando com pessoas, ou só se manifestando pela sua arte mesmo?

Brown – Se eu disser que não uso meus contatos, estou mentindo. O que tem acontecido traumatizou todo mundo, então ficamos todos aqui com muita raiva, lógico que alguma coisa a gente fez. Mas não posso dizer o quê. Tenho minhas armas, mas não posso expor, parado a gente não ficou.

A partir do momento em que a gente nota realmente que nossa quebrada tem fragilidades, vê as famílias das pessoas com muitas mulheres e poucos homens, homens com pouca liberdade, pouca liberdade de movimento, vida pregressa com problema, pouca mobilidade na sociedade, caras condenados a viver no submundo, você começa a criar um exército na comunidade, de gente que vê aquele entra e sai da cadeia, de homens com vida pregressa que não conseguem mais arranjar emprego. As casas perdem esses caras, que deixam de ser úteis dentro de casa. Você vê a morte do homem da casa, cinco mulheres chorando; as famílias estão num processo que vai demorar, de restauração pra uma vida mais rotineira, mais calma, é uma corrente que tem de quebrar.

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“Antigamente, quando só o rico tinha, ninguém reclamava. Pobre com celular, com moto, não pode, o sistema cobra”
 
Fórum – Um cenário de guerra, mesmo.

Brown – É, não passou a ser guerra agora, depois da chacina, já vivia em guerra. As mães também lamentam os filhos que vão pra vida do crime, perder pra droga… A molecada negra tá muito exposta ao perigo, o salário é baixo, o risco é alto. A sociedade cobra muito, você tem de ter as coisas, tem de estar, tem de ser, tem de aparentar ser… Aparentar ser já custa caro, “ser” é outro estágio. O pessoal acha que é vaidade boba a pessoa gostar de marca, de perfume bom, mas são coisas que ajudam a pessoa a circular, a arrumar um emprego, a arrumar uma gata, tudo melhora. No momento em que no Brasil começa a sobrar um dinheirinho pra categoria, pra raça, o outro lado já começa a cobrar com a vida também. O excesso de gente usufruindo deste novo Brasil… Não pode, é excesso, tem de limpar. Tudo que é moleque de moto… Os excessos que o pessoal começa a reclamar, todo mundo com celular no busão. Antigamente, quando só o rico tinha, ninguém reclamava. Pobre com celular, com moto, não pode, o sistema cobra.

Fórum – Você entende isso como uma reação da elite?

Brown – Uma reação. Três governos de esquerda eleitos pelo povo, o Brasil pagou a dívida, a classe C tomando espaço e a Globo expondo isso na novela, todo mundo analisando, os autores são mais jovens e começaram a mudar a mente, as ideias começaram a ir pra tela e os movimentos ganhando força a partir das ideias, muita coisa junto… Os caras reagiram. O que aconteceu em São Paulo aconteceu no resto do Brasil. Em Alagoas, o índice de negros mortos é muito alto, em Belém do Pará, Goiás…

Fórum – E você pediu o impeachment do governador Geraldo Alckmin em um evento na Assembleia…

Brown – Pedi o impeachment do Alckmin e ele tem de tomar providências. Naquela altura, estava em um estágio em que dava a impressão de que o Alckmin não estava nem aí. As declarações que ele deu foram piorando, chegou num ponto de eu achar que ele não sabia o que estava acontecendo. Era suicídio, como ele vai se eleger a qualquer coisa com esses números de morte?

Muitas vezes, acho a mídia com tanto medo e, de repente, vai um canal de direita, que é a Record, que começou a investigação. A gente conversava e sentia que tinha o medo no ar, eram jornalistas com medo, quando eu vi o [André] Caramante isolando e as pessoas pedindo pra ele não voltar, pensei: “Os caras tão com medo, o governo tá junto”. E as declarações que ele [Alckmin] estava dando mostravam isso, que não ia voltar atrás e era um movimento aprovado pelo povo, o povo estava com ele. Redução da violência, crime organizado, a guerra do PCC, o povo leu isso como uma coisa benéfica pra sociedade, mas estavam morrendo os filhos deles mesmos.

Fórum – Será que o povo leu isso desse jeito?

Brown – Pelo número de PMs que foi eleito, percebo que o povo está se dirigindo a votar dessa forma, tem medo. Primeira coisa que se pensa: segurança. Segurança é polícia, entre um cantor de rap, um padre e um policial, ele vai eleger um policial. O voto explica.

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“O PCC hoje tem tanto poder que eles nem precisariam da contravenção pra existir”
 
Fórum – Qual a sua opinião sobre o PCC?

Brown – O PCC hoje tem tanto poder que eles nem precisariam da contravenção pra existir. Aí seria realmente um poder incontestável, e pelo número de mortes que foi reduzido em São Paulo, a gente sabe que muito tem a ver com eles. Já existe o PCC, não precisa fazer nada mais contra a lei. Se é que houve alguma coisa contra a lei… Não seria mais necessário usar contravenção, já existe a autoridade, existe a autoridade instalada, o povo aceitou.

Fórum – Como você vê a ascensão dos movimentos sociais hoje em São Paulo?

Brown – Sou privilegiado de ver acontecer isso, minha geração. Acho digno e muito importante mesmo todos os saraus, as reuniões, os diálogos, todo o movimento de jovens dedicado a isso, a conhecer as causas do Brasil, não só reclamar. É uma geração que não só reclama, que faz, que desce o beco da favela, vai trabalhar, vai bater nas portas. É um novo Brasil, novos médicos, novos advogados, novos pedreiros, novos motoboys, novos motoristas. O que todo mundo bebe, vai ser; o que todo mundo come, vai ser; o que todo mundo respira, vai ser. Daqui a 20 anos, você vai ver o país que está sendo implantado pelo Lula, pela Dilma, pelos Racionais, pelo Bill, pelo Facção Central. Daqui a 20 anos, vai ter um povo que vai ter essa cara.

Fórum – Fale um pouco mais de sua concepção desse novo Brasil.

Brown – Tenho 42 anos, sou fruto daquela geração dos anos 1980, aquela “geração lixo”. “Geração lixo”. Eu sou aquilo, com todos os defeitos e qualidades. Já os nossos filhos, nós que já aprendemos e sofremos um pouquinho mais, vão ser melhorados, mais ligeiros, mais práticos que eu, e não vão rodar tanto em volta do objetivo, vão direto ao foco.

Agora, os meus filhos, a molecada em geral… Ainda temos de lavar a roupa suja. Eu e eles. Não gosto de puxar a orelha dos moleques por revista e nem por entrevista, mas temos roupa suja pra lavar nas favelas, nas vielas, nas ruas, nos palcos, tem muita coisa pra melhorar ainda.

Fórum – Mas existe um orgulho hoje de quem vive na periferia, ele não se esconde mais. Há marcas que nascem na periferia. 

Brown – É o que o judeu fez, o italiano fez, o japonês fez e o preto foi proibido de fazer. Nos dias de hoje, faz, monta time de futebol, loja, grupo de rap. Forma a família, que é onde está o foco nosso, a família, dialogar, organizar… Historicamente foi proibido pra nós, a gente vive correndo, se escondendo, um comportamento de foragido que talvez essa geração não vá ter mais.

Fórum – Será que esse não é o susto das elites, perceber que daqui a 20 anos o Brasil não vai ser mais esse? 

Brown – O Brasil atrasado, os brancos também não querem isso, os brancos ligeiros não querem mais isso. Foi um ganho o branco acordar e o preto acordar também.

Fórum – “Fim de semana no parque” fez vinte anos agora. Você acha que essa foi a principal mudança nesse período, além do ganho econômico, também a elevação da autoestima?

Brown – Começa pela raça, pelo orgulho do que você é, de você ter na sua família a sua raiz. Se você não tem vergonha da sua mãe você vai ouvir mais ela, se você acha sua mãe bonita, seu pai bonito… Eu sou de uma geração em que muitos não tiveram pai, não tive pai, vários amigos não tiveram. Tive de aprender a ser meu pai, o homem da casa sempre fui eu. Isso também fez eu ser quem eu sou, mas acho que seria melhor se tivesse tido um pai. Em várias casas faltam um pai. Acho que a periferia vive este momento de fluxo de cadeia, da molecada se envolvendo na criminalidade, perdendo o direito de ir e vir, de oportunidade de emprego por conta de passagem [na polícia], então vai limitando e as famílias vão ficando empobrecidas. Mesmo que o governo faça, vai estar sempre correndo atrás, essa corrente tem de cortar. Dar oportunidade pra molecada – principalmente para os homens –, que não tem como demonstrar nada numa sociedade em que você tem de parecer que é, pelo menos. A molecada não tem oportunidade.

Fórum – Falando em oportunidade, o que você acha das cotas?

Brown – Como tudo que envolve o negro, é polêmico. Agora, se você negar que o Brasil prejudicou a raça negra… [As cotas] não vão resolver o problema, mas dizer que o negro não é merecedor disso é racismo. Historicamente teria de ter, mas, dentro da raça negra, o lance de cotas é tão dividido ou mais que entre os brancos. Se você chegar na inteligência negra, perguntar ali o que acha da cota… Mano, é treta! Você vai ter cara crânio que é contra, vai falar pra ele que tem de ser a favor… É dividido, acho bom ser polêmico. O problema tem de ser debatido, depois faz o acordo, mas de cara tem de conversar.

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“Primeira coisa que se pensa: segurança. Segurança é polícia, entre um cantor de rap, um padre e um policial, ele vai eleger um policial. O voto explica”
 
Fórum – Qual a sua avaliação do movimento negro no Brasil?

Brown – O movimento negro evoluiu muito, tenho muito orgulho de ver como o movimento atua hoje, algumas reuniões em que eu fui, moleques muito inteligentes… Dá vontade de parar de falar e deixar só os moleques falarem. No dia do evento mesmo, antes tinha falado um garoto do movimento negro, ele já tinha falado tudo. Eu nem quis falar muito porque ele já tinha falado tudo. Antigamente, ia nos movimentos e era um debate muito primário, ranço de 300 anos debatido nos anos 1980, nós estamos em 2013 e a molecada já está debatendo outras coisas, outros poderes, não só os visíveis. Já não querem só a roupa de marca, os caras querem poder, os moleques vêm pesado na reivindicação, no direito, na história. São terríveis e estão vindo aí. Tenho orgulho, já foi um movimento confuso, hoje não é mais. É um movimento prático.

Fórum – Existe uma crítica de que somente o empoderamento econômico não traria consciência social para as pessoas, mas o seu depoimento não diz isso.

Brown – Traz. Traz porque o tempo é dinheiro pra todos, inclusive pra classe C. O micro-ondas, o carro que anda melhor vai fazer você chegar com mais conforto em casa, no seu trabalho, você vai ter tempo pra melhorar. Por que é conforto pro rico e pro pobre não? O pobre vai ficar bobo alegre, por quê? É preconceito. O que faz a vida do cara ter conforto, permitir organizar o tempo, poder estudar, trabalhar e cuidar do filho… Daqui a 20 anos, tá ele formado, o filho estudando, se ele não tivesse o carro, com certeza não trabalhava, não estudava, tinha cuidado só do filho. Ele não tinha estudado e era só o filho, não eram duas rendas, era uma. Bem material “aliena o pobre”, porque pobre é alienado, esse é o discurso… O pobre não tem inteligência… Sabedoria do povo é sabedoria do povo, tem de escutar, tem de entender a mensagem.


Amanhã a segunda parte da entrevista...

sexta-feira, 12 de abril de 2013

A Dama de Ferro: o filme

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Por Carla Luciana Silva


Normalmente quando se resenha um filme recém-estreado tem-se o cuidado de não contar tudo sobre ele, não explicitar demais o roteiro, não contar “o final” para que outros possam assistir-lhe. Não é o caso em Dama de Ferro (Phyllida Lloyd, 1h44). Quanto mais se falar dele numa resenha mais diminui a chance de que outros queiram assisti-lo, ainda bem. O filme não vale a ida ao cinema e o pagamento do alto preço; além disso, há o incômodo de ver sempre algum vizinho de poltrona admirado com o personagem criado na grande tela [ecran], sensação desagradável. Afinal, o filme foi laureado por duas estatuetas no Oscar. Meryl Streep, por sua atuação, ao construir uma personagem de forma absoluta e inquestionável. E, ao mesmo tempo, maquiagem. Perfeito, afinal, o filme propicia um tal maquiamento da história e construção de uma memória estetizada que realmente faz pensar que mereceu o prêmio.

O filme tenta fazer piadas, fazer rir através da criação de um personagem – o marido, um boboca [palerma] que nada mais é do que a vingança de todos os homens sobre uma mulher poderosa, numa alegoria fraca, sem graça e falsa que o filme cria. Gera-se uma espécie de Ghost: do outro lado da vida. O homem, marido da grande dama de ferro, que aparece não só como sem personalidade mas como alguém que vive do ar que ela respira, e não um grande empresário do ramo petrolífero, é um fantasma que a assombra em suas alucinações doentias. Se ao longo da vida ela quis agir como homem (“forte”), no fim da vida, apenas depois do fim da vida do seu “fraco” marido, ele tem o poder de infernizá-la com coisas banais, como contar o final do livro que ela está lendo ou colocando em xeque seu poder absoluto.

A trama do filme é a história de uma senhora que não consegue desapegar-se do passado, o seu passado pessoal e seu papel histórico. Mas o passado pessoal será facilmente descartado, doado para a Oxfan, através das roupas do marido morto que farão com que ela complete seu luto. No final do filme ela consegue se desfazer das roupas e do fantasma, quando finalmente vemos uma emoção, uma lágrima lhe escapa do olho. Ela perdeu seu apego pessoal. Mas, e o legado histórico? Bem, a reconstrução de uma memória absolutamente conservadora é o que filme propõe sucessivamente. Um passado reificado, um “objeto de consumo, estetizado, naturalizado e rentabilizado, pronto para ser utilizado”.[1] Não existe memória sem consequências, sem implicações, e é esse embate que queremos perceber no filme.

As remissões à Margareth jovem são bizarras. Primeiro, mostrando um ideal presente nas falas de seu pai, de um conservadorismo a toda prova, de um individualismo segundo o qual pode o personagem se colocar como portador da verdade, ela possui a verdade e não importa o que aconteça, fará com que ela impere, à luz da construção do seu poder. O personagem Thatcher surgirá como guia, alguém que deverá levar o partido a um caminho. Interessante que esse caminho aparece apenas como idealizado por essa mulher jovem, idealista. Em nenhum momento se refere ao seu embasamento teórico neoliberal, que fundamenta com precisão as políticas que colocaria em prática, suas relações com Hayek, nada disso aparece no filme; afinal, é uma “memória pessoal”.

A figura da “mulher” também passa por contradições. A mulher velha sofre na memória suas escolhas históricas com relação aos filhos. Busca se reconciliar com o filho, a quem ela chama em vários momentos de senilidade, por quem clama e que sarcasticamente no final se nega a aparecer, “foge” para a África do Sul, não tem tempo para a mãe. A culpa da mãe que trabalha e que “abandonou” o filho, ao dedicar-se a qualquer coisa na vida, no caso, a política, fica mais uma vez interiorizada.

Já li em vários lugares comentários alegando um certo “feminismo” no filme. Ideia mais absurda! O tempo todo o personagem deixa claro que “prefere a companhia dos homens”, porque eles teriam obviamente uma lógica própria, um modus de ser distinto, que não seria fútil como o das mulheres. Com eles estava o poder. Interessante que o filme mostra justamente uma mulher não apenas bonita, como atraente, focando em várias cenas seu corpo acinturado, focando seu traseiro marcado pelas saias de um azul claro celestial. A cena que precede sua entrada no Parlamento como primeira-ministra tem uma virada de corpo que faz dela uma Marilyn Monroe da política, mas aos avessos, porque quando ela dá a virada com a saia os homens como que desaparecem, abrindo caminho para sua entrada triunfal.

Assim, de feminismo o filme não tem nada. Tanto é que em uma das últimas cenas Margareth aparece lavando a xícara do próprio chá que acabara de beber. Ou seja, encerrada na cozinha. Aliás, é na cozinha que se passam várias de suas alucinações, como se aquele espaço representasse a prisão da qual fugiu mas que agora a prendia, e o marido (ghost) retornava para torturá-la psicologicamente. Aliás, a única cena em que sua mãe aparece no filme ocorre quando ela foi chamada para a Universidade, comemorou com seu pai e, quando foi ao encontro da mãe, essa se “esconde” lavando louças na cozinha. No âmbito da “prisão” de sua cozinha, numa cena mostra sua vingança, acendendo todos os eletrodomésticos para fazer barulho e impedir de ouvir as críticas do fantasma do seu marido sobre seu papel histórico.

Há ainda outra cena de uma sensualidade descabida. Diante de um debate forte sobre a resistência do aprofundamento das políticas neoliberais, ela, impassível, tem seu vestido ajustado por uma serviçal, que aparece apenas de costas e que foca todo seu trabalho em ajustar os peitos da dama de ferro. Numa cena em que os homens do partido falam que não poderão mais aguentar o arroxo [cortes de salários], a câmera foca nos peitos pendularmente. No final, ela aparece triunfal, dizendo que esse remédio amargo iria aplicar no seu povo/doente que precisava de remédio, segundo ela própria.

A figura autoritária é tão forte que mais tarde, quando consulta o médico, ela dá uma lição de moral dizendo-lhe que ele deveria perguntar o que ela pensa, não o que ela sente. Ou seja, quando está de um lado, aplica o remédio e pronto; quando está do outro, ensina ao médico a não aplicar o remédio. O filme com isso naturaliza o remédio, como se Thatcher não tivesse historicamente sido a responsável pelo desemprego massivo que criou com suas medidas.

Quando foi primeiro Ministra da Educação, além de ter fechado várias escolas, uma de suas medidas mais controversas foi acabar com o leite da merenda escolar. O filme, que em nenhum momento fala disso, começa com Thatcher fugindo do controle de seus empregados e indo ao mercadinho comprar leite, e reclamando do preço do leite, que havia subido de novo. Ela compra o leite em meio a desconhecidos, como se tivesse finalmente se misturado, passando, ironia da história, a ser uma igual.

Também o discurso antiterrorista acompanha todo o filme, assim como atentados do IRA, que vão seguindo ao longo da trama. Não aparece, no entanto, a intransigência da personagem, essa memória que se constrói possui apenas um lado. Interessante observar como o discurso de realocação do papel histórico de figuras deploráveis para a classe trabalhadora, como Thatcher, segue uma linha parecida com aquela usada nas biografias de grandes fascistas, como no caso do ditador português Salazar, que é mostrado como um homem solitário, e que seria o preço a pagar pela dedicação de uma vida inteira à “causa pública”. Nessas biografias desaparecem seus apoiadores e todos aqueles que lucravam com suas decisões. No caso de Thatcher, vemos raramente relações pessoais além da família. Uma cena de seu triunfo pós-guerra das Malvinas a mostra bailando com ninguém menos que Ronald Reagan, como se fosse um conto de fadas.

Desde o início do filme suas lembranças vêm acompanhadas da moral de que o Estado não deve intervir, não “sabe” o que fazer, e que cabe às pessoas cuidarem de si. Isso remete ao mercadinho no qual trabalhava para ajudar seu pai, denotando um estigma contra o trabalho que segue demarcando todo o filme: “a filha do merceeiro”. Uma menina ousada, auto-suficiente, cheia de iniciativas. O ideal neoliberal vai aparecendo nas suas falas, embora não tenha identidade, não apareça como um projeto de hegemonia. Aparece com ela dizendo que as pessoas têm que aprender a “controlar-se”, a gastar menos; ou dizendo que sempre há os que vêm “comer de graça” (alusão à criação da Comunidade Européia). Seu discurso antiorganização sindical, antitrabalhadores está presente o tempo todo, num crescente que ao invés de dizer realmente o que ela estava fazendo, mandando reprimir, bater, destruir, quebrar a espinha dorsal do movimento operário, constrói, ao contrário, uma imagem de uma mulher forte que sabe tomar decisões em momentos difíceis. As imagens difusas de trabalhadores sendo pisoteados por cavalos são totalmente desfocadas em função do close na coragem e nos peitos de Thatcher. Uma mulher que não quer saber de conversa, não há entendimento possível. Como se essa posição, uma vez mais, fosse apenas fruto de uma grande personalidade. O desprezo para com os trabalhadores aparece em frases como “muitos já estão quase a morrer de fome” – terão que voltar ao trabalho. O ideal que ela diz que sabe que está preservando, sua verdade que porta é: liberdade e oportunidade. O filme coloca em suas falas o “desejo de dizer o indizível”, ou seja, de tomar essas medidas; alguém ambicioso e com princípios, embora não diga quais são do ponto de vista histórico.

A mudança em seu perfil pessoal também aparece no filme, tomando aulas de postura de voz, mudando o penteado para deixar de parecer uma dona de casa, e o marido sempre como figurante nessas cenas, o que não faz qualquer sentido. A lógica da estetização da política paira no ar. E aos poucos o filme mostra a virada em sua vida, em que os homens começam não apenas a respeitá-la mas a admirá-la.

Em 1979, quando assume como primeira-ministra suas palavras são claras: o país “que amamos” tinha um preço a pagar para livrar-se do “socialismo”, ou seja, da organização dos trabalhadores. E, para ficar completo, não podia deixar de rezar uma oração de São Francisco: onde houver dúvida, que eu leve a fé. Ou seja, minha verdade vos libertará!!!

Mas o filme se torna ainda mais insuportável quando mostra a invasão das Malvinas. A arrogância de uma guerra aparece uma vez mais como fruto da vontade de uma mulher que percebe que seu país estava com a honra ameaçada, e justamente essa é a tônica final, que a mostra com um mundo a seus pés depois da guerra. Se antes já sentimos falta de alguns amigos queridos seus, aqui nos perguntamos porque o filme não mostra Pinochet lhe cedendo bases militares dentro do território chileno para atacar as Malvinas-argentinas?

Sempre há riscos em qualquer filme histórico, que busque a reconstituição da história. Esses filmes têm toda liberdade de interpretar, mas sua visão corre o sério risco de aparecer como um todo fechado, uma verdade absoluta. Por isso é mais grave, aparece como verdade porque “mostra”. Evidentemente que tudo o que é narrado não ocorreu sem oposição, sem resistência, embora a ênfase fosse sempre ocultada. O que prevalece são mulheres chorando quando Thatcher deixa o poder, como se fossem as mulheres que tivessem sido lá representadas.

A memória vai sendo reconstruída, a história passa a ser recontada a partir dela. E, por isso, a força do personagem e a “individualização” das decisões e da linha política. Por isso o personagem mostrado não titubeia, não tem dúvidas, faz parecer que a história se move para atender sua vontade.

O jornal francês Libération fez uma vasta matéria sobre o filme. O mais interessante foi que deu voz a pessoas que eram mineiros na época de Thatcher e a manchete é: “Quando ela morrer, nós faremos a festa!”.[2] Segundo o jornal, abaixo de um frio imenso os velhos mineiros se reuniram para ver o filme e urravam: “Maggie, Maggie, out, out, out” [Margarida, Margarida, fora, fora, fora], como na época das greves em 1983-84. O filme tem servido para reavivar a raiva desses homens e mulheres, mostrando o lugar onde milhares de pessoas perderam seus empregos por causa das decisões da primeira-ministra. Também as suas mulheres estão indignadas contra o retrato de Thacher “ícone feminista”, que o filme tenta passar: “Ela jamais defendeu as mulheres, não se bateu por seus direitos, não colocou mais mulheres no seu governo”, inclusive “queria mesmo estar sozinha no mundo de homens”. E recorda a cena chocante em que Thatcher passava impassível de carro enquanto as manifestações dos mineiros quase derrubavam seu carro: “mas o filme não mostra uma só vez por quais razões os mineiros estavam encolerizados, eles tiveram suas vidas destruídas, eram pessoas desesperadas”. E segue uma mulher de um ex-mineiro: “as verdadeiras damas de ferro são as mulheres dos mineiros, que enquanto tinham seus maridos pagos miseravelmente, ou que quando faziam greve não podiam pagar as dívidas, mesmo assim continuaram a chegar ao fim do mês como conseguiam.” Narra pessoas que perderam sua casa, seus maridos ficaram a ver navios.

Um homem diz: “ela é apresentada no filme como uma heroína. Mas ela não era nada disso, era uma bruta, tirana, que jamais teve qualquer compaixão pelas pessoas que batalhavam pelos seus empregos, não por férias ou melhores salários”, como o filme leva a crer. A conclusão é sintética: Thatcher foi “sobretudo uma personalidade que dividia, ela foi a principal responsável pela destruição de toda a indústria manufatureira do país. Ela começou pela indústria de estaleiros navais, depois o aço, o carvão e, finalmente, aliada a Rupert Murdoch (magnata da imprensa), ela destruiu a indústria gráfica”. Esta é sua herança. “Ela é odiada por aqui e, quando morrer, nós faremos a festa nas ruas, eu posso lhes assegurar”. Seria sem dúvida uma tentativa de vingança histórica contra uma memória forçada, forjada e falsa de uma “heroína”. Totalmente compreensível essa visão dos trabalhadores, mas o passo adiante é perceber que, diferentemente do que propõe o filme, as medidas por ela adotadas e impostas não foram apenas fruto de seu desejo de poder, e sim uma prática sistemática e articulada do capitalismo como reação à crise dos anos 1970.

A conclusão de outro comentador do jornal é interessante: tudo isso não faz deste filme um filme ridículo ou mal feito, mas um filme resolutamente de direita, e que por ser bem feito é que vai passar a construir relatos históricos. Com um fervor sincero ele exalta as virtudes de uma “Grã-Bretanha grande outra vez”.[3]Ou seja, como filme de qualidade técnica (ganhador de prêmios), será certamente mais assistido do que as aulas de história que se podem produzir para criticá-lo.

Também no francês Le Monde lemos uma pergunta instigante: “porque ela fez isso? Com que apoios?”[4] Não saberemos assistindo o filme. Já na revista brasileira Veja, que sempre exaltou a figura de Thatcher, identificamos uma “leoa do inverno”: “a primeira-ministra que era exatamente aquilo que os britânicos precisavam”.[5] A crônica na revista reproduz a fala da própria diretora [realizadora], que justifica seu filme dizendo que apenas quis mostrar a visão da própria história, sem “fazer julgamento histórico”, como se isso fosse possível, e como se o resultado não fosse um julgamento histórico apriorístico e hegemônico do início ao fim. Afinal, reafirma que a sua queda se deu porque “tinha razão” em vaticinar contra a entrada na zona do euro, e por isso foi punida, segundo a resenha de Veja, que ainda cobra mais do filme. Parece descontente com tanto foco na demência da personagem, cobrando que se diga, didaticamente, que havia coerência no seu pensamento e que ela apenas “dizia o que os ingleses realmente precisavam ouvir”. Por isso, nas três páginas da revista, repleta de imagens, há espaço de destaque para suas “benfeitorias”: resistência aos sindicatos; privatização; limites à Comunidade Europeia; enxugamento do estado de bem-estar social; intransigência com as ameaças externas; intransigência com o terrorismo; articulação entre EUA e URSS. Cada item vem explicado, como uma homenagem e uma lembrança, reafirmando os princípios em comum.

Notas
[*] Docente do Curso de História e do PPGH da UNIOESTE. carlalusi@gmail.com [1] TRAVERSO, Enzo. O passado, modos de usar. Lisboa, Unipop, 2012, p. 11. [2] Libération, mercredi. 15 février, 2012, À l’affiche. Cinéma. III. Sonia Delesalle Stolper. [3] Libération. En fer et dame nation. Bruno Icher. 15/2/2012, p. II. [4] Le Monde, 15/2/2012, p. 26. Une biographie cosmétique et vaine pour un colosse politique. Thomas Sotinel. [5] Veja. 22/2/2012, p. 95. Isabela Boscov.

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