sexta-feira, 18 de julho de 2014

A esquerda e o iphone



Confesso que não sabia bem o que era um iphone até ouvir esse tipo de frase de efeito: “é comunista/socialista, mas usa iphone”. Só então descobri que era uma marca comercial específica de smartphone, que não é a mesma coisa que um ipod.

Descobri isso graças à wikipedia, uma enciclopédia virtual construída por cooperação voluntária, usando um computador fabricado por alguma empresa capitalista, mas inventando em universidades públicas, através do sistema operacional Linux, software livre, produzido por cooperação voluntária, acessando a internet, rede de comunicação criada no setor público militar dos Estados Unidos, e das redes de telecomunicação via satélite, uma invenção soviética. No dia em que fiz essa descoberta sobre smartphones e ipods, comi três refeições de alimentos produzidos pela agropecuária, uma invenção das comunidades tribais neolíticas. Tenho certeza que vários produtos que utilizei hoje tem origens heterogêneas, em culturas capitalistas, socialistas, feudais, escravistas, camponesas, nômades, etc, originadas em uma, aperfeiçoadas em outras, e assim por diante.

É praticamente impossível mapear a origem da técnica e o processo econômico pelo qual passaram os produtos que eu utilizo no meu cotidiano. Pelo meu conhecimento histórico e sociológico, presumo que algumas coisas que consumo passam, em pelo menos um elo da produção, pela devastação ecológica e trabalho escravo ou precário. Alguns são de grandes marcas, outros de pequenos produtores, alguns de cooperativas.

O que eu nunca fui capaz de descobrir é qual é a contradição entre ser de esquerda e usar algum produto tecnológico. Pessoas de mentalidade conservadora/direitista pensam saber o que é ser de esquerda e poder ensinar para quem é de esquerda o que significa sê-lo. E o que parece se depreender de uma postura de esquerda coerente, segundo os reacionários, é ser um eremita. Afinal, nada melhor para a direita se toda a esquerda fosse morar em comunidades hippies ou em Cuba. Os ricos respirariam aliviados, pois seus inimigos não criariam problemas gravíssimos, como denunciar injustiças e participar de mobilizações populares.

Não direi que estão completamente incorretos em algumas críticas. Não sou extremista. É realmente “feio” alguém da esquerda anticapitalista ter um comportamento consumista, fazendo questão de esbanjar riquezas e acumulando coisas desnecessárias.

Muito pior que isso, no entanto, é defender abertamente e incentivar o consumismo individualista e desenfreado como privilégio de alguns bem-nascidos, estigmatizando quem sofre com baixos salários ou desempregado como “vagabundos” e coisas semelhantes. É muito mais “feio” naturalizar desigualdades extremas, patrimônios exorbitantes e exclusão social. Porque aí não se trata apenas de um comportamento privado “feio”. É também o comportamento público horrendo. É uma conduta integralmente perversa.

Uma parte importante da esquerda busca uma reforma dentro dos limites do capitalismo, para redução das desigualdades, exclusão e exploração mais extremas. Outros tentam ir além, procurando meios de superação do modo de produção capitalista. A questão chave é a redistribuição dos produtos e meios do trabalho que se encontram concentrados nas mãos, principalmente, de quem não trabalha, mas é proprietário do capital.

De uma perspectiva de esquerda, ou seja, do igualitarismo social, não há lugar para repúdio à tecnologia, apenas as suas funções e usos numa sociedade injusta. Não condenamos todo e qualquer uso da energia nuclear, se denunciamos o bombardeio de Hiroshima e Nagasaki como um ato genocida. A energia nuclear tem muitos usos pacíficos. Da mesma forma que os iphones e ipods provavelmente tem outros usos, além da ostentação consumista.

O problema para a esquerda não é a tecnologia dos ipods e iphones, é a falta de acesso universal à alimentação, moradia, vestuário, transporte coletivo, educação, saúde, aposentadoria e trabalho digno. E também a cultura e meios de comunicação. É a existência de uma ínfima minoria riquíssima, em contraste com grandes massas relativa ou absolutamente pobres e desamparadas.

O que impõe limites à difusão dos ipods e iphones não é a esquerda. É o planeta. Os recursos são limitados, e a generalização de um padrão de consumo como o dos estadunidenses (que são pouco menos de 5% da população mundial e concentram 25% da renda, além de consumir 30% do petróleo), exigiria quatro planetas. Aí é que há limitação legítima do consumo: pela sustentabilidade ecológica de longo prazo. É por isso que melhorar e expandir o transporte coletivo e ciclovias é preferível a universalizar o casso pessoal. Em qualquer um desses casos, trata-se de uma questão coletiva, objeto de políticas públicas, e não de escolhas privadas.

Isso significa que o homem ou mulher de esquerda, como já disseram muitos reacionários, deveria doar sua renda individual? Esse ato seria indiferente. Não é raro que o esquerdista que siga esse conselho seja em seguida acusado de demagogo… Parece que é impossível a pessoa de esquerda ser coerente, não acham? Na verdade, a filantropia é uma escolha privada. A opção pela esquerda é política, diz respeito a decisões de alcance coletivo, e, primeiramente, ao modo de governar e utilizar o Estado.

A economia capitalista certamente não funcionaria caso todos os ricos fossem adeptos da total filantropia, e escolhessem viver com uma renda equivalente a um salário modesto, dividindo todo o resto. Afinal, quem trabalharia para produzir a riqueza?

A esquerda não defende a filantropia, que é uma escolha privada, possível apenas para quem já tem muito mais do que precisa. A filantropia se baseia uma relação de dependência entre o doador e o beneficiário. Às vezes o filantropo tira maior benefício para si deste ato, pois adquire prestígio e influência (e em muitos casos, consegue esconder a sonegação de grandes somas). A esquerda promove a solidariedade, que é a ajuda mútua entre iguais, e políticas públicas, ativas e coativas de redistribuição de renda.

Sim, coativas. Um imposto de renda progressivo é coação. Qualquer imposto é coercitivo – então que ao menos seja justo. Esse imposto arrecadado deve ser direcionado para um investimento social eficiente, que beneficie aos mais pobres (Bolsa-Família, reforma agrária, etc) ou a todos (educação e saúde públicas, transporte coletivo, etc).

Antes que digam que isso é um atentado à liberdade, gostaria de lembrar que a propriedade privada é tremendamente coativa. A propriedade privada é exclusiva: o bem é apropriado por um, que faz dele o que bem entender, quando é excluído do usufruto de todos os outros. Grande parte da violência policial e encarceramento é repressão aos crimes contra a propriedade privada. Grande parte da criminalidade de rua é tentativa de obter propriedade privada por meios ilegais. Qual liberdade proprietária tem o miserável, que nada tem para si? A liberdade individual do pobre é ser escravizado pela necessidade. Uma redistribuição de riquezas desigualmente distribuídas é a maior promoção da liberdade, pouco importando que seja realizada mediante coerção política e jurídica.

Ser de esquerda, portanto, não é ser contra qualquer tecnologia X por ter sido inventada numa sociedade capitalista, feudal ou escravista, mas, pelo contrário, lutar pela socialização dos benefícios do progresso tecnológico. E desde que (re)descobrimos a finitude dos recursos do planeta, de um modo que não comprometa o futuro dos nossos filhos, netos e bisnetos.




quinta-feira, 17 de julho de 2014

Partido Comunista da Ucrânia será oficialmente banido



Por Carlos Serrano Ferreira*

Enquanto a ofensiva genocida de Kiev contra o povo das Repúblicas Populares de Donestk e Lugansk continua, mais uma medida antidemocrática é tomada pelo governo de fascistas e imperialistas: o ministro da justiça, Pavlo Petrenko, entrou com uma ação junto à Corte do Distrito de Kiev pedindo o banimento do Partido Comunista Ucraniano sob a alegação de que estariam a apoiar a divisão do país [1].

Se esse banimento for declarado será o sintoma de uma escalada repressiva na Ucrânia que não para e que avança na perseguição das forças de esquerda pelo governo golpista. Outro partido anticapitalista, o Borotba, já tem sua direção na clandestinidade e muitos de seus militantes tiveram que abandonar a Ucrânia. Estes foram declarados ilegais pelos grupos fascistas, sendo atacados fisicamente pela Guarda Nacional, guarda-chuva oficial das milícias fascistas, e tiveram suas sedes destruídas[2]. O partido teve que lançar um comunicado oficial chamando a todos os militantes e simpatizantes a que entrassem na clandestinidade e abandonassem suas casas [3].

O PCU já sofrera as mais brutais agressões, com militantes atacados e sedes queimadas – e mesmo a casa do líder do partido, Pyotr Simonenko, foi incendiada [4]. Isto fez com que a vida do partido tivesse que migrar completamente para a Ucrânia Oriental. No Parlamento, Simonenko foi atacado por dois deputados fascistas do Svoboda enquanto discursava em defesa da “federalização do país e a concessão do status de língua oficial ao idioma russo” [4]. Pela total falta de segurança para o líder comunista realizar sua campanha presidencial – tendo sido mesmo perseguido por fascistas após sua saída de uma entrevista televisiva – teve que retirar sua candidatura [5].

Já no início de maio os deputados da Rada Suprema (parlamento nacional) expulsaram os comunistas de uma sessão a portas fechadas, infringindo o próprio regulamento interno que prevê a possibilidade de expulsão de um deputado de uma sessão, mas não de uma facção parlamentar inteira. Com essa manobra o governo buscava garantir a maioria de votos de que necessitava para aprovar seus intentos de guerra, como o restabelecimento do serviço militar obrigatório, para assim reforçar sua ofensiva genocida [6]. E foram várias as sucessivas declarações do então presidente interino Alexandr Turchínov exigindo a ilegalização do PCU [7].

A verdade é o contrário das alegações das “autoridades” de Kiev: quem levou o país à divisão foi a ação dos imperialistas e fascistas que perseguem a esquerda e as minorias nacionais, bem como lançam uma ofensiva genocida contra o povo do Leste. Quem divide o país são os golpistas que retiram o caráter oficial das línguas minoritárias e negam a única política que poderia devolver a paz ao país: a federalização da Ucrânia. Quem dividi o país são os golpistas de Kiev que se aliam aos oligarcas do Leste para reprimir a população, como Ihor Kolomoisky, indicado por eles para ser o governador de Dnipropetrovsky e apontado como um dos principais líderes da máfia ucraniana [8]. Este já propôs a construção de um muro separando a Ucrânia da Rússia, financia as milícias fascistas e ofereceu pela morte do líder antifascista Oleg Tsarev um milhão de dólares [8].

O governo de Kiev está sob controle do partido da guerra: oligarcas em geral e do setor militar em particular, milícias fascistas do Maidan, a máfia ucraniana e os EUA. Estes lucram com a guerra e a morte e se fortalecem politicamente. O novo prefeito da capital, Vitali Klichko, representante dos interesses imperialistas alemães no país, que tinha declarado que iria dissolver os acampamentos do Maidan [9] – uma terra de ninguém, de bandidos e fascistas – não os dissolverá mais, tendo já sido ameaçado de ter a prefeitura queimada caso o fizesse [10]. O cessar-fogo foi boicotado pelas milícias e pelos próprios oficiais do exército, desmoralizando o presidente Poroshenko, que teve que recuar e levantar o mesmo [11].

Ao contrário das medidas de Kiev, a única maneira de reconstruir a unidade do país passa não pela ilegalização da esquerda ucraniana, que luta por democracia e em defesa dos trabalhadores do país e das minorias ameaçadas. A única forma de reconstruir a unidade é garantindo os direitos democráticos e a federalização. A única forma de conquistar a paz é combatendo as milícias fascistas e colocando na ilegalidade os partidos fascistas como o Svoboda e o Pravy Sektor, que espalham o terror pelo país.

Nessa hora sombria em que novamente a esquerda é ameaçada pelas hordas fascistas, e que o terror castanho anda livremente pelas ruas de Kiev e matam no Leste, é necessário que todos os comunistas e verdadeiros democratas do mundo se unam em defesa da esquerda ucraniana. Contra ilegalização do PCU! Contra a perseguição à esquerda ucraniana!

* Carlos Serrano Ferreira é pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Hegemonia e Contra-Hegemonia da UFRJ (LEHC-UFRJ) e militante do PCB-RJ.

[1]AFP. Ukraine seeks to ban Communist Party. 8 de julho. Disponível em: www.business-standard.com/article/pti-stories/ukraine-seeks-to-ban-communist-party-114070801494_1.html.

[2] INITIATIV. Antifascistas na Ucrânia: Entrevista a um responsável do Borotba no exílio. Tradução do Diário Liberdade. 23 de junho. Disponível em: www.diarioliberdade.org/artigos-em-destaque/413-antifascismo-e-anti-racismo/49421-antifascistas-na-ucrânia-entrevista-a-um-responsável-do-borotba-no-exílio.html.

[3] BOROTBA. Ukraine: Junta launches repressions against Borotba activists Statement of the union ‘Borotba’ (Struggle). Disponível em: http://borotba.org/ukraine-_junta_launches_repressions_against_borotba_activists_statement_of_the_union_borotba_struggle.html.


[5] CENSOR.NET. Activists of Automaidan blocked Simonenko’s car and smashed the windows. 17 de maio. Disponível em: http://inforesist.org/en/activists-of-automaidan-blocked-simonenkos-car-and-smashed-the-windows/.

[6] RIANOVOSTI. El Parlamento de Ucrania expulsa a los comunistas y restaura la mili. 6 de maio. Disponível em:http://sp.ria.ru/international/20140506/159972738.html.

[7] Dois exemplos disto, feitos em seqüência em maio passado, podem ser encontrados aqui: RIANOVOSTI.Presidente interino llama a proscribir el PCU por supuesto separatismo. 13 de maio. Disponível em:http://sp.ria.ru/international/20140513/160045358.html e RIANOVOSTI.El presidente interino de Ucrania exige prohibir al Partido Comunista. 19 de maio. Disponível em: http://sp.ria.ru/international/20140519/160125734.html.

[8]VOLTAIRE. Ukraine: Ihor Kolomoisky offers $ 1 million to murder Oleg Tsarev. 17 de maio. Disponível em:www.voltairenet.org/article183839.html.

[9] RIANOVOSTI. Klichko planea liberar el centro de Kiev de los restos del Maidán. 26 de maio. Disponível em:http://sp.ria.ru/international/20140526/160205699.html.

[10] RIANOVOSTI. La situación en El centro de Kiev sigue peligrosa, reconoce su alcade. 7 de julho. Disponível em:http://sp.ria.ru/international/20140707/160695082.html.

[11] RIANOVOSTI. Poroshenko quiere tregua en el este pero parte de los militares no le obedecen.http://sp.ria.ru/international/20140630/160605294.html.




Fonte: PCB

quarta-feira, 16 de julho de 2014

As promessas não cumpridas da Revolução Francesa

“A Liberdade Guiando o Povo”, por Eugène Delacroix.


O 14 de julho de 1789 é uma data que não vai sair da minha cabeça. Lembro-me de tê-la memorizado, ao lado de outras, nas aulas de história do ginásio (o que hoje seria o Ensino Fundamental II). Pois esta é a data que, esquematicamente, marca a passagem da Idade Moderna para a Idade Contemporânea. Pelo menos assim era nos meus tempos de ginasial, em que lembrar-me dessa informação garantiu uns pontinhos nas provas. Mas hoje, alguns anos e experiências depois, consigo entender melhor todo o significado dessa data.

Primeiro, que a data é o menos importante. Evidentemente, a queda da Bastilha, prisão em que eram encarcerados os inimigos do Antigo Regime na França, foi um evento simbolicamente fantástico. Afinal, ele representou o desmantelamento do absolutismo francês e apontou o mesmo caminho para o resto da Europa. E, portanto, a superação do mundo feudal pela modernidade burguesa. Mas daí a implicar a substituição da Monarquia pela República e, mais profundamente, a participação popular, existe uma grande distância.

E, talvez seja justamente por esses dois últimos elementos que a Revolução Francesa foi, no plano político, um movimento pioneiro e inspirador em todo o mundo. Graças a esse pioneirismo, a revolução foi capaz radicalizar-se num grau até então inimaginável. Assim, as forças contrarrevolucionárias demoraram a conter a radicalização do movimento, que atingiu seu ápice na República Jacobina (1793-1794). Momento que geralmente é lembrado pelo Terror e a fúria da guilhotina a ceifar os inimigos do Estado – inclusive o rei –, mas é esquecido em seu caráter popular e vitorioso na contenção dos conflitos internos e externos que ameaçavam a consolidação da Revolução.

De todo modo, do ponto de vista das ideias, a contribuição do movimento revolucionário na França é inquestionável. Ele encarnou as ideias do Iluminismo e lhes deu uma forma mais fiel, ultrapassando as limitações do Despotismo Esclarecido, que florescia em outras partes da Europa do século XVIII. Afinal, como ser verdadeiramente livre sendo súdito? Ora, isso é uma contradição em termos. Desse modo, uma de suas influências mais significativas foram os ideais que lhe serviram de bandeira: Liberdade, Igualdade e Fraternidade – e que, enfim, dariam as cores da bandeira tricolor francesa.

Robespierre
Robespierre, líder jacobino. Foto: jeunespgnpdc

Assim, aqueles ideais de 1789 – Liberdade, Igualdade e Fraternidade – permanecem vivos até hoje. Não que eles tenham sido alcançados. Pelo contrário, eles são as promessas não cumpridas da Revolução. A vitória da burguesia e, consequentemente, do modo de produção capitalista, parece mesmo ter substituído aquelas palavras de ordem.

A liberdade, se ainda permanece na pauta, está presente em sua versão do liberalismo econômico. A liberdade enquanto conceito moral caiu de vez. As únicas coisas que existem, agora, são escolhas racionais. Assim, a liberdade que resta está na livre iniciativa e no livre comércio – o sacrossanto livre mercado. Em resumo, o ser humano é livre para escolher se toma uma Coca-Cola ou uma Pepsi.

A igualdade, por sua vez, tornou-se sinônimo de socialismo ou comunismo. O que, segundo os ideólogos do capital, é uma ideia ultrapassada, vide o fracasso da União Soviética. Melhor substituí-la pela austeridade. Essa sim é uma ideia redentora, que veio para salvar as nações da ineficiência de seus Estados parasitários: esses Leviatãs famintos por sugar seus pobres contribuintes. Se uma ou outra Grécia atravessam verdadeiras convulsões sociais por conta dessas medidas impopulares… bem, isso é culpa da preguiça dos gregos, que não querem trabalhar mais por um salário menor – isso é o que diriam os defensores da austeridade.

A fraternidade, então, deu lugar à competitividade. Isso mesmo. Não olhe o próximo como irmão porque ele é seu rival e pode tomar o seu lugar. Aliás, ajudá-lo pode estimular a indolência e, como qualquer economista sabe, a economia de um país não pode sobreviver à concorrência internacional sem constantes ganhos de produtividade. Por isso, esteja disposto a trabalhar mais e ganhar menos. E sem reclamar, por favor. Afinal, neste mundo só sobrevivem os mais fortes.

Com toda essa ironia só quero mostrar quanto o triunfo burguês permitiu o abandono de ideias que foram fundadoras deste mundo em que a burguesia reina como classe dominante. Por isso, em que pese o caráter burguês da Revolução Francesa, é preciso sim resgatar seus ideais, naquilo que eles têm de subversivo e apontam na direção de uma outra sociedade.

Porque vale a pena lutar pela liberdade, em sua condição de superação da necessidade, das carências humanas. Vale a pena buscar o reino da liberdade, qual seja, uma sociedade em que todas as pessoas se vejam livres das privações. Isso não é garantia de felicidade, mas é um importante passo.

Uma tal liberdade não pode prescindir do ideal de igualdade. E quando falo de igualdade, não me refiro unicamente à isonomia, ou seja, a igualdade perante à lei. Mas da igualdade de fato, da possibilidade de todas as pessoas desfrutarem igualmente do nível de civilização alcançado pelo conjunto da sociedade. Isto é, que todas as pessoas possam satisfazer suas necessidades – sejam elas originadas no estômago ou na fantasia, como diria Marx.

Tais ideais, por sua vez, só podem ser atingidos mediante um espírito de solidariedade. Um espírito de cooperação, de união de esforços na direção de uma meta comum: criarmos uma sociedade em que o desenvolvimento de cada um seja a condição para o desenvolvimento de todos – como preconiza o Manifesto Comunista.

Por isso é importante lembrar de 1789. E buscar em seus ideais uma inspiração para lutar pela instauração de uma sociedade mais justa.




terça-feira, 15 de julho de 2014

Camila Jourdan, presa política


Quem é a professora de Filosofia encarcerada no Presídio de Bangu, sem que Polícia ou Justiça fluminenses apresentem indício de ilegalidade que tenha cometido.

Por Ronai Rocha, editor de Coisas do Campo | Imagem Alexandre Noronha Machado

Camila Jourdan formou-se em Filosofia na Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 2002. Fez seu mestrado na PUC do Rio, em 2005, e também na PUC concluiu em 2009 seu Doutorado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Depois, foi bolsista CAPES-PRODOC na Universidade Federal do Paraná, entre 2009 e 2010. Nos dias de hoje é professora adjunta do Departamento de Filosofia da UERJ e Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Eu a conheci aqui em Santa Maria, nos encontros anuais dos Colóquios CONESUL sobre filosofia das ciências formais, onde apresentou, por mais de uma vez, o resultado de suas pesquisas.

Camila Jourdan está presa, hoje, no Rio de Janeiro, em Bangu. Foi submetida a exames de corpo de delito e permanecerá, junto a dezoito outras pessoas, na prisão por cinco dias. Todos são acusados de formação de quadrilha, pelo que se lê na imprensa. Nos termos do jornal El Pais, de hoje (13.07), são “19 ativistas anti-Copa do Mundo ‘suspeitos de participar em atos violentos’, informaram fontes oficiais. Os militantes (…) respondem por crimes de formação de quadrilha armada, com pena prevista de até três anos de reclusão.”

Há um clima no Rio de Camila, hoje. Segundo o mesmo jornal El País, “para cada três felizardos que assistirem no domingo a grande final do Maracanã, haverá um policial (ou soldado) vigiando.” Foram mobilizados milhares de policiais, soldados e agentes, com a missão de evitar incidentes durante a partida”, etc… E, por óbvio, hoje é a ultima chance de algum protesto relacionado ao Fifacountry que vivemos nesse mês.

Camila Jourdan participava de protestos contra a Copa. Basta olhar a página dela no Face para ver que sim. Ela faz parte de um contingente de brasileiros que não contém a indignação nos limites privados. Ela ia para as ruas e fazia lá o seu protesto. Como é garantido a todos nós. Nesse momento, está metida num pacote de acusações demasiadamente pesadas e graves para que a gente fique esperando no que vai dar. Não vai passar desapercebido a ninguém que há uma rara combinação de contexto (a final da Copa) e a fragilidade das evidências que pretensamente sustentam a acusação de crime que leva a anos de prisão. Me contem outra. Eu sou um velho conservador, não preciso ser lembrado disso. Mas mais do que conservador, sou velho o suficiente para não cair no conto de que nossa democracia é frágil ao ponto de precisar dessas peneiras policiais grossas, que arrestam Camila e outros.

Faz poucos dias que um brasileiro precisou dar uma aula sobre a revolução francesa para provar que era um professor e não era um marginal, escapando assim de um linchamento popular. Nem todos os linchamentos são apenas populares. Alguns são mais sofisticados.

O que todos nós, amigos e colegas de Camila Jourdan esperamos é que nossa democracia, ainda pouca e frágil para tantas esperanças, seja madura o suficiente para não esmagar a nossa colega de colóquios e debates nas malhas de um equívoco estúpido. Camila muito nos honra e representa com sua coragem de ir para a rua e tem centenas de amigos que estão com ela nessa hora. Não queremos confundir essa brutal mis-en-cene (trapalhada? tragédia?) com encruzilhadas da democracia.

Terminado o jogo final da copa, quem sabe, termina esse sobre-esforço de criminalização de gente como Camila. Voltaremos ao Brasil, mesmo que com perdas. Afinal, um país que condenar Camila Jourdan por crime de formação de quadrilha ficará menor diante do si-mesmo que pode ser.



segunda-feira, 14 de julho de 2014

Vídeo mostra agressão de policial militar a mulher em manifestação

Policial chuta manifestante durante protesto na Saens Peña Foto: Marcelo Piu / Agência O Globo


RIO - DENÚNCIA: PMERJ AGRESSOR DE MULHERES


ROGÉRIO COSTA DE OLIVEIRA
Soldado da PMERJ - Lotação: BPGE
Carteira Funcional: 97.897

PMERJ, conhecido agressor de mulheres em protestos, foi o mesmo que agrediu os midiativistas Nadini Carega e Wilson Ventura, do Coletivo Mariachi, entre vários outros manifestantes, e ameaça recorrentemente ativistas de espancamento durante os protestos no Rio de Janeiro.

Nunca anda sozinho e só ataca em bando de mais de 5 PMs.

Nessa imagem ele é flagrado na manifestação do dia 13/JUL, na Praça Saens Peña, agredindo uma adolescente que segurava um cartaz sozinha no protesto no momento em que o Choque começou a dispersar os manifestantes.

Pedimos por favor que divulguem essas imagens e o vídeo.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Qual o papel do chefão da CBF no assassinato de Vladimir Herzog?


O repórter investigativo britânico Andrew Jennings relembra os pecados do atual presidente da CBF, José Maria Marin, durante a ditadura brasileira.

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Brasília, 11 de dezembro de 2012: O deputado Romário chega de mansinho na sala da Comissão. Uma centena de pares de olhos seguem o icônico Baixinho que se dirige primeiro à imprensa. “Andrew Jennings, meu amigo, como vai”, diz, enquanto aperta minha mão entre as suas.

Ele parece estar em grande forma, leve, relaxado, sorridente, e um brilho no olhar que promete: um dos maiores goleadores do mundo está prestes a marcar mais um tento. Sem fazer alarde, como sempre. Romario simplesmente marca: Gol!

“Melhor agora que encontrei você, companheiro”, respondo. Ele dá risada e vai embora, driblando as mesas para tomar assento na Comissão de Esporte e Turismo da Câmara, da qual faz parte.

Romario aguarda pacientemente por alguns minutos. Então, o presidente da mesa lhe passa a bola: é sua vez de falar. Ele não sorri agora.

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“As pessoas me param na rua para dizer: ‘Traga o Teixeira de volta, o novo presidente da CBF é pior’”.

Pronto. Com apenas uma frase ele agarrou a bola e: gol!

Durante 23 anos Ricardo Teixeira desviou dinheiro da FIFA e da CBF. O peso da corrupção finalmente o forçou a renunciar nove meses atrás e os torcedores puderam recolher as faixas “Fora Teixeira” que estendiam nos estádios.

Como o cara que assumiu a CBF, o octogenário José Maria Marin, poderia ser pior que o antecessor? Certamente ele vai fundo saqueando o futebol brasileiro, mas Marin não tem como superar as décadas de roubo de Ricky Vigarista.

A resposta está fora do campo do futebol, em uma história sórdida que vem do tempo da ditadura militar. Por isso a indignação em São Paulo – onde manifestantes protestaram diante de sua casa- nas colunas dos jornais, no Congresso, onde foi acusado de ter “as mãos sujas de sangue”

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Brasília, 13 de dezembro de 1968: Quatro anos depois do golpe militar que implantou a ditadura no Brasil veio uma lei – o famigerado AI-5 – que dava ao milico que estivesse na cadeira da presidência o poder de fazer o que lhe desse na telha. O Congresso estava amordaçado, os partidos políticos, banidos e os direitos humanos, extintos. A censura corria solta nos jornais, na música, no teatro, no cinema.

Sabendo-se ilegítimos e odiados pelo povo, os generais declararam a guerra suja contra os opositores. Torturava-se e matava-se na Operação Bandeirantes – a OBAN – executada por policiais civis e militares e secretamente financiada por empresários brasileiros e corporações americanas – que pagavam bônus para tirar os sindicalistas de suas fábricas.

Em 1970, entre os milhares de presos estava uma jovem estudante, Dilma Rousseff, que se juntara a um grupo clandestino de guerrilha urbana. Ela descreveu, em uma entrevista de 2011, as pancadas que recebia nua e amarrada, entremeadas por choque elétricos nos pontos mais sensíveis do corpo, que chegaram a provocar hemorragia uterina.

São Paulo, 15 de março de 1971: Enquanto os torturadores da OBAN davam choques em Dilma, José Maria Marin – que muito depois se tornaria o chefão do futebol – assumia o mandato de deputado estadual. Se quisesse, Marin teria ouvido os gritos dela. Ele tinha conhecimento da tortura mas isso não o incomodava. Os militares não faziam segredo da sua brutalidade; eles precisavam de uma população acuada, intimidada para se impor.

O senhor Marin aderira à ARENA, o partido criado para os políticos da ditadura. Ele gostava dos militares porque eles o deixavam pertinho do caixa-forte; e os militares o apreciavam porque era a caixinha de música deles. Bastava apertar o botão, e lá ia Marin discursar na Assembléia, denunciando os comunistas ou qualquer um que a OBAN quisesse, dando o pretexto para prender e torturar.

De vez em quando Marin se encontrava com Sérgio Fleury nos bastidores políticos ou nos restaurantes da moda em São Paulo. Fleury era um sádico de primeira, um artista da tortura. O Príncipe da Dor supervisionava inquéritos e operava uma rede de cativeiros privados – em casas, chácaras – onde clandestinamente os presos políticos eram torturados dias a fio. Muitos morreram – ou simplesmente desapareceram.

Seus gângsters em trajes civis invadiam qualquer casa a qualquer hora e quando queriam se divertir, espancavam o suspeito. As crianças assistiam, aterrorizadas. Os revólveres disparavam. Marin tinha Fleury em alta conta.

São Paulo, janeiro de 2013: “Depois que a ditadura se instalou, ser jornalista se tornou uma ocupação prejudicial à saúde. Eu tinha saído do país seis meses antes e estava em Londres, trabalhando para o serviço brasileiro da BBC”, lembra o jornalista Nemércio Nogueira.

“Eu e um colega fizemos um lobby para que a BBC oferecesse um emprego ao amigo e jornalista Vladimir Herzog. Em 1965 eles contrataram o Vlado, que veio com a mulher, Clarice; eles tiveram os dois filhos em Londres, Ivo e André”.

Depois de três anos na BBC, em agosto de 1975, ele voltou com a família para o Brasil, e foi nomeado editor-chefe da TV Cultura, uma emissora do governo do Estado. Agora ele estava na esfera de influência do deputado José Maria Marin, porta-voz de Fleury e dos generais.

A ditadura começava a rachar. A luta armada tinha sido sufocada, os guerrilheiros eliminados. Alguns generais pregavam um retorno gradual e cauteloso à democracia. Mas os linha-dura não queriam ouvir falar nisso; para continuar nos negócios precisavam da “ameaça vermelha”. Os soldados da tortura concordavam do fundo do coração.

Eles conseguiram ajuda externa. Os serviços de segurança da Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai lançaram a Operação Condor, sincronizada através de uma base da CIA no Panamá, prendendo e assassinando lideranças de esquerda e opositores da ditadura em toda a América Latina.

Vlado era mais do que um respeitado ex-repórter e produtor da BBC. Graduado em Filosofia, era um documentarista bem sucedido e professor de jornalismo na Universidade de São Paulo.

Outros colegas jornalistas recordam: “Vlado tinha um estilo direto e despojado de falar e escrever, e não era dado à retórica. Uma frase que usava com frequência, que resume o pensamento dele – e está gravada em sua lápide – era: “Quando perdemos a capacidade de nos indignarmos com as atrocidades praticadas contra outros, perdemos também o direito de nos considerarmos seres humanos civilizados”.

Sua família conhecia o medo, o medo das atrocidades. Judeus, eles fugiram da Croácia quando ele era menino por causa dos nazistas.

Ivo Herzog me disse: “Sim, meu pai era membro do Partido Comunista Brasileiro. Mas não era um grupo armado. Era mais como um grupo de debates.”

As denúncias serviam ao que Fleury e seus sádicos queriam. Eles começaram a prender os suspeitos de serem comunistas e torturá-los para obter mais nomes.

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São Paulo, Setembro de 1975: Claudio Marques era um provocador barato, um porta-voz dos torturadores que entrava nos lares da cidade pela TV.

“Conheci o Claudio pessoalmente, como jornalista, e ele me parecia um canalha. Acho que ele não era mais do que um oportunista que viu na ditadura uma forma de obter favores, patrocínio para sua coluna, seu programa de TV, um emprego, qualquer coisa”, lembra o jornalista Nemércio Nogueira, amigo e colega de Vlado na BBC.

Claudio fazia tudo que podia para conseguir a gratidão dos generais. Fleury queria vermelhos? Claudio proveria. Ele começou a escrever sua “Coluna Um”.

“Viram o noticiário de ontem na TV Cultura? Falando do esquerdista vietnamita Ho Chi Min?”

Não interessava que a materia tivesse vindo da BBC Visnews, ali estava a prova de que o canal estatal tinha sido tomado pelos vermelhos! E o governo vai ficar parado assistindo a isso?

Isso foi na primeira semana de setembro. Dois dias depois, a coluna de Claudio espalharia o veneno pela segunda vez.

As prisões dos comunistas suspeitos começou na última semana de setembro. Amarrados na Cadeira de Dragão, com eletrodos no nariz e no pênis, e afogados em baldes de água, eles estavam gritando nomes.

A campanha se mudou para o Congresso.

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São Paulo, 9 de outubro, 1975: O fantoche escolhido para fazer o aquecimento era o deputado Wadih Helu, outra criatura da ditadura. Ele tomou assento nas fileiras da Arena enquanto providenciava lugares discretos para os interrogatórios dos torturadores de Fleury.

Helu trazia “denúncias graves” a seus colegas na Assembléia.

Veja só: o governo tinha acabado de inaugurar um novo sistema de esgoto e quem assiste à TV Cultura não ficou sabendo disso. Eles não mandaram equipe! (controle sua vontade de rir, o fim da história é funesto).

Fingindo tremer de raiva, o deputado Helu prosseguiu: “A ausência da equipe da TV Cultura nas inaugurações do governo não é novidade para quem tem acompanhado a coluna de Cláudio Marques, denunciando a infiltração de elementos comunistas na TV do estado”.

Helu subiu o tom: “Eles só mostram notícias negativas, nada de positivo. Estão fazendo proselitismo do comunismo subserviente, tornando-se, como diz Claudio Marques, ‘a TV Cultura vietnamita de São Paulo’, usando dinheiro do povo para prestar um desserviço ao governo e à Pátria”.

Helu sentou. Era a vez do deputado arenista José Maria Marin.

“Acho estranho que apesar da imprensa estar levantando o problema há tempos, pedindo providências aos órgãos competentes em relação ao que está acontecendo no canal 2, não tenha acontecido nada até agora”.

“Não é só uma questão daquilo que eles publicam mas o desconforto que provocam não apenas aqui, nem apenas nos círculos políticos, mas que se comenta em quase todos os lares paulistas”.

Alguma coisa tinha que ser feita.

“Gostaria de chamar a atenção da Secretaria de Cultura de São Paulo, do governador do Estado que devem definitivamente apurar as denúncias publicadas na imprensa de São Paulo, em especial, pelo corajoso jornalista Claudio Marques”.

“Faço um apelo ao governador do Estado: ou jornalista está errado ou está certo. Essa omissão por parte da Secretaria do Estado e do governador não pode persistir. Mais do que nunca é necessário agir para que a tranquilidade reine novamente nesta Casa e, principalmente, nos lares de São Paulo”.

Sérgio Fleury e seus gorilas agora tinham carta branca para trabalhar. Essa era a mensagem do discurso de Marin. O relógio estava correndo depressa no sentido de abreviar a vida de Herzog.

“Naquele tempo a gente vivia no olho do furacão”, lembra o amigo e colega de Vlado, Paulo Markun. Oito dias depois, Markun foi preso. “Fui torturado e confessei que era membro do Partido Comunista”, disse.

Na noite de 24 de outubro, 15 dias depois dos discursos raivosos de Helu e Marin na Assembléia, os policiais chegaram na TV Cultura querendo levar Vlado. Os colegas de redação argumentaram que ele estava fechando o jornal da noite e que, se o levassem naquele momento, o programa não iria ao ar. Vlado se ofereceu para ir voluntariamente à polícia no dia seguinte.

Vlado foi incauto? Era ingênuo? Um colega e amigo dele me disse: “Minha interpretação é que, morando em endereço bem conhecido, sendo um jornalista renomado, com um cargo alto na TV estatal, e sem envolvimento na luta armada, ele não tinha muito o que temer”.

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São Paulo, 25 de Outubro de 1975: Vladimir Herzog, 38 anos, acordou mais cedo do que de costume na manhã de sábado. Fez a barba, tomou banho e deu um beijo de despedida em Clarice, que ainda estava na cama.

Ela queria levantar e fazer o café da manhã, mas ele lhe disse que não se preocupasse, que no caminho pararia em uma padaria para tomar um café com leite.

No fundo, no fundo, todos os que não eram aliados do regime tinham medo de “desaparecer”. Afinal, naquela época isso acontecia mesmo. Vlado combinou de encontrar um colega que o acompanhou até o número 921 da rua Tutóia, no bairro do Paraíso, hoje o 36o distrito policial. Eles chegaram por volta das 8 horas da manhã.

Por trás dos muros altos guardados por sentinelas funcionava a OBAN. Vlado cruzou o portão de entrada e disse ao recepcionista seu nome completo, profissão, número de RG.

E esperou sentado em um dos bancos de madeira no amplo hall que conduzia a um vidro e uma porta de ferro. Minutos depois, foi levado para interrogatório.

Vlado recebeu a ordem de tirar as roupas e colocar os trajes de prisioneiro. Na sala de interrogatório já estavam dois prisioneiros com os rostos cobertos por capuzes pretos.

Um deles, Rodolfo Konder, reconheceu o amigo: “Consegui erguer um pouco o capuz e reconheci seus sapatos, os mocassins pretos do Vlado”.

Vlado negou ser membro do Partido Comunista. Konder e o outro prisioneiro foram levados. Pouco tempo depois, eles ouviram os gritos de Vlado quando os choques elétricos começaram.

Os gritos duraram boa parte da manhã. “Os choques eram tão violentos, que Vlado uivava de dor”, diz Konder. “Eles ligaram um rádio para abafar o som”.

“Cerca de uma hora depois, eles me levaram para outra sala onde pude tirar o capuz e eu vi o Vlado. O homem que fazia o interrogatório, aparentava uns 35 anos, era magro, musculoso, com uma tatuagem de âncora no braço, disse-me para falar para ele que era inútil resistir”, lembra Konder.

“Vlado estava com o capuz enfiado na cabeça, tremendo, desfigurado. Tive que ajudá-lo a escrever uma confissão dizendo que ele tinha sido convencido por mim a entrar no PCB e listar outros membros do partido”.

Sobre isso, Ivo Herzog me disse: “Eles interromperam os choques e ditaram uma nota para ele escrever. Ele obedeceu, escreveu, então refletiu e rasgou a nota. Eles aumentaram a voltagem, os gritos dele voltaram a ser ouvidos e os choques o mataram”.

Ele hesita um pouco e para de falar. “Minha família não gosta de recordar a tortura. Eles não tinha necessidade de matar meu pai – foi sem intenção”.

Fleury estava na sala? – perguntei.

“Não sabemos”, diz Ivo. “Mas sei que o Marin estava bem preparado para colocar a vida do meu pai em perigo e assim ficar bem com os militares”.

Tarde da noite, Clarice Herzog recebeu as notícias da morte do marido.

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25 de outubro de 1975, horas mais tarde: Os torturadores vestiram Vlado apressadamente com as suas roupas, passaram o cinto da calça em volta do pescoço, penduraram o corpo na cela e o fotografaram de novo, dessa vez alegando que ele havia se matado. A foto não era nada convincente: os pés dele tocavam o chão e seus joelhos estavam dobrados.

Seu corpo foi entregue às autoridades religiosas esperando que fosse enterrado – e as evidências do crime também. A tradição judaica não permite que os suicidas sejam interrados em seus cemitérios. Mas quando o Shevra Kaddish – o comitê fúnebre judaico – estava preparando o corpo para o funeral, o rabino Henry Sobel reparou nas marcas de tortura. Ele ordenou que Vlado fosse enterrado no centro do cemitério. A versão do suicídio tinha sido desmentida.

As notícias da morte de Vlado se espalharam à medida que os jornalistas e opositores gradualmente ocupavam as ruas. A tragédia havia levado para a classe média os fatos que ocorriam em todo o país. Lentamente – foi preciso outra década para restabelecer algo que parecesse mais com a democracia –, o golpe militar arrefecia. Sobel diria depois: “O assassinato de Herzog foi o catalisador da volta da democracia”.

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São Paulo, 7 de outubro de 1976: Um ano e dois dias depois de “salvar” a TV Cultura – e incitado a prisão que terminou com o assassinato de Herzog – Marin mais uma vez discursava na Assembléia Legislativa de São Paulo.

E novamente, o deputado reclamava. Não sobre os vermelhos. Dessa vez, estava aborrecido com a falta de reconhecimento público a Sérgio Fleury, o delegado. Um homem que recentemente tinha emboscado e matado os guerrilheiros corajosos o bastante para enfrentar a ditadura.

Isso foi tirado da gravação oficial do discurso de Marin: “Aqueles que o conhecem de perto, sabem que ele é um chefe de família exemplar, mas, mais do que tudo, ele cumpre seus deveres como policial da maneira mais louvável possível”.

“Não conseguimos entender como um policial desse calibre, um homem que dedicou sua vida inteiramente ao combate do crime, um homem que muitas vezes pôs em risco não apenas a sua vida mas a de seus familiares não está recebendo o reconhecimento que merece”.

“Conhecendo seu caráter como eu conheço, não há dúvida de que Sérgio Fleury ama sua profissão; de que Sergio Fleury se dedica ao máximo, sem medir esforços nem sacrifícios para honrar não apenas a polícia de São Paulo, mas acima de tudo seu título de delegado de polícia. Ele deveria ser uma fonte de orgulho para a população de nossa cidade”.

“Por isso, senhor relator, na certeza de refletir o pensamento dos moradores de São Paulo, queremos expressar o orgulho que sentimos por ter em nossa polícia o delegado Sérgio Fleury”.

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St Helier, Jersey,17 de novembro de 2012: Antigo amigo dos militares, ainda amigo de José Maria Marin e ainda procurado pela Interpol por lavagem de dinheiro, Paulo Maluf dá risada diante da decisão judicial de que ele é um ladrão que desviou 10,5 milhões de dólares da obra de uma estrada em São Paulo.

Por que ele deveria se importar? Tem 81 anos agora, o governo nunca conseguirá o dinheiro de volta enquanto ele estiver vivo nem conseguirá obter provas suficientes para recuperar os estimados 1,7 bilhões de dólares desviados por ele no decorrer de anos.

Maluf se aproximou dos cofres públicos pela primeira vez quando os generais o nomearam prefeito de São Paulo em 1969. Três anos depois ascendeu ao governo do estado de São Paulo, fez de José Maria Marin seu deputado, e lhe passou as chaves do tesouro estadual em 1982.

O acontecimento mais memorável durante os dez meses de governo de Marin em São Paulo foi ser vaiado na Assembléia Legislativa depois que veio à tona empréstimos suspeitos feitos por um banco federal. Os amigos o indicaram para dirigir a seção São Paulo da CBF.

O desempenho de Marin foi suficiente para impressionar Ricardo Teixeira que o nomeou vice-presidente da CBF em 2008. Quando as revelações que fiz a respeito das propinas de Teixeira o forçaram a sair da FIFA e da CBF, Marin era o substituto conveniente. Ele havia provado que compartilhava dos pontos de vista de Teixeira sobre o futebol; se pode ser roubado, roube. Marin foi flagrado na TV afanando uma medalha do campeonato juvenil.

Três meses depois, o brilhante jornalista esportivo Juca Kfouri desenterrou o discurso de Marin na Assembléia em outubro de 1975, denegrindo Vlado Herzog. Juca culpou Marin pela prisão e morte do journalista. Juca também apresentou aos leitores o discurso inacreditáve de Marin elogiando o torturador Sérgio Fleury.

Um jornalista de São Paulo, que acompanha a carreira de Marin, diz, “Marin não é nem um rato, é um camondongo”.

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São Paulo, domingo, 11 de Novembro de 2012: Um grupo de manifestantes está na frente da casa de José Maria Marin, nos Jardins. Carregando faixas, tambores, tamborins, microfones e um carro de som, os que protestam cantam músicas compostas especialmente compostas para a ocasião. Uma delas pergunta: “Olha a ficha suja do Marin, será que ele é? Será que ele é? Será que ele é dedo-duro?”

Entre eles está Adriano Diogo, do PT, 63 anos que também foi preso e torturado pela OBAN em 1971 e ficou na cadeia alguns anos.

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São Paulo, Quinta-feira, 27 de Novembro de 2012: Adriano Diogo está discursando novamente mas agora como parte de seu trabalho cotidiano. Ele é deputado da Assembléia Legislativa de São Paulo como era José Maria Marin 37 anos antes quando ele atacou a TV Cultura.

“Senhores e senhoras, primeiro eu quero congratular-me com essa nova geração que faz escrachos (nomeando e envergonhando) na porta dos torturadores pela ideia brilhante de ir à casa de José Maria Marin”.

“O senhor José Maria Marin, o delator da ditadura, é responsável pela prisão e assassinato de Vladimir Herzog.” said Diogo. “Ele tem as mãos sujas de sangue, não pode ser o president da CBF.”

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Quarta-feira, 23 de janeiro de 2013: Mensagem oficial. “A Comissão da Organização dos Estados Americanos (OEA) vai investigar a responsabilidade do Estado pela morte do jornalista Vladimir Herzog em 1975, durante a ditadura militar (1964-1985).

“De acordo com a petição, o Brasil não cumpriu ainda sua obrigação de investigar, perseguir e punir os responsáveis pela morte de Vladimir Herzog.

“O caso Herzog ilustra o fracasso do judiciário durante a ditadura militar brasileira e na democracia”, diz Viviana Krsticevic, diretora executiva do Center for Justice and International Law, sediado em Washington, que veio ao Brasil anunciar a aceitação da petição.

“Queremos saber quem é responsável pelo que aconteceu com o meu pai”, diz Ivo Herzog.

Ninguém vai chamar José Maria Marin para testemunhar? Ele ignorou o convite para comparecer ao encontro do Comitê de Esporte e Turismo em Brasília, deixando o gol livre para Romario.

Port Louis, Maurício, 30 de maio de 2013: Será o início do 63o Congresso da FIFA’s; espera-se dos delegados que endossem as “reformas” do presidente Sepp Blatter. Será que José Maria Marin do Brasil será o único acusado de cumplicidade em um crime de assassinato?




Fonte: Pública

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Liberalismo ou imperialismo?

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Por Adriano Benayon *



OBJETIVIDADE

1- Ao nos ocuparmos das questões nacionais, não devemos nos precipitar, pois há pressa, e não se deve desperdiçar tempo em assuntos e discussões de importância secundária. A situação é grave demais para que se tire o foco do que interessa.

2- Um tema que não deveria merecer gasto de nossa energia são as eleições presidenciais. Em artigo recente, “Eleições e Modelo Dependente”, escrevi: “O real sistema de poder manobra sempre para que todos os candidatos com chance de chegar ao 2.º turno estejam comprometidos com a realização destes objetivos: ampliar e aprofundar a desnacionalização da economia, desindustrializá-la, servir a dívida - inflada pela composição de juros absurdos – e propiciar ganhos desmedidos às grandes empresas transnacionais.”

3- Portanto, com qualquer “eleito”, a vitória será do sistema imperial e de saqueio, comandado pela oligarquia financeira anglo-americana, através de carteis transnacionais e coadjuvada por concentradores locais.

4- Sessenta anos de atraso tecnológico aumentando e crescente perda de autodeterminação política e econômica geraram condições deterioradas de vida no País.

5- Essa deterioração tem sido acompanhada por doses maciças de desinformação, sendo a natural revolta popular manipulada por oposicionistas diretamente vinculados àquela oligarquia financeira e principalmente por entidades controladas por esta, que agem para desestabilizar a presente gerência petista.

6- Esta, na verdade, atende ao sistema de poder da oligarquia, contra o qual a revolta deveria se dirigir. É como culpar só o gerente do restaurante que manda servir alimentos estragados e que, se não o fizer, será sumariamente demitido.

7-   De qualquer forma, não é tolerável a lesividade das políticas do atual governo, como:
1) os leilões do petróleo;
2) o agravamento da situação do setor de energia elétrica no quadro de um sistema predador, que se diz “de mercado”;
3) as parcerias público-privadas;
4) novas elevações das absurdas taxas de juros dos títulos públicos, que sangram o Tesouro, em favor dos concentradores financeiros.

8- Há que denunciar também a continuidade:
1) das alienações de terras usadas predatoriamente, em grandes plantations, para exportação;
2) da extrema desnacionalização da economia;
3) do favorecimento aos carteis transnacionais, praticantes de preços extorsivos e de transferência;
4) da liberdade de exportação, com baixa ou nula tributação, de inestimáveis recursos minerais, preciosos e estratégicos, inclusive o nióbio, em que o pouco caso com os interesses nacionais recebe o aval da CODEMIG, estadual de Minas Gerais.

9- Entre os crimes mais graves das gerências petistas estão como os decretos e medidas para liberar as sementes transgênicas e os agrotóxicos a elas associados. A urgente proibição dessas sementes tem de ser exigida nas mobilizações populares sem as quais o processo de desintegração do País não terá solução de continuidade.

10- Mais de 800 cientistas de 82 países assinaram carta aberta, na qual pedem a suspensão imediata das licenças ambientais para cultivos transgênicos e produtos derivados, tanto comercialmente como em testes em campo aberto, durante ao menos cinco anos.

11- Eles proclamam: “as patentes dos organismos vivos, dos processos, das sementes, das linhas de células e genes devem ser revogadas e proibidas.”

12- Apontam agrônomos e biólogos: “Se as abelhas desaparecerem da face da Terra, a humanidade terá apenas mais quatro anos de existência. Sem abelhas não há polinização, nem reprodução da flora; sem flora não há animais, sem animais, não haverá raça humana.”

13- Isso não é pouco, e há mais que isso. Os cientistas confirmam que os cultivos transgênicos prejudicam os agricultores, inclusive por envolver o aumento do uso de herbicidas e o empobrecimento do solo. Ademais, intensificam o monopólio das grandes empresas sobre os alimentos, o que está levando os agricultores familiares à miséria e impedindo a segurança alimentar e a saúde no mundo.

14- Até mesmo nos EUA e no Reino Unido, fontes do próprio Estado reconhecem o perigo dos transgênicos para a biodiversidade e a saúde humana e animal. A transferência horizontal de genes acarreta a difusão de genes que tornam incuráveis as doenças infecciosas e criam vírus e bactérias causadores de doenças e mutações capazes de provocar o câncer.

LIBERALISMO OU IMPERIALISMO?

15- A oligarquia financeira mundial tem investido no Brasil – durante mais de um século, de forma crescente - na (de)formação de opiniões e na deseducação, gerando confusão mental e animosidade entre grupos sociais e indivíduos, associadas a doutrinas e ideologias.

16- Os saqueadores e seus adeptos - remunerados ou não - encobrem a verdadeira natureza das políticas que realizam o saqueio imperial, fazendo que até mesmo os críticos delas as qualifiquem de liberais e neoliberais.

17- Esses nomes não costumam causar repulsa geral e até exercem atração sobre as pessoas que os associam a termos da mesma raiz, como “livre”, libertário”, “liberdade”. Palavras bonitas e antigos ideários das revoluções francesa e norte-americana, que passaram a ser evocados por mentores das políticas de escravização através da economia.

18- Do mesmo modo que as oligarquias nos países centrais, os defensores, no Brasil, dos privilégios aos carteis transnacionais e de seus contatos coloniais ou semicoloniais também se dizem e são chamados de (neo)liberais.

19- Então, o que, na realidade, não passa de mera apropriação dos recursos naturais e dos frutos do trabalho de um país, fica sendo discutido como se fosse questão doutrinária.

20- O engodo é ainda maior, porque se atribui aos liberais ser contrários à intervenção do Estado, e porque a grande maioria das pessoas ignora que atualmente, na maioria dos países, o Estado é controlado pela oligarquia e que ele intervém, em favor desta, nas finanças e na economia.

21- Por causa disso — mas sem que o público perceba que é por isso — o Estado comporta-se como insaciável coletor de impostos e taxas, sem prestar serviços, nem investir bem, nem assegurar direitos sociais básicos.

22- A própria incompetência adrede instalada no Estado, serviu para fazer aumentar ainda mais a concentração predadora, através das privatizações.

23- Essas estão sendo desfeitas em alguns países como Rússia e França, enquanto no Brasil o Estado só aumenta de tamanho como repassador de recursos a concentradores estrangeiros e locais.

24- Antes, tivemos excelentes avanços tecnológicos em estatais, mas elas foram sendo minadas para “justificar” as privatizações. Tudo em nome da “livre” iniciativa, na qual carteis e monopólios sufocam a iniciativa, impedem a concorrência e apropriam-se das poucas tecnologias não impedidas de surgir.

25- Entretanto, nenhum país se desenvolveu sem a liderança do Estado, o único instrumento de a sociedade organizar-se para evoluir e defender-se, papel que ainda desempenha em alguns países, ainda que nem sempre a contento geral.

26- Sem o Estado a seu serviço, a sociedade transforma-se em massa amorfa, composta por indivíduos sem personalidade e sem liberdade alguma, como ocorre no grande número de países dominados pela oligarquia financeira mundial, inclusive em suas sedes - EUA, Reino Unido.

27- Assim, as instituições formalmente democráticas, mesmo quando não violadas por desestabilizações e golpes de Estado, ficam sob controle daquela oligarquia. Os “governantes” são prepostos ou acuados.

28- De fato, não existe democracia sob regimes que não estabelecem limite à concentração econômico-financeira. A falsa que temos aqui leva à convulsão, com chance de o que vier depois, levar à guerra civil, à desintegração e a ainda maior submissão ao império mundial.

29- Portanto, nossa sobrevivência depende de os brasileiros não mais se deixarem pautar pela agenda e pelos conceitos do império. Só começará a ser viabilizada, quando a consciência dos fatos deixar de ser obscurecida por ideologias, e quando os brasileiros deixarem de repelir-se entre si por divergências de opinião, inclusive esquerda ou direita.

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* Adriano Benayon é doutor em economia e autor do livro Globalização versus Desenvolvimento.