sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A pilantragem é branca


O hip-hop amarga o êxito de Azalea e o fracasso do musical sobre Tupac Shakur.


por Francisco Quinteiro Pires


Em Fancy, Iggy Azalea imita o modo de falar de uma afro-americana, apesar de ser australiana e branca. Azalea atingiu o estrelato com Fancy, um rap, eleito pela revista Billboard a música do verão de 2014 nos Estados Unidos. E causou polêmica. Ela, dizem os críticos, seria o exemplo mais recente de apropriação cultural pelos brancos de uma arte que os negros inventaram. O anúncio de Fancy como o hit da estação mais quente se deu em paralelo aos protestos em Ferguson, no Missouri, onde um policial branco matou um afro-americano desarmado em 9 de agosto. “A cultura negra é popular, mas as pessoas negras não”, declarou o poeta B. Easy no Twitter. Easy fez coro com um estado de espírito comum nas mídias sociais quando se referiu ao fato de artistas pop, como Azalea, Miley Cyrus, Ariana Grande, Katy Perry, Justin Timberlake, Justin Bieber e Robin Thicke, usarem elementos do hip-hop a fim de angariar popularidade.

Para os admiradores, Azalea é uma evolução. “Os negros precisam aceitar que o hip-hop é uma cultura contagiosa”, afirmou Questlove, baterista do The Roots, em entrevista àTime. “Fancy é, de todas as músicas que ouvi, a mais capaz de mudar o jogo, pois nos força a compreender que o gênero abriu as suas asas.” Questlove lembrou com essa afirmação como o rap é indissociável das experiências de raça e classe no meio urbano. Apesar de a eleição de Barack Obama à Presidência dos EUA, em 2008, ter estimulado a previsão de “uma era multicultural” ou “pós-racial”, o entendimento do país sob uma perspectiva que prioriza a cor de pele é um dos hábitos mais recalcitrantes da sociedade norte-americana.

Esse fato veio mais uma vez à tona na última premiação do Grammy, em janeiro deste ano. Ao contrário das expectativas dos puristas, Good Kid, M.A.A.D City, de Kendrick Lamar, não triunfou na categoria de melhor álbum de rap. O prêmio foi para The Heist, do duo Macklemore e Ryan Lewis, dois rappers brancos de Seattle. Em seguida à premiação, Macklemore divulgou no Instagram uma mensagem de texto enviada por ele para Lamar, um afro-americano de Los Angeles. Lamentou ter sido o escolhido. “Você foi roubado. Eu queria que você tivesse ganhado. Você deveria”, escreveu.

Macklemore pediu desculpas pois tinha em mente as origens do hip-hop e uma noção de autenticidade. Quando surgiu no Sul do Bronx, na Nova York dos anos 1970, o gênero representava a diversão de afro-americanos, latino-americanos e imigrantes. Moradores pobres de uma região com alto desemprego, chamada de “necrópole” por Jeff Chang, autor de Can’t Stop, Won’t Stop – A history of the hip-hop generation (Picador), aqueles jovens criaram suas próprias festas ao samplear músicas de diferentes artistas. A primeira fase do rap entre 1978 e 1984 tratou sobretudo de dança e prazer, embora Grandmaster Flash and The Furious Five tenha falado de exclusão em The Message (1982), um dos primeiros raps “conscientes”. A fase seguinte (1985-1992), classificada de “idade de ouro” por Adam Bradley e Andrew DuBois, autores de The Anthology of Rap, representou a consolidação de letras líricas e ideológicas com o Public Enemy, LL Cool J, Run-DMC e Ice-T.


Em The Anthology of Rap (Yale University Press), considerado um clássico ao discutir a evolução do gênero e reunir cerca de 300 composições, Bradley e DuBois comparam o estilo musical à poesia lírica. Eles veem nessa arte uma contestação aoestablishment. Uma das suas características essenciais, defendem, é o fato de ser uma cultura em fluxo constante. “O hip-hop foi criado pelos negros norte-americanos, mas não pertence a eles”, diz Bradley, professor de Literatura Afro-Americana da Universidade do Colorado, em entrevista a CartaCapital. “A cultura rejeita aqueles que se proclamam os seus donos. Por isso, o rap tornou-se um idioma global cujas formas mudam sob a perspectiva de artistas de diversas cores e segundo as regiões onde se manifesta.”

Apesar das boas intenções, quem critica a troca cultural livre ameaça a criatividade dos artistas afro-americanos, de acordo com Bradley. “Se os críticos censuram Iggy Azalea, Miley Cyrus ou Robin Thicke porque esses fazem empréstimos de elementos da música dos negros, eles limitam a mesma fonte da genialidade negra: o impulso de usar o passado para inventar coisas novas e o diálogo que força a superação de barreiras raciais”, afirma. “Proibir Thicke de se apropriar de Marvin Gaye, ainda que ele o faça de maneira medíocre, é o mesmo que impedir retroativamente Afrika Bambaataa, um dos pioneiros do hip-hop, de usar com brilhantismo a arte do Kraftwerk (grupo de música eletrônica alemão).” A Billboard elegeu Blurred Lines, de Thicke, a música do verão de 2013.

Historicamente, Bradley lembra, diferentes gêneros musicais devem o seu surgimento à assimilação pelos negros de elementos de uma cultura associada à população branca. O jazz e o rock’n’roll representam os exemplos mais eloquentes. Ainda assim, para angariar uma aceitação maior, geralmente as obras precisam ser dissociadas dos afro-americanos. “Certos músicos negros foram passados para trás na hora de usufruir a criação de um novo estilo? Claro. Quando Elvis Presley cantou Hound Dog, ele não tomou para si o dinheiro e a audiência que deveriam ser da cantora original da música, a Big Mama Thornton. Ele criou um novo mercado para o público de adolescentes brancos.” O racismo, Bradley sugere, explica parte do sucesso de Presley. “Muitos consumidores brancos preferiram e ainda preferem consumir a sua música negra sem realmente ouvir a voz dos negros.”

Essa “preferência” pode ter contribuído para o fracasso de Holler If Ya Hear Me, musical da Broadway inspirado nas composições do rapper afro-americano Tupac Amaru Shakur, cujo assassinato em 1996 permanece sem solução. Embora dirigido por Kenny Leon, ganhador de um Prêmio Tony, o espetáculo não atraiu público. Saiu de cartaz seis semanas após estrear no fim de junho. O produtor Eric Gold apostou no “apelo universal” das letras de Shakur sobre a experiência dos negros na América. Jon Caramanica, crítico de música pop do The New York Times, lembrou que essa crença na universalidade da música do compositor nova-iorquino seria vista como “radical” por muita gente. “O público da Broadway é muito velho e branco para permitir o florescimento de uma história com raízes na música negra contemporânea? Ou, paradoxalmente, Shakur era uma figura histórica muito abstrata para os jovens que o espetáculo esperava atrair?”, perguntou Caramanica. Gold temia que, se Holler If Ya Hear Me não fosse bem-sucedido, dificilmente haveria espaço para um musical de rap na Broadway.

“O hip-hop existe hoje por causa e apesar da sua popularidade”, afirma Bradley. Ao se transformar no centro da indústria musical norte-americana, o rap chegou à saturação. Agora, o gênero experimenta o que Bradley chama de “fase pós-pop”. “O rap nunca vai ter o mesmo sucesso que gozou na década do Novo Milênio (2000-2010). Como qualquer outra forma de arte duradoura, ele tenta se expandir para atender às expectativas do presente.” Segundo o professor da Universidade do Colorado, a assimilação pelos brancos de uma música criada por negros pobres não significa a superação de diferenças entre raças e classes. Ela oferece outro tipo de mensagem, relacionada a uma utopia. “O rap pode servir como inspiração a quem deseja produzir uma arte inclusiva e experimental.” Essa nova abordagem seria um tanto diferente daquela do hip-hop dos anos 2000 e da primeira metade desta década, em que predominam nomes como Jay-Z, Beyoncé, Rihanna e Kanye West, considerados “imensas empresas culturais”.



terça-feira, 7 de outubro de 2014

Helicoca - O helicóptero de 50 milhões de reais


Chocante!

Uma das constatações mais infames para a História da Justiça Brasileira, onde, num caso descarado de flagrante de crime de tráfico internacional, Poder Judiciário, Ministério Público, Polícia Federal e imprensa, blindam e conseguem libertar todos os envolvidos no caso do helicóptero que transportava quase meia tonelada de cocaína, em fazenda, cujo o dono é um dos políticos mais influentes de Minas Gerais e com laços estreitos com candidato a presidente na próxima eleição.

Veja o vídeo abaixo.


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Ditadura econômica, o grande tabu das eleições?

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Sem reverter políticas que submetem sociedade às finanças, Brasil permanecerá paralisado. Mas tema não entra em debate, por estranhas razões.

Por Guilherme Boulos | Imagem: Rubem Grillo, Gula (1981)

Quem diria! Mal se passaram seis anos da crise em que as políticas neoliberais afundaram o mundo e eles já estão aí com todo o vigor. A aposta na mão invisível do mercado e na desregulamentação das finanças quase levou a maior economia do mundo ao colapso em 2008. Os Estados Unidos, a Europa e a economia mundial pagam o preço até hoje.

Não demorou, porém, para que os intelectuais da banca superassem a vergonha e o descrédito, saíssem do armário e recuperassem a autoconfiança para defender a mesma rota do fracasso. Abstraíram 2008 e reaparecem de cara lavada para apresentar as mudanças necessárias na economia brasileira.

Já foi dito que a história se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa. Neste caso até os personagens são os mesmos. Vejam vocês, Armínio Fraga! As últimas três campanhas presidenciais do PSDB o esconderam a sete chaves, assim como a FHC. Dizem que há lugares do país que quando seu nome é citado as pessoas correm para bater três vezes na madeira. Dá azar. Incrível, mas Aécio Neves teve a coragem de reabilitá-lo.

Aquele que quando foi presidente do Banco Central elevou a taxa de juros de 25% para 45%! O homem do arrocho e dos banqueiros. Que foi diretor do fundo de investimento de George Soros, símbolo da especulação financeira mundial.

E é o mesmo velho Armínio. Diz agora que os salários subiram muito ultimamente e que a redução de juros nos anos anteriores foi “preocupante”. Em entrevista à Folha de S.Paulo, esta semana, deixou claro que gostaria de rever as regras do seguro-desemprego, aumentar a idade mínima para aposentadoria e dificultar a concessão de pensões.

Tudo em nome do combate à inflação. Só deixa de dizer que ao fim de sua gestão no Banco Central, no governo FHC, a inflação era de 12,5% ao ano, quase o dobro da atual, que ele julga fora de controle. E isso com juros estrondosos.

Sorte tem o país que o candidato que o anunciou como futuro ministro da Fazenda está praticamente fora do páreo eleitoral.

Mas, como diz o povo mais acostumado a sofrer, desgraça pouca é bobagem. A queda de Aécio foi acompanhada da subida meteórica de Marina Silva. E Marina, talvez no afã de atrair o mercado para seu projeto, tinha já erigido como conselheiro econômico ninguém menos que Eduardo Giannetti da Fonseca. Economista da nata do neoliberalismo brasileiro.

Giannetti tem distribuído por aí a mesma cantilena que arruinou os trabalhadores no Brasil, produzindo desemprego, arrocho salarial e recessão econômica na década de 90. O discurso de Marina é da nova política, mas começa mal ao recorrer à velha economia.

Também em entrevista à Folha, no ano passado, Gianetti sistematizou sua listinha de desejos: autonomia do Banco Central, readequar a Petrobrás e os bancos públicos nos “critérios de mercado”, desatrelar o reajuste das aposentarias ao salário mínimo e por aí vai. O modelo de seus sonhos, disse ele, é o segundo mandato de FHC e o primeiro de Lula (o mandato mais conservador dos governos petistas). Cita como referência as “heroicas” privatizações e a desregulamentação de capitais por FHC.

Sua obsessão – agora repetida por Marina – é fortalecer o dito tripé macroeconômico. Austeridade fiscal, aumento do superávit primário e livre câmbio. Não é preciso ser economista nem ter sobrenome europeu para saber que isso implica cortes de investimentos e de gastos sociais do Estado. Austeridade fiscal é um nome elegante para dizer corte no orçamento público. Superávit primário é um termo técnico para se referir à reserva de recursos para pagar juros da dívida aos banqueiros – o que, por sua vez, implica cortes orçamentários.

Marina terá que se decidir. Ou quer manter e ampliar políticas sociais e investimentos públicos, ou quer fazer cortes. Do ponto de vista lógico, tentar conciliar os dois é tão impossível quanto empenhar-se em desenhar um círculo quadrado. Simplesmente não dá. Marina deve a todos esta resposta. Ou está com Giannetti ou está com Chico Mendes.

A reabilitação dos neoliberais, ao que parece, não foi apenas um apelo desesperado do PSDB, mas uma tendência do debate econômico nestas eleições. Não deixa de ser, de algum modo, a volta dos que não foram. Já que os governos petistas – Dilma inclusive – conservaram importantes aspectos neoliberais em sua política econômica. Não por acaso os lucros bancários foram recordes. O pré-sal foi concedido à exploração privada, assim como aeroportos e rodovias.

Mas tragicamente o discurso da mudança entre os principais candidatos não critica esse conservadorismo. Ao contrário, diz que ele foi insuficiente e volta-se contra as limitadas iniciativas de enfrentá-lo. A titubeante redução dos juros básicos, o uso de bancos públicos para baratear o crédito, a atuação das estatais na indução de investimentos e os gastos com assistência social, que não chegam a 4% do orçamento Federal.

A crítica é feita pelo viés conservador. E deixa claro que o debate econômico no Brasil ainda é pautado pelo interesse do mercado financeiro. Enquanto for assim teremos de conviver com o eterno retorno dos neoliberais.


sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Critica Vogue Kids mas lê Marie Claire



Por Antonio Engelke


A onda de repúdio que se instalou na esteira de um ensaio fotográfico que retratava crianças de modo sensualmente perturbador, publicado na Vogue Kids, talvez tenha mais a nos dizer do que o próprio ensaio. A crítica moral acusa a revista de explorar a sexualização precoce, auxiliando de lambuja a normalização de uma sensibilidade pedófila. A crítica economicista localiza na busca pelo lucro o motivo da transgressão das fronteiras do aceitável. A crítica sociológica afirma que o ensaio contribui para realizar a profecia que ele mesmo exibe: seduzido pela beleza das imagens e pela promessa das benesses da vida adulta, o público infantil da revista acabaria por mimetizar-lhe a estética. Tais críticas giram em torno de um investimento impróprio a uma idade, e têm sua razão de ser. Mas como toda estética comporta uma ética, cabe indagar se não haveria nesta equação um outro elemento qualitativo para além do temporal.

“Preservar a inocência” da criança não significa mantê-la protegida da sexualidade per se, mas permitir que faça suave e gradualmente a transição para uma sexualidade consciente de si. O escândalo suscitado pelo ensaio da Vogue Kids não poderia portanto advir de crianças retratadas como sujeitos sexualizados, o que elas de fato são, mas de sugerir que sua sexualidade tenha adquirido o molde adulto antes do tempo. Parece, então, que o problema estaria no fato de as fotografias assinalarem um corte, uma interrupção brusca nesta transição, impondo uma consciência erótica onde deveria haver somente impulsos naturais irrefletidos. Penso, contudo, que poderíamos entreter a hipótese de que o problema esteja também no conteúdo que vem a reboque dessa interrupção, e na necessidade de recalcá-lo. Dito de outro modo, o incômodo causado pelo ensaio poderia estar tanto nesta imposição brusca de uma sexualidade consciente à criança, quanto na substância específica desta consciência, e na recusa em assumi-la explicitamente.

O que as críticas deixam de fora é a rede de articulação discursiva dentro da qual um tal ensaio pode ser projetado, em ambos os sentidos da palavra. Os elementos que compõem essa rede (quem fala, de onde fala, como fala, em que suporte fala, para quem fala…) não são fatores externos relevantes à compreensão de um enunciado: fazem parte dele, na medida em que constitutivos da criação de seu sentido. Talvez seja possível enxergar aí uma relação, que se não chega a ser de causa-e-efeito nem por isso é desimportante, entre as fotos da Vogue Kids e a tirania do desejo que se materializa, por exemplo, na infinidade de revistas e programas de TV sempre dispostos a ensinar nirvanas orgasmáticos e truques sexuais capazes de levar nossos parceiros à loucura. Tal pedagogia será tanto mais eficiente quanto mais passar desapercebida: basta a repetição incessante da promessa do prazer para que o(a) leitor(a) internalize inconscientemente a obrigação de desfrutá-lo. Somos livres para tudo, exceto para não gozar (e, claro, não produzir). Como qualquer obrigação imposta ao aparelho psíquico, esta também irá gerar suas formas específicas de culpa, seja pelo excesso, a culpa de se saber levando o imperativo do gozo ao seu paroxismo, ou pela falta, o fracasso em fazê-lo.

Não poderia ser o caso de vermos a sombra desta culpa projetada na indignação dispensada ao ensaio? Boa parte das críticas a Vogue Kids veio de consumidores de Marie Claire e genéricos, incapazes de perceber o papel que desempenham na situação que tanto repudiam. É evidente que não queremos crianças assumindo a consciência de sua sexualidade sem a maturidade necessária à sua vivência; bem menos evidente, no entanto, é assumirmos que gostaríamos também que elas não experimentassem a sexualidade nos moldes em que nós a legamos. O que torna as fotos perturbadoras não é somente o fato de mostrarem crianças “sensualizando” quase como se adultos fossem; é que o exagero que as imagens veiculam – o excedente de consciência que surge deslocado, isto é, num lugar onde não deveria existir – nos confronta com a tirania que atravessa o Real da nossa relação com o sexo. É um efeito semelhante ao que o humor, quando bem feito, consegue alcançar: a sobreposição de elementos que não deveriam aparecer misturados resultando num estranhamento que nos permite enxergar uma verdade oculta da relação da qual esses elementos são parte. Mas, porque insuportável, tal verdade precisa ser recalcada, e o veículo de sua propagação surge então como um Outro conveniente ao trabalho de sua negação.



segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A gestão antiperspirante: rumo à pobreza inodora, incolor e insípida

Morte do ambulante Carlos Augusto Muniz
Ambulante Carlos Augusto Muniz foi atingido por disparo na cabeça



A morte de um ambulante faz parte da manutenção da ocultação da pobreza através da interface armada do Estado

por Luciana Itikawa*

Em menos de uma semana, dois episódios sobre o comércio ambulante mostram a capacidade mágica de ocultação da pobreza, quando ela teima em aparecer, porém, de forma trágica, com a morte de três ambulantes: um em São Paulo e dois no Rio de Janeiro neste mês de Setembro de 2014.

A morte, com certeza, é o extremo da gestão militarizada de uma questão, entre outras, urbana. Apesar de todo o esforço dos governos em aumentar e complementar seu efetivo repressivo às várias manifestações da pobreza, esses trabalhadores continuarão a expor seus suores, enquanto esta não for um espectro que aparece apenas nas estatísticas.

O comércio ambulante está profundamente ligado à constituição do trabalho livre no Brasil e à permanência sistemática de trabalhadores à margem do mercado formal de trabalho, malgrado um dos maiores índices de formalização de carteiras profissionais da história recente.

Por que, então, os ambulantes “teimam” em aparecer e desafiar esses policiais armados nas grandes cidades? Por que, eles ainda estão trabalhando, apesar do Prefeito paulistano anterior ter proibido todas as licenças na cidade em 2012? Por que eles são permitidos em alguns locais e em outros não? Aqui vão algumas ponderações:

Em primeiro lugar, por que, então, eles insistem em desafiar o Estado trabalhando sem licença? Existem 138 mil ambulantes no município e 158 mil na região metropolitana de São Paulo segundo o DIEESE em 2010, apesar do atual número irrisório de licenças na cidade (1.940) representando apenas 1,4% do total de trabalhadores no município. Os outros cerca de 136.000 trabalhadores, portanto, são obrigados a correr diariamente para fugir da fiscalização.

O ambulante morto na Lapa, Carlos Augusto Muniz de Souza, de 30 anos, era um deles. Ele havia prometido à esposa na noite anterior: “Não vamos mais correr da polícia”. Não deu tempo, esta morte faz parte da manutenção da ocultação da pobreza através da interface armada do Estado. A Operação Delegada atua na superfície visível da ponta do iceberg daqueles que estão à margem simultaneamente do direito ao trabalho, direito à cidade, direito à proteção social, etc. Vide a violenta reintegração de posse de um imóvel realizada pela polícia militar ocorrida pouco dias antes no Centro de São Paulo.

Em segundo, por que ainda permanece o limbo jurídico sobre a regulamentação das licenças deles? O prefeito anterior proibiu todas as licenças e mesmo aqueles 1.940 que ainda as teriam, enfrentam o constrangimento de trabalhar há 2 anos por força de uma liminar da Justiça cuja fundamentação foi calcada no direito à cidade. A Ação Civil Pública movida pela Defensoria Pública do Estado de São Paulo e pelo Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos ainda precisa ser julgada para que o impasse institucional entre Prefeitura e Justiça se resolva. 

Apesar da tentativa dos trabalhadores e da sociedade civil terem instituído no ano passado um canal de diálogo quinzenal com a Prefeitura por 6 meses para resolver politicamente, nada avançou para a resolução do problema.
Em terceiro, por que o abismo entre o número de licenças e o número total de ambulantes que trabalham por toda a cidade? Para quem frequenta todo dia os terminais intermodais espalhados nas periferias para embarcar ou fazer a baldeação às 5-6hs ou 21-22hs já deve ter visto algumas dezenas de ambulantes servindo a imensa população que se desloca entre casa- trabalho.

Isso não seria novidade para ninguém se não tivéssemos a dimensão de que quase um estado de Sergipe inteiro (1,9 milhão) se movimenta todos os dias de um lado pro outro na região metropolitana, segundo o estudo A Mobilidade pendular na Macrometrópole paulista.

Este estudo mostra que apesar do crescimento da população da região metropolitana ter estacionado, seus movimentos pendulares quase duplicaram (de 1,1 milhão em 2000 para 1,9 milhões em 2010). Esses espaços de conexões de transporte passaram a ser territórios de comércio e serviços a essa imensa população itinerante, apesar das leis e secretarias de transporte subestimarem este fato.

Por este motivo, os trabalhadores ambulantes em 2013 se organizaram e conseguiram incluir pela primeira vez em um Plano Diretor do município de São Paulo, a necessidade desse comércio atender esse imenso fluxo de pessoas pelo território. Este coletivo de trabalhadores, chamado de Fórum dos Ambulantes, se organizou em 2012 para participar das audiências públicas do Plano Diretor e encaminhou três propostas, apesar de apenas uma ter sido incorporada: “criação de centros comerciais populares em áreas de grande circulação, como terminais de transporte coletivo e estações de metrô e trem” (pag. 10 DOM – Centralidades Polares e Lineares).

Em quarto, por que eles são permitidos em alguns locais e em outros não? Existe apenas um tipo de licença no espaço público, a “permissão de uso”, que é dirigida aos artesãos, jornaleiros, ambulantes, food trucks e até parklets. Por se tratar de ocupação em logradouros públicos, a permissão tem que ser precária e sem segurança na posse, ou seja, pode ser retirada unilateralmente pelo Poder Público. Entretanto, por que a vista grossa em alguns locais e a intolerância em outros? O comércio ambulante faz parte das inúmeras manifestações de pobreza que têm sido exterminadas dos espaços públicos e privados das áreas em valorização quando estes ameaçam os interesses imobiliários ou políticos.

A desculpa é quase sempre a execução de obras de infraestrutura, transporte, etc., mesmo quando aquilo que ocupar o lugar seja o mesmo tipo de atividade, porém, mais elitizado. Esse é, por exemplo, o caso dos food trucks, que conseguiram 900 licenças no município; ou das empresas de bebidas durante a Copa, que conseguiram o direito de ocupar todo o Vale do Anhangabaú para comercializar com exclusividade seus produtos.

Os trabalhadores ambulantes da cidade real não são um fato isolado a ser vencido por força da cidade legal. As manifestações de pobreza irão sempre desafiar as gestões que ainda creem governar pela pobreza, contanto que elas não tenham cheiro, nem cor e nem gosto.

* Luciana Itikawa, arquiteta e urbanista, doutora e pesquisadora pela Universidade de São Paulo.



sexta-feira, 26 de setembro de 2014

EUA: um Estado terrorista e inimigo da humanidade



Hoje, ocupado por dezenas de milhares de mercenários ao serviço de empresas mafiosas, o Iraque é na prática uma terra humilhada e ocupada, onde o poder real é exercido pelas transnacionais que se apropriaram do seu petróleo e do seu gás.

Por Miguel Urbano Rodrigues

O chamado Estado Islâmico-ISIL, que se apresenta como refundador do Califado é a ultima aberração gerada pela estratégia de terrorismo de estado do imperialismo estado-unidense.

Essa estratégia surgiu como consequência de efeitos não previstos da execução do projeto de dominação perpétua e universal sobre a humanidade, concebido ainda em vida de Roosevelt, no âmbito do War and Peace Program, um projeto que identificava nos EUA o herdeiro natural do Imperio Britânico.

O Médio Oriente foi a área escolhida pelo Pentágono e o Departamento de Estado para a arrancada do ambicioso Programa, precisamente porque o Reino Unido, muito enfraquecido pela guerra, ter iniciado ali a sua política de retirada escalonada de bastiões imperiais no mundo islâmico.

Nas décadas seguintes, a CIA promoveu golpes na Região com destaque para o que derrubou Mossadegh e restabeleceu no trono do Irão o Xá Reza Pahlavi.

O PANTANO AFEGÃO

A partir de 1980, o governo Reagan financiou e armou as organizações terroristas sunitas de Peshawar que combatiam a Revolução Afegã. Alguns dos seus dirigentes foram recebidos cmo heróis na Casa Branca como «combatentes da liberdade»; Reagan saudou-os como combatentes da liberde e «novos Bolivares».Os bandos desses heróis cortavam os seios a mulheres que não usavam a burka ou cegavam-nas com ácido sulfúrico.

Nessa época, o saudita Bin Laden interveio ativamente como aliado de confiança dos EUA (seu pai fora amigo da família Bush) nas campanhas que visavam o derrubamento do governo revolucionário de Kabul.

Quando Mikhail Gorbatchov abandonou o Afeganistão e os 7 de Peshawar tomaram o poder no país, essas organizações desentenderam-se e iniciou- se um período de guerras fratricidas.

No final da Presidência de Bush pai, os EUA, que tinham patrocinado a guerra de Saddam Hussein contra o Irão, reagiram à ocupação do Koweit, desencadeando a primeira guerra do Golfo em l991. Com o apoio de uma grande coligação avalisada pelo Conselho de Segurança, os iraquianos foram rapidamente derrotados. Bagdad foi submetida a bombardeamentos destruidores, mas Washington não se opôs a que Saddam permanecesse no poder.

No Afeganistão, cujo subsolo encerra recursos fabulosos, a situação assumiu aspetos tao caóticos, com os senhores da guerra a digladiarem-se, que Washington abriu a porta à entrada em cena dos Taliban, uma organização terrorista que a CIA havia criado no Paquistão como «reserva».

Os autointitulados «estudantes de teologia» conquistaram facilmente o país e, instalados em Kabul, assassinaram Muhammad Najibullah, o ultimo presidente legitimo, asilado na Sede da ONU, e promoveram uma politica de fanatismo religioso que fez regressar o país à Idade Media. Bin Laden, mudando de campo, surgiu então como aliado preferencial do mullah Omar, chefe espiritual dos Taliban.

Os EUA recolhiam frutos amargos da sua política agressiva contra o Islão e de apoio incondicional ao Estado sionista de Israel.

Mas foi somente em 2001, apos os atentados contra o World Trade Center e o Pentágono, que a Casa Branca, onde então pontificava Bush filho, tomou a decisão de invadir e ocupar o Afeganistão. Bin Laden foi guindado a inimigo número 1 dos EUA e a Al Qaeda, por ele fundada, adquiriu na propaganda americana as proporções de um polvo demoníaco cujos tentáculos envolveriam todo o mundo islâmico.

Mas, contrariando as previsões de Washington, o povo afegão resistiu à ocupação do país pelos EUA e pela NATO.

O Presidente Obama, que prometera acabar com aquela guerra impopular, enviou para o país mais 100 000 militares. Sucessivas ofensivas de «pacificação» fracassaram e generais prestigiados foram demitidos. Anunciada para este ano a total retirada das forças de combate, a promessa não será cumprida.

Transcorridos 13 anos da invasão, a Resistência 

Afegã (que transcende largamente os Talibans) controla quase todas as províncias, com as tropas estrangeiras concentradas em Kabul e nas principais cidades. O país, devastado pela guerra, está mais pobre do que antes da chegada dos americanos, mas a produção de opio aumentou muitíssimo.

O assassínio de Bin Laden no Paquistão numa operação de comandos nebulosa, montada pela CIA e o Pentágono, não contribuiu, alias, para melhorar a imagem de Obama.

IRAQUE,LIBIA,SIRIA

Longe de extraírem lições da sua política para a Região, os EUA desencadearam em março de 2003 a segunda guerra do Iraque, desta vez sem o aval da ONU.

O pretexto invocado – a existência de armas de extermínio massivo- foi forjado por Bush e Tony Blair. Tais armas, como foi provado, não existiam.

Na invasão foram utilizadas armas químicas proibidas pelas convenções internacionais. Crimes monstruosos foram cometidos e as torturas (incluindo abusos sexuais) infligidas pela soldadesca americana aos prisioneiros iraquianos tornaram-se tema de escândalo de proporções mundiais.

Saddam Hussein foi executado ,apos um mjulgamento sumário, com o aplauso de um governo fantoche, mas, transcorrida mais de uma década, o Iraque regrediu meio seculo. Centenas de milhares de iraquianos morreram de doenças curáveis e de desnutrição.

Hoje, ocupado por dezenas de milhares de mercenários ao serviço de empresas mafiosas, o Iraque é na prática uma terra humilhada e ocupada, onde o poder real é exercido pelas transnacionais que se apropriaram do seu petróleo e do seu gás.

Incapazes de encontrar soluções para a sua crise estrutural, os EUA prosseguiram com a sua agressiva estratégia (ampliando-a) de dominação imperial.

A política de cerco à China e à Rússia intensificou-se. De documentos secretos do Governo federal, tornados públicos

por influentes media, constam planos para arruinar e desmembrar a Rússia, reduzindo-a a potência de segunda classe. 

A multiplicidade de objetivos a atingir quase simultaneamente tem contribuído, porem, para que os resultados dessa política não correspondam às esperanças da Casa Branca.

As mal chamadas «primaveras árabes» foram ideadas para produzirem no Islão um efeito comparável ao das «revoluções coloridas». E isso não aconteceu. No Egito, apos uma cadeia de crises complexas e um golpe de estado que derrubou o presidente Morsi, os EUA conseguiram o que pretendiam. No Cairo ocupa o poder um governo militar do agrado do imperialismo norte-americano e que Israel encara com simpatia.

Mas o balanço da intervenção militar na Líbia é desastroso. Derrubaram e assassinaram Kadhafi, numa guerra de agressão imperial, viabilizada pela cumplicidade da ONU, guerra em que participaram ativamente a França e o Reino Unido, preparada com antecedência pela CIA e os serviços secretos britânicos e a Mossad israelense,
Destruíram as infraestruturas do país para se apossarem do seu petróleo e do seu gás.

Mas o desfecho da operação criminosa não correspondeu ao previsto no organigrama da agressão.

A Líbia é hoje um país ingovernável. Uma parte significativa dos «rebeldes», treinados e armados pelo imperialismo para lutar contra Khadafi, passaram a atuar por conta própria, em milícias que desconhecem o governo títere de Trípoli. O terrorismo tornou-se endémico. O atentado terrorista contra a missão diplomática dos EUA em Bengasi confirmou o estado de anarquia existente e a incapacidade de Washington para controlar as organizações terroristas que o imperialismo introduziu no país.

Do caos líbio não foram porem extraídos também os ensinamentos neles implícitos.

A escalada de agressões prosseguiu. A Síria foi o alvo seguinte. Washington repetiu a fórmula. Uma campanha mediática ampla e ruidosa demonizou o presidente Assad, apresentado como ditador brutal. Depois, «rebeldes» patriotas – muitos dos quadros são estrangeiros – iniciaram a luta contra o governo legitimo do pais.

Contrariando as previsões da CIA, as forças armadas, unidas em defesa do presidente Assad, resistiram e as organizações terroristas, ostensivamente apoiadas pela Turquia e pela Arabia Saudita, sofreram severas derrotas.

Dezenas de milhares de civis, sobretudo mulheres e crianças, foram vítimas da guerra patrocinada pelos EUA.

Compreendendo finalmente que o plano elaborado em Washington estava a fracassar, Obama, numa guinada tática, informou num discurso ameaçador que tinha decidido bombardear a Síria.

A firme atitude assumida pela Rússia obrigou-o, entretanto, a recuar e a desistir da intervenção militar direta.

Essa inocultável derrota política tornou necessária uma revisão da estratégia global dos EUA para todo o Medio Oriente.

Apercebendo-se de que haviam avaliado mal a relação de forças, a Casa Branca e o Pentágono adiaram sine dia o projeto de agressão à Republica Islâmica do Irão, e abriram negociações sobre o tema nuclear com um governo que o imperialismo identificava como polo do «eixo do mal».

A CATÁSTROFE UCRANIANA

A derrota sofrida pelo imperialismo na Síria coincidiu praticamente com o desenvolvimento de outro projeto imperial, mais ambicioso, que visava a integração a medio prazo da Ucrânia na União Europeia e na NATO.

Dispenso- me de recordar, por serem amplamente conhecidos, os acontecimentos que conduziram ao poder em Kiev um governo neofascista apos o derrubamento do presidente Yanukovich. Era um aventureiro, mas havia sido eleito democraticamente.

Mais uma vez o plano golpista foi minuciosamente preparado em Washington.

Mas, novamente, a Historia seguiu um rumo diferente do previsto pelo sistema de poder imperial.

A integração da Crimeia na Rússia demonstrou que o governo de Putin e Medvedev‎ não se deixava intimidar pela agressiva estratégia de Washington.

A recusa das populações russófonas dos leste da Ucrânia a submeter-se aos golpistas de Kiev levou observadores internacionais a admitir que a ofensiva das forças armadas da Ucrânia contra os «separatistas» de Donetsk e Lugansk poderia ser o prólogo de uma III Guerra Mundial. Mas a prudência e serenidade de Putin contribuíram para uma redução de tensões na área, evitando o alastramento de um conflito que poderia ter trágicas consequências para a humanidade.

A crise persiste, mas a própria incapacidade militar do bando de Kiev conduziu ao atual cessar-fogo e às negociações de Minsk.

Na Ucrânia, o tiro saiu também vez pela culatra ao governo dos EUA cuja aliança com fascistas assumidos ilumina o desprezo pela ética política da Administração Obama.

O PESADELO JIHADISTA

Atolado no pantanal ucraniano, o imperialismo estado-unidense (e os seus aliados) enfrenta nestes dias um desafio assustador para o qual sabe não ter solução.

Inesperadamente, uma organização de islamitas fanáticos irrompeu no noroeste do Iraque e em poucas semanas ocupou um amplo território naquele país e no norte da Síria.

Assumindo-se como interpretes intransigentes da sharia, tal como a concebem, proclamaram a restauração do Califado árabe e declaram a sua intenção de promover a sua expansão territorial e espiritual.

Logo nas primeiras semanas, a passagem desses jihadistas por cidades e aldeias conquistadas ficou assinalada pela prática de crimes hediondos, inseparáveis do fanatismo exacerbado da seita jihadista.

O imperialismo sentiu que o empurravam para um impasse. Obama não pode aceitar a ajuda do governo de Bashar al Assad, nem a do Irão. Perderia a face também se recorresse a forças terrestres para combater os jihadistas depois de ter festejado como acontecimento histórico a retirada do Iraque das tropas de combate. Optou então pelo recurso a bombardeamentos aéreos. Recebeu o apoio dos governos de Hollande e de Cameron, mas os especialistas do Pentágono acham que esses bombardeamentos, ditos «cirúrgicos» terão uma eficácia muito limitada.

Os jihadistas responderam degolando dois reféns britânicos em seu poder e ameaçam abater outros se os bombardeamentos prosseguirem.

É imprevisível no momento o desfecho do confronto. Mas os generais do Pentágono afirmam que o exército iraquiano e as milícias do Curdistão autónomo, aliado de Washington, não têm capacidade militar para derrotar os jihadistas.

Em Washington a Administração está mergulhada num pesadelo. Os media mais influentes, do New York Times à CNN, também.

Muitos quadros jihadistas são, afinal, provenientes de organizações terroristas criadas e financiadas pelos EUA para combater regimes que não se submetiam à dominação imperial. Alguns foram treinados por oficiais da US Army.

O desconforto dos media também é compreensível.

As guerras de agressão que atingiram o Afeganistão, o Iraque, a Líbia e a Síria foram precedidas de gigantescas campanhas de desinformação. Durante semanas, os povos dos EUA e da Europa foram massacrados com um tipo de propaganda que apresentava as intervenções militares como exigência da defesa da liberdade e dos direitos humanos em prol da democracia,contra a ditadura e a barbárie.

Goebbels, o ministro da Propaganda de Hitler, afirmava que uma mentira à força de repetida é aceite como verdade. As técnicas de desinformação utilizadas na época parecem hoje brincadeira de crianças se comparadas com a monstruosa máquina mediática controlada pelo imperialismo para anestesiar a consciência dos povos e justificar crimes monstruosos.

O presidente Obama cumpre neste jogo criminoso o papel que lhe foi distribuído. Na realidade o poder real nos EUA está nas mãos do grande capital e do Pentágono. Mas isso nao atenua a sua responsabilidade; a máscara não funciona , o presidente desempenha com prazer e hipocrisia a sua função na engrenagem do sistema de poder. Comporta-se na Casa Branca como inimigo da Humanidade.

Nos últimos seculos somente a Alemanha de Hitler criou uma situação comparável pela monstruosidade dos crimes cometidos à resultante hoje da estratégia de poder dos EUA. Com duas diferenças importantes: a política do III Reich suscitou repúdio universal, mas apenas a Europa foi cenário dos seus crimes. No tocante aos EUA, centenas de milhões de pessoas são confundidas pela fachada democrática do regime, mas os crimes cometidos têm dimensão planetária.

Qual o desfecho da perigosa crise de civilização que ameaça a própria continuidade da vida na Terra?

Vivemos um tempo, após a transformação da Rússia num pais capitalista, em que as forças da direita governam com arrogância em quase toda a Europa. Em Portugal sofremos um governo em que alguns ministros são mais reacionários que os de Salazar.

Mas a Historia é há milénios marcada pela alternância do fluxo e do refluxo. O pessimismo, o desalento não se justificam. A maré da contestação ao capitalismo está a subir.

Não esqueço que Marx ,após a derrota na Alemanha da Revolução de 1848 -49, quando uma vaga de desalento corria pela Europa criticou com veemência o oportunismo de esquerda e o de direita, contaminando a Liga dos Comunistas. Dirigindo-se à classe operária, afirmou que os trabalhadores poderiam ter de lutar 15,20 ou mesmo 50 anos antes de tomarem o poder. Mas isso não era motivo para se desviarem dos princípios e valores do comunismo.

A revolução socialista tardou 70 anos. E não eclodiu na Alemanha ou na França ,mas na Rússia autocrática. O ensinamento de Marx permanece válido. Mas neste limiar do seculo XXI não será necessário esperar tanto tempo.

A vitória final depende das massas como sujeito da História.

A advertência de Rosa Luxemburgo nao perdeu atualidade. Ou o capitalismo, hegemonizado pelo imperialismo norte-americano, empurra a humanidade para o abismo, ou a luta dos povos o erradica do planeta. A única alternativa, creio, será então o socialismo.



terça-feira, 23 de setembro de 2014

JOVENS DE DIREITA E A NOVA POLÍTICA DE SEMPRE

Jovens de direita e a nova política de sempre

Redução da maioridade penal, privatização das universidades públicas, kit para ensinar meninos a serem “machos” e até defesa do regime militar: conheça quem são e o que pensam os jovens candidatos da direita brasileira

Por Maíra Streit | Fotos retiradas do site Eleições 2014

A maioria deles nasceu nos anos 1980, período marcante no processo de redemocratização do país. Foi nessa década que eclodiu o movimento Diretas Já, em que diversos setores da sociedade – como lideranças sindicais, artistas, jornalistas e estudantes – se uniram para pedir eleições diretas para presidente. Foi também nessa fase o fim do conturbado regime militar, que, sob o pretexto de combater o comunismo, traçou várias das mais sangrentas páginas da história brasileira, com atos de censura, repressão e mortes.

A partir daí abriu-se espaço para um outro momento, com a aprovação de uma nova Constituição Federal para, no fim da década, ser a vez de o povo finalmente ir às urnas para eleger seu maior representante – e ter forças para tirá-lo três anos depois, devido a denúncias de corrupção. Não há dúvidas de que os anos 1980 foram tumultuados e igualmente importantes para o que se entende hoje da política brasileira.

E é natural pensar que essa geração, nascida em meio a tantas conquistas democráticas, tenha crescido com uma visão mais progressista e libertária, uma vez que herdou as benesses vindas da luta de gerações anteriores e só precisava mantê-las. Porém, na prática, a realidade não é bem essa. Muitos rostos jovens aparecem, cada vez mais, na defesa de valores que deixariam os militares de outrora bastante orgulhosos.

Pena de morte, redução da maioridade penal, endurecimento de táticas para conseguir confissões de suspeitos e até a volta dos anos de chumbo. Essas são algumas das bandeiras levantadas por uma ala que, segundo especialistas, está perdendo a vergonha de marcar posição e assumir seus ideais conservadores. A nova direita no país é formada por lideranças determinadas a romper com o que consideram uma afronta aos “valores da família tradicional” e supostos retrocessos econômicos e sociais implantados pelo governo nos últimos anos.

Trazendo para o atual cenário – em momento de plenas campanhas eleitorais –, o cientista político Cláudio Couto, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), afirma que a chegada do Partido dos Trabalhadores (PT) ao governo federal acirrou a polarização ideológica no Brasil. Aqueles que contrariam as medidas populares assumidas por essa gestão passaram a bater de frente com as propostas de redução das disparidades econômicas e das distinções por gênero, orientação sexual, etnia ou modo de vida.

Ele afirma que o sentimento de “antiesquerdismo” uniu grupos liderados pelo PSDB que pudessem contrapor, de maneira mais enfática, o modo de gestão adotado atualmente. “Chama a atenção, particularmente, o conservadorismo de uma certa juventude tucana, sobretudo quando comparado à posição dos tucanos mais velhos, fundadores do partido, bem menos conservadores. Virou o partido do que em minha juventude chamávamos de ‘mauricinhos’, hoje chamados de ‘coxinhas’”, ressalta.

Para Couto, o rechaço aos programas sociais vigentes traduz o incômodo que eles podem gerar nas camadas mais conservadoras da população e cita como exemplo o programa Bolsa Família, apelidado por parte da oposição de “Bolsa Esmola”. “Os direitistas tendem a rejeitar as políticas públicas que efetivam a igualdade. Assim, podem dizer que não são contra o valor da igualdade, mas rejeitam qualquer meio prático que possibilite buscá-la. E, claro, sempre usam para essa desqualificação o argumento da meritocracia, como se houvesse uma competição equitativa entre os que partem de condições muito desiguais”, explica.

A juventude direitista, então, assumiu o discurso moralizante de seus antepassados e tratou de levá-lo adiante, com todo o afinco. Para o professor de Ciência Política do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP), da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), João Feres Júnior, é compreensível que isso aconteça. Ele lembra que, com as grandes manifestações de junho de 2013, houve um discurso apolítico bastante expressivo dentro de uma multidão heterogênea e desorganizada. “Mas, ao mesmo tempo, quando se olha para o lado das eleições, a tendência dos apolíticos é defender os candidatos de direita. Eles pedem mudanças, mas acabam votando nos mesmos, ou até em outros piores”, ressalta.

O especialista destaca que o Brasil viveu, até hoje, um período de transição democrática. Porém, o discurso de direita vinha sendo mantido com o apoio da mídia, que, segundo ele, defende a opinião de apenas um lado: o do liberalismo econômico e de outros ideais conservadores na sociedade. Feres vê a reafirmação desses grupos como parte natural do amadurecimento da democracia no país. No entanto, faz um alerta: “A direita tem sido golpista no Brasil. Espero que não aconteça mais e eles se mantenham dentro do debate, mas acho que ocorreria de novo, se tivessem a oportunidade”.

O que mostram os números

Em 2013, uma pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha indagou os brasileiros sobre uma série de questões envolvendo concepções políticas e sociais. O resultado mostrou que, de forma geral, a população se divide de maneira igualitária entre a direita (39%, sendo 10% de direita, e os demais 29%, de centro-direita) e esquerda (41%, sendo 10% de esquerda, e 31% de centro-esquerda).

Quando o assunto é economia, a maior fatia fica à esquerda (46%, considerando 21% de esquerda, e outros 25% de centro-esquerda), enquanto a direita abrange 26% (8% de direita, e 18%, de centro-direita), e o centro abriga 27%. Ao tratar somente de temas comportamentais ligados a valores, os segmentos da população com mais afinidades com a direita (49%, sendo 12% de direita, e 37%, de centro-direita) ultrapassam os mais ligados à esquerda (29%, sendo 4% afinados com a esquerda, e 25%, com a centro-esquerda), e o centro ganha espaço (22%).

O levantamento ouviu a opinião de quase 5 mil pessoas em cerca de 194 municípios, acerca de assuntos como crença em Deus, homossexualidade, pobreza, uso de drogas, criminalidade e posse de armas. Os posicionamentos defendidos pelos entrevistados mostram que a sociedade brasileira ainda mantém opiniões conservadoras a respeito de muitos temas considerados polêmicos no cenário nacional.

E é nesse nicho que os partidos de direita têm apostado para conseguir alavancar votos e eleger seus representantes. O professor Adriano Codato, do Departamento de Ciência Política e Sociologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), chama a atenção para uma parcela de alguns desses grupos que, embora seja “eleitoralmente irrelevante”, tem visibilidade nas redes sociais, nos fóruns de discussão e é alimentada pela grande imprensa por conta de suas notícias e opiniões.

A grande contradição, segundo Codato, está em determinados candidatos defenderem, ao mesmo tempo, o liberalismo econômico, mas se oporem frontalmente a alguns valores individuais. E, para ele, essa é também uma concepção que muda de acordo com a classe social. “À medida em que as pessoas melhoram de vida, elas tendem a ser mais conservadoras, justamente para não arriscar perder o status conquistado”, afirma.

Quem são eles?

Os estudiosos apontam para os efeitos das grandes manifestações do ano passado na integração de parte da juventude no discurso ideológico de direita. Também alertam que a mídia tem, em grande parte, responsabilidade na manutenção de um viés mais reacionário no país, além da polarização política inevitável com a ascensão do PT ao poder, que, de certa forma, uniu a oposição para derrubá-lo. Mas o que pensam os próprios jovens que integram e defendem os ideais de direita?

Fórum foi ouvir quatro representantes que concorrem a cargos públicos nas eleições deste ano, para entender as motivações, as propostas de campanha e o que, de fato, acreditam ser o melhor projeto para a mudança nas condições de vida da população. As opiniões são diversas e, muitas vezes, polêmicas. Quanto ao resultado disso tudo, somente as urnas poderão dizer.

dr-matheus-sathlerMatheus Sathler
“Praticantes do homossexualismo infectaram todas as instituições com o que chamo do vírus ideológico do ‘Eboiola’”, afirma
Idade: 31 anos
Partido: PSDB/DF
Profissão: advogado
Candidato a deputado federal

Em pouco tempo de vida pública, Matheus Sathler coleciona uma lista infindável de polêmicas em torno de seu nome. A maior delas diz respeito à defesa da criação de um “kit macho”, para ensinar meninos a “gostar somente de mulheres”, e um “kit fêmea”, que seria responsável por passar às meninas informações de como “serem femininas” e seguirem “o seu papel correto” na sociedade, segundo palavras do próprio advogado.

De acordo com ele, a proposta viria para contrapor o chamado “kit gay”, projeto de distribuição de conteúdos e materiais contra a homofobia nas escolas. A ideia foi apresentada durante a propaganda eleitoral na televisão e causou revolta entre militantes feministas e do movimento LGBT de todo o país.

Questionado sobre o mal-estar gerado pelo assunto, o presidente regional do PSDB, Eduardo Jorge, determinou que o programa fosse retirado do ar e afirmou que o partido não compactua com o tom homofóbico apresentado pelo jovem candidato. Porém, isso não impediu que Sathler continuasse defendendo o projeto em entrevistas e reuniões de campanha e, até o momento, não houve qualquer medida que inviabilizasse a sua candidatura.

O ataque às mulheres e aos homossexuais fica explícito, por exemplo, ao defender que esses grupos devem manter distância da polícia e das Forças Armadas. “Nós nos baseamos no fato de a mulher ser muito delicada para exercer tal atividade notoriamente bruta, rude e máscula. Mas minha posição mais contundente é contra a presença dos praticantes do homossexualismo [sic] nessa instituição tão honrada. O que eles querem não é servir a pátria, mas enfiar sua agenda sodomita goela abaixo para desmoralizar essa instituição de machos”, destaca.

Aliás, o linguajar politicamente incorreto se tornou marca registrada do candidato, que completou: “infelizmente os praticantes do homossexualismo infectaram todas as instituições com o que chamo do vírus ideológico do ‘Eboiola’, principalmente os partidos políticos”. Em vídeo publicado no YouTube, Stathler registra em cartório o seu compromisso de doar 50% do salário como deputado para “recuperação dos órgãos genitais” de vítimas de “estupro pedófilo homossexual”. Em outra gravação, chama a presidenta Dilma Rousseff de “anta” e afirma sentir orgulho de ser chamado de machista.

paulo-batistaPaulo Batista
O raio privatizador não perdoa nem as universidades públicas
Idade: 34 anos
Partido: PRP/SP
Profissão: empresário
Candidato a deputado estadual

Com o slogan “Magoe um socialista, vote no Batista”, o candidato de São Paulo é autor de uma das campanhas mais excêntricas das eleições deste ano. Em vídeo de divulgação de sua candidatura, ele aparece como um super-herói que tem como poder o “raio privatizador”. Ao ser disparado contra universitários em uma manifestação, eles logo chegam à formatura. O “super-poder” também teria sido o responsável por melhorias nas condições do metrô.

Embora a maneira de explicitar isso seja questionável para alguns eleitores por causa do tom extremamente debochado, o material deixa nítida a ideia do candidato de que as privatizações são a melhor solução para os problemas da sociedade brasileira. Ideia essa que não deixou de fora nem mesmo universidades conceituadas como a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade Estadual Paulista (Unesp), que na concepção dele, devem se tornar instituições particulares.

De acordo com Batista, a tradição de defender as universidades públicas seria uma forma de os mais pobres financiarem a faculdade dos mais ricos. “Cada aluno da USP, por exemplo, custa mensalmente aos cofres públicos cerca de R$ 4.500. Tais recursos são direcionados quase que exclusivamente a pagamentos de salários e encargos, deixando a instituição de joelhos diante de grupos de pressão como sindicatos e lideranças estudantis ligadas a partidos de esquerda”, acredita.

Outra crítica veemente do candidato do PRP diz respeito ao programa “De Braços Abertos”, implantado pelo prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, para resgatar socialmente usuários de crack da região de Nova Luz, centro da cidade. Para ele, a iniciativa seria uma forma de o PT financiar o consumo de drogas entre os dependentes, o que ele chama de “Bolsa Crack”. “O suposto salário não é nada além de uma desculpa para a oferta de dinheiro a usuários de tal droga”, alega.

Ao contrário do que foi afirmado por Batista, dados do Sistema de Informações Criminais (Infocrim), da Secretaria Estadual de Segurança Pública, mostram que, após o programa, o consumo de crack foi reduzido, em média, de 50% a 70%. E, dos 422 beneficiários cadastrados, 23 já receberam o atestado médico de aptidão ao mercado de trabalho, com acompanhamento feito por equipes de saúde e assistência social.

eduardo-bolsonaroEduardo Bolsonaro
Para ele, grupos LGBTs querem criar uma “super raça” e tentam segregar a sociedade
Idade: 30 anos
Partido: PSC/SP
Profissão: policial federal
Candidato a deputado federal

Eduardo estreia na política tendo como principal cabo eleitoral seu pai, o controverso deputado Jair Bolsonaro (PP/RJ), que sustenta o título de um dos maiores opositores à causa LGBT do país. Além deste, Jair tem outros dois filhos que seguiram a mesma trajetória: o candidato a deputado estadual Flávio Bolsonaro (PP/RJ) e ainda Carlos Bolsonaro (PP/RJ), que se tornou, nas eleições de 2000, o mais jovem vereador do Brasil.

Mesmo tendo sido o único a não aderir ao partido do pai, Eduardo não destoa das pautas defendidas pela família e ainda tem como padrinho político o colega de PSC Marco Feliciano, bastante criticado por sua atuação agressiva diante de minorias étnicas e sexuais.

Formado em Direito e inspetor da Polícia Federal, o jovem candidato do PSC tem como principais propostas a redução da maioridade penal, a defesa do agronegócio, da propriedade privada e da liberação do uso de armas para o cidadão comum, além da proibição do ensino da “ideologia de esquerda” nas escolas. Segundo ele, professores utilizam a sala de aula para defender o socialismo e a implantação de regimes totalitários, como parte de uma tentativa de doutrinação política.

Nesse contexto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo é, obviamente, rechaçado por Eduardo. “Acreditamos que uma pessoa tem que ser valorizada por seu caráter e competência e não por sua convicção sexual, como propõem os articulados grupos LGBTs, que com essa nova modalidade de imposição de uma ‘super raça’, além de abocanhar milhões de reais de dinheiro público, mais uma vez tentam segregar a sociedade”, afirma.

Ele diz que, por possuir uma formação cristã, vê o assunto sob um ponto de vista diferente. “Eu me posiciono contrário, pois acredito que uma família saudável só pode ser formada por homem e mulher, conforme, inclusive, prevê nossa Constituição”, conclui, reafirmando que o pai é seu maior ídolo e inspiração nessa trajetória política.

lucas-trevizanLucas Trevizan
O candidato do PSC diz que apoiaria caso os militares resolvessem voltar ao poder
Idade: 22 anos
Partido: PSC/SP
Profissão: estudante
Candidato a deputado federal

Lucas Trevizan se considera, antes de tudo, um patriota. Por ter sido militar, defende que o golpe de 1964 foi uma saída para “impedir o comunismo de tornar o Brasil uma franquia de Cuba”. Apesar de ser bastante jovem, com pouco mais de 20 anos, o discurso é antigo. “Meus pais, tios, primos e amigos viveram essa época e nenhum foi preso. Sabe por quê? Eles não frequentavam o covil dos guerrilheiros, não tramavam assaltos, não sequestravam, não mataram civis e militares. Eles estudavam e trabalhavam”, garante.

Assumidamente conservador, Lucas reforça o compromisso com a família tradicional como o maior patrimônio da nação e enfatiza ser parente de um dos líderes da extinta Aliança Renovadora Nacional (Arena), o ex-deputado Sólon Borges dos Reis, já falecido. “Tenho orgulho em dizer que a farda é minha segunda pele. Não há dúvidas de que o regime trouxe avanços para o Brasil. Se não fossem os militares, não seríamos o que somos hoje”, destaca.

Quanto a uma possível volta dos militares ao poder, ele não descarta o seu apoio, caso o país “precise de uma intervenção”. E complementa: “se essa for a vontade do povo”. Ele acredita que o que houve no período da ditadura foi uma exceção e que os livros deturpam a história, colocando os presos políticos como heróis.

Lucas diz não acreditar em um Estado laico porque, segundo ele, temos uma Constituição “promulgada sob a proteção de Deus”. O candidato afirma que a religião tem um papel fundamental na formação do ser humano e não vê equívocos em misturar crenças pessoais com o dia-a-dia de cargos públicos, já que tem como eleitorado o povo cristão e precisa representá-lo. “Religião e política são irmãs gêmeas. Porém, a política é a irmã rebelde”, filosofa.



sábado, 20 de setembro de 2014

Por uma esquerda inconformista (resposta a Breno Altman)



Por Juliano Medeiros


Dias atrás foi publicado artigo de autoria de Breno Altman, com o provocativo título que pergunta "por que a ultra-esquerda brasileira é residual".


Curiosamente, Altman coloca a questão em debate justamente no momento em que o PT busca apoderar-se de um discurso mais ideológico contra sua principal adversária nessas eleições, Marina Silva, evocando uma contundente crítica aos bancos e defendendo - ainda que timidamente - o controle público sobre o Banco Central. Não considero que Altman, conhecido por estimular debates fundamentais para a esquerda brasileira, esteja apenas servindo como anteparo a uma estratégia que busca proteger o flanco petista junto aos eleitores assumidamente de esquerda. Ainda assim, seu artigo sugere questões que não poderiam deixar de ser respondidas.

Começo com o título do artigo, que apresenta uma premissa no mínimo questionável: seriam os partidos por ele citados membros de uma mesma "ultra-esquerda", digna de ser assim definida? O PCO, por exemplo, desde o início da campanha eleitoral deixou claro que seu objetivo é estritamente propagandístico. O PCB, por sua vez, embora não diga com essas palavras, vai mais ou menos pelo mesmo caminho, quando afirma que a prioridade nas eleições é a denúncia do capitalismo. Já o PSTU relativiza esse discurso, uma vez que admite que a eleição de parlamentares socialistas cumpre um importante papel na luta anticapitalista. O PSOL, por sua vez, nega peremptoriamente essas perspectivas e não esconde de ninguém que vê na disputa das instituições um elemento essencial na construção de uma alternativa de poder dos trabalhadores. Assim, além do fato de acreditarem que o socialismo é um objetivo a ser alcançado, pouco há em comum entre um partido minúsculo como o PCO e uma agremiação como o PSOL, que governa uma capital e elegeu parlamentares em todos os níveis desde que foi criado. Portanto, rotular pontos de vista tão distintos simplesmente como parte de uma "ultra-esquerda" não passa de um recurso de desqualificação que não pega bem para quem quer discutir a sério os dilemas da esquerda brasileira.

Mas não é aí que reside a diferença fundamental entre a análise de Altman e aquela que fazem os partidos – e falo apenas em nome do PSOL – que optaram por manter-se fora da grande concertação liderada pelo PT. Na verdade, a questão de fundo é a validade do pacto conservador – no dizer de um intelectual petista de boa-fé – como forma de superação dos limites historicamente impostos pela dinâmica capitalista brasileira. Particularmente, não estou entre aqueles que imputam à uma suposta "traição" do PT o abandono de sua vocação anticapitalista. Acredito que, convencido de que a sociedade brasileira não suportava mais que um "reformismo fraco", o PT abandonou a perspectiva de superação política e econômica do modelo das elites em favor de uma adaptação às regras do jogo, um aggiornamento, no dizer de Lincoln Secco.

Mas é compreensível que Altman busque forjar uma caricatura de nossas posições. Só assim pode simplificar a realidade para colocá-la a favor de seu discurso conformista. Quem conhece o mínimo da dinâmica econômica do capitalismo brasileiro, sabe que não é possível manter uma política macroeconômica que privilegie igualmente todos os ramos da economia. E ao fazer determinadas opções em favor deste ou daquele setor, o PT acaba forjando suas alianças. Por exemplo, enquanto o agronegócio lucra como nunca com a atual política cambial – herdada dos neoliberais e mantida pelo PT – a indústria definha ano a ano. Assim se constrói o pacto de classes que permite que um poderoso partido com raízes profundas no movimento de massas possa servir como elemento estabilizador da hegemonia de determinas frações da burguesia. Isso é o mesmo que dizer que "o PT e os demais partidos burgueses seriam farinha do mesmo saco"? Evidente que não. Essa seria uma leitura pobre (ou, pelo menos, propagandística) da realidade. Tão pobre quanto a que coloca PSOL e PCO “no mesmo saco”...

Afora os preconceitos e caricaturas que não merecem comentários (como a da "origem de classe" dos partidos que não compõem o governo petista), Altman agarra-se a duas teses principais: a) o PT tem grande base social e enraizamento popular – coisa que falta a muitos partidos da tal "ultra-esquerda" – porque representa verdadeiramente os interesses de classe dos trabalhadores; b) ao não apoiar o governo petista, a "ultra-esquerda" alia-se indiretamente à burguesia.

As premissas de Altman poderiam ser corretas, não fossem os ensinamentos da história. Os elementos destacados por ele como prova do compromisso do PT com os trabalhadores – expansão dos gastos públicos, políticas distributivistas, aumento do emprego e da renda dos trabalhadores – são, objetivamente, ganhos reais, mas que não comprovam qualquer compromisso em si. Por exemplo, o PMDB, partido que melhor representa os interesses do agronegócio, antagônicos ao desenvolvimento e aos trabalhadores, está alinhadíssimo com o governo. E por que seria? Porque, objetivamente, os ganhos listados por Altman não foram obstáculos ao projeto desta parte das elites. Pelo contrário. Aumentar a renda e expandir os gastos públicos, por exemplo, são instrumentos utilizados pela burguesia sempre que as condições conjunturais permitirem. Ou a Ditadura Militar também não aumentou o emprego e a renda, angariando ampla simpatia popular, no período do chamado “milagre econômico”? Não representava o regime militar um tipo de nacionalismo conservador, útil a determinadas frações da burguesia? Evidentemente, o aumento do emprego, da renda, das políticas redistributivas, é resultado de determinadas opções que podem ser consideradas corretas. Mas o fato de que a maioria da população não tenha se convencido dos limites do lulismo – tal como não estava convencida das propostas radicais do PT em 1989, optando por Collor – não colocam a "narrativa" de Altman mais próxima da realidade.

Por isso o petismo precisa lançar mão de outro argumento central: o de que não apoiar o governo é fazer, objetivamente, o jogo da direita. O problema, aqui, é que Altman considera a "direita" um bloco homogêneo, cujo "núcleo central" está em oposição ao governo. Nada mais falso. O núcleo da burguesia que assumiu protagonismo com o crescimento da economia mundial e a explosão das commodities em meados da década passada é aquele que hoje está ao lado do governo e não contra ele: o agronegócio, as empreiteiras e setores do capital financeiro. Ficaram no prejuízo a indústria e outra parte dos financistas. A CNA, de Kátia Abreu, não está com o governo? As empreiteiras, não estão com o governo? Os partidos que representam esses setores não estão com o governo?

A narrativa que coloca a direita como um bloco homogêneo é pobre, mas funcional. Através dela, todos os que estiverem contra o governo, estão com a direita. A retomada das privatizações (ou "concessões", como prefere o governo), a regressão da legislação ambiental e indígena, o crescimento do fundamentalismo no Congresso Nacional, as altas taxas de juros que inviabilizam o investimento produtivo e garantem o lucro dos bancos, tudo isso, não pode ser imputado exclusivamente a uma direita abstrata, que só existe em oposição ao governo. A direita também está no governo. E não através de um golpe, mas convidada pelos anfitriões do baile. Com isso, este também é um governo da direita, ou ao menos de parte dela. Da mesma forma, há milhares de trabalhadores que consideram, por ausência de uma alternativa, que este também é seu governo. Como achava a maioria dos trabalhadores que viviam sob o fascismo na Itália dos anos 20. Com isso, quero dizer que legitimidade não é suficiente para determinar o caráter de um projeto.

Por fim, afora todo o conformismo de Altman, para o qual o governo está no limite do possível, encontro em seu artigo uma afirmação verdadeira: há espaço à esquerda do PT. Não para cumprir o papel sugerido por Altman – a saber, a de uma "consciência crítica" do PT – mas para apresentar uma alternativa de poder que considere a hipótese de enfrentamento com os senhores que, há quinhentos anos, determinam os rumos do país. Esse é o bloco histórico do qual o Brasil precisa, e espero sinceramente que nele estejam muitos pós-petistas, que não tendo abandonado a crença de que os trabalhadores podem determinar seu destino, não aceitaram os limites do conformismo que a realpolitik impôs ao PT.