sábado, 22 de novembro de 2014

EUA: o país das oportunidades... e das férias não remuneradas

Trabalhadores da iniciativa privada americana não têm direito a férias pagas por lei

Edmund McCombs mudou-se para Sydney, na Austrália, há seis anos - e não tem planos de ir embora. Não foram só os restaurantes do porto ou as praias do litoral australiano que cativaram este diretor de sustentabilidade de 33 anos.

O americano, nascido na Flórida, está lá por um estranho motivo: seu chefe quer que ele tenha mais tempo de férias e aproveite mais a vida fora do trabalho.

McCombs diz que seu supervisor está de olho em cada dia de folga tirado, não para evitar que McCombs folgue demais, mas para garantir que ele não esteja trabalhando em excesso.

Essa cultura de folga obrigatória é um choque cultural para McCombs e os costumes americanos dele. "Na Austrália, as pessoas saem e se envolvem com suas 'vidas de verdade', sem medo de que isso vá repercutir por estarem longe do ambiente de trabalho", diz.

Os australianos têm direito, por lei, a 20 dias de férias remuneradas por ano, além de outros sete dias de feriados, também pagos. Só no último ano, McCombs viajou de férias para o Oeste do país, para a Flórida e para as ilhas Fiji.

Quando trabalhava em uma empresa do ramo de segurados, há seis anos, em Atlanta, nos Estados Unidos, ele só tinha direto a dez dias de férias pagas por ano. Mesmo assim, nunca podia tirar mais de cinco dias de uma só vez.

Na Austrália, diferente dos Estados Unidos e também do Brasil, o empregado não precisa trabalhar um ano inteiro antes de começar a gozar de suas férias.

A nação sem férias

Os Estados Unidos são o único país desenvolvido que trata férias como um "presente" ao empregado, não como um direito.

Em países como Áustria, Alemanha, Itália e Espanha, os trabalhadores têm direto a 30 dias pagos, entre férias e feriados. Nos Estados Unidos, a lei garante aos trabalhadores... zero dias.


A lei que regula isso é o Ato de Padrões Justos de Trabalho, de 1938, que regula o máximo de horas semanais que se pode trabalhar, o mecanismo de pagamento de hora extra, o salário mínimo e o trabalho infantil. A lei não mencionada nada sobre férias.

Isso significa que decisões sobre férias, ausências por doença ou feriados nacionais são negociados caso a caso entre empregador e empregado.

O padrão de várias empresas americanas é dar de 5 a 15 dias de férias pagas por ano a seus trabalhadores, mas um estudo recente do instituto americano Center for Economic and Policy Research mostrou que um em cada quatro trabalhadores da iniciativa privada não recebem nenhum dia de férias pagas.

Carrie Stevens é uma desses trabalhadoras. Ela trabalha servindo bebidas em uma cervejaria em Charlottesville, na Virgínia, e não tem nenhum dia de folga no ano - sequer por doença ou feriado.

"Mesmo que eu ganhe férias pagas ou dias de folga por doença, se o pagamento fosse feito com base na tabela de horas, ele seria mínimo", conta.

Ela recentemente recebeu um aumento de US$ 2,13 por hora para US$ 3,50 - mas a maior parte de sua remuneração são as gorjetas que recebe. O salário mínimo americano é US$ 7,25 por hora, mas pessoas que recebem gorjeta podem ter remuneração básica inferior a isso.

Nos seis anos que trabalha na cervejaria, ela calcula que tirou só cinco dias de férias por ano, que são pagas com suas próprias economias.

"Eu consigo sentir quando estou precisando de férias, porque minha paciência e tolerância com os clientes se esgotam", conta.

Cultura do medo

Mesmo os que recebem dias de férias pagos precisam se esforçar para consegui-los.

Há um estigma nos Estados Unidos de que quem pede férias ou folgas está sendo preguiçoso ou desleal com os colegas. Isso causa uma distorção no equilíbrio entre vida pessoal e trabalho - algo mais grave do que em qualquer outra economia do mundo avançado.


Uma pesquisa do site de carreiras Glassdoor.com, em abril, mostrou que o trabalhador americano com direito a férias pagas só tirou, em média, metade dos dias que poderia.

Entre os entrevistados, 28% disseram ter medo de ficar para trás no trabalho se tirassem mais férias. Para 17%, o medo era de perder o emprego. Outros 19% evitaram férias por quererem se manter mais competitivos que os colegas.

"Está claro que o significado da palavra 'férias' já não é o mesmo hoje em dia", diz Rusty Rueff, da Glassdoor.com.

Tentando mudar a lei

Volta e meia algum parlamentar americano tenta mudar a lei. O deputado democrata Alan Grayson, da Flórida, já tentou levantar essa bandeira diversas vezes.

Ele acredita que o estresse causado pela falta de férias tem um impacto negativo na produtividade e saúde dos trabalhadores, com custo anual de US$ 344 bilhões para a economia americana.

Ele tentou passar, em 2013, o Paid Vacation Act (projeto de lei das férias remuneradas), obrigando empresas com mais de cem funcionários a dar uma semana de férias pagas a todos que trabalham em turno integral.

O projeto se arrasta por comissões parlamentares há mais de um ano. Ironicamente, os parlamentares que estão analisando essa proposta têm direito a um mês inteiro de férias pagas.

Os políticos americanos são uma das poucas categorias nos Estados Unidos com direitos trabalhistas semelhantes aos de outras economias avançadas.

"Se eu nunca tivesse deixado os Estados Unidos, o conceito de um mês inteiro de férias nunca teria passado pela minha cabeça", diz McCombs, em Sydney. "Na Austrália, isso não é nada inovador - é apenas o normal e o esperado."

Fonte: BBC

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Canabidiol, uma revolução para autistas e epiléticos


Por Renato Malcher*


Aos onze anos, Carly Fleischmann comunicou-se com o mundo pela primeira vez. Diagnosticada com autismo aos três, jamais pronunciou uma palavra e parecia perdida no mundo, à deriva dentro de si. Mas em uma tarde de inquietação, gritos e perturbadora agressividade, ela foi ao computador e digitou: “ajuda dente dói”. Após anos de treinos, frustrações, lentos e minúsculos progressos, seus pais ficaram estarrecidos: “Percebemos que dentro de Carly havia uma pessoa articulada, inteligente e emotiva que nós jamais havíamos conhecido!”.

A partir desse primeiro contato imediato com o misterioso mundo da mente autista, segredos impactantes foram revelados: “Vocês nunca saberão como é quando não consigo me manter quieta porque minhas pernas ardem como se estivessem em chamas, ou quando eu sinto como se centenas de formigas subissem pelo meu corpo.”

Ambientes cheios de estímulos sonoros e visuais também causavam tempestades de ruídos insuportáveis em sua mente, levando-a a violentos ataques, comuns entre os autistas, mas que — agora ela revelava — serviam para tentar dissipar essas terríveis sensações (supostamente causadas por ativação caótica de circuitos cerebrais).


Recentemente, um grupo de Harvard constatou que cerca de 50% das crianças diagnosticadas como autistas exibem focos cerebrais de atividade caótica que as tornam incapazes de conexão com o mundo exterior (mesmo quando na ausência de ataques ou convulsões).

Há também diversas síndromes que apresentam simultaneamente convulsões e autismo. Este é o caso das síndromes de Dravet e de CDKL5, das quais sofrem, respectivamente, as meninas Charlote, protagonista do documentário “Weed”, realizado pela CNN, e Anny, do documentário “Ilegal”, de Raphael Erichsen e Tarso Araújo.

“Weed” foi dirigido pelo neurologista Sanjay Gupta, consultor da CNN famoso por sua histórica oposição ao uso medicinal da maconha. Mas ambos documentários mostram que, graças ao óleo extraído de um tipo de Cannabis sativa rica em canabidiol, Charlote e Anny tiveram suas vidas praticamente salvas. As convulsões caíram de devastadoras centenas por semana, para três ou menos. Em ambas, assim como em outros relatos sobre crianças autistas, o uso de canabidiol causou melhoras extraordinárias de sintomas como ataques de agressividade e autoflagelação, hiperatividade e falta de contato visual.


Em 2013 descobriu-se que mutações presentes em síndromes semelhantes acarretam defeitos no chamado sistema endocanabinoide, o qual normalmente protege o cérebro de hiperativação e controla percepção sensorial, atenção, cognição, emoções, adaptação ao estresse e interação social. O sistema é assim nomeado por ser controlado por moléculas produzidas no próprio cérebro, as quais são imitadas por componentes da Cannabis, tais como o canabidiol.

O documentário “Weed” mostrou que, em um contexto controlado, seja na forma de óleo, compostos isolados, ou de material in natura, o uso medicinal da Cannabis representa uma nova revolução na medicina. Por isto, hoje em dia, Dr. Gupta pede desculpas por ter se enganado.

Menino autista durante ataque de auto-agressividade (esquerda) e depois sob o efeito de medicação à base de Cannabis.


*Neurobiólogo e professor da Universidade de Brasília (UnB)


Vídeos relacionados







Fonte: Libertas

domingo, 9 de novembro de 2014

Reds - Link para download do filme


TÍTULO DO FILME: REDS (Reds, EUA 1981)
DIREÇÃO: Warrem Beatty
ELENCO: Warren Beatty, Diane Keaton, Jack Nicholson, Gene
Hackman, Mureen Stapleton, Paul Sorvino, 188 min. CIC.


RESUMO

O filme retrata a vida do jornalista norte-americano John Reed, desde a época em que era repórter do periódico socialista The Masses no início do século XX, até a fundação do Partido Comunista dos Estados Unidos. Sua vida conjugal com Louise Bryant, também merece destaque especial na primeira parte do filme.
O filme prossegue, mostrando a participação de John na Revolução Russa em 1917, seus contatos com importantes lideranças e as divergências internas que já aparecem no movimento comunista da União Soviética. Dessa participação John realizou a mais famosa cobertura jornalística da revolução, imortalizada no livro Os dez dias que abalaram o mundo, um clássico sobre a história da Revolução Bolchevique, altamente elogiado por Lênin.
Durante a existência da União Soviética, John sempre foi tratado como uma espécie de herói na visão internacionalista do socialismo. Morreu em Moscou vítima de tifo com 44 anos. Trata-se do único estrangeiro, que morrendo na União Soviética, teve seu corpo enterrado com grandes honras nas muralhas do Kremlim, ao lado do mausoléu de Lênin.


CONTEXTO HISTÓRICO

O início do século XX foi marcado por tragédia e transformação com a "Grande Guerra" e a Revolução Russa.
A disputa de mercados promovida pelo neocolonialismo, associou-se à corrida armamentista e às questões nacionalistas na península Balcânica, resultando na Primeira Guerra Mundial. Pela primeira vez na história, diversas nações de todos os continentes se envolviam em um mesmo conflito. A Grande Guerra, como ficou conhecida, ocorreu entre os anos de 1914 e 1918 e deixou destruída grande parte do continente europeu, com um salde de cerca de 13 milhões de mortos.
O ano de 1917, já na fase final do conflito foi considerado singular na história, em razão da saída da Rússia e da entrada dos Estados Unidos.
Os Estados Unidos resolveram participar do conflito somente em sua fase final. A guerra acabará em 1918, ou seja, de 1914 a 1917 os Estados Unidos estão assistindo de camarote, a destruição da Europa. Era um grande negócio para o capitalismo norte-americano, pois as dívidas de França e Grã-Bretanha aumentavam a cada dia.
Na Rússia, Lênin, líder bolchevique, tomava o poder juntamente com o povo organizado em sovietes, os conselhos revolucionários que representaram a mobilização popular para viabilizar a formação do primeiro Estado socialista da história. A retirada da Rússia da Primeira Guerra, através do Tratado de Brest-Litovsky com a Alemanha, a reforma agrária e a socialização dos meios de produção, ocorrem sob o comando de Lênin, que transformou a velha Rússia em União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).
A Nova Política Econômica (NEP) de Lênin, que adotou medidas provisoriamente capitalistas e a morte prematura do comandante bolchevique em 1924, levaram o secretário do Partido Comunista, Josef Stálin ao poder. Inicia-se um período de crescimento econômico-militar que, com os Planos Quinquenais, rapidamente transformaram a URSS em uma potência mundial.


Link para baixar o filme via torrente CLIQUE AQUI.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Alguns registros fotográficos da Revolução Bolchevique de 1917

Postagem em homenagem ao maior acontecimento do Século XX.

Revoluções Final
A Guarda Vermelha desfila durante o enterro das vítimas da revolução de fevereiro, em Petrogrado, em 23 de março de 1917.

Revoluções Final 3
Manifestação de mulheres nas ruas de Petrogrado, em abril de 1917.

Revoluções Final 2
Assembleia do soviete de Petrogrado na sala da Duma, em março de 1917.

Soldados bolcheviques nas ruas de Moscou, durante a Revolução Russa de 1917

Lênin discursando para as massas em Moscou

Resistência Bolchevique

Lênin e o Comissariado

Reunião dos sovietes

Manifestação em Moscou

Manifestação em Petrogrado

Stálin, Lênin e Kalinin em 1919

Junho de 1917, congresso de operários e soldados.

Lênin discursando e Trotsky

Manifestação de soldados e operários

domingo, 2 de novembro de 2014

Como homem, Pelé é um anão perto de Muhammad Ali

Pelé foi um grande atleta do futebol, o maior do mundo com a bola nos pés.

Muhammad Ali foi o maior boxeador de todos os tempos - e algo mais: foi o primeiro esportista do planeta a reunir esporte e política em suas ideias e posturas. O sucesso nos ringues não lhe calou a voz crítica ao status quo racista dos Estados Unidos, seu país de origem e onde vivia.

A posição de ambos quanto à questão racial é um exemplo das diferenças entre eles.

Pelé e Muhammad Ali: posições e posturas diferentes em relação ao racismo e outras injustiças

Em relação ao racismo, Pelé sempre foi submisso, "cativo". Ao ser aceito no meio branco dominante, por seu talento nos gramados, baixou a cabeça para o preconceito e, mesmo sendo a personalidade mundial que é, nunca ergueu sua voz para combatê-lo.

Pelé sempre foi covarde politicamente, como agora no caso do goleiro Aranha, ofendido por torcedores do Grêmio durante jogo em Porto Alegre. Veja o que ele disse ao canal SporTV: 

"Acho que o Aranha se precipitou um pouco em querer brigar com a torcida. Se eu fosse parar o jogo cada vez que me chamassem de macaco ou crioulo, não tinha jogo”.

Já Muhammad Ali nunca teve receio de confrontar o sistema - numa América francamente racista. Claro, pagou preços por isso, mas não os temeu: cassaram-lhe o título de campeão mundial (que veio a recuperar mais tarde no Congo, numa luta histórica), condenaram-lhe à cadeia, oficialmente, por ter se recusado a ir à guerra do Vietnã. "Os vietcongues nunca me chamaram de crioulo. Não tenho nada contra os vietcongues", disse ele. Na verdade, foi condenado pelo conjunto de suas posições. Na época de sua prisão, ele era uma voz ativa e forte contra a discriminação racial nos EUA.

Ali aguentou no osso do peito e confundiu sua vida com a história. Venceu nos ringues e no campo das ideias. Será lembrado pela eternidade como um homem muito maior do que o grande boxeador que foi.

Um documentário, premiado com o Oscar, intitulado Quando Éramos Reis, mostra quem foi Ali. Perto dele, Pelé, com aquele jeito 'bonzinho' e cara de cordeiro, é um anão.

Abaixo, em cena de Quando Éramos Reis, Ali fala sobre os "negros"


Abaixo, o filme na íntegra


quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O escravo da Casa Grande e o desprezo pela esquerda


Por Mauro Iasi

Malcom X comparou, certa vez, os negros que defendiam a integração na sociedade norte americana com escravos da casa. Para defender suas pequenas posições de acomodação na ordem escravista, buscavam imitar seus senhores, copiar seus maneirismos, usar suas roupas, sua linguagem, adotando o nome da família de seus senhores. Daí o “X” no lugar do sobrenome do revolucionário norte americano.

Não é de se estranhar que os escravos da Casa Grande se incomodassem com as revoltas vindas da Senzala, pois poderiam atrapalhar sua instável acomodação, sua sobrevivência subserviente.

Dois textos recentes me chamam a atenção, não sei se produzidos pela mesma pena, mas certamente movidos pelo mesmo ódio e desprezo contra a esquerda em nosso país. Um deles é de autoria do sociólogo Emir Sader neste blog (“Não é a Copa, imbecil, são as eleições”), que recentemente comparou os manifestantes a cachorros vira-lata, outro é o editorial do Brasil de Fato de 03/06/2014 (“Eleições presidenciais e o papel do esquerdismo“) que, não contente em se aliar ao campo de apoio a Dilma, abriu as baterias contra a esquerda – aquela mesma que em muitas situações apoiou esse jornal, não apenas nas campanhas para sua sustentação, mas participando de seu conselho editorial e apoiando nos momentos mais difíceis.

Tanto o sociólogo como o jornal têm o direito de apoiar quem quiserem, de emitirem suas opiniões, mas o que nos chama a atenção é a necessidade de atacar a esquerda e a forma deste ataque. Como em todo o debate que busca fugir do mérito da questão (talvez pela dificuldade em realizar o debate neste campo) lança-se mão de estigmas. É preciso caracterizar os oponentes como “esquerdistas”, “minorias”, “intelectuais vacilantes da academia”, ou mais diretamente de “imbecis”.

Por vezes devemos aceitar o debate não pela qualidade dos argumentos ou a seriedade dos adversários, mas em respeito àqueles que poderiam se beneficiar do bom debate. Para isso temos que supor que o debate é sério e que há uma questão de fundo, ainda que para isso tenhamos que separar uma grossa camada de retórica que visa desqualificar o debate para não enfrentá-lo.

O argumento central da posição expressa nos textos citados, mas explícita e de forma mais clara no editorial do Brasil de Fato, poderia ser assim resumida: os governistas teriam uma “visão ampla da luta de classes”, que articularia três dimensões – a luta social, a ideológica e a institucional – atuando com “firmeza ideológica e flexibilidade tática”; enquanto os supostos esquerdistas “ignoram a correlação de forças” no Brasil e na America Latina e concentram muito mais nas criticas do que nas realizações dos governos “populares”. Isso porque subordinam suas posições, como “vacilantes intelectuais da academia” ou partidos “sem o mínimo peso eleitoral”, não a uma análise concreta de uma situação concreta, mas a uma “fidelidade” ao marxismo ortodoxo.

O resultado desta premissa, segundo a posição expressa, é o seguinte:

“Por isso, para serem condizentes com uma análise concreta de uma situação concreta, os partidos de esquerda sem o mínimo de peso eleitoral, que não conseguem enraizar sua mensagem programática e nem contribuir para o avanço da consciência de classe das massas populares durante as eleições deveriam estar fortalecendo a candidatura de Dilma, mesmo sabendo que o neodesenvolvimentismo em curso não é uma alternativa popular.”

Mesmo na posição de um “vacilante intelectual do mundo acadêmico, fiel ao marxismo e de um partido sem peso eleitoral”, gostaria de iniciar o debate afirmando que nossos colegas deveriam seguir, antes de mais nada seus conselhos. Se não vejamos. O erro do “esquerdismo”, que o impediria de realizar uma análise concreta de uma situação concreta, é que “não conseguem identificar frações de classes e seus diversos interesses em torno do governo Dilma”.

Então vamos lá. Quais são as classes e frações de classe que se somam aos governos do PT? O PT produziu-se como experiência histórica da classe trabalhadora que acabou por projetar-se numa organização política que, sem perder a referencia passiva desta classe, assumiu posturas políticas que se distanciam dos objetivos históricos dos trabalhadores. Não se trata de uma questão de origem de classe, mas do caráter de classe da proposta política apresentada em nome dos trabalhadores.

É preciso explicar aos leitores que nós (intelectuais vacilantes fieis ao marxismo) não concebemos a classe social como mera posição nas relações sociais de produção e formas de propriedade, mas como uma síntese de determinações que partindo da posição econômica, devem se somar a ação política, a consciência de classe e outros aspectos. Dessa forma, um setor da classe trabalhadora, ainda que partindo originalmente deste pertencimento, pode em sua ação política e na sua intencionalidade, afirmar outro projeto societário que não aquele que nossa experiência histórica constitui como meta – o socialismo –, sendo capturado pela hegemonia burguesa, naquilo que Gramsci chamou de “transformismo”.

No caso do PT acaba por se consolidar um projeto que tem por principal característica quebrar as reivindicações sociais do proletariado e dar a elas uma feição democrática; despir as formas puramente políticas das reivindicações da pequena burguesia e apresentá-las como socialistas, e tudo isso para exigir instituições democráticas republicanas “não como meio de suprimir dois extremos, o capital e o trabalho assalariado, mas como meio de atenuar a sua contradição e transformá-la em harmonia.” (Karl Marx, O 18 de brumário de Luís Bonaparte, p. 63).

Assim o PT em seu projeto (e prática) de governo apresenta em nome da classe trabalhadora um projeto pequeno-burguês. Mas o PT não governa sozinho, têm razão nossos colegas. É necessário seguir nossa análise para responder quais classes e setores de classe compõem o governo Dilma. Como o centro do projeto político foi deslocado para chegar ao governo federal e lá se manter, são necessárias alianças e até mesmo o programa de reformas democrático-populares é por demais amplo (seria o que André Singer chama de “reformismo forte”), então, rebaixa-se o programa (um “reformismo fraco”) e amplia-se as alianças. Para qual direção?

Não podemos confundir a sopa de letrinhas do leque de alternativas partidárias com segmentos de classe, mas eles são um indicador das personificações desses interesses. As alianças inicialmente pensadas como um leque entorno da classe trabalhadora, setores médios e pequenos empresários, se amplia bastante agora no quadro de um Pacto Social. Vejamos:

“Um novo contrato social, em defesa das mudanças estruturais para o país, exige o apoio de amplas forças sociais que dêem suporte ao Estado-nação. As mudanças estruturais estão todas dirigidas a promover uma ampla inclusão social – portanto distribuir renda, riqueza, poder e cultura. Os grandes rentistas e especuladores serão atingidos diretamente pelas políticas distributivistas e, nestas condições, não se beneficiarão do novo contrato social. Já osempresários produtivos de qualquer porte estarão contemplados com a ampliação do mercado de consumo de massas e com a desarticulação da lógica financeira e especulativa que caracteriza o atual modelo econômico. Crescer a partir do mercado interno significa dar previsibilidade para o capital produtivo.”

Resoluções do 12.º Encontro Nacional (2001). Diretório Nacional do PT (São Paulo, 2001, p. 38).

Este pacto social com “empresários produtivos de qualquer porte” não deixaria de fora nem mesmo os “rentistas”, como se comprovou. A chamada governabilidade exigiria que as personificações partidárias destes interesses estivessem na sustentação do governo, de forma que o governo de “centro” (pequeno-burguês) buscou e conseguiu se aliar com siglas da direita (PMDB, PTB, PP, PSC e outras). Na composição física do governo vemos setores de classes diretamente representados, como o caso dos interesses dos grandes monopólios no Ministérios da Indústria, dos bancos no Banco Central, do agronegógio no Ministério da Agricultura, assim como o controle das agências reguladores e outros espaços formais e informais de definição da política governamental.

Evidente que haverá participação dos “trabalhadores”, mas há aqui uma diferença essencial. Enquanto os setores do grande capital monopolista levam suas demandas à política de governo e as efetivam, as demandas dos trabalhadores são, por assim dizer, filtradas. Enquanto a CUT defendia suas resoluções em defesa da previdência pública, um ex-presidente da entidade assume o ministério para implementar a reforma da previdência, assim como a luta pela reforma agrária é tolerada, mas filtrada e peneirada em espaços intermediários para que os militantes comprometidos não cheguem aos espaços de decisão sobre a questão fundiária e agrária, estes reservados aos representantes do agronegócio.

Podemos ver militantes e personificações de segmentos importantes da classe trabalhadora em áreas como a saúde, a assistência social e outras, no entanto, o espaço efetivo de implementação de políticas ficaria constrangida pelas áreas de planejamento e a lógica da reforma do Estado para produzir a subserviência à lei de responsabilidade fiscal e a política de superávits primárias que tanto agrada aos banqueiros.

Recentemente a presidente Dilma, através da deputada Kátia Abreu (aquela mesmo!!!) da bancada ruralista, garimpava apoio entre os diferentes setores do agronegócio (gado, soja, milho, etc.), enquanto Paulo Maluf posava sorridente ao lado do candidato do PT ao governo de São Paulo em troca de alguns minutos no tempo de TV.

O governo de pacto social com os setores da grande burguesia monopolista e a pequena burguesia que sequestrou a representação da classe trabalhadora, implica nos limites da ação de governo, isto é, impedem o “reformismo forte” e impõe um “reformismo fraco”. Para atender as exigências da acumulação de capital dos diversos segmentos da burguesia monopolista, as demandas dos trabalhadores têm que ser contingenciadas, focalizadas, gotejadas, compensatórias.

Queria-se acabar com a fome e a miséria, mas devemos nos contentar em combater as manifestações mais agudas da miséria absoluta. Queríamos uma reforma agrária (e mais que isso, não é, uma nova política agrícola e de abastecimento, etc.), mas devemos nos contentar com crédito para assentamentos competirem com o agronegócio e assistência para os que não conseguem. Não se revertem as privatizações realizadas e cresce a lógica privatista com as fundações público privadas, as OSs e outras formas diretas ou indiretas de privatização.

O problema é que, mesmo assim, dando tanto à burguesia monopolista e tão pouco aos trabalhadores, a burguesia sempre vai jogar com várias alternativas, e, na época das eleições, vai ameaçar, chantagear e negociar melhores condições para dar sua sustentação. O leque de alianças da governabilidade petista não implica fidelidade dos setores do capital monopolista, adeptos do amor livre, entendem o apoio ao governo do PT como uma relação aberta. Por isso aparecem na época das eleições na forma de suas personificações como partidos de “oposição”.

Tal dinâmica produz um movimento interessante. Amor e união com a burguesia monopolista durante o governo e pau na classe trabalhadora (combinada com apassivamento via políticas focalizadas e inserção como consumidores); e briga com a burguesia e promessas de amor com os trabalhadores na época de eleição!

A abertura da Copa e a hostilização vinda da área VIP contra a presidente funciona aqui como uma metáfora perfeita: eles fazem a festa para os ricos, enchem o estádio com a elite branca e rica, esperando gratidão, mas a elite xinga a presidente.

A artimanha governista é circunscrever a propalada análise concreta de uma situação concreta à conjuntura da eleição e não do período histórico em que esta conjuntura se insere. Graças a esta mágica, desaparece o governo real entre no lugar um mito que resiste ao neoliberalismo contra as forças do mal igualmente mitificadas e descarnadas de sua corporalidade real. É o odioso “neoliberalismo”, que vai retroceder nos incríveis ganhos sociais alcançados e desestabilizar os governos progressistas na America Latina. Vejam, nos dizem, como são piores que nosso governo, precisamos derrotá-los para evitar o retrocesso e as privatizações. Mas uma vez derrotados eleitoralmente os adversários de direita… quem privatizou o Campo de Libra? Colocando exército para bater em manifestantes? Quem aprovou a lei das fundações público-privadas que abriu caminho para a privatização da saúde e outras? Quem aprovou a lei dos transgênicos, o código florestal e de mineração?

Não são iguais, é verdade. São duas versões distintas disputando a direção do projeto burguês no Brasil. Um o capitalismo com mais mercado e menos Estado, outro o capitalismo com mais Estado para garantir a economia de mercado.

Precisamos circunscrever a análise da correlação de forças ao momento eleitoral para evitar a derrota do governo Dilma, vejam, “mesmo sabendo que o neodesenvolvimentismo em curso não é uma alternativa popular”!

Então, comecemos por aí: o atual governo NÃO É UM ALTERNATIVA POPULAR! Já é um bom começo. Mas tenho uma péssima notícia… também não é neodesenvolvimentista, seja lá o que isso queira dizer. É um governo de pacto social que, partindo de um programa e uma concepção pequeno-burguesa, crê ser possível manter as condições para a acumulação de capitais o que leva a uma brutal concentração de renda e riqueza nas mãos de um pequeno grupo, ao mesmo tempo em que, pouco a pouco e muito lentamente, apresenta a limitada intenção de diminuir a pobreza absoluta e incluir os trabalhadores na sociedade via capacidade de consumo (bolsas, salários e crédito, etc.).

Ora, o que deve fazer a esquerda “sem o mínimo de peso eleitoral, que não consegue enraizar sua mensagem programática e nem contribuir para o avanço da consciência de classe das massas populares”? Dizem os governistas: votar na Dilma. No entanto, desculpe a insistência de quem faz análise concreta de situação concreta não só quando chegam as eleições e água bate na bunda; mas, e se for exatamente este processo de pacto social e de implementação de um social-liberalismo que está impedindo o “avanço da consciência de classe”? Depois de 12 anos de governos desta natureza a consciência de classe está mais avançada que estava nos anos 80 e 90? Nos parece que não.

Se somos tão insignificantes, irrelevantes e idiotas… por que é necessário bater desta forma na esquerda? Pelo simples fato que nossa existência, a existência de uma ESQUERDA (não a pecha de esquerdismo que tenta se impor contra nós como estigma), é a denuncia explícita dos limites e contradições que o governismo e seus lacaios querem jogar para debaixo do tapete.

Para manter a “imagem” do governo petista (Sader está preocupado com a imagem) é preciso uma operação perversa: atacar quem denuncia os limites desta experiência, não importando o quanto desqualificado e hipócrita seja o ataque, estigmatizando, despolitizando o debate. Primeiro foi necessário destruir a esquerda dentro do PT e sabemos os métodos que foram usados nesta guerra suja. Na verdade o que vemos agora contra a esquerda fora do PT é uma projeção do ataque vil e brutal que companheiros da esquerda petista sofreram e (aqueles que ainda resistem lá no PT) ainda sofrem (esquerdistas, isolados das massas, sem expressão eleitoral, irresponsáveis, etc.). E depois que conseguirem isolar, estigmatizar e satanizar a crítica de esquerda a essa experiência centrista e rebaixada de governo? Quando forem atacados pela direita que não guarda nada a não ser desprezo para com os escravos da casa grande?

As manifestações seriam, segundo os governistas, uma ofensiva da direita para sujar a imagem bela e idealizada do governo e o esquerdismo joga água neste moinho. Interessante que a necessidade de uma análise concreta de uma situação concreta, da correlação de forças e das classes não é necessária quando se trata das manifestações. MTST, garis, metroviários, professores, são todos imbecis marionetes da direita, manipulados por ela e quando pensam lutar por seus direitos e demandas estão fazendo o jogo da direita. Somos nós que fazemos o jogo da direita… tem certeza?

De nossa parte, não nos incomodamos, porque não esperamos nada mais que isso como consequência do progressivo, e triste, processo de descaracterização e rebaixamento político. Não será a primeira vez que a política pequeno-burguesa, que se diz representante de todo o povo, se alia ao trabalho sujo da direita para combater a esquerda.

Respondemos àqueles que acreditam que estamos isolados com as palavras de Lenin, com quem aprendemos a fazer análise concreta de uma situação concreta:

Pequeno grupo compacto, seguimos por uma estrada escarpada e difícil, segurando-nos fortemente pela mão. De todos os lados, estamos cercados de inimigos, e é preciso marchar quase constantemente debaixo de fogo. Estamos unidos por uma decisão livremente tomada, precisamente a fim de combater o inimigo e não cair no pântano ao lado, cujos habitantes desde o início nos culpam de termos formado um grupo à parte, e preferido o caminho da luta ao caminho da conciliação. Alguns dos nossos gritam: Vamos para o pântano! E quando lhes mostramos a vergonha de tal ato, replicam: Como vocês são atrasados! Não se envergonham de nos negar a liberdade de convidá-los a seguir um caminho melhor? Sim, senhores, são livres não somente para convidar, mas de ir para onde bem lhes aprouver, até para o pântano; achamos, inclusive, que seu lugar verdadeiro é precisamente no pântano, e, na medida de nossas forças, estamos prontos a ajudá-los a transportar para lá os seus lares. Porém, nesse caso, larguem-nos a mão, não nos agarrem e não manchem a grande palavra liberdade, porque também nós somos “livres” para ir aonde nos aprouver, livres para combater não só o pântano, como também aqueles que para lá se dirigem!
(Lenin, Que fazer?, São Paulo: Expressão Popular, 62).

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Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio.

domingo, 26 de outubro de 2014

Aécio omite de biografia trabalho durante a Ditadura Militar

Foto: divulgação do site oficial da campanha do candidato Aécio Neves.

Na eleição de 2010, a grande imprensa noticiou amplamente uma iniciativa de Dilma Rousseff (PT) para se tornar empresária. De acordo com reportagens da época, a candidata à reeleição abriu uma loja de produtos importados em Porto Alegre. O negócio, que durou um ano e cinco meses, fechou em julho de 1996 e foi omitido da biografia da presidente.

Excluir da biografia fatos considerados negativos é uma prática condenável dos políticos. Aécio Neves (PSDB) representa a evolução dessa artimanha.

No site oficial da campanha do tucano – e também na campanha no rádio e na televisão –, foi largamente divulgada a relação dele com o avô, Tancredo Neves, eleito indiretamente presidente da República e morto antes de tomar posse. O que o oposicionista não cita são dados de sua biografia divulgados pela Câmara dos Deputados.

De acordo com o site da Câmara, Aécio trabalhou para o CADE, órgão vinculado ao Ministério da Justiça, em 1977, durante o governo militar. Nessa época, o candidato do PSDB estava com 17 anos e o ministro da Justiça era Armando Ribeiro Falcão, ocupante do cargo de 1974 a 1979. Falcão foi o artífice da Lei Falcão, que impedia o acesso dos políticos ao rádio e à televisão com o objetivo de evitar a vitória oposicionista nas eleições municipais de 1976 e nos pleitos seguintes. A relação do ministro com a imprensa ficou marcada pela frase “nada a declarar”, por se recusar a comentar qualquer assunto considerado polêmico.

Trecho da biografia de Aécio publicada pela Câmara dos Deputados.


O site da Câmara também registra que Aécio foi contratado em 1980 como assessor do pai, Aécio Cunha, que foi deputado federal pela Arena e pelo PDS, partidos que deram sustentação ao regime militar. Aécio morava e vivia no Rio de Janeiro, mas a contratação foi pela Câmara dos Deputados, em Brasília.

O presidente na época era o general Ernesto Geisel.

É papel da imprensa mostrar as omissões dos políticos nas biografias que alardeiam. Mas as informações devem ser dadas de todos os políticos, sem cores partidárias. Dilma, como é largamente divulgado, atuou em organizações de guerrilha contra os militares, foi presa e torturada. Esse fato não pode ser omitido, como também não é aceitável que se esconda a proximidade de Aécio com personagens que estiveram ao lado e colaboraram com os militares. Essas informações estão registradas e o tucano não pode ignorá-las nem tentar a tecla “delete”.