sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Revista britânica ironiza ato pró-Aécio: “Só faltou champanhe”


Revista britânica ironiza ato pró-Aécio: “Só faltou champanhe”

The Economist chamou o protesto de “Revolução da Cashmere”, pela quantidade de socialites, roupas caras e iPhones vistos durante o ato em prol do candidato tucano; segundo a publicação, isso apenas reforça a imagem de que Aécio seria um verdadeiro representante da elite

Por Redação

A revista britânica The Economist publicou um texto ontem (23) sobre a mobilização de eleitores do presidenciável brasileiro Aécio Neves (PSDB). O evento ocorreu na noite de quarta-feira na Avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo. Mesmo tendo anunciado apoio ao candidato tucano, a publicação foi irônica e chamou a manifestação de “Revolução da Cashmere”, em referência à lã utilizada normalmente em roupas caras.

“Sujeitos de terno com camisas bem passadas e gravadas com suas iniciais, portando bandeiras de Aécio. Socialites bem vestidas, envoltas em elegantes cachecóis para afastar o frio fora de estação, entoando slogans contra o PT. Todos tirando selfies com caros iPhones”, dizia a matéria, que afirmou ter faltado apenas “taças de champanhe” no protesto.

A revista ressaltou que o ato foi uma cena sem precedentes na história das eleições, e não somente no Brasil, já que “barões dos negócios e financistas” não costumam ir às ruas para esse tipo de manifestação. Segundo o texto, a atitude e o perfil dos eleitores reforçariam ainda mais a imagem do candidato tucano de ser um “fantoche da elite rica”, como afirmam seus opositores.


segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Meritocracia, trapaça e depressão

    "Lógica do sistema é permeada por monitoramento, medição, vigilância e auditorias (...) Destrói a autonomia, o empreendimento, a inovação e a lealdade e gera frustração, inveja e medo"
“Lógica do sistema é permeada por monitoramento, medição, vigilância e auditorias (…) Destrói a autonomia, o empreendimento, a inovação e a lealdade e gera frustração, inveja e medo”


Psicanalista belga relaciona competição selvagem, que marca capitalismo pós-moderno, com comportamentos antiéticos dos “vencedores” e frustração da imensa maioria. “Sejamos desgarrados”, ele sugere

Por George Manbiot | Tradução Eduardo Sukys | Imagem: John Bellany

Estar em paz com um mundo atormentado: não é uma meta sensata. Ela pode ser conquistada apenas negando tudo aquilo que cerca você. Estar em paz com você mesmo dentro de um mundo atormentado: essa é, ao contrário, uma aspiração nobre. Este texto é para as pessoas que estão em conflito com a vida. Ele faz um apelo para você não se envergonhar disso.

Senti o ímpeto de escrevê-la ao ler um livro notável de Paul Verhaeghe, um professor belga de psicanálise. What About Me? The Struggle for Identity in a Market-Based Society [E quanto a mim? A luta por identidade em uma sociedade baseada no mercado,sem tradução em português] é uma dessas obras que, ao fazer conexões entre fenômenos aparentemente distintos, fomenta novos insights sobre o que está acontecendo conosco e porquê.

Somos animais sociais, argumenta Verhaeghe, e nossas identidades são formadas pelas normas e valores que absorvemos de outras pessoas. Toda sociedade define e molda sua própria normalidade e sua própria anormalidade, de acordo com narrativas dominantes, e busca fazer com que as pessoas obedeçam — caso contrário as exclui.

Hoje, a narrativa dominante é do fundamentalismo de mercado, amplamente conhecido na como neoliberalismo. O conto é que o mercado pode resolver quase todos os problemas sociais, econômicos e políticos. Quanto menos o Estado nos controlar e taxar, melhor será nossa condição. Os serviços públicos devem ser privatizados, os gastos públicos devem ser reduzidos e os negócios devem ser liberados do controle social. Em países como o Reino Unido e os EUA, essa história molda as normas e valores há cerca de 35 anos: desde que Thatcher e Reagan chegaram ao poder. E rapidamente está colonizando o restante do planeta.

Verhaeghe indica que o neoliberalismo se apoia na ideia grega de que nossa ética é inata (e regida por um estado de natureza que chama de mercado) e na ideia cristã de que a humanidade é inerentemente egoísta e gananciosa. Em vez de tentar suprimir essas características, o neoliberalismo as exalta: essa doutrina afirma que a competição irrestrita, guiada pelo interesse próprio, conduz à inovação e ao crescimento econômico, melhorando o bem estar de todos.

Toda essa história gira em torno da noção de mérito. A competição irrestrita recompensaria as pessoas talentosas, que trabalham duro e inovam. Ela rompe com as hierarquias e cria um mundo de oportunidades e mobilidade.

Mas a realidade é bem diferente. Mesmo no início do processo, quando os mercados foram desregulamentados pela primeira vez, não começamos com oportunidades iguais. Algumas pessoas já estavam bem à frente antes de ser dada a largada. Foi assim que as oligarquias russas conseguiram acumular tanta riqueza quando a União Soviética chegou ao fim. Eles não eram, em sua maioria, os mais talentosos, trabalhadores ou inovadores, mas sim os menos escrupulosos, os mais grosseiros e com os melhores contatos, frequentemente na polícia secreta — a KGB.

Mesmo quando os resultados resultam de talento e trabalho duro, a lógica não se mantém por muito tempo. Assim que a primeira geração de empresários liberados conquista seu dinheiro, a meritocracia inicial é substituída por uma nova elite, que isola seus filhos da competição por meio da herança e da melhor educação que o dinheiro pode comprar. Nos locais onde o fundamentalismo de mercado foi aplicado com mais vigor, em países como os EUA e o Reino Unido, a mobilidade social diminui bastante.

Se o neoliberalismo não fosse uma trapaça egoísta, e se seus gurus e thinktanks não fossem financiados desde o início por algumas das pessoas mais ricas do mundo (os multimilionários americanos Coors, Olin, Scaife e Pew, entre outros), seus apóstolos teriam exigido, como precondição para uma sociedade baseada no mérito, que ninguém deveria começar a vida com uma vantagem injusta — seja riqueza herdada ou educação determinada economicamente. Porém, eles nunca acreditaram em sua própria doutrina. O empreendimento, como resultado, rapidamente deu lugar à renda.

Tudo isso é ignorado, e o sucesso ou a falha da economia de mercado são atribuídos unicamente aos esforços do indivíduo. Segundo esta crença, os ricos são os novos justos; os pobres são os novos desviados, que fracassaram econômica e moralmente e hoje são classificados como parasitas sociais.

O mercado deveria nos libertar, oferecendo autonomia e liberdade. Em vez disso, entregou atomização e solidão.

O local de trabalho foi envolvido por uma estrutura louca, kafkiana, de monitoramento, medição, vigilância e auditorias, orientada centralmente, planejada de forma rígida e cujo objetivo é recompensar os vencedores e punir os perdedores. Ela destrói a autonomia, o empreendimento, a inovação e a lealdade e gera frustração, inveja e medo. Por meio de um paradoxo incrível, ela nos levou até o renascimento de uma antiga tradição soviética conhecida na Rússia como tufta. Ela significa falsificação de estatísticas com o objetivo de atender aos ditames do poder irresponsável.

As mesmas forças afetam aqueles que não conseguem encontrar trabalho. Agora, eles precisam disputar, além de sofrer as outras humilhações do desemprego, com um nível totalmente novo de vigilância e monitoramento. Tudo isso, de acordo com Verhaeghe, é fundamental para o modelo neoliberal, que sempre insiste na comparação, avaliação e quantificação. Somos tecnicamente livres, mas incapacitados. Quer seja no trabalho ou fora dele, devemos viver com base nas mesmas regras ou perecer. Todos os principais partidos políticos as promovem — então não temos poder político também. Em nome da autonomia e da liberdade, acabamos controlados por uma burocracia esmagadora e anônima.

Verhaeghe escreve que essas mudanças vieram acompanhadas de um aumento espetacular em certas condições psiquiátricas: automutilação, distúrbios de alimentação, depressão e distúrbios de personalidade.

Dentre os distúrbios de personalidade, os mais comuns são ansiedade por desempenho e fobia social: ambos refletem um medo da outra pessoa, que é percebida tanto como avaliadora quanto como competidora, as únicas funções que o fundamentalismo de mercado admite para a sociedade. Somos atormentados pela depressão e pela solidão.

Os ditames infantilizadores do local de trabalho destroem nosso respeito próprio. Aqueles que terminam no fim da fila são acometidos por culpa e vergonha. A falácia da autoatribuição tem dois lados: assim como nos regozijamos por nosso sucesso, nos culpamos por nosso fracasso, mesmo se não tivermos qualquer responsabilidade por isso.

Portanto, se você não se encaixa ou se sente um estranho no mundo, se sua identidade está perturbada ou rompida, se você se sente perdido e envergonhado, talvez seja porque você manteve os valores humanos que deveria ter descartado. Você é um desgarrado. Orgulhe-se.



quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Com Aécio Neves a direita está no cio

aecio-direita

Uma coisa é o meu desejo, a outra coisa é o meu ponto de vista analítico, que pode ou não coincidir. O fiasco das eleições do ponto de vista popular. Diante disso não adianta nem rir, nem chorar, mas compreender.


Por Gilberto Felisberto Vasconcellos*


Esculhambar como partido de direita o PSDB é fácil; o difícil é explicar por que ele seduz o proletariado e o subproletariado em São Paulo. Basta examinar a fisionomia de Aécio (na foto: centro), de Alckmin (à direita), de Serra (à esquerda) e daí inferir o que essas personas podem seduzir a população andraja.

Tampouco a mim não me parece fácil explicar a recepção popular da fala desses tucanos. Não cabe aqui também apontar a chatice de seus discursos. Claro que são insuportáveis. Todavia eles já se tornaram uma generalizada mala sem-alça. Isso leva a supor que há alguma coisa que converte em denominador comum a vítima e o seu assassino. Para mim esse denominador comum é a comunicação de massa, mais especificamente o programa de auditório e a telenovela.

Não é absolutamente uma provocação afirmar que a política é um produto da telenovela. Isto já foi dito por mim quando escrevi em 1989 a plaquete intitulada Collor a cocaína dos pobres.

Atenção: a cocaína aí no caso, não era o pó branco aspirado para dar barato, mas sim a televisão como a droga dos pobres. Poderia ter usado a palavra ópio, mas não quis repetir Karl Marx.

Será que é um espanto constatar que o proletariado e o subproletariado de São Paulo votaram na plutocracia tucana?

Operários

Talvez fosse mais racional afirmar que a classe operária desintegrou-se como classe e tornou-se uma massa boçal. O que aliás já foi aventado pelo grande crítico Walter Benjamin na década de 30 em correspondência epistolar com Theodor Adorno, o qual foi desmarxizado pela bonecagem acadêmica local.

Atenção: não estou aqui a fim de repisar o estribilho segundo o qual a classe operária se perdeu como sujeito da história. A moda agora é afirmar que o motor da história não é mais a luta de classes, e sim a democracia, concepção esta que aglutina os petistas e os tucanos. Isto é mais um signo de que houve uma cópula linguística e política entre o PSDB e o PT. Essa cópula foi por mim batizada de petucanismo.

Não é preciso afirmar que separar agora o PT do PSDB não é uma operação fácil, sobretudo depois que houve um pacto de cavalheiros entre Lula e FHC em 2002. Ambos diversos, mas não adversos, colocaram debaixo do tapete suas supostas divergências. Isso ganhou o nome antipático de governabilidade.

O fundamento sociológico do petucanismo é a ideia colonial e lacaia de que os políticos devem administrar a dependência e não erradicá-la. Afinal, quem a administra melhor? A resposta vai ao som da valsa. É uma resposta pendular: ora Armínio Fraga, ora Mantega. Destarte, ambos são fãs um do outro, como aliás o amor secreto de Lula sempre foi FHC, e não aquele que rompia com o arranjo colonial: Leonel de Moura Brizola.

Ninguém nessa altura do campeonato espera que Lula vá ajoelhar-se no milho do arrependimento. A história não é uma dama afável que você tira para dançar. Também não se pode esperar da história gratidão. Quantas e quantas vezes Lula não teve o apoio de Leonel Brizola!

Houve protestos de rua, mas parece não ter havido conexão entre tais protestos e o resultado das eleições. Afinal, Alckmin não participou da barricada reivindicando a redução da tarifa de ônibus. O velho Trotsky estava certo: nem a miséria é a razão da transformação histórica, nem o protesto difuso e anárquico consegue alguma coisa duradoura se não tiver um partido revolucionário e uma direção revolucionária comandando este partido. E, convenhamos, não temos nem uma coisa nem outra.

Bandeirantes

Há um inequívoco sentimento de perplexidade, cuja origem remonta à expansão bandeirante no Planalto Paulista. Refiro-me à volúpia que a coletividade paulista sente pelo tipo policial que mata e arrebenta. Meu amigo Rogério Sganzerla filmou muito bem a viatura policial em São Paulo a fim de mostrar com isso que o paulista tem tesão é no cassetete, como se houvesse conexão entre o Borba Gato e o Bandido da Luz Vermelha.

Não vamos porém jogar os bandeirantes ao lixo. É que a razão do sentimento policial no eleitorado é uma reação ao desenvolvimento desigual do capitalismo na periferia, na qual São Paulo se converteu em ponta-de-lança do progresso às expensas de outras regiões.

Acontece porém que o paulista eleitor e leitor da Folha de São Paulo atribui esse progresso às qualidades intrínsecas da Avenida Paulista, na qual transita um povo trabalhador infatigável, enquanto nos outros brasis o que vinga é o tipo vagabundo, preguiçoso e malandro.

Então perguntada essa questão para o paulista boçal, seguramente ele vai defender e justificar a repressão policial para impedir que o campo cerque a cidade, como diria Mao Tsé-Tung.

Não vamos deixar de responsabilizar a produção intelectual da elite paulista, que são cúmplices desse desenvolvimento desigual iníquo, vivendo das migualhas da superexploração do trabalho, o que os levou a proclamar pela imprensa e universidade a obsolescência do conceito de imperialismo.

Imperialismo

Para a classe letrada paulista, o imperialismo é tesudo, é a flor da modernidade, portanto invejado na ânsia de falar inglês. O pior de tudo é que essa mentalidade grotesca e colonial se espraia por todos os brasis universitários, então o brasileiro em geral converteu-se num testa de ferro apaulistado, ainda que não tenha um maldito puto no bolso.

Estamos falando hoje em ofensiva da direita, todavia arriscaria dizer que estamos vivendo em pleno fascismo. A denominação ainda não surgiu nítida, se videofascismo, se fascismo virtual, se fasciopentecaevangélico, mas a realidade se apresenta antes do nome. O que na verdade nos define é menos o regime político do que a condição colonial de País subdesenvolvido.

Paranoia minha esse receio com o fascismo? Negativo. O cientista egípcio Samir Amim está alertando sobre o retorno do fascismo no capitalismo contemporâneo. Entre nós volta a discussão se a ditadura de 64 foi ou não fascista, assim como não está devidamente esclarecido se o Estado Novo de 1937 a 1945 terá sido uma espécie de regime fascista ou semi-fascista.

O importante é não deixar de perguntar: a quem serviu e favoreceu economicamente a ditadura de 64? Qual a classe social que abocanhou a mais-valia?

A ditadura serviu ao capital dominante estrangeiro.

Então, é possível que o regime atual possa servir às grandes empresas multinacionais sem que no entanto seja abolida a democracia formal, as eleições e os partidos políticos. Claro que pela metodologia do cinismo é melhor dependência econômica com democracia do que com Estado policial.

A malandragem tucana, ditada pelo Pentágono, foi denominar de "autoritarismo" o período iniciado em 1964, o que era uma maneira sacana de deixar oculto o domínio do capital estrangeiro. Essa perversidade, que não foi atacada como devia ter sido pelo governo do PT, não somente persiste hoje, como corre o risco de guiar o Estado se porventura o ventríloquo néscio de FHC tomar as rédeas do poder.

Não digo mais nada e nem me foi perguntado.


*Gilberto Felisberto Vasconcellos é jornalista, sociólogo e escritor.


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

“Quem aposta na via eleitoral para explicar Junho está completamente equivocado”


Lucas Legume, membro do Movimento Passe Livre (MPL), rebate as críticas que foram direcionadas às manifestações de junho de 2013 quando comparadas aos resultados das eleições: “Junho foi a prova de que a esquerda precisa voltar a fazer trabalho de base”

José Francisco Neto

Da Redação

Após o resultado do primeiro turno das eleições do dia 5 de outubro, diversas análises atribuíram a ascensão de parlamentares conservadores no Congresso Nacional às manifestações de junho do ano passado. As críticas foram voltadas, principalmente, a questão de que os protestos não foram eficientes, uma vez que o resultado das urnas foi um retrocesso.

Lucas Legume, membro do Movimento Passe Livre (MPL), movimento que iniciou as mobilizações em junho de 2013, rebate as críticas que foram direcionadas às mobilizações. De acordo com ele, quem estabelece uma correlação entre mobilização popular e votação tenta distorcer o sentido dos protestos que ocorreram.

“Quem aposta na via eleitoral para explicar a Junho está completamente equivocado. Se você espera que é a mobilização popular que vai alterar as eleições, você não entendeu nada sobre mobilização popular nem sobre eleições. A grande questão de junho é que foi uma via não institucional, que a gente apostou e que a gente continua apostando”, explica.

Legume reforça que a esquerda tinha que fazer uma autocrítica e rever sua ausência dos movimentos de base. “Então, se o projeto eleitoral não se realizou, isso não tem a ver com as mobilizações de junho. Junho foi a prova de que a esquerda precisa voltar a fazer trabalho de base, se organizar diretamente, para a partir daí poder crescer.”

O membro do MPL ainda ressaltou que o legado das Jornadas de Junho estimulou as pessoas a lutarem ainda mais e a se articularem de maneira autônoma. Legume também declarou que o posicionamento do movimento no segundo turno "será o mesmo."

“Não são das urnas que virão as transformações reais para a população, e sim da organização popular. As ruas não estavam pedindo um novo salvador, mas estavam se organizando para se criar outra coisa”, conclui.




sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A pilantragem é branca


O hip-hop amarga o êxito de Azalea e o fracasso do musical sobre Tupac Shakur.


por Francisco Quinteiro Pires


Em Fancy, Iggy Azalea imita o modo de falar de uma afro-americana, apesar de ser australiana e branca. Azalea atingiu o estrelato com Fancy, um rap, eleito pela revista Billboard a música do verão de 2014 nos Estados Unidos. E causou polêmica. Ela, dizem os críticos, seria o exemplo mais recente de apropriação cultural pelos brancos de uma arte que os negros inventaram. O anúncio de Fancy como o hit da estação mais quente se deu em paralelo aos protestos em Ferguson, no Missouri, onde um policial branco matou um afro-americano desarmado em 9 de agosto. “A cultura negra é popular, mas as pessoas negras não”, declarou o poeta B. Easy no Twitter. Easy fez coro com um estado de espírito comum nas mídias sociais quando se referiu ao fato de artistas pop, como Azalea, Miley Cyrus, Ariana Grande, Katy Perry, Justin Timberlake, Justin Bieber e Robin Thicke, usarem elementos do hip-hop a fim de angariar popularidade.

Para os admiradores, Azalea é uma evolução. “Os negros precisam aceitar que o hip-hop é uma cultura contagiosa”, afirmou Questlove, baterista do The Roots, em entrevista àTime. “Fancy é, de todas as músicas que ouvi, a mais capaz de mudar o jogo, pois nos força a compreender que o gênero abriu as suas asas.” Questlove lembrou com essa afirmação como o rap é indissociável das experiências de raça e classe no meio urbano. Apesar de a eleição de Barack Obama à Presidência dos EUA, em 2008, ter estimulado a previsão de “uma era multicultural” ou “pós-racial”, o entendimento do país sob uma perspectiva que prioriza a cor de pele é um dos hábitos mais recalcitrantes da sociedade norte-americana.

Esse fato veio mais uma vez à tona na última premiação do Grammy, em janeiro deste ano. Ao contrário das expectativas dos puristas, Good Kid, M.A.A.D City, de Kendrick Lamar, não triunfou na categoria de melhor álbum de rap. O prêmio foi para The Heist, do duo Macklemore e Ryan Lewis, dois rappers brancos de Seattle. Em seguida à premiação, Macklemore divulgou no Instagram uma mensagem de texto enviada por ele para Lamar, um afro-americano de Los Angeles. Lamentou ter sido o escolhido. “Você foi roubado. Eu queria que você tivesse ganhado. Você deveria”, escreveu.

Macklemore pediu desculpas pois tinha em mente as origens do hip-hop e uma noção de autenticidade. Quando surgiu no Sul do Bronx, na Nova York dos anos 1970, o gênero representava a diversão de afro-americanos, latino-americanos e imigrantes. Moradores pobres de uma região com alto desemprego, chamada de “necrópole” por Jeff Chang, autor de Can’t Stop, Won’t Stop – A history of the hip-hop generation (Picador), aqueles jovens criaram suas próprias festas ao samplear músicas de diferentes artistas. A primeira fase do rap entre 1978 e 1984 tratou sobretudo de dança e prazer, embora Grandmaster Flash and The Furious Five tenha falado de exclusão em The Message (1982), um dos primeiros raps “conscientes”. A fase seguinte (1985-1992), classificada de “idade de ouro” por Adam Bradley e Andrew DuBois, autores de The Anthology of Rap, representou a consolidação de letras líricas e ideológicas com o Public Enemy, LL Cool J, Run-DMC e Ice-T.


Em The Anthology of Rap (Yale University Press), considerado um clássico ao discutir a evolução do gênero e reunir cerca de 300 composições, Bradley e DuBois comparam o estilo musical à poesia lírica. Eles veem nessa arte uma contestação aoestablishment. Uma das suas características essenciais, defendem, é o fato de ser uma cultura em fluxo constante. “O hip-hop foi criado pelos negros norte-americanos, mas não pertence a eles”, diz Bradley, professor de Literatura Afro-Americana da Universidade do Colorado, em entrevista a CartaCapital. “A cultura rejeita aqueles que se proclamam os seus donos. Por isso, o rap tornou-se um idioma global cujas formas mudam sob a perspectiva de artistas de diversas cores e segundo as regiões onde se manifesta.”

Apesar das boas intenções, quem critica a troca cultural livre ameaça a criatividade dos artistas afro-americanos, de acordo com Bradley. “Se os críticos censuram Iggy Azalea, Miley Cyrus ou Robin Thicke porque esses fazem empréstimos de elementos da música dos negros, eles limitam a mesma fonte da genialidade negra: o impulso de usar o passado para inventar coisas novas e o diálogo que força a superação de barreiras raciais”, afirma. “Proibir Thicke de se apropriar de Marvin Gaye, ainda que ele o faça de maneira medíocre, é o mesmo que impedir retroativamente Afrika Bambaataa, um dos pioneiros do hip-hop, de usar com brilhantismo a arte do Kraftwerk (grupo de música eletrônica alemão).” A Billboard elegeu Blurred Lines, de Thicke, a música do verão de 2013.

Historicamente, Bradley lembra, diferentes gêneros musicais devem o seu surgimento à assimilação pelos negros de elementos de uma cultura associada à população branca. O jazz e o rock’n’roll representam os exemplos mais eloquentes. Ainda assim, para angariar uma aceitação maior, geralmente as obras precisam ser dissociadas dos afro-americanos. “Certos músicos negros foram passados para trás na hora de usufruir a criação de um novo estilo? Claro. Quando Elvis Presley cantou Hound Dog, ele não tomou para si o dinheiro e a audiência que deveriam ser da cantora original da música, a Big Mama Thornton. Ele criou um novo mercado para o público de adolescentes brancos.” O racismo, Bradley sugere, explica parte do sucesso de Presley. “Muitos consumidores brancos preferiram e ainda preferem consumir a sua música negra sem realmente ouvir a voz dos negros.”

Essa “preferência” pode ter contribuído para o fracasso de Holler If Ya Hear Me, musical da Broadway inspirado nas composições do rapper afro-americano Tupac Amaru Shakur, cujo assassinato em 1996 permanece sem solução. Embora dirigido por Kenny Leon, ganhador de um Prêmio Tony, o espetáculo não atraiu público. Saiu de cartaz seis semanas após estrear no fim de junho. O produtor Eric Gold apostou no “apelo universal” das letras de Shakur sobre a experiência dos negros na América. Jon Caramanica, crítico de música pop do The New York Times, lembrou que essa crença na universalidade da música do compositor nova-iorquino seria vista como “radical” por muita gente. “O público da Broadway é muito velho e branco para permitir o florescimento de uma história com raízes na música negra contemporânea? Ou, paradoxalmente, Shakur era uma figura histórica muito abstrata para os jovens que o espetáculo esperava atrair?”, perguntou Caramanica. Gold temia que, se Holler If Ya Hear Me não fosse bem-sucedido, dificilmente haveria espaço para um musical de rap na Broadway.

“O hip-hop existe hoje por causa e apesar da sua popularidade”, afirma Bradley. Ao se transformar no centro da indústria musical norte-americana, o rap chegou à saturação. Agora, o gênero experimenta o que Bradley chama de “fase pós-pop”. “O rap nunca vai ter o mesmo sucesso que gozou na década do Novo Milênio (2000-2010). Como qualquer outra forma de arte duradoura, ele tenta se expandir para atender às expectativas do presente.” Segundo o professor da Universidade do Colorado, a assimilação pelos brancos de uma música criada por negros pobres não significa a superação de diferenças entre raças e classes. Ela oferece outro tipo de mensagem, relacionada a uma utopia. “O rap pode servir como inspiração a quem deseja produzir uma arte inclusiva e experimental.” Essa nova abordagem seria um tanto diferente daquela do hip-hop dos anos 2000 e da primeira metade desta década, em que predominam nomes como Jay-Z, Beyoncé, Rihanna e Kanye West, considerados “imensas empresas culturais”.



terça-feira, 7 de outubro de 2014

Helicoca - O helicóptero de 50 milhões de reais


Chocante!

Uma das constatações mais infames para a História da Justiça Brasileira, onde, num caso descarado de flagrante de crime de tráfico internacional, Poder Judiciário, Ministério Público, Polícia Federal e imprensa, blindam e conseguem libertar todos os envolvidos no caso do helicóptero que transportava quase meia tonelada de cocaína, em fazenda, cujo o dono é um dos políticos mais influentes de Minas Gerais e com laços estreitos com candidato a presidente na próxima eleição.

Veja o vídeo abaixo.


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Ditadura econômica, o grande tabu das eleições?

140905-Grilo


Sem reverter políticas que submetem sociedade às finanças, Brasil permanecerá paralisado. Mas tema não entra em debate, por estranhas razões.

Por Guilherme Boulos | Imagem: Rubem Grillo, Gula (1981)

Quem diria! Mal se passaram seis anos da crise em que as políticas neoliberais afundaram o mundo e eles já estão aí com todo o vigor. A aposta na mão invisível do mercado e na desregulamentação das finanças quase levou a maior economia do mundo ao colapso em 2008. Os Estados Unidos, a Europa e a economia mundial pagam o preço até hoje.

Não demorou, porém, para que os intelectuais da banca superassem a vergonha e o descrédito, saíssem do armário e recuperassem a autoconfiança para defender a mesma rota do fracasso. Abstraíram 2008 e reaparecem de cara lavada para apresentar as mudanças necessárias na economia brasileira.

Já foi dito que a história se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa. Neste caso até os personagens são os mesmos. Vejam vocês, Armínio Fraga! As últimas três campanhas presidenciais do PSDB o esconderam a sete chaves, assim como a FHC. Dizem que há lugares do país que quando seu nome é citado as pessoas correm para bater três vezes na madeira. Dá azar. Incrível, mas Aécio Neves teve a coragem de reabilitá-lo.

Aquele que quando foi presidente do Banco Central elevou a taxa de juros de 25% para 45%! O homem do arrocho e dos banqueiros. Que foi diretor do fundo de investimento de George Soros, símbolo da especulação financeira mundial.

E é o mesmo velho Armínio. Diz agora que os salários subiram muito ultimamente e que a redução de juros nos anos anteriores foi “preocupante”. Em entrevista à Folha de S.Paulo, esta semana, deixou claro que gostaria de rever as regras do seguro-desemprego, aumentar a idade mínima para aposentadoria e dificultar a concessão de pensões.

Tudo em nome do combate à inflação. Só deixa de dizer que ao fim de sua gestão no Banco Central, no governo FHC, a inflação era de 12,5% ao ano, quase o dobro da atual, que ele julga fora de controle. E isso com juros estrondosos.

Sorte tem o país que o candidato que o anunciou como futuro ministro da Fazenda está praticamente fora do páreo eleitoral.

Mas, como diz o povo mais acostumado a sofrer, desgraça pouca é bobagem. A queda de Aécio foi acompanhada da subida meteórica de Marina Silva. E Marina, talvez no afã de atrair o mercado para seu projeto, tinha já erigido como conselheiro econômico ninguém menos que Eduardo Giannetti da Fonseca. Economista da nata do neoliberalismo brasileiro.

Giannetti tem distribuído por aí a mesma cantilena que arruinou os trabalhadores no Brasil, produzindo desemprego, arrocho salarial e recessão econômica na década de 90. O discurso de Marina é da nova política, mas começa mal ao recorrer à velha economia.

Também em entrevista à Folha, no ano passado, Gianetti sistematizou sua listinha de desejos: autonomia do Banco Central, readequar a Petrobrás e os bancos públicos nos “critérios de mercado”, desatrelar o reajuste das aposentarias ao salário mínimo e por aí vai. O modelo de seus sonhos, disse ele, é o segundo mandato de FHC e o primeiro de Lula (o mandato mais conservador dos governos petistas). Cita como referência as “heroicas” privatizações e a desregulamentação de capitais por FHC.

Sua obsessão – agora repetida por Marina – é fortalecer o dito tripé macroeconômico. Austeridade fiscal, aumento do superávit primário e livre câmbio. Não é preciso ser economista nem ter sobrenome europeu para saber que isso implica cortes de investimentos e de gastos sociais do Estado. Austeridade fiscal é um nome elegante para dizer corte no orçamento público. Superávit primário é um termo técnico para se referir à reserva de recursos para pagar juros da dívida aos banqueiros – o que, por sua vez, implica cortes orçamentários.

Marina terá que se decidir. Ou quer manter e ampliar políticas sociais e investimentos públicos, ou quer fazer cortes. Do ponto de vista lógico, tentar conciliar os dois é tão impossível quanto empenhar-se em desenhar um círculo quadrado. Simplesmente não dá. Marina deve a todos esta resposta. Ou está com Giannetti ou está com Chico Mendes.

A reabilitação dos neoliberais, ao que parece, não foi apenas um apelo desesperado do PSDB, mas uma tendência do debate econômico nestas eleições. Não deixa de ser, de algum modo, a volta dos que não foram. Já que os governos petistas – Dilma inclusive – conservaram importantes aspectos neoliberais em sua política econômica. Não por acaso os lucros bancários foram recordes. O pré-sal foi concedido à exploração privada, assim como aeroportos e rodovias.

Mas tragicamente o discurso da mudança entre os principais candidatos não critica esse conservadorismo. Ao contrário, diz que ele foi insuficiente e volta-se contra as limitadas iniciativas de enfrentá-lo. A titubeante redução dos juros básicos, o uso de bancos públicos para baratear o crédito, a atuação das estatais na indução de investimentos e os gastos com assistência social, que não chegam a 4% do orçamento Federal.

A crítica é feita pelo viés conservador. E deixa claro que o debate econômico no Brasil ainda é pautado pelo interesse do mercado financeiro. Enquanto for assim teremos de conviver com o eterno retorno dos neoliberais.


sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Critica Vogue Kids mas lê Marie Claire



Por Antonio Engelke


A onda de repúdio que se instalou na esteira de um ensaio fotográfico que retratava crianças de modo sensualmente perturbador, publicado na Vogue Kids, talvez tenha mais a nos dizer do que o próprio ensaio. A crítica moral acusa a revista de explorar a sexualização precoce, auxiliando de lambuja a normalização de uma sensibilidade pedófila. A crítica economicista localiza na busca pelo lucro o motivo da transgressão das fronteiras do aceitável. A crítica sociológica afirma que o ensaio contribui para realizar a profecia que ele mesmo exibe: seduzido pela beleza das imagens e pela promessa das benesses da vida adulta, o público infantil da revista acabaria por mimetizar-lhe a estética. Tais críticas giram em torno de um investimento impróprio a uma idade, e têm sua razão de ser. Mas como toda estética comporta uma ética, cabe indagar se não haveria nesta equação um outro elemento qualitativo para além do temporal.

“Preservar a inocência” da criança não significa mantê-la protegida da sexualidade per se, mas permitir que faça suave e gradualmente a transição para uma sexualidade consciente de si. O escândalo suscitado pelo ensaio da Vogue Kids não poderia portanto advir de crianças retratadas como sujeitos sexualizados, o que elas de fato são, mas de sugerir que sua sexualidade tenha adquirido o molde adulto antes do tempo. Parece, então, que o problema estaria no fato de as fotografias assinalarem um corte, uma interrupção brusca nesta transição, impondo uma consciência erótica onde deveria haver somente impulsos naturais irrefletidos. Penso, contudo, que poderíamos entreter a hipótese de que o problema esteja também no conteúdo que vem a reboque dessa interrupção, e na necessidade de recalcá-lo. Dito de outro modo, o incômodo causado pelo ensaio poderia estar tanto nesta imposição brusca de uma sexualidade consciente à criança, quanto na substância específica desta consciência, e na recusa em assumi-la explicitamente.

O que as críticas deixam de fora é a rede de articulação discursiva dentro da qual um tal ensaio pode ser projetado, em ambos os sentidos da palavra. Os elementos que compõem essa rede (quem fala, de onde fala, como fala, em que suporte fala, para quem fala…) não são fatores externos relevantes à compreensão de um enunciado: fazem parte dele, na medida em que constitutivos da criação de seu sentido. Talvez seja possível enxergar aí uma relação, que se não chega a ser de causa-e-efeito nem por isso é desimportante, entre as fotos da Vogue Kids e a tirania do desejo que se materializa, por exemplo, na infinidade de revistas e programas de TV sempre dispostos a ensinar nirvanas orgasmáticos e truques sexuais capazes de levar nossos parceiros à loucura. Tal pedagogia será tanto mais eficiente quanto mais passar desapercebida: basta a repetição incessante da promessa do prazer para que o(a) leitor(a) internalize inconscientemente a obrigação de desfrutá-lo. Somos livres para tudo, exceto para não gozar (e, claro, não produzir). Como qualquer obrigação imposta ao aparelho psíquico, esta também irá gerar suas formas específicas de culpa, seja pelo excesso, a culpa de se saber levando o imperativo do gozo ao seu paroxismo, ou pela falta, o fracasso em fazê-lo.

Não poderia ser o caso de vermos a sombra desta culpa projetada na indignação dispensada ao ensaio? Boa parte das críticas a Vogue Kids veio de consumidores de Marie Claire e genéricos, incapazes de perceber o papel que desempenham na situação que tanto repudiam. É evidente que não queremos crianças assumindo a consciência de sua sexualidade sem a maturidade necessária à sua vivência; bem menos evidente, no entanto, é assumirmos que gostaríamos também que elas não experimentassem a sexualidade nos moldes em que nós a legamos. O que torna as fotos perturbadoras não é somente o fato de mostrarem crianças “sensualizando” quase como se adultos fossem; é que o exagero que as imagens veiculam – o excedente de consciência que surge deslocado, isto é, num lugar onde não deveria existir – nos confronta com a tirania que atravessa o Real da nossa relação com o sexo. É um efeito semelhante ao que o humor, quando bem feito, consegue alcançar: a sobreposição de elementos que não deveriam aparecer misturados resultando num estranhamento que nos permite enxergar uma verdade oculta da relação da qual esses elementos são parte. Mas, porque insuportável, tal verdade precisa ser recalcada, e o veículo de sua propagação surge então como um Outro conveniente ao trabalho de sua negação.