segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Kátia Abreu, 100 milhões de hectares passaram para o controle de latifundiários desde 2003

150105-Latifúndio


Por Igor Felippe

A nova ministra da Agricultura, a senadora Kátia Abreu (PMDB), disse em sua primeira entrevista depois da nomeação que não existe mais latifúndio no Brasil, concedida a Mônica Bergamo, na Folha de S. Paulo (leia aqui). Assim, ela sustenta que não é necessária uma reforma agrária em massa.

Não é o que diz o cadastro de imóveis do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), levantados a partir da auto-declaração (vejam, auto-declaração) dos proprietários de terras entre 2003 e 2010.

Os dados do Incra apontam que aumentou a concentração da terra e a improdutividade nesse período (veja abaixo a tabela).


Os dados mais recentes apontam que 130 mil proprietários de terras concentram 318 milhões de hectares. Em 2003, eram 112 mil proprietários com 215 milhões de hectares.

Mais de 100 milhões de hectares passaram para o controle de latifundiários, que possuem em média mais de 2.400 hectares.

Ou seja, existem mais latifúndios no Brasil. E estão mais improdutivos.

Os dados demonstram também que o registro de áreas improdutivas cresceu mais do que das áreas produtivas, o que aponta para a ampliação das áreas que descumprem a função social.

O aumento do número de imóveis e de hectares são sinais de que mais proprietários entraram no cadastro no Incra.

Em 2003, eram 58 mil proprietário que controlavam 133 milhões de hectares improdutivos. Em 2010, são 69 mil proprietários com 228 milhões de hectares abaixo da produtividade média.

O censo agropecuário de 1975 foi usado como referência para classificar a improdutividade dessas áreas.

O número de propriedades improdutivas aumentaria se fosse utilizado como parâmetro o censo agropecuário de 2006, que leva em consideração as novas técnicas de produção agrícola que possibilitam o aumento da produtividade.

Os dados demonstram que é possível, sim, a execução de um programa em massa de reforma agrária com a desapropriação dessas áreas, sem ameaçar os grandes produtores agrícolas.

As declarações de Kátia Abreu demonstram que a ministra representa os interesses dos segmentos mais atrasados da agricultura brasileira, que não alcançaram os patamares mínimos de produtividade, desmatam o meio ambiente e utilizam trabalho escravo.

Como esses latifundiários estão fora da lei, que determina que áreas que não cumprem sua função social sejam destinadas para a reforma agrária, precisam de “proteção” política e ideológica para evitar o cumprimento da Constituição.

Eis os interesses que a nova ministra da presidenta Dilma Rousseff defende ao afirmar que não existe mais latifúndio.


Fonte: Revista Fórum

domingo, 28 de dezembro de 2014

Por que a exceção vira regra? A epidemia de cesáreas no Brasil e a violência obstétrica

A praticidade com que o nascimento ocorre cirurgicamente é marca dos nossos tempos cada vez mais mercantilizáveis: “time is money” !

Foto de parto em manifestação no Uruguai pela liberdade de poder escolher onde parir. Foto: Caren Rhoden

Por Alcir Martins


Tenho o feliz destino de ser pai de duas meninas. Ambas nascidas no mês de abril. Ambas nascidas de cesarianas. Para a mais velha havia data e horário marcado para a realização da tal cirurgia. Para a caçula queríamos um parto normal, o mais natural e humanizado possível. As duas “estouraram” suas bolsas e indicaram o momento em que iriam nascer a despeito de previsões ou agendamentos de outros.

Minha filha mais velha, na véspera da cesariana agendada, rebentou a bolsa amniótica e decidiu nascer algumas horas antes do previsto – previsto pelo médico, não por ela, ora bolas! Ainda assim e apesar dos sinais que indicavam o início do trabalho de parto, foi realizada a cesariana por que não se realiza um parto pélvico por via vaginal – asseverou o doutor.

Parto pélvico ou posição pélvica é o nome que se dá ao “bebê sentado” no útero da mãe. Nesta condição, os quadris e os ombros do bebê saem primeiro do útero e, por fim, a cabeça, ao contrário do parto cefálico, considerado o correto.

Minha filha mais nova também decidiu dar uma beliscadinha e romper a bolsa no meio de uma madrugada dessas. A bolsa rota pode dar início – ou não – ao trabalho de parto. É possível que da ruptura da bolsa até o início do parto propriamente dito ocorra um intervalo de mais de 12 horas. Foi o que ocorreu: passaram-se as horas e, ao completarem-se 18 horas com a bolsa rota e sem dilatações, não tivemos outra alternativa que não a cesariana – orientou o doutor.

Estas duas histórias, com todas suas diferenças de tempo, lugar e conhecimento (empoderamento) sobre a gestação e o parto, guardam duas importantes semelhanças. A primeira delas é que não é verdade, para nenhuma das situações acima, que a cesariana era a única e derradeira alternativa para as mães e para as meninas. Partos pélvicos podem sim ocorrer pela via vaginal sem riscos para a criança ou para a mãe. Exige um maior trabalho, mais atenção e mais tempo do médico. Mas é possível! A bolsa rota sem o início das dilatações pode ser acompanhada pelo obstetra que induzirá ao trabalho de parto ao custo de paciência, dedicação, acompanhamento e tempo!

A segunda semelhança entre o nascimento das minhas duas filhas é que, com a ruptura das bolsas, elas indicaram que a hora de nascer estava próxima ou já havia chegado. A epidemia de cesáreas agendadas, entre outros perigos, traz ao mundo, de maneira muitas vezes (ou sempre) abrupta, um grande número de crianças prematuras. Bebês que poderiam e deveriam ficar mais alguns dias ou semanas no ventre de suas mães são arrancados em dia e hora marcado de maneira a garantir que o profissional da saúde não atrase suas férias nem perca um programa de final de semana ou evento qualquer. A proporção de nascimentos prematuros (antes de 37 semanas) é de cerca de 11,3% no Brasil. Em relação aos bebês que nasceram com 37 ou 38 semanas gestacionais, a proporção fica em 35%. Passadas as 37 semanas os bebês já não são tecnicamente prematuros mas poderiam ganhar mais peso e maturidade dentro do útero materno até a 39ª semana. Essa onda de nascidos com 37 ou 38 semanas no Brasil pode ser explicada pelo número de cesarianas agendadas antes do início do trabalho de parto. Dados alarmantes podem ser conferidos nas pesquisas da FIOCRUZ, “Nascer no Brasil” ou da UNICEF, “Toda Criança Conta”

A praticidade com que o nascimento ocorre cirurgicamente é marca dos nossos tempos cada vez mais mercantilizáveis: “time is money” !

Um parto normal pode demandar tempo. Um parto natural e humanizado se estenderia pelo prazo em que várias cirurgias cesáreas poderiam ser realizadas. Eis aqui uma imposição mercadológica que agride mulheres e crianças todos os dias. A Organização Mundial da Saúde indica como adequado um percentual de 10 a 15% dos partos por via cirúrgica. No Brasil temos mais da metade dos partos realizados por cesáreas, muitas delas desnecessárias ou evitáveis. Na rede privada o número de cesáreas chega a 9 em cada 10 nascimentos. Isso mesmo! Na rede hospitalar privada o índice alcança estratosféricos 88% de cesarianas.

No Brasil somos campeões mundiais da cesárea: 52%. Estamos na contramão! Nos EUA, o percentual de partos cirúrgicos era 33% há poucos anos, atualmente baixaram para 26% por recomendação do Colégio Americano de Obstetrícia. Suiça está em 30%, Alemanha em 29%. No vizinho Uruguai as cesáreas não passam dos 34%.

Os crescentes movimentos em defesa do parto natural, além de questionarem a mercantilização da vida e da saúde; questionam também o próprio discurso da autoridade do médico e, assim, questionam certa manifestação do patriarcado que retira o protagonismo da mulher sobre o seu corpo e o seu parto.

É opressor e atinge mulheres de todas as classes, a concepção que dá ao médico o controle sobre o parto, tirando da mulher, mais uma vez, o direito de decisão sobre seu próprio corpo. O parto, fisiológico e natural, não pode ser tratado como doença – esta sim exige atendimento e intervenção médica. Gestação e parto – que não são doenças – precisam de acompanhamentos e cuidados para que tudo transcorra bem e, apenas nos casos de complicações, atue o médico e seus procedimentos. O médico e a técnica dominam tudo: até o verbo parir está caindo em desuso, fala-se em ter um bebê, ou ganhar um bebê, que podem ser coisas bem diferentes.

O parto por via vaginal foi perdendo espaço para a cesareana apenas no século XX, quando a cesariana tornou-se aceitável como recurso extraordinário que é – extraordinário porque não é pra ser cotidiano e também porque salva vidas quando necessário – mas passou a ser praticada de maneira exagerada e irresponsável.

O caso é de violência obstétrica (VO). A medicina, neste caso, está direcionada pelo lucro. Repetimos: “time is money”! Uma cesárea se conclui com, no máximo, duas horas de trabalho da equipe médica; já o trabalho de parto é imprevisível, podendo durar até dois dias. Esta praticidade cirúrgica que cabe direitinho na agenda do médico retira da mulher qualquer direito de decidir. O discurso médico e sua autoridade autoritária influencia a mulher e a família envolvida na gestação. Falsos ou exagerados temores são convocados para justificar a suposta segurança e comodidade de uma cesárea. Comodidade para o médico. Ou, simplesmente, porque pelo plano de saúde só faz cesariana, o parto normal no setor privado custa caro.

A violência obstétrica tem muitos meios e formas de manifestação. São as cesáreas e episiotomias (um ‘pique’ no períneo para ‘permitir’(SIC) o parto via vaginal). Mas também são as agressões verbais, humilhações ou ridicularizações, realização de procedimentos sem consentimento, nem informação para que a mulher decida. Começando pela imposição da litotomia (ou posição ginecológica): a mulher fica na horizontal, numa mesa bem ao alcance das mãos médicas mas em posição completamente antinatural para o parto.

A luta pela garantia do direito ao parto humanizado – que não é aquele sem intervenção alguma mas apenas sem intervenção desnecessária – pode reorientar não só o serviço de saúde e a atuação dos profissionais e equipes que atuam nos partos, mas também pode nos provocar a repensar que tipo de seres humanos e de que maneira os estamos colocando no mundo. Não trata-se de um direito daqueles que deva trazer “proteção” às mulheres, mas é sim uma ferramenta de exercício e consolidação da autonomia sobre seus corpos e suas vidas. Sem a autodeterminação e o empoderamento das mulheres o parto nunca será humanizado.



domingo, 21 de dezembro de 2014

Adeus Che?


Por Francisco Toledo*


É hora de dizer adeus? A reconciliação diplomática entre Cuba e Estados Unidos, anunciada por Barack Obama e Raul Castro na terça-feira (17) pode marcar uma nova era de transformações na ilha socialista. Mas não se enganem: o embargo continua, e depende da maioria republicana no Congresso para cair. Afinal, serão os últimos dias da Cuba como conhecemos durante toda a nossa vida?

Não podemos ser ingênuos. A reaproximação entre Cuba e Estados Unidos, oficializada ontem por ambos os governos, não significa de forma alguma uma “vitória da revolução cubana”. Muito pelo contrário, é o começo de uma série de mudanças radicais que prometem balançar a ilha nos próximos anos. Mas por enquanto, vamos analisar o que aconteceu nos últimos dias para então imaginar como será o andamento desse processo histórico.

Primeiro: o embargo continua. O mesmo embargo que fez a ilha parar no tempo após a queda da União Soviética, e que colocou em risco a vida de milhões de pessoas. Se não fosse pela política de integração entre os países da América Latina, o regime socialista já teria se desfeito 20 anos atrás - provavelmente da mesma forma que aconteceu nos países do leste-europeu, gerando uma grave crise na qualidade de vida com nível de desemprego massivo, uma série de privatizações feitas “nas coxas” (vide o exemplo russo, com grandes estatais passando para as mãos da máfia), entre outras coisas mais. A vitória de Chavez na Venezuela e de governos de centro-esquerda em países como Equador, Bolívia e Brasil, acabaram tornando possível a permanência do regime revolucionário na ilha, pelo menos até agora. 

A reconciliação diplomática com os Estados Unidos não significa necessariamente uma “guinada ao mercado”, pelo menos não por enquanto. Seguindo o modelo chinês (e não o do leste-europeu), Cuba deve seguir uma abertura lenta ao capital privado, não afetando a qualidade de vida de sua população e também todas as conquistas que a revolução trouxe nas últimas décadas - emprego pleno, analfabetismo zero, sistema educacional totalmente gratuito, um dos melhores sistemas de saúde do mundo (também gratuito) e uma política de participação popular pouco reconhecida pela mídia ocidental. 

Mas se existe um setor que irá crescer ainda mais é o do turismo, praticamente o único que é “imune” ao embargo norte-americano. De resto? Por enquanto nada. Para o embargo cair, é preciso que o Congresso norte-americano aceite o pedido de Obama para revisá-lo, o que não irá acontecer (pelo menos não até 2017). Os motivos são muitos: os republicanos, comandados por ícones “a la Bolsonaro texano” do Tea Party, jamais permitirão que a ilha dos Castro ganhe enfim a sua liberdade. Vale lembrar também que em 2016 será ano de eleições nos Estados Unidos e, o ibope e moral dos democratas já esteve bem melhor. Aliás, para as próximas eleições, é bom os democratas esquecerem de vez a Flórida, porque depois do ato histórico de Barack Obama em relação à Cuba, é quase improvável uma vitória democrata no estado - que é inundado de votos de cubanos “exilados”, claramente anti-revolucionários, que pensam ao modo “Yoanni Sánchez”.

Aliás, a própria blogueira de oposição aos Castro se posicionou contra a reconciliação entre os dois países - mas por outros motivos. Segundo ela, antes de qualquer tipo de aproximação, é preciso que os comunistas “paguem pelos seus crimes”. É bom lembrar que Yoanni, diferente de Julian Assange que denunciou diversos crimes do governo norte-americano, hoje vive livre em seu país, em uma casa bancada pelo Estado, com um portal de notícias que é livremente acessado na ilha. É a ditadura que todo jornalista um dia já sonhou, não?

E se o embargo cair? Dai é bom se despedir. Claro que será bom para os cubanos se for administrado de forma correta pelo governo e pela própria população, mas os exemplos do leste-europeu deixaram marcas complicadas de gerir. É preciso, principalmente, evitar que as multinacionais (que já estão de olho na ilha) cresçam o olho no mercado cubano. Para tanto, o regime precisaria se manter o mesmo politicamente - ou seja, não aderir ao modelo democrático ocidental, o que seria difícil em um mundo com Fidel e Raúl já falecidos. Quem iria segurar a barra? 

Mas enfim. Aproveitem enquanto ainda dá tempo: Cuba é um país maravilhoso, com uma história única e com personagens únicos. Um pequeno país que, ao contrário do resto do mundo, tem em sua realidade duas opções a seguir. Já nós, meros mortais, temos apenas uma: o eterno capitalismo de terceiro mundo, que insiste em abaixar a cabeça e rezar. 

Para finalizar:


*Francisco Toledo é fotógrafo e Gestor de Conteúdos e Projetos do coletivo Guerrilha GRR

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Estados Unidos: o berço do narcocapitalismo


Em 13/12, o caderno Prosa, do Globo, trouxe matéria sobre o livro "Zero zero zero", de Roberto Saviano. Entre outros temas, o jornalista italiano falou sobre as conexões entre o tráfico e a economia legal. É o caso dos gigantes financeiros Citibank e o HSBC, cujo envolvimento com o comércio de drogas foi comprovado pela Justiça estadunidense.

Saviano também denuncia a existência de uma comunidade do tráfico na América Latina. Nela desempenhariam papel importante Colômbia, Peru e Brasil e seu centro seria o México. Mas a formação dessa multinacional das drogas só foi possível graças às intervenções do governo estadunidense, com sua cara e criminosa "Guerra às Drogas".

Não à toa, a organização ligada ao tráfico mais violenta e poderosa do México é formada por desertores do exército daquele país, treinados por americanos, israelenses e franceses. Trata-se de "Los Zetas", que podem estar, por exemplo, por trás do massacre de 43 estudantes mexicanos, em setembro passado.

Luiz Eduardo Soares fez um comentário sobre o livro na mesma edição. Ele lembra que quando explodiu a crise de 2008, só um setor da economia mundial contava com dinheiro de sobra. Era o tráfico de cocaína, que injetou US$ 352 bilhões nas instituições. "Cerca de um terço da liquidez mundial era dinheiro sujo de sangue", diz Soares.

Tudo isso mostra que a repressão ao tráfico acaba sendo a maior fonte de criminalidade. A legalização das drogas diminuiria muito esse problema e seria um golpe no narcocapitalismo, que patrocina a violência contra pobres, de um lado, e vende armas aos governos que as utilizam contra esses mesmos pobres, de outro.


sábado, 13 de dezembro de 2014

'Capitalismo criou ser humano adequado ao consumo', diz filósofa sobre decadência da burguesia



Opera Mundi - Ester Vaisman, organizadora de 'Lukács: Estética e Ontologia', diz que manipulação do capital atravessa relações humanas, apoiando conservadorismo.

O ano de 1848 marca, na Europa, a emergência de um novo sujeito histórico: a classe trabalhadora. A partir daí, o pensamento da direita, enraizado no capital, entra em declínio, no que é considerada a decadência ideológica burguesa. Essa é a análise de Ester Vaisman, professora de filosofia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais/Brasil). Organizadora do livro "Lukács: Estética e Ontologia", ela cita o filósofo búlgaro György Lukács para exemplificar como o capital mostrou no decorrer dos últimos séculos "uma sobrevida, uma capacidade de autoperpetuação e reprodução inimagináveis".


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Não vivamos mais como escravos (2013)



Um filme de Yannis Youlountas

Agosto 2013 / Duração: 89 minutos


Emergindo das catacumbas gregas da Europa, um murmúrio pelo continente devastado, “Não vivamos mais como escravos” (pronuncia-se “Na min zisoume san douli”em grego).

Nas paredes das cidades e nas rochas do campo, nos outdoors vazios ou destruídos, em jornais alternativos e rádios rebeldes, em ocupações, squats e centros auto-organizados que se multiplicam… este é o slogan que a resistência grega esta difundindo, dia após dia, e estão nos convidando para nos juntar a eles em uníssono às melodias do filme.

Um sopro de ar fresco, emoções e utopias em ação que emergem do mar Egeu.




sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Por uma intervenção popular

A mobilização de Junho de 2013 é um dos componentes que motivou a ida da direita às ruas no ano seguinte. Créditos: Maria Objetiva/Creative Commons.


Por Alexandre Haubrich


Junho de 2013 trouxe à tona a insatisfação e deu a ideia: para se alcançar algo, é preciso se movimentar. 2013 passou, a Copa passou, e 2014 vai acabando com um país onde a água esquentando e formando suas primeiras bolhas de fervura é a imagem mais próxima de descrever as ruas. De um lado, movimentos populares em luta por direitos, o MTST de pé, os sindicatos se reorganizando, os negros em marcha, a população de rua mostrando a cara de quem quer direitos, o meio sindical em reorganização. De outro lado, a direita também vai às ruas, brigando por sua parcela do legado de Junho – sim, ela também estava lá – e unificada em torno de duas insígnias: Fora Dilma. Fora PT. Ao mesmo tempo, ao centro do espectro político se coloca um governo federal reeleito com pequena margem, e um PT que, pressionado por uma eleição difícil, pela mídia dominante e pela Operação Lava Jato – e a narrativa construída sobre ela – parece não saber ao certo para que lado pender. Com a militância petista falando em guinada à esquerda e com Kátia Abreu no Ministério da Agricultura, 2014 vai terminando e um difícil 2015 se anuncia.

Há um claro crescimento das manifestações de rua do setor da direita – organizada ou não – que pede às vezes impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT), às vezes anulação da última eleição presidencial, às vezes o que chama de “intervenção militar”, eufemismo para golpe militar e uma nova ditadura. Até o momento não há um movimento verdadeiramente amplo nesse sentido, mas há um crescimento de fato.

A mídia dominante, por enquanto, não comprou abertamente esse discurso, mas enche capas de jornais e portais com os rescaldos da Operação Lava Jato, empurrando a pauta até o seu limite e mantendo-a com grande destaque mesmo quando não há notícias relevantes a respeito; e, ao mesmo tempo, vai trazendo editoriais e colunas que sugerem o impeachment. Há poucos dias, editorial do jornal Zero Hora, do Grupo RBS, sob o lema “Chega de corrupção, chega de impunidade”, desacreditou a potencialidade da Presidência da República e do Congresso Nacional para levar ao fim as investigações e punições necessárias. Antes disso, o Estadão pedia, em editorial que atacava Dilma e Lula, que “todos os envolvidos” paguem “pelo que fizeram – ou não fizeram”, sugerindo “crime de responsabilidade”. Enquanto isso, lideranças midiáticas dos manifestantes da direita – como o músico Lobão – seguem pela mesma linha, e rechaçam a ideia de golpe. Aparece como estratégia para reduzir a rejeição aos protestos e buscar mais apoiadores entre os setores médios da população. É esse setor, pouco politizado, que irá definir os rumos dessas movimentações.

Os protestos da direita têm características claras: além da mídia oligárquica, há novas e antigas lideranças da direita à frente. Timidamente, os partidos mais reacionários do país também se somam às fileiras, assim como figuras de destaque em partidos da própria base do governo, como o deputado do PP Jair Bolsonaro. Aloysio Nunes, senador do PSDB e ex-candidato à vice-presidência na chapa de Aécio Neves, é outro que tem participado dos atos. Além dessas lideranças, dotadas de uma consciência complexa do que estão fazendo, há uma grande massa de manobra com uma compreensão muito limitada do sistema político, da dinâmica social e da realidade da política e da população brasileira. Influenciados pela mídia hegemônica e/ou por um desejo disperso de mudança, setores da classe média e até alguns personagens das classes populares, atuando contra os próprios interesses pessoais e de classe, encorpam as manifestações. A classe média ali presente ignora quase completamente o que a rodeia. Os oprimidos que dispõem de suas vozes para esse tipo de manifestação fazem isso por uma compreensão apenas superficial da própria situação e/ou por não enxergar alternativas palpáveis que de fato poderiam melhorar sua situação. Junto a eles, as elites do país enxergam uma oportunidade de voltar diretamente ao poder. Se é verdade que com o PT essas elites nunca estiveram de fato alijadas do poder, também é verdade que mantêm o desejo de governar sem intermediários e sem as contradições colocadas em um partido com o histórico de luta que o PT construiu – embora o tenha, em grande medida, abandonado.

Esse processo é fruto de três situações fundamentais: a ideia de mobilização de Junho, o tensionamento da eleição presidencial, e as dificuldades (internas e externas) enfrentadas pela esquerda para se colocar como alternativa viável a um governo de centro.

Pressionado por uma vitória apertada, por um Congresso ainda mais conservador e por uma militância que esteve nos últimos anos afastada das ruas e em processo de burocratização, o PT tem uma escolha a fazer: ou vai mais à direita para aplacar os ânimos e aprofunda a aliança com os velhos donos do país; ou vai à esquerda, aliando-se aos novos movimentos populares, reaproximando-se de sua própria base, e levando as mudanças do país a um novo patamar, que não se restrinja mais apenas a acréscimos de consumo.

Por parte da esquerda, se colocam como dificuldades a histórica divisão interna; a pouca penetração popular; as contradições e paradoxos envolvidos na dura tarefa de criticar um governo de centro sem colocar-se ao lado da direita; e a própria institucionalidade brasileira, que apresenta sistemas político e midiático que criam imensos obstáculos a transformações progressistas e vinculadas aos interesses populares. Encontrar seu lugar no espectro político; acelerar o processo nascente de reorganização dos movimentos populares, sindicatos e partidos; qualificar a formação política de forma a vencer o sectarismo; e aprofundar o trabalho de base e o enraizamento social são os desafios que precisam ser enfrentados pela esquerda e pelas forças populares. Apenas assim será possível enfrentar a direita nas ruas, impedir o golpismo – militar ou civil – e evitar uma guinada do governo que o leve ainda mais à direita, empurrando-o à esquerda e reforçando a luta pelas duas mudanças mais urgentes ao avanço da democracia brasileira: a reforma política e a democratização da mídia.



domingo, 30 de novembro de 2014

Detesto o futebol gourmet



Por Mauro Cezar Pereira, blogueiro do ESPN.com.br


Gosto de arquibancadas divididas, por massas gigantescas se possível.

Detesto torcida única, um crime contra o futebol.

Gosto de times entrando em campo um de cada vez, para serem festejados ou vaiados.

Detesto equipes pisando juntas o gramado, ainda mais quando acompanhadas do pessoal da arbitragem.

Gosto de bandeiras, papel picado e bobinas desenrolando no ar.

Detesto torcidas que se comportam como platéias de teatro e se limitam a aplaudir.

Gosto de sinalizadores, não aquele naval, que mata, mas o inofensivo, de efeito meramente visual. E, admito, sinto saudades do espocar dos rojões.

Detesto bandeirinhas de plástico, em geral encomendadas pelo próprio clube ou seus patrocinadores, que coxinhas balançam abobadamente.

Gosto de ver grades e alambrados repletos de faixas. Trapos, como dizem os vizinhos de sudamerica. E grandes bandeiras agitadas até com bola rolando.

Detesto o aspecto asséptico das tais arenas esterilizadas com suas lanchonetes que servem capuccino e são planejadas apenas para esse tal torcedor-cliente.

Gosto de ver a casa lotada, o que só costuma ser possível quando os cartolas cobram pelos ingressos preços compatíveis com o poder de compra do torcedor.

Detesto ver uma final esvaziada como a da Copa do Brasil 2014. Dois jogos em estádios que, juntos, poderiam receber mais de 80 mil pessoas e pouco mais de 70% dos espaços ocupados pelo povo.

Gosto do apoio incondicional, das vozes incessantes que vêm das arquibancadas e tomam a cancha. Da galera participando dos destinos da peleja.

Detesto animadores de torcida que determinam o que as pessoas devem gritar, cantar.

Gosto do futebol como ele é. Ou como era. Gosto do futebol como sempre foi.

Detesto esse tal futebol gourmet.