sexta-feira, 24 de julho de 2015

A Burrice da Faixa Etária

11655312_1124601150889025_1886820381_n


Por José Eisenberg

Sabemos o que aconteceu quando a discussão acerca do Estatuto do Desarmamento desembocou em um referendo no Brasil em 2005. Para simplificar, os Bolsonaros da vida venceram. Uma década depois, estamos nos aproximando de um desfecho para o debate parlamentar acerca da maioridade penal que, prevalecendo a lógica que produziu a derrota do Estatuto de Desarmamento, levará a outra vitória de Bolsonaros, representante emblemático das lideranças políticas brasileiras que buscam extrair os instintos mais selvagens e vingativos de uma população socializada na violência desmedida do Estado contra sua população. Sou um pessimista: a maioridade penal para crimes graves será reduzida para 16 anos, e pelas mesmas razões que o Estatuto foi rejeitado em 2005.

O que mais me irrita nesta narrativa imbricada é o modo como as lideranças que buscam reagir a esta tendência constroem seus argumentos. Longe de mim atribuir a derrota que preconizo à tibiez desta retórica. Mas a minha irritação intelectual com ela não é afetada por isto. Outras ideias estapafúrdias com carga moral igualmente lastimável aparecerão, e melhor nos prepararmos para ser mais arguto ao arguir senão quisermos conhecer novas derrotas que acabem por destruir parte das conquistas liberais dos últimos 150 anos no Brasil. A retórica daqueles que defendem publicamente estas conquistas está profundamente equivocada se ela tem como objetivo defendê-las. A frustração de 2005 se repetirá.

No caso da maioridade penal, o maior problema que identifico é que faixas etárias são uma categoria burra. Qualificar o debate sobre a maioridade penal a partir de uma psicologia do desenvolvimento humano, de um diagnóstico acerca da qualidade do sistema carcerário e sua capacidade de assimilar meninos (são quase todos homens, não mulheres) mais novos, da necessidade de ressocializar estes jovens em instituições capazes de prepará-los para o mercado de trabalho e prover-lhes a educação necessária para isso: todos estes argumentos são ruins porque dependem, em última instância, da construção de uma barreira de entrada e/ou exclusão nas instituições, liberdades e penas previstos por lei, com base na idade do cidadão em foco. Não é possível decidir a priori qual é a idade do ingresso pleno na cidadania, com todos os seus direitos e deveres. Tampouco é desejável alcançar esta façanha, pois é razoável presumir que, como lembrava Hobbes, pelo menos crianças e loucos devem ser subtraídos desta equação no que tange suas obrigações, mas não todos os seus direitos. Estipular que é necessário ter 29 anos para ser senador, então, é somente levar esta insanidade ao limite do pragmatismo, como vimos recentemente. Mas o problema se espraia por todo espectro de direitos e deveres que conformam a cidadania em uma sociedade política.

Creio, por isso, que o momento é de revigorar os argumentos de resistência a estes instintos selvagens da sociedade brasileira que encontram reverberação em falas e argumentos expressos pelos Bolsonaros da vida. Comecemos por uma premissa básica, tautológica: todo cidadão é cidadão, não mais nem menos cidadão que outro cidadão. Assim sendo, o que se aplica a um se aplica a outro. Da mesma forma, todo direito ou dever que é de um, será igualmente de outro. Isto não depende de faixa etária. Privilégios para idosos até podem ser estipulados a partir de sua impotência diante de alguns deveres e de sua prioridade diante de alguns direitos. Mas isso não altera a compleição dos direitos e deveres que eles têm, apenas subtrai no plano da aplicação o caráter vinculante que eles possam assumir.

Daí por exemplo, o voto facultativo para os mais velhos, acima de 70 anos. Por razões que não importam a esta discussão no momento, como os idosos, os jovens com 16 ou 17 anos de idade também foram facultados o direito de votar, sem entretanto terem que compartilhar o dever imputado a este ato para os demais cidadãos acima de 18 anos. Em certa medida, podemos dizer que eles não têm o direito de votar, mas o privilégio, porque ninguém no Brasil tem o direito de votar. Temos todos um dever.

Se olharmos para a tipologia clássica de direitos sob o liberalismo que os divide em direitos sociais, políticos e civis é possível enxergar o problema posto com maior clareza. Não só os direitos e deveres desconhecem, na maior parte das vezes, faixas etárias que determinam quem é portador ou não deste ou daquele direito ou dever, como a isonomia no tratamento de direitos dos diferentes tipos faz parte da lógica de sua ordenação. Isso não subtrai a possibilidade de determinar a hierarquia entre os tipos – afirmando, por exemplo, que direitos sociais são pré-condições para o exercício pleno de direitos políticos – mas coloca um imperativo que me parece estar ausente do atual debate sobre a maioridade penal.

Ora, se vamos reduzir a maioridade penal para certos crimes e “emancipar” jovens de 16 e 17 anos para as regras de execução penal que os maiores de 18 anos estão submetidos, me parece que, por analogia, seja no plano dos direitos políticos, seja no plano dos direitos sociais, esta “emancipação” também precisaria ocorrer. Trocando em miúdos, eu não consigo me posicionar a favor ou contra esta ou aquela idade ser tratada como início da idade da razão, em que jovens finalmente podem ser encarados como cidadãos plenos. Mas a ideia de que ele possa ser tratado como homicida comum e, ao mesmo tempo, não possa se eleger senador ou ter direito a uma boa educação pública, me parece bizarra.

É importante, portanto, qualificar o argumento liberal sobre a maioridade penal. Especulemos, por exemplo, sobre das tensões entre a redução da maioridade penal e o voto facultativo dos cidadãos da mesma faixa etária. Penso que cidadãos que podem ser “emancipados” no plano penal desta forma, que já podem ser emancipados (sem aspas) no plano civil, deveriam ser emancipados no plano político também. Isto significaria, no contexto do marco jurídico brasileiro, converter o voto facultativo destes jovens em voto obrigatório, como é para os demais cidadãos maiores de 18 anos. Quem pode parar na cadeia com outros “bandidos” por homicídio “que nem todo mundo”, tem a obrigação de votar “que nem todo mundo”.

No Brasil hoje, são cerca de 7 milhões de jovens com 16 ou 17 anos de idade. Destes, apenas 1/4 tirou título de eleitor para votar ano passado. Tenho curiosidade para saber o que aconteceria caso todos fossem obrigados a votar e pudessem ser eleitos. Mas se os Bolsonaros da vida querem tanto fazer o populismo selvagem que mexe com os piores instintos de uma cidadania excluída e rebaixada no exercício de seus direitos e deveres, que pelo menos tenham que se submeter à opinião destes eleitores quando chegar o momento de renovar seus mandatos, obtidos na exploração destes instintos. E que esses jovens, pobres quase todos pobres, possam gozar plenamente de seus deveres, contribuindo para subtrair a apatia política que sempre atingirá aqueles que são criminalizados e deixados à margem dos processos democráticos.


sexta-feira, 17 de julho de 2015

Rendição da Grécia, miséria do euro e do capitalismo

150715-GréciaB


Humilhação imposta a Atenas é aviltante até nos detalhes. Mas esclarece algo: limitar-se à lógica da aristocracia financeira é o túmulo dos projetos transformadores

Por John Cassidy | Tradução: Antonio Martins

Os governantes da Europa que retornaram de Bruxelas a suas capitais, após a maratona de negociações que manteve a Grécia na zona do euro, com enorme custo para a soberania política do país, definiram um novo cenário político para o continente. Ele é ameaçador. Ao forçar o governo de Alexis Tripras a uma rendição abjeta – ignorando os pedidos de alguns de seus vizinhos, em particular a França – a Alemanha exerceu com estrondo, talvez pela primeira vez após a reunificação, seu poder no palco europeu.

Desde que o Syriza, partido grego de esquerda, foi eleito, em janeiro, sobre uma plataforma de acabar com as políticas de “austeridade” impostas pela União Europeia (UE), tornou-se óbvio que Angela Merkel, a chanceler alemã e governante de facto da Europa, reteve a chave que permitiria resolver a crise. Por duas vezes nos últimos meses – primeiro em março e depois na semana passada – expressei a esperança de que a chanceler ultrapassasse a ideologia econômica conservadora alemã, uma espécie de “ordoliberalismo”, e os preconceitos germânicos contra os europeus do Sul. Ele poderia conceber uma solução que, embora obtendo concessões significativas do governo grego, preservasse os ideais de comunalidade e solidariedade que supostamente sustentam a UE. Tragicamente, a chanceler foi incapaz de corresponder ao desafio

Ao invés de adotar o manto de uma estadista europeia, ela colocou-se ao lado de seu ministro de Finanças linha-dura, Wolfgang Schäuble, forçando Atenas a rastejar diante de seus credores, sob pena de deixar a zona do euro – uma opção à qual a sociedade grega se opunha. Agora que Tsipras voltou a Atenas, ele enfrenta a tarefa indesejável de persuadir o parlamento grego a aprovar o que talvez seja o acordo mais impositivo e invasivo entre uma nação avançada e seus credores desde a Segunda Guerra Mundial. Se o Parlamento grego recusar a ceder ao acerto, o país não receberá mais dinheiro, seu governo será forçado a dar calote em mais empréstimos, seus bancos entrarão em colapso e ele será forçado a lançar sua própria moeda.

Uma declaração de seis páginas emitida na tarde de segunda-feira pelos governantes da zona do euro estabeleceu os termos da rendição grega. O documento foi redigido em termos que parecem escolhidos para infligir humilhação máxima sobre Tsipras e seus companheiros do Syriza. Tome-se, por exemplo, o papel de um dos credores da Grécia, o Fundo Monetário Internacional (FMI), que muitos gregos culpam pelas políticas de “austeridade” impostas como condições, nos empréstimos de 2010 e 2012. Nas últimas duas semanas, à medida em ia sendo forçado a recuar em todos os pontos, Tsipras insistiu que, sob um novo acordo, a Grécia poderia ao menos ver o FMI pelas costas. Ao contrário. A declaração frisa que quando estados-membros da zona do euro requerem assistência do Mecanismo de Estabilidade Europeu (ESM, em inglês – um fundo de resgate, baseado em Luxemburgo e estabelecido em 2012), eles estão obrigados a pedir ajuda ao FMI. “Esta é uma pré-condição para que o eurogrupo aceite um novo programa do ESM”, diz o texto, e prossegue: “Portanto, a Grécia requererá apoio contínuo do FMI (monitoramento e financiamento) a partir de maço de 2016”.

E sobre a reestruturação da vasta dívida grega, que Tsipras também queria tornar parte do acordo? A declaração diz que o eurogrupo (essencialmente, os ministros de Finanças da eurozona) aceitam considerar a sustentabilidade da dívidas, mas apenas após a implementação, pela Grécia, dos termos do novo empréstimo, para satisfação das “instituições” que irão supervisioná-lo – ou seja, a temida “troika”, que reúne o Banco Central Europeu (BCE), a Comissão Europeia e o FMI.

“O eurogrupo permanece pronto a considerar, se necessário, possíveis medidas adicionais, visando assegurar que as necessidades de financiamento [da Grécia] permanecerão em nível sustentável”, diz a declaração. “Estas medidas estarão condicionadas à completa implementação das medidas a serem acordadas num possível novo programa, e serão consideradas após a primeira conclusão positiva de uma revisão”. Mesmo neste caso, as ações a ser consideradas serão modestas. “O encontro do euro frisa que reduções nominais da dívida não podem ser adotadas”, prossegue o texto.

Os credores aceitaram algum recuo num único aspecto. Modificaram ligeiramente uma proposta que obrigará a Grécia a transferir ativos nacionais avaliados em 50 bilhões de euros para um novo fundo de privatização, com sede fora da Grécia, administrado por estrangeiros e encarregado de leiloar bens pela melhor oferta. Quando o tema emergiu, no sábado, num documento interno do ministro das Finanças alemão que vazou, houve quem enxergasse a imposição como um objeto de barganha, suscitado para forçar concessões do Syriza em outras áreas.

De maneira alguma. Nas negociações da madrugada, entre Merkel, Tsipras, o presidente francês François Hollande e o presidente do Conselho Europeu, Donal Tusk, a chanceler alemã teria dito que o fundo era uma das “linhas vermelhas” da qual não recuaria. Sob pressão dos franceses e gregos, os alemães aceitaram ao final que localizar o fundo de privatização fora da Grécia seria uma humilhação muito extrema. Insistiram, no entanto, no essencial. A declaração emitida na segunda esclarece que o fundo terá sede em Atenas e será “gerenciado pelas autoridades gregas, sob supervisão das Instituições Europeias relevantes”.

Exceto por esta mínima concessão, os gregos foram submetidos a uma lição cruciante sobre o funcionamento de uma zona monetária que, para muitos países europeus, converteu-se em camisa de forças. Os alemães têm as chaves dos cadeados que trancam as correias. No combativo estilo que o tornou famoso, Yanis Varoufakis, o ex-ministro das Finanças grego descreveu o acordo como um “novo tratado de Versalhes” e ligou-o a um “golpe de Estado”.

Tal linguagem deveria se usada com cuidado, ao descrever um continente que assistiu a tanto conflito, extremismo e ditadura. Não houve uma guerra, e a Grécia ainda é uma democracia. Mesmo agora, o parlamento grego tem poderes para rejeitar o acordo e coordenar uma retirada grega do euro. De fato, uma das críticas que podem ser feitas a Tsipras e Varoufakis é que eles não desenvolveram mais seriamente a opção de uma saída, durante os cinco meses que gastaram em disputas com os credores da Grécia. Apesar de todos os riscos e dificuldades que acompanhariam tal escolha, ela ofereceria o perspectiva de permitir à Grécia, ao fim, libertar-se e seguir seu próprio caminho.

Mas se o que aconteceu durante o fim de semana não equivale exatamente a um golpe, foi uma exibição rude de poder, por parte da Alemanha e uma lembrança apavorante da lógica impiedosa de uma união monetária dominada por credores e economia pré-keynesiana. Nas palavras de Paul De Grawe, um conhecido economista belga que ensina na London School of Economics, um “alicerce do futuro modo de governo” da zona do euro foi cimentado no fim de semana: “Submeta-se ao domínio alemão ou saia”. Nos próximos anos e décadas, a Alemanha corre o risco de descobrir que muitos europeus preferirão a segunda opção.


sexta-feira, 10 de julho de 2015

Três perguntas sobre a direita brasileira


por Marina Amaral

A direita jovem que emergiu no Brasil principalmente no período eleitoral do ano passado é um fenômeno social que ainda não foi suficientemente estudado pela academia, explica o professor Adriano Codato, da pós-graduação da UFPR. “Estas são impressões iniciais sobre um fenômeno aparentemente novo. Minhas respostas devem ser tomadas, portanto, como sugestões para que reportagens jornalísticas e pesquisas acadêmicas possam ilustrar e comprovar ou não o acerto delas”. Veja aqui suas respostas.

Vemos cada vez mais sites de direita e demonstrações nas ruas que exibem faixas contra Bolsa-Família, Cotas Raciais, e até uma curiosa palavra de ordem, defendida pelo jovem líder do MBL, Kim Kataguiri, pedindo “Mais Mises, menos Marx”. A direita cresceu entre a juventude ou saiu do armário? O senhor diria que ela foi mobilizada principalmente contra os programas sociais dos governos do PT?

Há as duas coisas. A direita, como corrente parlamentar, voltou a crescer, revertendo o movimento de queda constante do número de representantes na Câmara dos Deputados que se observava desde 1994. A extrema-direita, como corrente de opinião, começou a aparecer com uma estridência até então inédita (ou ao menos sem precedentes desde o fim do comunismo). Ocorre que se essa extrema-direita é, em termos ideológicos, idêntica àquela do período da Guerra Fria, hoje tem, graças ao estrondo proporcionado pelas novas mídias e à bajulação da velha mídia, um alcance muito maior do que jamais teve. Por sua vez, se a direita parlamentar conta ainda com o concurso das suas figuras políticas tradicionais (o grande proprietário, o médio empresário, o cacique partidário, etc.), hoje se vê revigorada por uma nova legião de políticos dos partidos fisiológicos e pela figura emblemática do pastor-deputado. Temos assim um cenário em que uma extrema-direita pretensamente moderna (“menos estado, mais mercado”) precisa se contentar em se ver representada politicamente pelo baixo clero e por tudo o que há de mais atrasado, reacionário e obscurantista em termos civilizacionais que a cena política do Brasil pode produzir. A fotografia em que os líderes dos Revoltados on line e do Movimento Brasil Livre posam alegremente com os deputados Jair Bolsonaro e Eduardo Cunha é, me parece, a síntese disso. Essa é, por enquanto, a vanguarda da oposição, visto que o PSDB, ou melhor dizendo, alguns dos seus líderes, não parece muito à vontade para assumir, ainda, uma agenda abertamente de direita.

Os que se dizem “liberais” no país vão desde empresários que participaram de conselhos de administração de estatais e câmaras do setor empresarial, como Gerdau, até outros que se dizem libertarians como Salim Mattar, da Localiza. Pode se falar em tendências de direita no Brasil como os Libertarians, os Tea Partiers ou os Evangélicos americanos? Há uma aliança programática entre as diversas tendências da direita para derrubar o estado de bem-estar social que identificam com o PT?

Não há essa aliança, nem em termos programáticos, nem em termos político-eleitorais. Ou no Brasil não há ainda uma aliança entre antiestatistas (nosso equivalente dos Libertarians), antipetistas (nossos Tea Partiers, só que menos ideológicos) e antiminorias (a santa cruzada dos nossos Evangélicos) porque, penso eu, as agendas dos três grupos ainda não se aproximou suficientemente uma da outra. E porque, principalmente, não há um líder ou um partido que possa encarnar num mesmo movimento as três bandeiras. Celebridades de internet e polígrafos das várias mídias não contam a não ser como agitadores e propagandistas das três figuras da direita nacional. Talvez Geraldo Alckimin, da Opus Dei, dizem os entendidos em sua biografia, possa fazer essa síntese ultraconservadora em 2018. Eduardo Cunha pode ser entendido então como um experimento para ver se a coisa engrena. Nesse contexto, a ojeriza ao Bolsa Família (seu “assistencialismo”), o ódio às Cotas Raciais (a sabotagem da “meritocracia”), o espanto diante da abertura dos bens de consumo privativos das classes médias aos remediados (o “capitalismo”, enfim…) são mais a desculpa para se opor ao PT e ao seu governo do que a razão real que os anima. Quem de fato se aflige com tudo isso são as altas camadas médias, que aliás estão onde sempre estiveram, nem mais à direita nem mais à esquerda, e que pensam como sempre pensaram: que a política é um privilégio dos letrados, que os cursos superiores são o destino dos bem-nascidos, que a corrupção é o único mal nacional e que pobre deveria é andar de ônibus.

Como o senhor dividiria a direita brasileira? Em que facções? Elas se distribuem em diferentes partidos ou podemos considerar algum deles como sede da direita ideológica?

Será necessário nos próximos anos um baita esforço por parte da academia para compreender essa nova/velha direita brasileira. Nesse sentido, a topografia desse grande campo reacionário ainda está por ser feita. Sugiro, provisoriamente, uma divisão dessa direita, que ainda teima em não dizer seu nome, em três grandes alas: a político-institucional, a moral-comportamental e a econômico-liberal. As duas primeiras se encontram e se resumem na figura do pastor-deputado, mas, para usar a linguagem dos Evangelhos, não há só uma forma de manifestação desse fenômeno. Seu “nome é Legião, porque são muitos”. A direita institucional tem progressivamente deixado de concorrer às eleições proporcionais pelos grandes partidos (DEM, PP, PTB) e se alojado nas micro-legendas que costumamos chamar de partidos fisiológicos (por oposição aos ideológicos). Vamos ver aonde isso vai. A direita “comportamental” tem uma agenda conservadora bem definida contra todos os direitos do século XX: os direitos das minorias de gênero, os direitos humanos, os direitos trabalhistas, o direito penal, etc. Essa variante da direita brasileira se acha em quase todos os partidos do Congresso e seus apóstolos não são sempre e necessariamente o pastor-deputado. Até porque é preciso lutar em várias frentes. A direita “liberal” (em termos econômicos) é, me parece, a que está aí há mais tempo: escreve nos jornais, recita no rádio, declama na TV, posta na internet o receituário de sempre em defesa do capital rentista (“apertar o cinto e gastar com juros”). Enfim: que uns tenham PhD por Chicago e outros sejam pregadores na Baixada Fluminense, que uns se metam em parecer Carlos Lacerda na tribuna e outros ressuscitem o militar autoritário são instantâneos de uma corrente política que parece estar se firmando entre o eleitorado das grandes cidades. A ver.


Fonte: Pública

sábado, 4 de julho de 2015

A Era das Quantidades



Por Paulo Ferrareze Filho

Grandes empresas fodem a vida dos funcionários por conta do atingimento de metas. Os Bancos, por exemplo, apesar das propagandas da TV remeterem o espectador a um paraíso de gente que é sempre feliz, são campeões nessa arte de fazer a bondade dadivosa esconder a crueldade das quantidades.

Não se vê propaganda de Banco que mostre o caixa eletrônico de um shopping “EM MANUTENÇÃO”. Ou com aquela tela possuída pelo demônio: “DIRIJA-SE A OUTRO TERMINAL”, ainda que não haja OUTRO TERMINAL no mesmo shopping. Não se vê propaganda de Banco com gente que não conseguiu pagar a fatura do cartão de crédito. Ou com mulheres que andam sem vontade de dar pro marido. Ou com aqueles velhos lentos que precisam deixar o orgulho macho de lado e pedir ao neto que pague, pela internet, as contas do mês.

Nos Bancos é preciso VENDER PRODUTOS. Vender todo tipo de merda. Convencer o cliente. Seduzir o cliente. Fazer vendas casadas. Enfiar goela abaixo do cliente sorteios mais difíceis que a mega-sena de fim de ano. Em nome disso, vale-tudo: depressões em massa, competição selvagem entre colegas, entrega de chocolate Talento para os mais demorados, silicones explodindo em camisas com poucos botões. Os silicones, aliás, são mais eficientes que MBA. Ou mesmo trepadas, que fazem a economia andar no meio das trevas da atual crise econômica.

No Judiciário e na vida a lógica é a mesma: julgar o máximo possível de processos e gozar muito, consumindo coisas ou pessoas. O paraíso está reservado para quem consome sem parar. E Deus estará lá, fechando as quantias do mês numa planilha excel.

O mundo ficou paranoico com essa coisa de ganhar dinheiro sem limites. E esquizofrênico. Esses dias uma frase no facebook me deixou chapado. O cara escrevia algo assim: “terceiro turno de trabalho, ficar rico ou morrer tentando”. O mundo está com câncer. Por isso as quimioterapias estão enchendo os bolsos dos oncologistas. Para a oncologia, quanto mais câncer melhor. Quanto mais câncer, mais quimioterapia, mais falta de apetite, e mais maconha. A maconha ainda vai salvar o mundo. A legalização da maconha não escapa da lógica da quantidade. Há gente demais que consome, há gente demais interessada em tributar a venda, a gente demais interessada em poder ganhar com a cura dos malefícios ou com os benefícios de outros males.

Mas vou voltar a explodir dinamites nos Bancos pra ver se gozo um pouco. Odeio Bancos. Advogo contra eles com tesão. O engraçado de advogar contra Bancos é que as pessoas que defendem eles num dia, entram com ações contra eles tempo depois. Os Bancos são o retrato de um filho da puta que entrou sem pagar e sentou no melhor lugar. O Banco sobrevive da ignorância e da miséria dos outros. Os Bancos passam o conto do bilhete premiado sem risco de ir pra cadeia. Afinal, o problema da vida dos idiotas de agora, é que os caras de 16 do mal estão soltos. Pobres idiotas. Só odeio mais os Bancos do que o Judiciário porque os juízes não ganham por sentença feita. Se fosse assim, a coisa seria uma Hiroshima bombardeada.

Na academia tudo é parecido. O Conselho Nacional de Pesquisa e a CAPES traçam uma estratégia quantitativa de produção[1]. O pesquisador é um operário intelectual empilhando parágrafos que ninguém lê. Se Eric Hobsbawm estivesse vivo diria que a Era dos Extremos se transformou na Era das Quantidades.

Eu vou tomar meu chá de fita VHS. E depois pra minha sessão de Candomblé. Fumar charutos e receber espíritos.

--------------------------------
[1] “Dois artigos publicados recentemente pela revista britânica "Nature", especializada em ciência, deixam o Brasil e, em especial, a comunidade acadêmica brasileira, profundamente envergonhados. A "Nature" nos acusa, em primeiro lugar, de produzir mais lixo do que conhecimento em ciência. Nas revistas mais severas quanto à qualidade de ciência, selecionadas como de excelência pelo periódico, cientistas brasileiros preenchem apenas 1% das publicações. Quando se incluem revistas menos qualificadas, porém, ainda incluídas dentre as indexadas, o Brasil se responsabiliza por 2,5%. O que a "Nature" generosamente omite são as publicações em revistas não indexadas, que contêm número significativo de publicações brasileiras, um verdadeiro lixo acadêmico. O segundo golpe humilhante para a ciência brasileira exposto pela revista se refere à eficiência no uso de recursos aplicados à pesquisa. Dentre 53 países analisados, o Brasil está em 50º lugar. Melhor apenas que Egito, Turquia e Malásia.Tomemos um exemplo. O Brasil publicou 670 artigos em revistas de grande prestígio, enquanto no mesmo período o Chile publicou 717, nessas mesmas revistas. O dado profundamente inquietante é que enquanto o Brasil despendeu em ciência US$ 30 bilhões, o Chile gastou apenas US$ 2 bilhões.” Extraído do artigo Produção científica e lixo acadêmico no Brasil, escrito por Rogério Cézar de Cerqueira Leite publicado na Folha de S. Paulo de 06-01-2015.


Fonte: Justificando

domingo, 28 de junho de 2015

Pesquisa: quase metade dos americanos votariam em um socialista

Pesquisa: quase metade dos americanos votariam em um socialistaPor Kali HollowayEm um país onde o termo “socialista” é frequentemente utilizado de forma pejorativa, a novidade é que 47% dos entrevistados pela enquete realizada pela Gallup dizem que votaria em um candidato socialista à presidência. [[MORE]]O resultado ainda aparece como uma ótima notícia para o democrata socialista Bernie Sanders, senador que pretende concorrer ao cargo mais importante do mundo no ano que vem.A pesquisa descobriu uma enorme divisão de opinião entre republicanos e democratas sobre a questão. Enquanto 59% dos democratas disseram que estariam dispostos a votar em um candidato presidencial socialista, apenas 26% dos republicanos deram a mesma resposta - quase metade dos Independentes, 49%, disseram que também seriam favoráveis a campanha.No geral, 93% dos entrevistados disseram que votariam em um candidato católico; 92% em uma mulher ou afro-americano; 91% em um candidato latino-americano ou judeu (como é o caso de Sanders). Pouco menos de 75% disseram que votariam em um candidato pró-LGBT, 60% em um muçulmano e 58% em um ateu. Além das implicações para Sanders, os números podem oferecer uma ideia sobre como os eleitores responderão para a sua campanha em 2016, mas é bastante cedo para qualquer discurso de vitória no momento. Algumas notas da pesquisa:Cinco candidatos são declaradamente católicos - os republicanos Jeb Bush, George Pataki, Marco Rubio e Rick Santorum, e o democrata Martin O'Malley. Duas são mulheres - a principal candidata democrata Hillary Clinton e a republicana Carly Fiorina. O republicano Ben Carson é o único candidato negro na corrida, enquanto dois candidatos são de origem hispânica - os republicanos Rubio e Ted Cruz.Manifestações do Occupy Wall Street no começo da década podem ser um dos reflexos dos números atuais sobre orientação ideológica | Foto: Paul SteinPara ver os números de forma mais detalhada, confira os gráficos abaixo. Você também pode visitar a pesquisa no site da Gallup.

Por Kali Holloway
Em um país onde o termo “socialista” é frequentemente utilizado de forma pejorativa, a novidade é que 47% dos entrevistados pela enquete realizada pela Gallup dizem que votaria em um candidato socialista à presidência. 

O resultado ainda aparece como uma ótima notícia para o democrata socialista Bernie Sanders, senador que pretende concorrer ao cargo mais importante do mundo no ano que vem.

A pesquisa descobriu uma enorme divisão de opinião entre republicanos e democratas sobre a questão. Enquanto 59% dos democratas disseram que estariam dispostos a votar em um candidato presidencial socialista, apenas 26% dos republicanos deram a mesma resposta - quase metade dos Independentes, 49%, disseram que também seriam favoráveis a campanha.

No geral, 93% dos entrevistados disseram que votariam em um candidato católico; 92% em uma mulher ou afro-americano; 91% em um candidato latino-americano ou judeu (como é o caso de Sanders). Pouco menos de 75% disseram que votariam em um candidato pró-LGBT, 60% em um muçulmano e 58% em um ateu. Além das implicações para Sanders, os números podem oferecer uma ideia sobre como os eleitores responderão para a sua campanha em 2016, mas é bastante cedo para qualquer discurso de vitória no momento. Algumas notas da pesquisa:

Manifestações do Occupy Wall Street no começo da década podem ser um dos reflexos dos números atuais sobre orientação ideológica | Foto: Paul Stein
Cinco candidatos são declaradamente católicos - os republicanos Jeb Bush, George Pataki, Marco Rubio e Rick Santorum, e o democrata Martin O'Malley. Duas são mulheres - a principal candidata democrata Hillary Clinton e a republicana Carly Fiorina. O republicano Ben Carson é o único candidato negro na corrida, enquanto dois candidatos são de origem hispânica - os republicanos Rubio e Ted Cruz.

Para ver os números de forma mais detalhada, confira os gráficos abaixo. Você também pode visitar a pesquisa no site da Gallup.


    sexta-feira, 19 de junho de 2015

    Redução da maioridade penal revela doutrina conservadora de segurança



    Por Guilherme Weimann, Roney Rodrigues e Vitor Teixeira

    De São Paulo (SP)

    Adilson Paes de Souza é um cara que pode narrar as fissuras de uma das maiores instituições do Estado brasileiro sob uma perspectiva única: de quem esteve lá dentro. Tenente-coronel da Polícia Militar do Estado de São Paulo – aposentado desde 2012 –, Adilson critica com veemência a violência policial e as políticas de segurança pública. Mais que isso, tenta compreender o funcionamento dessa engrenagem repressiva.

    Certa vez, questionou-se sobre os motivos que levam um policial a cometer assassinatos. O resultado foi o livro “O Guardião da Cidade” (Escrituras, 2013), que discute o desempenho da polícia em sua função social de proteger os cidadãos e aponta caminhos para construir uma organização mais humana.

    Na entrevista, ele aponta a ineficiência da redução da maioridade penal - “mexeríamos somente com a aparência e efeito, e não com a causa do problema” -, e critica a ausência do Estado na garantia dos direitos básicos da população que, pelo pânico generalizado, elegeu o inimigo da vez: as crianças e adolescentes com idade entre 16 e 18 anos.

    Brasil de Fato - Digamos que essa lei seja aprovada no exercício ficcional, como o Brasil ficaria daqui há dez ou 20 anos?

    Adilson Paes de Souza - Igual ou pior em termos de segurança pública. Eu me filio àquelas pessoas que são contrárias à redução da maioridade penal, afinal, mexeríamos somente com a aparência e efeito e não com a causa do problema. Como podemos falar nisso se o Estatuto da Criança e Adolescente (ECA), criado em 1990, não foi aplicado até hoje? Basicamente, o que foi implantado, e ainda muito mal, é a parte repressiva e o Estado é o próprio culpado por essa não implementação. A criança ou o adolescente que comete um crime deve ser tipificada através de um ato infracional, o que é diferente de um crime cometido por um adulto. Por isso, o adolescente não deveria passar pela delegacia. Criança e adolescente infrator, como diz o ECA, não é caso de delegacia. Após o registro, o caso deve receber um tratamento adequado. Mas esse sistema não existe. O que acontece, atualmente, é que a infração vira uma ocorrência, como outra qualquer envolvendo maior de idade, e é apresentada na delegacia. Da delegacia o adolescente é encaminhado a uma unidade da Febem, Fundação Casa, ou como você queira chamar. Isso está errado.

    Na prática, portanto, não existe uma maioridade penal?

    Exato. Crianças de 12, 13 e 14 anos, por exemplo, já são levadas e confinadas em salas de delegacias, muitas vezes no mesmo compartimento dos maiores de idade, por falta de estrutura adequada. Ou seja, o tratamento penal dado ao adolescente infrator já existe. O que estão querendo fazer agora é institucionalizar a redução da maioridade penal para adolescentes de 16 a 18 anos, tratando as infrações como processo criminal. As medidas sociais de prevenção que envolvem a família da criança e do adolescente, principalmente as que estão em situação de risco, não foram implantadas. Dados da Fundação Casa constatam que a maioria dos jovens detidos não tiveram acesso à escola ou, então, evadiram. Além disso, eles não têm emprego e vivem em carência extrema. Um caos social. O que o Estado fez para evitar isso? Nada, se ausentou. Agora, no sistema posto, o Estado aparece justamente para reprimir. As consequências, salvo exceções, é que as Fundações Casa são uma espécie de mini-presídios, onde denúncias de torturas e maus tratos não faltam.

    O pensamento da sociedade é punitivo. Cometeu um crime deve-se pagar por ele. Como construir políticas humanas e de ressocialização?

    A questão é: como eu vou ressocializar ou reeducar uma pessoa que não teve uma base porque lá atrás o Estado já se omitiu? É apenas uma questão de semântica. Não é questão de um “tratamento diferenciado” pela característica do ser menor de 18 anos. Pense: ele é colocado para se reeducar em um mini-presídio, mas lá há inúmeras denúncias de tortura e maus tratos. Inclusive, existem vazamentos de cartas de menores infratores dessas instituições relatando os mais variados tipos de tortura. Uma coisa espantosa! “Ah, mas o adolescente que praticou crimes hediondos é um monstro”. Não, ele é um ser humano que necessita de atenção especial do Estado. Temos que criar um sistema que acredite nesse ser humano e restabeleça suas condições de viver em sociedade. Aliás, as estatísticas mostram que adolescentes envolvidos em crimes hediondos representam apenas 1%. É uma mentira falar que eles são responsáveis pelo aumento da criminalidade.

    A sensação que se tem é que há um clamor social, talvez construído, por medidas mais duras. Como entender isso?

    Existe a mídia, sobretudo a tradicional, que realiza uma cobertura sensacionalista. Fazem um fato ganhar uma intensidade dez vezes maior do que realmente foi. Martelam isso. Além disso, a sociedade se sente abandonada. É quase como se dissesse: “agora é cada um por si”. E as vozes das periferias respondem “não temos o Estado garantindo e provendo direitos, mas somente para reprimir”. Em 2013, quando os moradores dos Jardins e da Paulista, que não estavam habituados com a violência da polícia, começaram a apanhar nas manifestações, o pessoal da periferia falou: “vocês estão reclamando agora? Isso acontece todo dia lá com a gente. Aqui a bala é de borracha, lá não. E poucos ficam vivos para contar a história”. As pessoas querem um Estado que não se apresente apenas para cobrar tributos ou reprimir, mas para garantir direitos básicos. E quando o Estado abandona a sociedade à sua própria sorte, o pânico e o medo é disseminado. Com isso a sociedade vai em busca de super-heróis, de leis esdrúxulas e de medidas absurdas como a redução da maioridade penal. As pessoas estão desesperadas e, a partir disso, vão procurar qualquer coisa que resolva seus problemas. E com esse desespero e por existir uma estrutura de Estado que necessita de um inimigo, se elegeu o inimigo público “número um” da nação: o jovem entre 16 e 18 anos. Ninguém quer analisar a estrutura colocada, somente agir com viés meramente repressivo, como se isso fosse resolver.

    Alguns críticos da PEC 171/1993 apontam seu caráter simbólico: mostrar ao governo que as forças conservadoras estão crescendo no poder. Outros também apontam interesses econômicos de parlamentares financiados por gestores de presídios privados.

    Sim, há interesses, com mais presos haverá a necessidade de se criar mais presídios e se investir mais em equipamentos de segurança. Quanto aos simbólicos, analiso que o nosso governo, em termos federais, é conservador. Embora há falas no Poder Executivo Federal contrárias à redução da maioridade penal, não existe uma ação incisiva. Com a maioria no Congresso, era para o governo estar tranquilo. Mas há uma preocupação com os votos dos eleitores conservadores e com os acordos eleitorais que fizeram, que abarca várias tendências em um mesmo governo. Qualquer oposição à redução pode ferir os interesses desses grupos conservadores. No entanto, há de se lembrar que essa PEC é inconstitucional. Os princípios e garantias individuais não são apenas aqueles garantidos no artigo 5º da Constituição, que afirma que a maioridade penal se dá com 18 anos. Há vários outros no corpo do texto. Para mudar isso só com uma nova Constituição, vinda de uma Constituinte que criaria outros valores. Não é por meio de uma PEC. Senão, daqui a pouco vamos ter que reduzir a maioridade penal para 14, para 12, para dez, até jovens de determinada faixa etária e região do país já nascerem presos.

    Imagino que o senhor se refira a jovens negros, pobres e moradores de regiões periféricas...

    Essa medida da redução da maioridade penal é eugenia. É um termo forte, mas é uma questão de eugenia. A redução da maioridade penal é uma política de eliminação de raça. “Eu rotulo o inimigo e faço de tudo para contê-lo”. Hitler fez isso quando criou o partido nazista e elegeu os judeus como os grandes culpados pelas mazelas do mundo. No seu ideário estava fazendo um bem. Temos que tomar cuidado com essas ideias totalitárias, que estão sempre pululando. Foram discursos como esse, de inimigo, que embasou a Ditadura Militar no Brasil. Comunistas ou quem criticava o governo era considero inimigo da nação e tinha que ser eliminado. O relatório da Comissão Nacional da Verdade aponta o que foi esse aparelho repressor do Estado. A Doutrina de Segurança Nacional, que embasou o Golpe de 1964 e deu suporte para Ditadura, não foi desmontada no processo de redemocratização do país. Se estivéssemos em um Estado democrático de direito, de fato, a primeira coisa que faríamos seria romper com os instrumentos incompatíveis com a democracia. Desde 1983, temos a mesma Lei de Segurança Nacional. É por isso que não acredito que vivemos em um Estado democrático de direito. Mas prefiro ver o copo meio cheio. A discussão sobre a redução da maioridade penal tem um lado positivo: escancara que vivemos sob a égide da Lei de Segurança Nacional.


    sexta-feira, 12 de junho de 2015

    Mais escolas, menos Revista Veja

    Mais escolas, menos Revista VejaPor Francisco ToledoNa semana passada, o colunista gourmet Rodrigo Constantino destilou seu ódio de forma ainda mais agressiva através de sua coluna na revista VEJA. Com o título “Menos escolas, mais prisões”, o colunista disse que a educação no Brasil é propaganda marxista - mas esqueceu que foi o aparelho estatal de Geraldo Alckmin que renovou 5,2 mil assinaturas da própria revista Veja para distribuir onde? Nas escolas públicas![[MORE]]A publicação do Grupo Abril tem a fama de ser o representante chave do conservadorismo político e liberalismo econômico no Brasil. Mas quando bate o desespero por atenção (ou simplesmente a falta de pautas), eles costumam ser piores do que o normal. E na última semana, conseguiram.Pra começar, o famoso “menino maluquinho”, ou “colunista gourmet”, Rodrigo Constantino, resolveu cagar através do teclado em sua coluna no site da revista Veja. No dia 4 de junho, postou um artigo com o título: Menos escolas, mais prisões. Na realidade, o nível de mediocridade do artigo já poderia parar por ai. Mas o texto conta com aquele variado montante de péssimo jornalismo e desinformação já tradicionais de pessoas como ele, e de publicações como a Veja. Porém, tais argumentos são fáceis de driblar, questionar e refutar:1) A educação no Brasil, segundo Constantino, promove o “marxismo cultural”, e por isso, seria melhor desistir de uma vez: o colunista gourmet nunca deve ter vivido em uma sociedade pautada pelo marxismo para dizer a quantidade de absurdos como tal. Aliás, ele ignora completamente o fato de que, nas últimas décadas, a juventude brasileira tem se tornado cada vez mais vítima do consumismo pregado pelo capitalismo, isso envolvendo até os alunos das camadas mais pobres, que estudam nas escolas públicas - vide os “rolezinhos”.2) "E há garantia de que mais escolas levam a menos crime, por exemplo?“: Sim, Constantino, essa garantia existe. A economista Kalinca Léia Becker, em seu doutorado em Economia Aplicada da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, resolveu estudar a relação entre educação e a violência, apontando como a escola pode contribuir para reduzir o crime. A pesquisa aponta que para cada 1% do orçamento investido em educação, a violência diminui em 0,1%. Nas escolas com atividades extracurriculares, como esporte, artes e cultura, há uma redução de 0,96% na possibilidade de um aluno cometer um ato agressivo.Outro exemplo, ainda sobre a relação educação/crime, é a Finlândia. Para o ódio do colunista gourmet, que odeia o Estado e acha que a iniciativa privada é Jesus em forma de dinheiro, a Escandinávia possui hoje o mais elevado padrão de vida, mesmo entre as nações desenvolvidas, e nos últimos anos tem se destacado positivamente no cenário europeu, focando no sistema educacional, que tem papel fundamental na obtenção de tal status quo. Hoje, países como a Finlândia, obtém na sua "sala de troféus” a primeira colocação no exame do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos). Observação: nos países da região, a educação é tratada como obrigação do Estado. Com isso, a Finlândia é considerado o segundo país mais seguro do mundo - atrás apenas da Islândia, outra nação onde a educação é problema do Estado, seguido dos social-democratas Noruega e Irlanda, Dinamarca e Canadá. O Brasil, país onde a educação é vista como objeto de lucro de terceiro mundo (até em um governo comunista, quem diria?), conta apenas com a 87º posição. Os dados pertencem ao Índice de Prosperidade de 2012, uma pesquisa global sobre a riqueza e bem-estar da população de 142 países ao redor do mundo.Foto: DivulgaçãoPosteriormente, o colunista gourmet afirmou que a sua coluna foi “distorcida” pela militância de esquerda, que leu apenas o título. Oras, qualquer estudante de jornalismo saberia dizer que o título de uma obra, seja um livro ou um artigo na internet, representa a ideia central da publicação. Sem contar que, se você ler o artigo por completo, verá que não existe drama: o cara realmente acredita naquilo. Constantino, a cagada já tá feita. O choro é livre. Sorte sua, que vivemos em um país comunista que censura a oposição, não? Não, pera…Enfim, ironicamente a revista que paga os salários de Constantino não parece odiar tanto assim o Estado. Prova disso é a renovação de 5,2 mil assinaturas da revista Veja pelo governo do estado de São Paulo. Observação: o processo foi realizado sem licitação, e adivinha pra ser distribuido onde? Nas escolas públicas de São Paulo! Seria a Veja, de Constantino, parte do plano diabólico do MEC&Paulo Freire para instaurar o marxismo cultural em nossa sociedade?Disso não sabemos, porém o que realmente temos certeza é de que a semana não tá sendo fácil pra Veja. Prova disso é o próximo tópico.A parada LGBT e a cruzNo domingo, ativistas realizaram uma intervenção na Parada LGBT em São Paulo, com uma travesti pregada em uma cruz. Apesar disso ter acontecido no domingo, só no dia seguinte as redes sociais começaram a bombar sobre o assunto. Inicialmente, foram os “líderes evangélicos” que começaram a apedrejar a atitude dos ativistas incitando o ódio.Mas foi o Facebook da revista Veja que deu maior destaque ainda para a pauta. Compartilhando “notícias” sobre o que havia ocorrido e a reação da ala cristã da sociedade, a publicação não incentivou o debate (que no bom jornalismo seria pesquisar e buscar a opinião de ambos os lados sobre o ocorrido), e sim a criminalização da intervenção e de todos os envolvidos. A partir dai virou uma verdadeira farra, um jogo de caça e caçador em pleno Facebook.Poucas horas depois do tema viralizar, o ocorrido já era pauta até no Congresso - claro, onde falta trabalho, sobra de tempo pra repercutir besteira. Os deputados da bancada evangélica chegaram a falar até sobre “cristofobia”.Mas a publicação do Grupo Abril parece esquecer que a própria, uma vez na história, já promoveu o uso da simbologia cristã para conseguir “comprovar seus argumentos”.Foto: capa de uma edicação da revista Veja, em 1981A imagem acima é de uma capa da revista Veja no ano de 1981, onde a publicação criticava a quantidade de impostos pagos pelo cidadão brasileiro através do uso da simbologia cristã: o trabalhador, de terno e gravata, crucificado pelos impostos que o Estado o obriga a pagar.Claro que, para a turminha de Constantino, a quantidade de impostos pagos pela classe média e 1% dos ricos é muito mais importante do que a vida de minorias que são perseguidas todos os dias. Claro que eu, homem branco de classe média alta, tenho meu sofrimento muito mais justo do que o de um homossexual - afinal, eu tenho de pagar quase 50% de impostos em um produto estrangeiro da Apple. Isso vale muito mais do que a quantidade absurda de 1 homossexual assassinado no Brasil a cada 28 horas, não?Na época, não ouvimos burburinho da bancada evangélica. Por que será?» Francisco Toledo é fotógrafo e Gestor de Conteúdos e Projetos do coletivo Guerrilha GRR

    Por Francisco Toledo*

    Na semana passada, o colunista gourmet Rodrigo Constantino destilou seu ódio de forma ainda mais agressiva através de sua coluna na revista VEJA. Com o título “Menos escolas, mais prisões”, o colunista disse que a educação no Brasil é propaganda marxista - mas esqueceu que foi o aparelho estatal de Geraldo Alckmin que renovou 5,2 mil assinaturas da própria revista Veja para distribuir onde? Nas escolas públicas!

    A publicação do Grupo Abril tem a fama de ser o representante chave do conservadorismo político e liberalismo econômico no Brasil. Mas quando bate o desespero por atenção (ou simplesmente a falta de pautas), eles costumam ser piores do que o normal. E na última semana, conseguiram.

    Pra começar, o famoso “menino maluquinho”, ou “colunista gourmet”, Rodrigo Constantino, resolveu cagar através do teclado em sua coluna no site da revista Veja. No dia 4 de junho, postou um artigo com o título: Menos escolas, mais prisões. Na realidade, o nível de mediocridade do artigo já poderia parar por ai. Mas o texto conta com aquele variado montante de péssimo jornalismo e desinformação já tradicionais de pessoas como ele, e de publicações como a Veja. Porém, tais argumentos são fáceis de driblar, questionar e refutar:

    1) A educação no Brasil, segundo Constantino, promove o “marxismo cultural”, e por isso, seria melhor desistir de uma vez: o colunista gourmet nunca deve ter vivido em uma sociedade pautada pelo marxismo para dizer a quantidade de absurdos como tal. Aliás, ele ignora completamente o fato de que, nas últimas décadas, a juventude brasileira tem se tornado cada vez mais vítima do consumismo pregado pelo capitalismo, isso envolvendo até os alunos das camadas mais pobres, que estudam nas escolas públicas - vide os “rolezinhos”.

    2) "E há garantia de que mais escolas levam a menos crime, por exemplo?“: Sim, Constantino, essa garantia existe. A economista Kalinca Léia Becker, em seu doutorado em Economia Aplicada da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, resolveu estudar a relação entre educação e a violência, apontando como a escola pode contribuir para reduzir o crime. A pesquisa aponta que para cada 1% do orçamento investido em educação, a violência diminui em 0,1%. Nas escolas com atividades extracurriculares, como esporte, artes e cultura, há uma redução de 0,96% na possibilidade de um aluno cometer um ato agressivo.

    Outro exemplo, ainda sobre a relação educação/crime, é a Finlândia. Para o ódio do colunista gourmet, que odeia o Estado e acha que a iniciativa privada é Jesus em forma de dinheiro, a Escandinávia possui hoje o mais elevado padrão de vida, mesmo entre as nações desenvolvidas, e nos últimos anos tem se destacado positivamente no cenário europeu, focando no sistema educacional, que tem papel fundamental na obtenção de tal status quo. Hoje, países como a Finlândia, obtém na sua "sala de troféus” a primeira colocação no exame do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos). Observação: nos países da região, a educação é tratada como obrigação do Estado. Com isso, a Finlândia é considerado o segundo país mais seguro do mundo - atrás apenas da Islândia, outra nação onde a educação é problema do Estado, seguido dos social-democratas Noruega e Irlanda, Dinamarca e Canadá. O Brasil, país onde a educação é vista como objeto de lucro de terceiro mundo (até em um governo comunista, quem diria?), conta apenas com a 87º posição. Os dados pertencem ao Índice de Prosperidade de 2012, uma pesquisa global sobre a riqueza e bem-estar da população de 142 países ao redor do mundo.


    Posteriormente, o colunista gourmet afirmou que a sua coluna foi “distorcida” pela militância de esquerda, que leu apenas o título. Oras, qualquer estudante de jornalismo saberia dizer que o título de uma obra, seja um livro ou um artigo na internet, representa a ideia central da publicação. Sem contar que, se você ler o artigo por completo, verá que não existe drama: o cara realmente acredita naquilo. 

    Constantino, a cagada já tá feita. O choro é livre. Sorte sua, que vivemos em um país comunista que censura a oposição, não? Não, pera…

    Enfim, ironicamente a revista que paga os salários de Constantino não parece odiar tanto assim o Estado. Prova disso é a renovação de 5,2 mil assinaturas da revista Veja pelo governo do estado de São Paulo. Observação: o processo foi realizado sem licitação, e adivinha pra ser distribuido onde? Nas escolas públicas de São Paulo! Seria a Veja, de Constantino, parte do plano diabólico do MEC&Paulo Freire para instaurar o marxismo cultural em nossa sociedade?

    Disso não sabemos, porém o que realmente temos certeza é de que a semana não tá sendo fácil pra Veja. Prova disso é o próximo tópico.

    A parada LGBT e a cruz

    No domingo, ativistas realizaram uma intervenção na Parada LGBT em São Paulo, com uma travesti pregada em uma cruz. Apesar disso ter acontecido no domingo, só no dia seguinte as redes sociais começaram a bombar sobre o assunto. Inicialmente, foram os “líderes evangélicos” que começaram a apedrejar a atitude dos ativistas incitando o ódio.

    Mas foi o Facebook da revista Veja que deu maior destaque ainda para a pauta. Compartilhando “notícias” sobre o que havia ocorrido e a reação da ala cristã da sociedade, a publicação não incentivou o debate (que no bom jornalismo seria pesquisar e buscar a opinião de ambos os lados sobre o ocorrido), e sim a criminalização da intervenção e de todos os envolvidos. A partir dai virou uma verdadeira farra, um jogo de caça e caçador em pleno Facebook.

    Poucas horas depois do tema viralizar, o ocorrido já era pauta até no Congresso - claro, onde falta trabalho, sobra de tempo pra repercutir besteira. Os deputados da bancada evangélica chegaram a falar até sobre “cristofobia”.

    Mas a publicação do Grupo Abril parece esquecer que a própria, uma vez na história, já promoveu o uso da simbologia cristã para conseguir “comprovar seus argumentos”.

    Capa de uma edicação da revista Veja, em 1981

    A imagem acima é de uma capa da revista Veja no ano de 1981, onde a publicação criticava a quantidade de impostos pagos pelo cidadão brasileiro através do uso da simbologia cristã: o trabalhador, de terno e gravata, crucificado pelos impostos que o Estado o obriga a pagar.

    Claro que, para a turminha de Constantino, a quantidade de impostos pagos pela classe média e 1% dos ricos é muito mais importante do que a vida de minorias que são perseguidas todos os dias. Claro que eu, homem branco de classe média alta, tenho meu sofrimento muito mais justo do que o de um homossexual - afinal, eu tenho de pagar quase 50% de impostos em um produto estrangeiro da Apple. Isso vale muito mais do que a quantidade absurda de 1 homossexual assassinado no Brasil a cada 28 horas, não?

    Na época, não ouvimos burburinho da bancada evangélica. Por que será?

    *Francisco Toledo é fotógrafo e Gestor de Conteúdos e Projetos do coletivo Guerrilha GRR

    sexta-feira, 5 de junho de 2015

    O ódio seletivo


    Por Eduardo Silveira de Menezes

    Não restam dúvidas de que a “memória seletiva” do maior conglomerado de mídia do Brasil – o Grupo Globo – opera como um mecanismo estruturante do analfabetismo político para o qual alertava o dramaturgo alemão Bertold Brecht no século 20. Basta considerar a cobertura doJornal Nacional (JN) em relação a dois fatos de maior relevância para o interesse público: a reforma política que está em curso no Congresso Nacional e os casos de corrupção envolvendo a Federação Internacional de Futebol (Fifa). Em ambos, silencia-se o ódio à democracia; um sentimento construído pela fúria insana dos que marcham alienadamente representando os interesses das velhas oligarquias.

    A privatização do poder em benefício de uma minoria, tão bem problematizada pelo filósofo Jacques Ranciére no livro Ódio à Democracia, recentemente publicado pela Boitempo Editorial, só pode ser compreendida com uma leitura crítica do processo de construção da informação. Ao noticiar as mudanças decorrentes da Proposta de Emenda à Constituição (PEC 182/07), sobretudo em relação à aprovação do fim da reeleição para cargos executivos, na edição do dia 28 de maio de 2015, a repórter Zileide Silva diz que a proposta teve apoio de quase todos os partidos, inclusive do PSDB, o qual, de acordo com a matéria, teria apenas “apoiado a reeleição na política brasileira”.

    Seria ingenuidade pensar que a emissora da família Marinho desconhece um importante elemento da informação que foi ocultado de seus telespectadores; isto é, o contexto político vivenciado em 1997, cujo escândalo da compra de votos veio acompanhado do famoso decreto 1.720 – uma segunda moeda de troca utilizada pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) para viabilizar a reeleição.

    A sequência da matéria, apresentando a entrevista concedida pelo líder do partido na Câmara, deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP), torna o texto jornalístico em questão digno de uma peça publicitária. Ao dizer que a reeleição “cumpriu seu período histórico”, o parlamentar nada fala sobre as motivações do referido processo. Não fala – e, obviamente, não é questionado pela repórter –, por exemplo, sobre os quase dois mil aliados que foram beneficiados por uma ordem direta do Executivo, que, à época, concedeu 319 outorgas somente para afiliadas da Rede Globo.

    Ódio seletivo

    O fato do atual governo não ameaçar os interesses do grupo Globo não interfere na oposição declarada à presidenta Dilma Rousseff e, em especial, ao Partido dos Trabalhadores (PT), pois se trata de um ódio de classe. Por mais que o governo esteja mantendo e, em certa medida, intensificando o projeto neoliberal –veja-se o encaminhamento da Lei da Terceirização (PL 4330) e o ajuste fiscal que estão em curso –, o compromisso histórico com o trabalhador, mesmo traído, continua a causar ojeriza nos grandes grupos de mídia.

    A Rede Globo está acostumada a servir o poder oligárquico e, neste ponto, o texto de Ranciére, mesmo escrito com base no contexto francês, mostra-se extremamente adequado ao momento político brasileiro. Para o autor, o ódio à democracia representa o ódio à igualdade; um ódio que é diferenciador. Sob a luz desta reflexão, pode-se dizer que nem todos, de acordo com a leitura conservadora da família Marinho, seriam “destinados ao exercício do poder”. Não será preciso aprofundar-se sobre o envolvimento ideológico do Grupo Globo com forças golpistas, mas esta referência é importante. As parcerias com a companhia de mídia norte-americana Time-Life e o bom relacionamento com o general Castelo Branco, na década de 1960, foram fundamentais para a construção de um império midiático que nenhum governo ousa sequer questionar.

    O caso de sonegação da Globo ao adquirir os direitos de transmissão das Copas do Mundo de 2002 e 2006, amplamente divulgado em sites alternativos e nas redes sociais, é outro ponto revelador sobre como se constrói o ódio à democracia. É interessante observar o oportunismo com o qual se classificam os crimes de favorecimento ilícito nas coberturas jornalísticas. As manifestações de indignação com os casos de corrupção na Petrobras são direcionados apenas ao período atual, desconsiderando, assim, as suspeitas de que o esquema poderia ter origem ainda no governo FHC.

    As “marchas pela liberdade”

    Além disso, vale lembrar que o principal noticiário de repercussão nacional é veiculado por uma emissora que foi multada em mais de R$ 600 milhões de reais por sonegar impostos. Esta não parece ser a fonte mais indicada para tratar dos escândalos de corrupção envolvendo a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), mas é a de maior audiência. Os direitos de transmissão de campeonatos de futebol, adquiridos junto à agência de marketing esportivo Traffic Group, cujo proprietário, José Hawilla, é dono de uma TV afiliada à Rede Globo no interior paulista, estão no foco das investigações do Departamento de Justiça dos EUA.

    O editorial apresentado por William Bonner durante o JN na noite de 27 de maio, um dia antes de ser veiculada a reportagem sobre a aprovação do fim da reeleição na Câmara, segue a lógica do silenciamento. A reportagem veiculada pela emissora trata do esquema de corrupção envolvendo a venda de direitos de transmissão de campeonatos como a Copa América e a Copa do Brasil, mas nada fala sobre o Campeonato Brasileiro. Embora seja feita uma referência ao ministro da Justiça, Eduardo Cardozo, que declarou haver indícios de que os crimes investigados nos Estados Unidos também tenham sido cometidos no Brasil, cinicamente silencia-se o caso envolvendo a Rede Globo, a qual, para assegurar a compra dos direitos de transmissão das Copas de 2002 e 2006, formou uma empresa de fachada – a Empire.

    Nesse contexto, infelizmente, não é de se estranhar que um suposto “ódio à corrupção” não passe, verdadeiramente, de ódio à democracia, com recorte de classe. O orgulho de vestir a camisa da CBF nas “marchas anticorrupção” revela a incapacidade de contemporização dos que aderem ao movimento. Estufa-se o peito dizendo “odiar a política”, “odiar o vermelho”, “odiar o comunismo”, “odiar o PT”, “odiar a Dilma”, mas, na verdade, procura-se ter um alvo bem definido para um sentimento de impotência decorrente da alienação. Em meio à ignorância política, mandam-se às favas o processo histórico e político inerentes a corrupção que acomete não só os três poderes, mas também as instituições esportivas. Para o “analfabeto político”, o fim da reeleição e a venda dos direitos de transmissão são vistos sob o mesmo enfoque. Julgam-se, espertos e bem informados. Afinal, acreditam estar diante de mais uma “frase de impacto” para levar nas “marchas pela liberdade”, desde que não resolvam, é claro, agendar os “protestos” pedindo a intervenção militar para os dias e horários que a Rede Globo transmite as partidas de futebol.

    ***

    *Eduardo Silveira de Menezes é professor do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Pelotas