sábado, 29 de agosto de 2015

Hamas - um guia para iniciantes


Por Suzana Brito


Ao contrário do que diz o monopólio da imprensa, o Hamas não é um grupo terrorista. Possui amplo apoio popular, venceu as eleições legislativas de 2006 e tem como objetivo libertar a Palestina da ocupação israelense.

O que é o Hamas? Quais seus objetivos? Quando foi fundado? Quem são seus integrantes? Essas são algumas perguntas que os brasileiros terão dificuldades para responder, pois as respostas não estão acessíveis no monopólio da imprensa e nem na maioria dos bancos escolares do país. Se depender dessas duas instituições, o Hamas será tão somente uma organização terrorista.

Nesse sentido, o livro Hamas – um guia para iniciantes (Difel, 205 páginas) chega às livrarias em boa hora. Trata-se de uma obra bastante ampla que se apresenta com a proposta de compreender o grupo em toda sua complexidade, sem demonizá-lo. Seu autor, o jornalista Khaled Hroub, descreve desde os atentados suicidas praticados pelo Hamas até as raízes de seu apoio popular. Hroub, nascido num campo de refugiados em Belém, na Palestina, tem um programa semanal de crítica literária na TV Al-Jazeera e dirige o Projeto de Mídia Árabe da universidade de Cambridge.

O Hamas passou a existir oficialmente em 14 de dezembro de 1987, ao emitir uma declaração oficial dias depois da primeira intifada (revolta popular). Hamas significa "Movimento de Resistência Islâmica" e seus idealizadores foram o xeque Ahmed Yassin, Abdul ‘Aziz al-Rantisi, Salah Shehadeh, Muhammad Aham’ah, ‘Isa al-Nashar, ‘Abdul Fattah Dukhan e Ibrahim al-Yazuri.

O documento de fundação afirma: "O Hamas é um movimento nacional de libertação da Palestina que luta pela libertação dos territórios ocupados e pelo reconhecimento dos direitos legítimos dos palestinos (...) Trata-se de uma organização política, cultural e social calcada em bases populares que possui uma ala militar separada especializando-se na resistência armada contra a ocupação israelense (...) O movimento luta contra Israel, um Estado agressor, usurpador e opressor que dia e noite ergue seu rifle contra o rosto de nossos filhos e filhas".
OS ATAQUES SUICIDAS

Mesmo os temas mais polêmicos, como os ataques suicidas, estão suscetíveis à visão maniqueísta ditada pelo governo ianque – aquela repetida dia e noite pelo monopólio da imprensa e seus destacados colunistas, de que o "homem-bomba" se suicida alegremente esperando encontrar dezenas de virgens no céu. Entretanto, de acordo com o escritor Georges Boudoukan, "o árabe só comete suicídio quando já não resta mais nada que o prenda neste mundo".

Também sob este aspecto o livro Hamas – um guia para iniciantesproporciona um entendimento mais amplo ao revelar que a prática foi utilizada como represália a um massacre:

"Militarmente, o Hamas adotou uma tática controversa de ataques suicidas, ao qual seu nome tem sido associado em todo o Ocidente e no resto do mundo. O primeiro uso dessa tática ocorreu em 1994, durante uma retaliação ao massacre de palestinos que oravam no interior de uma mesquita, na cidade palestina de Hebrom. Um judeu fanático, morador de um assentamento, abriu fogo contra os fiéis que ali estavam, matando 29 pessoas e ferindo muitas outras. Conseqüentemente o Hamas jurou vingança por essas mortes e cumpriu o que prometera. Desde então, todo ataque violento do grupo contra civis israelenses tem sido diretamente associado às específicas atrocidades israelenses contra os civis palestinos."

Segundo Hroub o Hamas já propôs inúmeras vezes parar de matar civis israelenses desde que Israel parasse de matar civis palestinos. "Israel recusou várias vezes essa proposta".

"A frase ‘a destruição de Israel’, como frequentemente empregada pela mídia quando se refere ao ‘objetivo máximo’ do Hamas, nunca foi de fato utilizada ou adotada pelo grupo, mesmo em suas declarações mais radicais. Seu lema principal é ‘a libertação da Palestina’". Desde a fundação do Hamas, o número de palestinos mortos por Israel é quatro vezes maior que o número de israelenses mortos por todas as organizações palestinas juntas.
NO CORAÇÃO DO POVO

Na verdade, a extrema popularidade adquirida pelo Hamas entre os palestinos se deve às atividades educacionais, políticas, sociais e obras de caridade, além da capacidade de resistência militar à ocupação israelense.

Trabalho de assistência social, fracasso dos acordos de paz e a corrupção no Al Fatah são os principais fatores que levaram à vitória do Hamas nas eleições parlamentares de 2006. Segundo Khaled Hroub, o triunfo eleitoral se deve ao longo trabalho em favor da população palestina. "Pelo menos metade dos eleitores apoiou o Hamas por seu programa e objetivos declarados; além disso, por seu caloroso e essencial senso de colaboração, que o manteve próximo dos mais pobres e necessitados. A outra metade dos eleitores do Hamas foi motivada por outras forças. O fracasso do processo de paz, combinado com a crescente e presente brutalidade da ocupação israelense, deixou os palestinos sem acreditar na opção de negociar com Israel um acordo pacífico" (páginas 20 e 21).

A Palestina ocupa uma posição estratégica no Oriente Médio. Antigamente, a região era um valioso entreposto comercial e berço das ciências; hoje em dia atrai a cobiça internacional devido ao petróleo que guarda em seu subsolo. Os muçulmanos conquistaram a Palestina no ano 638 e, desde então, o islamismo tem sido o elemento central da base política, cultural e emocional desta antiga extensão de terra.

As Cruzadas do Ocidente, iniciadas em 1097, promoveram guerras após guerras, por duzentos anos, na tentativa de recuperar o controle da Palestina e, em particular, de Jerusalém, e então convertê-la à cristandade.

"Os muçulmanos, que naquela época já haviam governado a Palestina por mais de 400 anos, há muito tempo permitiam a possibilidade de outras religiões viverem em paz em suas terras". Essa tolerância religiosa é sustentada pelo Alcorão, que cobra aos muçulmanos respeito às demais crenças.

A leitura de Hamas – um guia para iniciantes deixa claro que a questão de fundo na Palestina é política, e não religiosa.

Nesse sentido, Hroub mostra que o Hamas é anti-sionista e não anti-judaico, sendo que "sionista" é o termo utilizado para a pessoa ou grupo que defende o estabelecimento de um Estado judaico na Palestina, além de suas políticas fascistas com relação aos palestinos, e "judeu" se refere à religião judaica. É contra sionistas como o novo chefe de gabinete de Barack Obama, Rahm Emanuel, que o Hamas se insurge.


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