quarta-feira, 23 de abril de 2014

Como a FIFA tenta impor o futebol anti-povo

Ambulantes protestam pelo direito de vender comidas e bebidas no entorno dos estádios em Recife, durante a Copa do Mundo (Foto: Victor Soares/Leia Já Imagens/Estadão Conteúdo)


Golpeando Constituição, direito ao Trabalho e tradição brasileira, entidade quer excluir, de estádios e centro das cidades, os camelôs e seus produtos. Há resistência 
Por Ciro Barros e Giulia Afiune
“Estamos sendo constantemente ameaçados pela Prefeitura do Recife e tememos que o quadro fique mais grave com a aproximação da Copa do Mundo. Mas nós não vamos recuar um passo.” Assertivo, Severino Souto Alves, presidente do Sintraci (Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Comércio Informal do Recife), se exalta ao falar da situação dos trabalhadores ambulantes na capital pernambucana.
Desde outubro de 2013, o Sintraci – criado em dezembro de 2012, para se contrapor aos possíveis impactos negativos da Copa do Mundo – convocou dez manifestações em diversos pontos da Região Metropolitana do Recife; foram seis só nos últimos dois meses. Reivindicam a garantia de permanência de vendedores ambulantes em alguns pontos da cidade (como os bairros da Casa Amarela e da Boa Vista, por exemplo), a construção de shoppings populares, mais diálogo com a administração do prefeito Geraldo Julio (PSB) e a exoneração de João Braga, secretário de Mobilidade e Controle Urbano, órgão responsável por disciplinar o comércio informal em Recife.
Protesto de trabalhadores ambulantes no dia 11 de abril de 2014 pede a saída do secretário de Mobilidade e Controle Urbano, João Braga. (Foto: Facebook Sintraci)
“Todas as negociações [com a secretaria] são feitas de forma a restringir o comércio informal”, afirma Severino. Segundo ele, mais de 300 comerciantes já tiveram suas barracas retiradas de vários pontos da cidade e sem realocação alguma.
A chegada da Copa do Mundo acirra a tensão entre trabalhadores ambulantes e as Prefeituras. Um dos pontos críticos é o estabelecimento de áreas de restrição comercial durante os eventos oficiais da FIFA (desde jogos até os congressos da entidade). Desde o dia anterior a qualquer um desses eventos, leis e decretos criados especificamente a Copa do Mundo passam a vigorar nessa áreas.
Criadas para proteger os interesses dos patrocinadores da Copa, as Áreas de Restrição Comercial foram definidas na Lei Geral da Copa (12.663/2012) que atribuiu a regulamentação dessas áreas aos municípios-sede, o que já foi feito em sete sedes:BrasíliaFortalezaNatalRecifeRio de JaneiroSalvador  e São Paulo. (Veja os mapas abaixo)
As áreas são delimitadas por linhas imaginárias – não há barreiras físicas – e governadas pelas regras da FIFA, em alguns casos, revogando as leis municipais sobre comércio (incluído o ambulante), promoções e publicidade. O objetivo é dar à FIFA o direito de conduzir essas atividades nas áreas de grande concentração de torcedores – e de exposição na televisão -, garantindo aos seus patrocinadores exclusividade comercial e publicitária.
Na capital pernambucana, além do entorno da Arena Pernambuco, que fica no município de São Lourenço da Mata, uma série de ruas e avenidas como as da Boa Viagem, Conselheiro Aguiar e Domingos Ferreira (na orla da Praia de Boa Viagem) e um bairro inteiro – chamado Bairro do Recife – foram incluídos na área de restrição pelo decreto municipal 27.157/2013, sancionado pelo prefeito Geraldo Julio a dez dias do início da Copa das Confederações, no ano passado. Em seu artigo 6º, o decreto determina: “Não será autorizado qualquer tipo de comércio de rua na Área de Restrição Comercial nos dias de Evento e em suas respectivas vésperas, salvo se contar com a prévia e expressa manifestação positiva da FIFA.” Brasília e Fortaleza têm artigos idênticos em seus respectivos decretos.
“É preocupante, porque são áreas onde o comércio ambulante atua sempre aqui no Recife”, diz Severino. Em nota publicada em 8 de abril passado, a Prefeitura afirmou que recebeu o sindicato 38 vezes desde janeiro de 2013 para conversar e que vem tocando negociações em pontos reivindicados pelos ambulantes.

Falta de diálogo e indefinição

Em Fortaleza, o vice-diretor da Aprovace (Associação Profissional do Comércio de Vendedores Ambulantes do Estado do Ceará), Guilherme Caminha, reclama da falta de diálogo. “Estamos tentando sentar para conversar desde o início do ano com a Prefeitura para saber como vão funcionar as coisas na Copa do Mundo e não temos respostas”, afirma. “A área do [estádio] Castelão e o centro da cidade são importantes para a gente e esperamos que haja diálogo para podermos atuar por ali. Até agora as únicas informações que eu tenho são as que você me conta”, ele disse ao nosso repórter.
Segundo dados da ONG Streetnet, cerca de 52 mil vendedores informais trabalham na capital cearense. Para a Copa das Confederações, em 2013, foram oferecidas aos ambulantes 250 vagas no entorno do Castelão e no Polo Urbanizado da Lagoa de Messejana. “No fim deste mês vencem as permissões que nós temos para trabalhar lá e nós não sabemos o que vai acontecer. Até agora a prefeitura só apreendeu nossas mercadorias. Só vejo eles perseguindo os ambulantes, mas não ofereceram espaço nenhum para a gente”, afirma Caminha.
Já em Belo Horizonte, as barracas que desde os anos 1960 vendiam feijão tropeiro e outras comidas típicas no entorno do Mineirão foram retiradas em 2010, quando começou a reforma do estádio para a Copa do Mundo. Há quatro anos os barraqueiros não têm trabalho garantido (Leia a história completa aqui).
“Para nós, a Copa foi acompanhada de desemprego e falta de renda”, desabafa Selma Salvino da Silva, presidente da Abaem – Associação dos Barraqueiros da Área Externa do Mineirão -, que também representa outros trabalhadores ambulantes da cidade. Ela conta que, durante a Copa das Confederações, quem decidia trabalhar nos arredores do estádio tinha que fazê-lo ilegalmente, correndo o risco de ter mercadorias apreendidas pela fiscalização. Além disso, a polícia bloqueou a entrada para a Avenida Antônio Abrahão Caran, principal via de acesso ao Mineirão, o que manteve os ambulantes a pelo menos 1 km de distância do estádio.
No dia 9 de julho de 2013, logo após as manifestações que marcaram o país, o governador Antonio Anastasia se reuniu com militantes no Palácio da Liberdade e fez promessas aos ambulantes: “Estamos falando de trabalhadores e familiares. Vou me esforçar para resolver a situação deles o quanto antes. Vamos quebrar a cabeça pra isso”.
“Tem sempre muita luta e muita reunião”, diz Selma, apontando a falta de resultados efetivos apesar das inúmeras audiências que a Abaem teve com assessores do governo do estado, Ministério Público, Secretaria municipal da Copa, BH Trans (Empresa de Transporte e Trânsito de BH), Defensoria Pública e Polícia Militar, entre outras entidades. A última reunião foi no dia 19 de março e as negociações seguem em andamento.
Na Copa do Mundo, os ambulantes querem autorização para vender no entorno do estádio ou pelo menos nas áreas de fan fests (eventos oficiais de exibição pública dos jogos nas cidades-sede). “A gente espera uma negociação pacífica e uma resposta dos órgãos competentes. Quando a gente perceber que não vai ter negociação nem articulação, aí vamos fazer uma ocupação”, alerta Selma.
Até agora não se sabe nem exatamente qual será a área de restrição comercial em Belo Horizonte. Em dezembro de 2013, seis meses depois da Copa das Confederações, Belo Horizonte aprovou a Lei nº 10.689, estabelecendo que o comércio de rua nas imediações e principais vias de acesso ao estádio seguirá as determinações da Fifa em acordo com a prefeitura, não sendo aplicáveis as normas municipais sobre o assunto. Mas não definiu o perímetro das áreas de restrição, o que terá que ser feito por meio de um decreto. Questionada sobre a demora em definir as áreas de restrição comercial e sobre seu posicionamento em relação aos ambulantes, a Secretaria da Copa de Belo Horizonte não respondeu até o fechamento da reportagem.
A serviço dos patrocinadores
O Fórum dos Ambulantes de São Paulo, que reúne membros de sindicatos, associações e coletivos ligados aos trabalhadores ambulantes, atua desde 2011 em conjunto com o Comitê Popular da Copa de São Paulo para garantir os direitos dos trabalhadores ambulantes na capital paulista. Em junho de 2012, com assistência jurídica do Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, o Fórum conseguiu uma liminar revogando as cassações de Termos de Permissão de Uso (TPUs) feitas pelo prefeito Gilberto Kassab (PSD) naquele ano. Na decisão da juíza Carmen Oliveira, da 5ª Vara da Fazenda Pública, aparece o número de licenças cassadas: 4 mil.
A liminar foi derrubada pela Prefeitura ainda em 2012, mas os ambulantes conseguiram reestabelecê-la no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Em 16 de maio de 2013, uma audiência pública definiu que o processo seria suspenso por 180 dias para a elaboração de um plano municipal para o comércio ambulante. Com esse objetivo, foi criado, em setembro, o Grupo de Trabalho dos Ambulantes, composto por representantes dos ambulantes, da sociedade civil e do poder público, e coordenado pela Secretaria de Coordenação das Subprefeituras.
Esse plano ainda não foi lançado, mas o Grupo de Trabalho dos Ambulantes tem funcionado como espaço de articulação de um acordo entre SP Copa (Secretaria Municipal da Copa), FIFA, Secretaria de Coordenação das Subprefeituras e Fórum dos Ambulantes para garantir trabalho aos ambulantes durante a Copa do Mundo. ”Estamos negociando para que os ambulantes vendam produtos das empresas patrocinadoras da Copa no entorno do estádio, na fan fest e nos outros cinco eventos de exibição pública”, diz André Cintra, assessor de imprensa da SP Copa.
Porém, o decreto nº 55.010, publicado na quinta-feira passada, afirma apenas que a FIFA possui o direito sobre o comércio de rua nas áreas de restrição comercial nos dias de eventos oficiais e nas vésperas, sem detalhar como isso vai acontecer.
“Vai ter ambulante na Copa. Isso está fechado. É uma coisa boa para o ambulante, boa para quem está nas ruas. Para a Ambev e para a Coca-Cola, o que importa é vender a latinha, então quanto mais ambulantes houver, melhor”, afirma Cintra. Segundo ele, o número de ambulantes que poderão atuar nesse esquema e a logística ainda estão sendo discutidos pelo Grupo de Trabalho, mas deve ficar em torno de 400 postos de trabalho.
Esse esquema conta com as benção da FIFA, que declarou: “Em 2013, por meio de uma iniciativa inédita, a FIFA e COL autorizaram que quatro Sedes da Copa das Confederações da FIFA Brasil 2013, em conjunto com os patrocinadores oficiais, implementassem um projeto com ambulantes, que foram previamente selecionados, treinados e devidamente credenciados para atuação nas imediações dos estádios nos dias dos jogos. Para a Competição em 2014, a FIFA e COL, juntamente com outros atores relevantes, têm estimulado as autoridades locais e patrocinadores oficiais da Copa do Mundo da FIFA 2014™ a desenvolver e implementar projeto semelhante. É importante notar que, mesmo que seja conduzido um programa de qualificação para os vendedores do setor informal pelas autoridades locais, a atuação dependerá de autorização prévia e deverá ser fiscalizada nos dias dos jogos, a fim de garantir o mínimo impacto para as operações e, sobretudo, proteger aqueles que consumirão os produtos em questão.”

Na boca do Itaquerão

O assessor de imprensa da SP Copa também reconheceu as limitações da comunicação da prefeitura com os vendedores que estão hoje no entorno do estádio do Corinthians, o Itaquerão. Ali, os ambulantes trabalham em meio aos canteiros de obras sonhando com as oportunidades oferecidas pela Copa do Mundo ao mesmo tempo que convivem com a total falta de informação, como apurou a reportagem da Pública em visita à Arena Corinthians no dia 3 de abril. “O pessoal tá querendo montar um negocinho aqui, arrumar um cantinho para vender. Só que perto não vai poder ficar”, diz Elisângela Soares de Melo, que há duas semanas vende água, refrigerante e sorvete para os operários e visitantes do Itaquerão.
“No começo do ano, fomos na prefeitura pedir uma licença para trabalhar aqui, mas eles disseram que ninguém ia ficar na frente do estádio porque lá dentro vai ter um shopping que vai atender às necessidades dos torcedores”, relata Josi dos Santos, que trabalha lá há três meses. “Se ninguém se opuser, estaremos aqui. Mas a gente não sabe o que vai acontecer”, resume Valéria Nogueira, ambulante no local há um ano.

‘A FIFA tem poder de município’

“Uma vez que as atividades não autorizadas concentram-se, invariavelmente, no entorno dos estádios e outros Locais Oficiais de Competição, focando no grande número de torcedores que transitam em tais regiões, as Áreas de Restrição Comercial tornam-se, operacionalmente, essenciais para a organização da Copa do Mundo da FIFA”, afirma o departamento de imprensa da entidade, alegando que os ambulantes podem “atrapalhar o fluxo de pessoas e de carros na chegada aos jogos, além de trazer problemas para as equipes de segurança”.
O presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB (SP), Martim de Almeida Sampaio, que fez um estudo sobre a Lei Geral da Copa, critica o que considera a criação de tipos penais inexistentes para garantir os privilégios da FIFA e de seus patrocinadores. “Há três crimes novos nessa legislação: proteção à marca FIFA, marketing de emboscada por associação e [marketing de emboscada] por intrusão. Eu pesquisei: pelo Direito Comparado não existem essas três figuras penais nos principais sistemas legais”, afirma. O marketing de emboscada por associação é quando alguém divulga marcas, produtos ou serviços e os associa aos eventos ou símbolos oficiais da FIFA, sem a autorização dela. Já o marketing de intrusão ocorre quando alguém faz uma promoção de produtos, marcas e serviços nos locais de competição, sem se associar ao evento, mas chamando a atenção do público. Os crimes estão definidos nos artigos 32 e 33 da Lei Geral da Copa e têm penas previstas de três meses a um ano de detenção.
“O Direito Penal é um campo do Direito cujo objeto tutelado é a sociedade. Por exemplo, existe uma lei que diz que matar é crime. Isso está protegendo quem? Alguma pessoa específica? Não, está protegendo a sociedade. A Lei Geral da Copa é um caso de Direito Penal de autor. Não se está protegendo a sociedade, mas se está protegendo as marcas da FIFA”, argumenta.
“Essa lei declara um autêntico estado de sítio. A soberania nacional foi posta de lado. A Constituição Federal declara a nossa liberdade comercial e a Lei Geral da Copa delimita áreas onde a FIFA é responsável por determinar quem [pode comercializar] e o que pode ser comercializado”, critica o presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB. Sobre os ambulantes, diz: “a FIFA agora assume a postura de legislador municipal e tem o poder de proibir inclusive os vendedores ambulantes que estão devidamente regularizados”.
“Transferir para a FIFA o papel de gestão de um espaço urbano dentro da cidade é muito grave”, reitera Orlando Santos Jr., sociólogo doutor em Planejamento Urbano e pesquisador do Observatório das Metrópoles. “Quem legitimou essa autoridade para que a FIFA possa regular o espaço público de uma parte da cidade? Há também um impacto sobre o direito dos cidadãos de se apropriarem da cidade na qual vivem. Eu estou com o meu direito cerceado por uma lei de exceção que não me permite a apropriação desse espaço durante um certo período. Cria-se um precedente do ponto de vista de subordinar a gestão do espaço público a interesses privados”, diz Orlando.
Sobre os ambulantes, é taxativo: “As medidas de restrição ao comércio ambulante sinalizam como uma restrição ao próprio direito ao trabalho, garantido pela Constituição. Está se criando uma restrição específica a certo grupo social, portanto, a meu ver, restringindo seu direito ao trabalho”, diz Santos Jr.
O coordenador do programa de justiça da ONG Conectas, Rafael Custódio, tem a mesma percepção: “Uma coisa é a FIFA querer regular as áreas onde o evento acontecerá, outra coisa é querer regular o espaço público do entorno. Regulamentar dessa maneira o entorno dos estádios é absolutamente ilegal e abusivo. O interesse de uma entidade privada se sobrepõe a uma série de direitos fundamentais e sobretudo ao interesse público”, afirma.
A FIFA afirmou por meio de nota que “as áreas de restrição não são uma medida inédita ou exclusiva da Copa do Mundo da FIFA™ ou da Copa das Confederações da FIFA. É usual que eventos de grandes proporções (e não apenas esportivos) contem com áreas nas quais determinadas atividades comerciais não são permitidas. Trata-se de medida lógica e necessária para a preservação da ordem e da legalidade em um evento que atrairá milhões de pessoas”.
Veja os mapas das cidades-sede com as Áreas de Restrição Comercial definidas:
O blog Copa Pública é uma experiência de jornalismo cidadão que mostra como a população brasileira tem sido afetada pelos preparativos para a Copa de 2014 – e como está se organizando para não ficar de fora.

Fonte: A Pública

terça-feira, 22 de abril de 2014

A literatura predileta de Lenin

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Por Nadezhda Krupskaya*

O camarada que me apresentou a Vladimir Llich disse-me que ele era um homem muito instruído, que lia unicamente livros científicos, que não tinha folheado na vida uma novela, nem lido uma poesia. Fiquei assombrada. Em minha juventude tinha lido e relido todos os clássicos, sabia de memória quase todo Lérmontov e outros poetas, alguns escritores, como Tchernishevski, León Tolstoi e Uspenski, significavam muito em minha vida. Pareceu-me raro que existisse uma pessoa à qual tudo isto não interessava em nada. 

Em seguida, no trabalho, conheci de perto Lenin, conheci sua opinião a respeito das pessoas, pude observar a atenção com que estudava a vida e os homens, e o Llich vivo apagou a imagem do homem que nunca abria um livro dos que falavam da vida das pessoas. 

Não obstante, as circunstâncias não nos permitiram encontrar tempo, então, para falar nesse assunto. Depois, já na Sibéria, pude ver que Lênin conhecia os clássicos tão bem quanto eu. A Turguéniev, por exemplo, tinha relido-o várias vezes. Levei comigo à Sibéria as obras de Pushkin, Lérmontov e Nekrásov. Vladimir Llich colocou-as próximo de sua cama, ao lado de Hegel, e pelas noites relia-as uma e mais vezes. Seu escritor predileto era Pushkin. Mas não se vá pensar que apreciava unicamente a forma. Por exemplo: agradava-lhe a novela de Tchernishevski Que fazer?, apesar de sua forma ingênua e de escasso valor literário. Surpreendeu-me a atenção com que lia essa novela, captando os mais sutis matizes da mesma. Certamente, amava a imagem mesma de Tchernishevski, e em seu álbum da Sibéria havia duas fotografias desse escritor, numa das quais Llich escrevera, com sua própria letra, a data do nascimento e a da morte do escritor. Havia também no álbum de Vladimir Llich fotografias de Emile Zola e dos escritores russos Herzen e Písariev, e tomara-lhes afeição. Recordo que tínhamos também na Sibéria oFausto de Goethe, em alemão, e um pequeno volume de poesias de Heine. 

Em Moscou, de regresso da Sibéria, Vladimir Llich foi ao teatro para ver O Cocheiro Henshel e depois me disse que a obra lhe agradara muito. 

Entre os livros que agradaram a Llich em Munich, recordo a novela de Gerhardt, Bei mama (Em Casa da Mãe) e Büttnerbaeur (Camponeses), de Polenz. 

Posteriormente, durante o segundo período de emigração, em Paris, Llich lia com prazer os versos de Victor Hugo, Châtiments, consagrados à revolução de 1848. Victor Hugo escreveu esses versos no exílio e eram introduzidos na França clandestinamente. Neles abunda uma ingênua pomposidade, mas, de qualquer maneira, percebe-se o hálito da revolução. Llich frequentava com prazer os cafés e teatros dos arredores para ouvir oschansoniers revolucionários, que cantavam nos bairros operários a respeito de tudo: dos camponeses que, quase bêbados, elegeram deputado um agitador que estava de passagem; da educação dos filhos; do desemprego operário, etc. A Llich agradava, sobretudo, Monteguse. Esse, filho de um communard, era o ídolo dos arrabaldes operários. É verdade que em suas improvisações, cheias de colorido popular, não havia uma ideologia concreta, mas sim muita e sincera paixão. Llich cantava com frequência sua saudação ao 17° Regimento, que se negou a abrir fogo contra os grevistas: "Salut, salut a vous, soldats du 17-eme" ("Saúdo-os, saúdo-os, soldados do 17º Regimento"). Certa ocasião, numa noitada organizada pelos russos, Llich entabulou conversa com Monteguse, e causava estranheza ver que aqueles dois homens tão diferentes — posteriormente, ao estalar a guerra, Monteguse passou-se para o campo dos chauvinistas — sonhavam juntos com a revolução mundial. Assim ocorre, às vezes, quando se encontram num mesmo vagão pessoas que apenas se conhecem e se põem a falar, acompanhadas pelo barulho das rodas, das coisas mais íntimas, daquilo que não disseram nunca em qualquer outra ocasião, e em seguida separam-se para não se voltarem a ver em toda a vida. Assim ocorreu naquela vez. Além disso, falavam em francês e num idioma estranho sempre resulta mais fácil em sonhar em voz alta do que na língua materna. Servia à nossa casa, por umas duas horas ao dia, uma criada francesa. Llich ouviu-a certa ocasião cantar uma canção. Era uma canção alsaciana. Ele pediu à mulher que a cantasse novamente e lhe ditasse a letra, e em seguida costumava cantá-la ele mesmo. A canção terminava assim:

vous avez pris l'Alsace et ia Lorraine. 
Mais malgré vous nous resterons français, 
Vous avez pu germaniser nos plaines, 
Mais notre coeur - vous ne l'aurez jamais!

(Tomastes a Alsácia e a Lorena
mas, apesar de vós, continuaremos sendo franceses;
pudestes germanizar nossos campos,
mas nosso coração jamais será vosso!)
Isso aconteceu em 1909, época de reação, na qual o Partido fora destroçado, mas seu espírito revolucionário não fora quebrado. Esta canção correspondia ao estado de ânimo de Llich. Era preciso ouvir quando triunfalmente soavam em seus lábios as palavras: 

Mais notre coeur — vous ne l’aurez jamais! 

Durante aqueles anos de exílio, os mais duros — Llich falava sempre deles com ódio, já de regresso na Rússia, repetiu uma vez mais o que dissera antes em mais de uma ocasião: 

— Por que nos trasladaríamos então de Genebra a Paris? — Foi quando sonhava com maior firmeza. Sonhava ao conversar com Monteguse, sonhava ao cantar, triunfante, aquela canção alsaciana e, nas noites de insônia, extasiava-se na leitura de Verbaeren. 

Posteriormente, depois da guerra, Vlaldimir Llich apaixonou-se pelo livro de Barbusse, Le Feu (O Fogo), ao qual atribuía uma importância enorme. Esse livro correspondia muito ao estado de ânimo que o dominava então. 

Raras vezes íamos ao teatro. Acontecia que o pouco mérito da obra ou as notas falsas que soavam na interpretação dos atores irritavam Vladimir Llich. Quase sempre íamos ao teatro e saíamos ao terminar o primeiro ato. Os camaradas riam-se de nós, dizendo que aquilo era jogar dinheiro fora. 

Mas, uma vez, Llich ficou até o fim. Creio que foi em fins de 1915, quando em Berna representaram a obra de León Tolstoi O cadáver vivo. Embora a representação fosse feita em alemão, o ator que desempenhava o papel do príncipe era russo e soube fazer chegar ao público a idéia de Tolstoi. Llich acompanhava com atenção, muito emocionado, todas as peripécias da obra. 

E, finalmente, na Rússia. A nova arte parecia a Llich estranha e incompreensível. Em certa ocasião convidaram-nos a assistir a um concerto que se dava no Kremlin para os soldados vermelhos. Colocaram Llich numa das primeiras filas. A artista Gzovskaya recitava Maiakovski: "Nosso deus é a marcha, e o coração, nosso tambor", e deu alguns passos em direção a Llich, que se sentiu perturbado, surpreso, confuso. Quando a Gzovskaya sucedeu um artista que recitou O Criminoso de Tchékhov, Llich respirou aliviado. 

Uma tarde, Llich sentiu o desejo de ver como vivia uma comuna juvenil. Resolvemos visitar Varia Armand, conhecida professora que estudava nos Estudos Superiores de Artes Aplicadas. Acredito que foi no dia do enterro de Kropotkin, em 1921. Aquele foi um ano de fome, mas entre os jovens reinava o entusiasmo. Na comuna dormiam quase sobre tábuas nuas e não tinham pão. "Mas temos trigo", disse-nos, radiante, o comuneiro de guarda. Daquele trigo fizeram para Llich um mingau estupendo, embora não tivessem sal. Llich olhava os jovens, olhava os resplandecentes rostos dos jovens artistas que o rodeavam e a alegria deles refletia-se em seu semblante. Mostraram-lhe seus cândidos desenhos, explicavam-lhe seu significado e faziam-lhe mil perguntas. Mas Llich ria, evitava a resposta e perguntava por sua vez: "Que lêem vocês? Lêem Pushkin?", "Oh, não” — exclamou alguém — “esse era um burguês! Nós lemos Maiakovski." Llich sorriu. "Pushkin” — disse — “parece-me melhor". Depois disso, Llich via com melhores olhos Maiakovski. Ao ouvir este nome lembrava sempre os jovens... cheios de vida e de alegria, dispostos a morrer pelo Poder Soviético e que não encontravam palavras na linguagem contemporânea para expressar-se e por isso buscavam-nas nos poucos compreensíveis versos de Maiakovski. Posteriormente, Llich elogiou Maiakovski por seus versos ridicularizando os burocratas soviéticos. Recordo que, das obras contemporâneas, Llich gostou de uma novela de Ehrenburg que descrevia a guerra. "Sabes, Llya, o Cabeludo (esse era o apôdo de Ehrenburg) — disse, muito contente — saiu-se muito bem!". 

Fomos várias vezes ao Teatro de Arte. Uma vez fomos ver O Dilúvio. Llich ficou fascinado. No dia seguinte, quis ir novamente ao teatro. Representavam A Ralé, de Gorki. Llich admirava Alexéi Maxímovich como pessoa, com a qual havia sentido afinidade no Congresso de Londres, admirava-o como artista e considerava que, como escritor, bastavam a Gorki poucas palavras para compreender muitas coisas. Era extraordinariamente franco com Gorki. Por isso Llich era muito exigente com os atores que representavam obras de Gorki. O excessivo teatralismo da representação irritou-o. Depois de ver A Ralé deixou de ir ao teatro durante muito tempo. Fomos também certa ocasião ver O Tio Vânia, de Tchékhov. Agradou-lhe. Finalmente, fomos ao teatro pela última vez em 1922, ver O Grilo na Estufa, de Dickens. Depois do primeiro ato, Llich já sentia tédio, o sentimentalismo pequeno-burguês de Dickens irritava-o, e, quando começou o diálogo do velho gracejador com sua filha cega, não pôde aguentar mais e abandonou a platéia na metade do ato. 

Durante os últimos meses da vida de Ilich, a pedido seu, eu lia para ele literatura amena, habitualmente às tardes. Lia para ele Schedrín, As Minhas Universidades, de Gorki. Além disso, agradava-lhe ouvir poesia, particularmente as de Demián Biedni. Mais do que os versos satíricos de Demián, porém, agradavam-lhe os versos cheios de ênfase. 

Quando lhe estava a ler os versos, costumava ele olhar pensativamente pela janela o sol poente. Recordo uns versos que terminavam com as palavras: "Nunca, nunca serão escravos os communards". 

Ao ler estes versos, parecia-me estar jurando a Llich: 

"Nunca, nunca entregaremos uma só conquista da revolução".  

Dois dias antes de sua morte, li para ele à tarde um conto de Jack London — continua em cima da mesa em sua casa — intitulado Amor à vida. É uma obra muito forte. Por um deserto nevado, que jamais fora pisado antes por alguém, marcha em direção a um porto de um grande rio um homem enfermo, que está morrendo de fome. O homem perde suas forças e já não caminha, arrasta-se, e ao lado arrasta-se um lobo que também morre de fome. O homem e a fera travam uma porfiada luta. O homem vence: mais morto que vivo, quase louco, chega a seu destino. O conto agradou extraordinariamente a Llich. No dia seguinte, pediu-me que lesse mais contos de London. Nos livros de Jack London, porém, as obras fortes alternam com outras muito fracas. O conto seguinte era muito diferente, estava impregnado de moral burguesa: um capitão prometeu a seu armador vender lucrativamente um barco carregado de trigo; o capitão sacrifica sua vida para cumprir sua palavra. Llich pôs-se a rir e fez um gesto de enfado. 

Não pude voltar a ler para ele ...


Extraído de Recordações de seus familiares a respeito de Lenin, Gospartizdat, 1955.
* Nadezhda Krupskaya - Revolucionária e pedagoga, após o triunfo da revolução socialista de 1917m foi coordenadora do Glavpoliprosvet (o Comitê Principal para Educação Política) e delegada coordenadora no Comissariado para a Instrução Pública, militante bolcheviue e membro do Comitê Central do Partido Comunista da Rússia, esposa e camarada de Lenin.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

A União da Latinoamerica de Calle 13 - download da discografia completa



Por Alexandre Martins


O grupo porto-riquenho Calle 13, cujo nome, formação e país de origem são por si só extremamente simbólicos da relação latino-americana especialmente com a América do Norte, desenvolve na letra de “Latinoamerica” um percurso crítico que perpassa desde a história de exploração da parte latina da América pelos europeus até os elementos mais sutis, poéticos e de resistência que sustentam a existência dessa parte do continente. As imagens presentes na letra compõem um quadro por meio do qual é possível chegar a uma síntese da complexidade e das contradições que engendraram e construíram os povos e os espaços latino-americanos. 

Antes de analisarmos as imagens propriamente ditas, é importante ressaltar rapidamente a estrutura em torno da qual a letra se constrói: vê-se uma nítida divisão da música em dois pólos semânticos, de modo que de um lado organiza-se um 'eu', que se define, afirma-se, critica e provoca; e, de outro lado, configura-se um 'tu-você', que se constitui como um vocativo com quem aquele 'eu' mantém uma interlocução questionadora e desmistificadora do que o 'tu' pensa desse 'eu'. Enquanto as estrofes apresentam a auto-definição do latino-americano, o refrão é o espaço em que há a crítica ao 'tu' e à postura materialista e monetarista dele. A música começa afirmando pela própria boca da América Latina (que, portanto, é personificada) que ela é o que ficou de um todo ou de uma quantidade. Que ela seria o resto, a que foi deixada e abandonada. Em seguida, define-a como uma irônica contradição; a América Latina estaria escondida num topo: tão à mostra, estando, no entanto, tão oculta. É definida como alguém cujo trabalho gera o que o outro consome, alguém cujo produto do trabalho, por exemplo, o fumo, é sempre responsável pelo prazer alheio, nunca o próprio. Na sequência, a América Latina é definida como a errante, a errada, a que vem em momento impróprio, ou a que vem para aplacar algo caótico, como a delicadeza surgindo em meio à violência. Afora isso, também seria o cotidiano – a rotina – a perenidade. A música argumenta que o desenvolvimento dela, da América Latina, passa sempre pela sua própria carne, sugerindo que qualquer desenvolvimento do continente deveria ser endógeno, posto os interesses exógenos quererem sempre aproveitar da situação não para desenvolver a América Latina de fato, mas para explorá-la ainda mais e, o que é pior, em nome de um pseudo desenvolvimento. Ao mesmo tempo, o continente latino-americano teria, em meio a essa perspectiva promíscua da qual os outros a veem, poesia, sutileza e arte. Seria como uma espécie de discurso seco, sem empolação, sem incremento, sem floreios, sem pomposidade, mas bonito, belo e simpático. A América Latina seria ainda a saudade, os vestígios daquilo que um dia já foi, mas paradoxalmente também o alimento do outro (no caso, o explorador). 


A América Latina seria humilde, simples, mas ousada, corajosa, tendo sua síntese em sua terra e em seu trabalho. Já próximo ao refrão, acentuam-se o empenho e a luta isolada e solitária da América Latina: ela levanta suas próprias bandeiras, suas causas, pois a depender dos outros, nenhuma bandeira seria levantada. Cria-se um paralelo entre um aspecto geográfico e um aspecto cultural: o povo latino-americano seria resistente, pois teria aprendido com a espinha dorsal presente em seu território: a cordilheira dos Andes. As tradições, os ensinamentos e a família são outros traços dos povos originários que, segundo a música, teriam ficado como herança para a América Latina, que não ignoraria tal legado, pois se o fizesse se comportaria como alguém que ignorasse a própria mãe. Uma das imagens mais síntese ocorre quando a letra afirma que a América Latina é um povo sem pernas, posto terem tirado-as, mas que caminha e que faz, portanto, o impossível. No refrão, enfim, alega-se que o 'você' mantém uma relação apenas comercial com o 'eu', mas que há coisas que este 'você' não pode incluir neste comportamento: são os elementos da natureza e os sentimentos, posto não serem compráveis. 


A letra termina, em sua segunda parte, trazendo elementos culturais, religiosos e poéticos da América Latina e acentuando a luta e a insistência latino-americana em refazer o que os outros sempre desfizeram. Seríamos, então, brutos, por um lado, posto serem brutos conosco, mas, por outro, seríamos, sobretudo, sutis e caridosos. E não guardaríamos vingança, embora não teríamos tido como esquecer, no exemplo citado na música, a operação Condor. A letra termina reafirmando que a América Latina caminha, luta, apesar e acima de tudo. E reitera a oposição entre elementos tangíveis (compráveis), em oposição aos intangíveis (não consumíveis, não 'monetarizáveis'). Podemos dizer que todos esses motivos somados acabariam por criar as condições favoráveis para que a América Latina 1) teça a união defendida por Bolívar e Martí e 2) defenda sua sobrevivência por meio do pensamento proposto por Mariátegui, ou seja, focalizando seu desenvolvimento na criação das próprias ideias e não apenas insistindo em reproduzir as dos outros.

Clipe legendado de Latinoamerica




Para baixar via torrent a discografia completa do Calle 13 - clique aqui

Fonte: Motopangea

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Cinco temas que não são notícia na grande mídia estadunidense


Estados Unidos - Russia Today - [Tradução do Diário Liberdade] Os meios de comunicação dos EUA preferem abordar os problemas econômicos, políticos e sociais de outros países, enquanto que as dificuldades relacionadas à realidade estadunidense nem sempre aparecem em suas manchetes.



O portal Alter.net fez uma lista de problemas que não aparecem nos principais veículos estadunidenses, que parecem se orientar mais aos interesses dos 5% de seus leitores mais privilegiados.

Oito milionários ganham mais do que 3,6 milhões de trabalhadores

Segundo o recente relatório "Out of Reach 2014", uma radiografia da situação social no país, um trabalhador estadunidense de tempo integral com salário mínimo pode alugar um apartamento com um dormitório. Enquanto isso, os lucros no mercado de apenas oito milionários como Bill Gates ou Warren Buffet superam a renda total de 3,6 milhões de trabalhadores que ganham um salário mínimo.

A evasão fiscal ameaça a educação estatal

Vários estudos independentes constatam que as empresas estadunidenses pagam cada vez menos impostos, necessários para o financiamento de programas estatais de educação e pensões. Estima-se que a porcentagem dos ganhos corporativos arrecadados como impostos de renda reduziu de 7% em 1980 para cerca de 3% nos dias de hoje.

Os EUA gastaram 34 bilhões de dólares desde que começou a recessão

Embora essa quantidade de dinheiro, equivalente a 100.000 dólares para cada cidadão estadunidense, tenha sido destinada para amenizar as consequências da crise econômica provocada pela explosão da bolha financeira em 2008, aproximadamente 93% da população dos EUA não se beneficiou desta redistribuição da riqueza e o patrimônio líquido médio dos lares estadunidenses apenas se recuperou durante os últimos cinco anos.

Empresas com sede nos EUA pagam mais impostos fora do país

Grandes multinacionais como Citigroup, Pfizer e Exxon aproveitam os benefícios fiscais dos EUA, reduzindo ao mesmo tempo o pagamento de impostos. Assim, em 2013, a Exxon tinha nos EUA cerca de 43% da gestão, 36% das vendas, 40% dos ativos e entre 70% e 90% de sua produção de poços de petróleo e de gás, enquanto que pagou de impostos nos EUA apenas cerca de 2% de seus lucros totais.

Salários baixos estagnados durante décadas

Um estudo demonstra que os salários de empregos de pouco prestígio como o de empregados de restaurantes não cresceu desde os anos 80 e com uma remuneração de apenas 2 dólares por hora. Tampouco esses trabalhos sofreram grandes mudanças na estrutura social e de gênero, já que 40% desses empregados são pessoas de cor, e cerca de dois terços são mulheres.


Fonte: Diário Liberdade

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Mafalda, à beira dos 50



Nasceu para que seu criador, de olhar estrábico e delicado, suportasse aridez e banalidade da vida. Não se adapta. Meio século depois, tornou-se mais inspiradora que nunca.
Por Cibelih Hespanhol
O mundo, como se apresentava para as retinas de Joaquín Salvador Tejón, sempre esteve um pouco desfocado. Algo não estava certo naquelas aparências e formas – naquela maneira de se ajeitar do mundo – que espiava em seu olhar estrábico o argentino de Mendonza; a ponto de parecer inevitável àquele homem, de palavras secas e pensamento ateu, que com o passar do tempo e a permanência das coisas sua visão se tornasse, afinal, delicada demais para esta vida estranha.
Esta visão delicada, problema que não se resolvia, só teve uma cura, por fim: foi para o papel. Nos anos 60, Joaquín, o Quino, via nascer de seu ofício de desenhista uma filha que nunca planejara ter – Mafalda, a menina de fita vermelha, língua afiada e ideias anticonformistas, que neste ano de 2014 torna-se una niña de cinquenta anos.
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Nunca censurada, Mafalda passou ilesa pelo golpe militar que não podia imaginar “conteúdo subversivo” em uma HQ de personagens infantis. Mas de dentro de sua inocência, com seu vestidinho rodado, na companhia de Felipe ou de Liberdade, ela é a própria enfant terrible – capaz de soltar, sem pudor algum, as piores verdades, e as melhores perguntas, tão embaraçosas para o mundo dos adultos.
Em 1963, Mafalda nasceu pela primeira vez em um anúncio publicitário que, para o posterior deleite de muitos, nunca deu certo. Um ano depois, em 29/9/64, nasceria de novo, e dessa vez pra valer: “Como não tinha que elogiar as virtudes de nenhum aspirador, a fiz reclamar, carrancuda. Foi uma revanche imediata”. A pequena saiu das mãos de um argentino para conquistar todo o mundo. Para o pai, a explicação é fácil. “A temática é comum tanto na China, Finlândia ou América Latina”. Para todos nós, a leitura é deliciosa.
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“Mafalda pertence a um país denso, de contrastes sociais, que apesar de tudo queria integrá-la e fazê-la feliz, mas ela se nega e rejeita todas as ofertas”. Herdeira do problema de visão do pai (que é altamente transmissível, e contamina-se pela leitura!), Mafalda estaria, neste mundo de cinquenta anos depois, tão aturdida quanto ácida. Quino se diz surpreso ao ver que suas tiras desenhadas há tanto tempo estão vivas até hoje. Se abrirmos um livro de Mafalda, também podemos nos surpreender com a incômoda constatação de que, se mudam os tempos, as “mesmas” lutas continuam…

terça-feira, 15 de abril de 2014

O “marxismo” citado no Mein Kampf de Adolf Hitler

Hitler acompanha desfile da SA com um cartaz: "Morte ao Marxismo".


Resolvi reunir aqui uma lista enorme de citações de Hitler sobre o marxismo, comunismo, bolchevismo e URSS. É um exercício acadêmico, como fonte de referências futuras. Este texto servirá de apêndice de um outro texto que estou escrevendo. É uma compilação de afirmações ipsis literis de Adolf Hitler a cerca do tema.
Procurei citar os parágrafos e frases importantes para a compreensão da relação (ou falta dela) de Hitler com o marxismo, e, como o autor mesmo fazia, não vai ser difícil observar o evidente antissemitismo associado com o tema. Por incrível que pareça, não estão todas as citações de Hitler sobre o tema em seu livro de 500 e poucas páginas.
O conteúdo é muitas vezes chocante ou contraditório, mas sempre que possível procurei citar o contexto, daí a grande extensão deste texto. Inicialmente começarei com a palavra escrita do próprio autor, retirada de seu livro, o Mein Kampf, na tradução de Klaus Von Puschen, publicada pela editora Centauro em 2001.
Assim, aqui vai:
Página 22: “Nesse tempo, abriram-se-me os olhos para dois perigos que eu mal conhecia pelos nomes e que, de nenhum modo, se me apresentavam nitidamente na sua horrível significação para a existência do povo germânico: marxismo e judaísmo”
Página 43: “Só o conhecimento dos judeus ofereceu-me a chave para a compreensão dos propósitos íntimos e, por isso, reais da social-democracia. Quem conhece este povo vê cair-se-lhe dos olhos  o véu que impedia descobrir as concepções falsas sobre a finalidade e o sentido deste partido e, do nevoeiro do palavreado de sua propaganda, de dentes arreganhados, vê aparecer a caricatura do marxismo”
Página 51:  No pequeno círculo em que agia, esforçava-me, por todos os meios ao meu alcance, por convencê-los da perniciosidade dos erros do marxismo e pensava atingir esse objetivo, mas o contrário é o que acontecia sempre.”
Página 53:”A doutrina judaica do marxismo repele o princípio aristocrático na natureza. Contra o privilégio eterno do poder e da força do indivíduo levanta o poder das massas e o peso-morto do número. Nega o valor do indivíduo, combate a importância das nacionalidades e das raças, anulando assim na humanidade a razão de sua existência e de sua cultura. Por essa maneira de encarar o universo, conduziria a humanidade a abandonar qualquer noção de ordem. E como nesse grande organismo, só o caos poderia resultar da aplicação desses princípios, a ruína seria o desfecho final para todos os habitantes da terra.
Se o judeu, com o auxílio do seu credo marxista, conquistar as nações do mundo, a sua coroa de vitórias será a coroa mortuária da raça humana e, então, o planeta vazio de homens, mais uma vez, como há milhões de anos, errará pelo éter.”
Página 63: “A democracia do ocidente é a precursora do marxismo, que sem ela seria inconcebível. Ela oferece um terreno propício, no qual consegue desenvolver-se a epidemia. Na sua expressão externa – o parlamentarismo – apareceu como um monstrengo de “lama e de fogo”, no qual, a pesar meu, o fogo parece ter-se consumido depressa demais. “
Página 116: “Pela segunda vez na minha vida, analisei profundamente essa doutrina de destruição [o marxismo] – desta vez, porém, não mais guiado pelas impressões e efeitos do meu ambiente diário, e sim dirigido pela observação dos acontecimentos gerais da vida política.  [...]
Comecei a considerar, pela primeira vez, que tentativa deveria ser feita para dominar aquela pestilência mundial. Estudei os móveis, as lutas e os sucessos da legislação especial de Bismarck. Gradualmente o meu estudo me forneceu princípios graníticos para as minhas próprias convicções – tanto que desde então nunca pensei em mudar minhas opiniões pessoais sobre o caso. Fiz também estudo profundo das ligações do marxismo com o judaísmo.
Página 116: “No meu íntimo eu estava descontente com a política externa da Alemanha, o que revelava ao meu pequeno círculo de meus conhecidos, bem como a maneira extremamente leviana, como me parecia, de tratar-se o problema mais importante que havia na Alemanha daquela época – o marxismo. Realmente, eu não podia compreender como se vacilava cegamente ante um perigo cujos efeitos – tendo-se em vista a intenção do marxismo – tinham de ser um dia terríveis.
Página 116: “Nos anos de 1913 e 1914 manifestei a opinião, em vários círculos, que, em parte, hoje estão filiados ao movimento nacional-socialista, de que o problema futuro da nação alemã devia ser o aniquilamento do marxismo”
Página 127: “O marxismo, cuja finalidade última é, e será sempre, a destruição de todas as nacionalidades não judaicas, teve de verificar, com espanto, que nos dias de julho de 1914, os trabalhadores alemães, já por eles conquistados, despertaram e cada dia com mais ardor, se apresentavam ao serviço da pátria.’
[...]
Tinha chegado agora o momento oportuno de proceder contra a traiçoeira camarilha de envenenadores do povo. Dever-se-ia ter agido sumariamente, sem considerações para com as lamentações que provavelmente se desencadeariam. Em agosto de 1914 tinham desaparecido, como por encanto, as idéias ocas de solidariedade internacional e, no lugar delas, já poucas semanas depois, choviam, sobre os capacetes das colunas em marcha, as bênçãos fraternais de bombas americanas. Teria sido dever de um governo cuidadoso exterminar sem piedade os destruidores do nacionalismo, uma vez que os operários alemães se tinham integrado de novo a Pátria.
“Que se deveria fazer? Por os dirigentes do movimento nos cárceres, processá-los e deles livrar a nação. Ter-se-ia de empregar com a máxima energia todos os meios de ação militar, a fim de destruir essa praga. Os partidos teriam de ser dissolvidos, o Reichstag teria de ser chamado à razão pela força convincente das baionetas.”
Página 160: “Foi assim que os dogmas de Gottfried Feder me incitaram a me ocupar de maneira decidida com esses assuntos que eu pouco conhecia. Comecei a aprender e compreender, só agora, o sentido e a finalidade da obra do judeu Karl Marx. Só agora compreendi bem seu livro – “O Capital’ – assim como a luta da social-democracia contra a economia nacional, luta essa que tem em mira preparar o terreno para o domínio da verdadeira alta finança internacional.”
Página 176: “Antes da guerra, a internacionalização dos negócios alemães já estava em andamento, sob o disfarce das sociedades por ações. É verdade que uma parte da indústria alemã fez uma decidida tentativa para evitar o perigo, mas, por fim, foi vencida por uma investida combinada do capitalismo ambicioso, auxiliado pelos seus aliados do movimento marxista.”
Página 181: “Não precisamos dizer nada sobre os mentirosos jornais marxistas. Para eles o mentir é tão necessário como para os gatos miar. Seu único objetivo é quebrar as forças de resistência da nação, preparando-a para a escravidão do capitalismo internacional e dos seus senhores os judeus”
Página 192: O bolchevismo da arte é a única forma cultural possível da exteriorização do marxismo.
Quando essa coisa estranha aparece, a arte dos Estados bolchevizados só pode contar com produtos doentios de loucos ou degenerados, que desde o século passado, conhecemos sob forma de dadaísmo e cubismo, como arte oficialmente reconhecida e admirada.”
Página 236: “O processo aí emprego pelo judeu é o seguinte: aproxima-se do trabalhador, finge compaixão pela sua sorte ou mesmo revolta contra seu destino de miséria e indigência, tudo isso unicamente para angariar confiança. Esforça-se por examinar cada privação real ou imaginária na vida dos operários, despertando o desejo ardente de modificar a sua situação. A aspiração à justiça social, latente em cada ariano, é por ele levada de um modo infinitamente hábil, ao ódio contra os privilégios da sorte; a essa campanha pela debelação de pragas sociais imprime um caráter de universalismo bem definido. Está fundada a doutrina marxista.
[...]
É que, sob esse disfarce de idéias puramente sociais, escondem-se intenções francamente diabólicas. Elas são externadas ao público com uma clareza demasiado petulante. A tal doutrina representa uma mistura de razão e loucura, mas tal forma que só a loucura e nunca o lado razoável consegue se converter em realidade. Pelo desprezo categórico da personalidade, por conseguinte de toda a civilização humana, que depende justamente desses fatores. Eis a verdadeira essência da teoria marxista, se é que pode se dar a esse aborto de um cérebro criminoso a denominação de “doutrina’. “
Página 237: “De acordo com as finalidades da luta judaica, que não consistem unicamente na conquista econômica do mundo, mas também na dominação política, o judeu divide a organização do combate marxista em duas partes, que parecem separadas mas, em verdade, constituem um único bloco: o movimento dos políticos e dos sindicatos.”
Página 243:  “Mesmo as eleições de representantes ao “Reichstag” anunciavam, com o seu acréscimo patente de votos marxistas, o desmoronamento  interno cada vez mais próximo e a todos manifesto. Todos os sucessos dos denominados partidos políticos não tinham mais valor, não só por não poderem fazer parar a ascensão da onda marxista, mesmo nas chamadas vitórias eleitorais burguesas, como também pelo fato de já trazerem dentro de si os fermentos da decomposição. Inconscientemente, o mundo burguês já se achava contaminado pelo veneno mortal do marxismo”.
Página 287: “E se uma parte do marxismo, por vezes, tenta, com muita prudência, aparentar indissolúvel união com os princípios democráticos, convém não esquecer, que esses senhores, nas horas críticas, não deram a menor importância a uma decisão por maioria, à maneira democrática ocidental. Isso foi quando os parlamentares burgueses viam a segurança do Reich garantida pela monumental parvoíce de uma grande maioria, enquanto o marxismo com uma multidão de vagabundos, desertores, pulhas partidários e literatos judeus, em pouco tempo, arrebatava o poder para si, aplicando, assim, ruidosa bofetada à democracia. Por isso, só ao espírito crédulo dos magros parlamentares da burguesia democrática cabe supor que, agora ou no futuro, os interessados pela universal peste "marxistíca" e seus defensores possam ser banidos com as fórmulas de exorcismo do parlamentarismo ocidental”.
Página 288: “Mas, numa época em que uma parte, aparelhada com todas as armas de uma nova doutrina [o marxismo], embora mil vezes criminosa,  se prepara para o ataque a uma ordem existente, a outra parte só pode resistir-lhe sempre se adotar fórmulas de uma nova fé política; em nosso caso, se trocar a senha de uma defesa fraca e covarde pelo grito de guerra de um ataque animoso e brutal.”
Página 291: “À nossa concepção política usual repousa geralmente sobre a ideia de que ao Estado, em si, se pode atribuir força criadora e cultural, mas que ele nada tem a ver com a questão racial; e que ele é, antes de mais nada, um produto das necessidades econômicas ou, no melhor dos casos, o resultante natural da competição política pelo poder. Essa concepção fundamental, em seu lógico e consequente desenvolvimento progressivo, leva não só ao desconhecimento das forças primordiais da raça como à desvalorização do indivíduo. Porque a negação da diferença entre as raças viria a ser o fundamento de um semelhante modo de ver a relação aos povos e depois em relação aos homens individualmente. A aceitação da identidade das raças viria a ser o fundamento de um semelhante modo de ver em relação aos povos e depois em relação aos homens individualmente. Por isso, o marxismo internacional é simplesmente  a versão aceita pelo judeu Karl Marx de idéias e conceitos já há muito existentes de fato sob a forma de aceitação de uma determinada fé política. Sem o alicerce de uma semelhante intoxicação geral já existente, jamais teria sido possível o espantoso êxito político dessa doutrina. Entre os milhões de indivíduos de um mundo que lentamente se corrompia, Karl Marx foi, de fato, um que reconheceu com o olho seguro de um profeta, a verdadeira substância tóxica e a apanhou para, como um feiticeiro, com ela aniquilar rapidamente a vida das nações livres da terra. Tudo isso, porém, a serviço de sua raça.
Página 291: “O mundo burguês é "marxistísco", mas acredita na possibilidade de domínio de determinado grupo de homens (burguesia), ao passo que o marxismo procura calculadamente entregar o mundo às mãos dos judeus”.
Página 335: ” Se o programa social do novo movimento consistisse em suprimir a personalidade e por em seu lugar a autoridade das massas, o Nacional-Socialismo já ao nascer, estaria contaminado pelo veneno do marxismo, como é o caso dos partidos burgueses.”
Página 342: “O que nossa burguesia sempre olhou com indiferença, isto é, a verdade segundo a qual ao marxismo só se ligam as classes iletradas era, na realidade, a condição sine qua non para o êxito do mesmo. Enquanto os partidos burgueses, na sua intelectualidade superficial, nada mais representavam do que um bando incapaz e indisciplinado, o marxismo, com um material humano intelectualmente inferior, formou um exército de soldados partidários que obedeciam tão cegamente aos seus dirigentes judeus como outrora aos seus oficiais alemães.”
Página 353: “A força que deu ao marxismo sua espantosa influência sobre as massas não foi a obra intelectual preparada pelos judeus, mas sim a formidável propaganda oral que inundou a nação, acabando pela dominação das camadas populares. De cem mil proletários alemães não se tiram talvez cem que conheçam a obra de Marx, que era estudada, mil vezes mais, pelos intelectuais, especialmente os judeus, do que por genuínos adeptos do movimento nas classes inferiores.
Esse livro não foi escrito para o povo, mas exclusivamente para os líderes intelectuais da máquina que os judeus montaram para a conquista do mundo. “
Página 361: Só a cor vermelha de nossos cartazes fazia com que afluíssem às nossas salas de reunião. A burguesia mostrava-se horrorizada por nós termos também recorrido à cor vermelha dos bolchevistas, suspeitando, atrás disso, alguma atitude ambígua. Os espíritos nacionalistas da Alemanha cochichavam uns aos outros a mesma suspeita, de que, no fundo, não éramos senão uma espécie de marxistas, talvez simplesmente mascarados marxistas ou melhor, socialistas. A diferença entre marxismo e socialismo até hoje não entrou nessas cabeças. Especialmente, quando se descobriu que, nas nossas assembleias  tínhamos por princípio não usar os termos ‘Senhores e Senhoras’, mas ‘Companheiros e Companheiras’, só considerando entre nós o coleguismo de partido, o fantasma marxista surgiu claramente diante de muitos adversários nossos. Quantas boas gargalhadas demos à custa desses idiotas e poltrões burgueses, nas suas tentativas de decifrarem o enigma da nossa origem, nossas intenções e nossa finalidade.
A cor vermelha de nossos  cartazes foi por nós escolhida, após reflexão exata e profunda, com o fito de excitar a Esquerda, de revoltá-la e induzi-la a frequentar nossas assembleias; isso tudo nem que fosse só para nos permitir entrar em contato e falar com essa gente.”
Página 368-369: “É a essa idéia que a bandeira preta, branca e vermelha, do antigo Reich, deve a sua ressurreição como emblema dos partidos nacionais-burgueses.
É evidente que o símbolo de uma crise que podia ser vencida pelo marxismo, em circunstâncias pouco honrosas, pouco se presta a servir de emblema sob o qual esse mesmo marxismo tem que ser novamente aniquilado. Por mais santas e caras que possam ser essas antigas e belíssimas cores aos olhos de todo alemão bem intencionado, que tenha combatido na Guerra e assistido ao sacrifício de tantos compatriotas, debaixo dessas cores, não pode essa bandeira simbolizar uma luta no futuro.”
Página 384-385: “Ninguém deve esquecer que tudo que há de verdadeiramente grande neste mundo não foi jamais alcançado pelas lutas de ligas, mas representa o triunfo de um vencedor único. O êxito de coalizões já traz na sua origem o germe da corrupção futura. Na realidade só se concebem grandes revoluções suscetíveis de causar verdadeiras mutações de ordem espiritual, quando arrebentam sob a forma de combates titânicos  de elementos isolados, nunca porém, como empreendimentos de combinação de grupos.”
Cartaz nazista incentivando a queima de livros e ideias marxistas

Página 446: “Não o sindicato em si é que é “lutador de classe’, mas o marxismo é que o fez dele um instrumento para a luta de classes. Ele criou as armas econômicas dos Estados nacionais livres, independentes, para aniquilamento da sua indústria nacional e do seu comércio nacional e por consequência para a escravização de povos livres ao serviço do judaísmo financeiro universal super-estatal.”
Página 449: “Quem [...] tivesse realmente arruinado sindicatos marxistas a fim de, em lugar dessa instituição da luta de classes aniquiladora, colocar a ideia do sindicato nacional-socialista e contribuir para a sua vitória, esse pertence ao número dos verdadeiros grandes homens de nosso povo e seu busto deverá, um dia, ser dedicado à posteridade, no Walhalla de Regensburg”.
Página 450: Utilidade real para o movimento [sindical], como para nosso povo em geral [...] só pode surgir de um movimento sindical nacional-socialista, se esse já estiver tão fortemente embebido das nossas idéias nacional-socialistas que ele não corra mais perigo de seguir as pegadas marxistas. Pois um sindicato nacional-socialista, que visse como sua missão apenas a concorrência aos marxistas, seria pior que nenhum. Ele tem de declarar a sua luta ao sindicato marxista, não apenas como organização, mas antes de tudo, como idéia. Ele deve encontrar nele o pregoeiro da luta de classes e da idéia de luta de classes e deve se tornar, em lugar deles, o guardião dos interesses profissionais dos cidadãos alemães.
Página 488: “Uma aliança, cujo o objetivo não compreenda a hipótese de uma guerra, não tem sentido nem valor. Alianças só fazem para luta. Embora, no momento de ser realizado um tratado de aliança, esteja muito afastada a ideia de guerra, a probabilidade de uma complicação bélica é, não obstante, a verdadeira causa.
[...]
Assim pois, o simples fato de uma aliança com a Rússia é uma indicação da próxima guerra. O seu desenlace seria o fim da Alemanha.
[...]
Os atuais detentores do poder na Rússia, não pensam absolutamente em fazer uma aliança honesta ou de mantê-la.
É preciso não esquecer nunca que os dirigente da Rússia atual são sanguinários criminosos vulgares e que se trata, no caso, da borra da sociedade, que, favorecida pelas circunstâncias, em uma hora trágica, derrubou um grande Estado e, na fúria do massacre, estrangulou  e destruiu milhões dos mais inteligentes de seus compatriotas e agora, há dez anos, dirige o mais tirânico regime de todos os tempos. Não devemos esquecer que muitos deles pertencem a uma raça que combina uma rara mistura de crueldade bestial e grande habilidade em mentir e que se julga especialmente chamada, agora, a submeter o mundo todo à sua sangrenta opressão.”
Página 488: Não devemos esquecer que o judeu internacional, que continua a dominar na Rússia, não olha a Alemanha como um aliado, mas como um Estado destinado à mesma sorte. Não se conclui, porém, nenhum tratado com uma parte, cujo único interesse está no aniquilamento da outra.”
Página 489: “Devemos enxergar no bolchevismo russo a tentativa do judaísmo, no século XX, de apoderar-se do domínio do mundo”.
Página 489: “A luta contra a bolchevização mundial exige uma atitude clara com relação à Russia soviética. Não se pode afugentar o Diabo com Belzebu.”
Página 502: “Qualquer ideia de resistência contra a França seria rematada loucura, se não se declarasse guerra de morte aos elementos marxistas que, cinco anos antes, impediram que a Alemanha continuasse a luta nas linhas de frente.”
Página 503: “O fato de ter o nosso soldado outrora lutado com ardor é a prova mais evidente de que não estava ainda contaminado pela loucura marxista. À proporção, porém, que o soldado e o operário alemão, com o decorrer da Guerra, iam caindo nas garras do marxismo, eram elementos perdidos para a Pátria.”
Página 503: “No ano de 1923 estávamos em face de uma situação idêntica à de 1918. Qualquer que fosse a maneira de resistir que se escolhesse, a condição indispensável seria livrar primeiro, o nosso povo do marxismo corruptor.”
Página 505: “No dia em que, na Alemanha, for destruído o marxismo, romper-se-ão, na verdade, para sempre, os nossos grilhões”.
*************
Futuramente pretendo compilar mais citações de Hitler sobre o tema, focando em discursos e documentos oficiais do partido. O objetivo inicial é demonstrar o ódio visceral de Hitler ao marxismo e o incrível rocambole ideológico capaz de fazer o marxismo estar submetido ao capitalismo internacional numa conspiração judaica para dominar o mundo.
Depois destas, alguém ainda tem a desonestidade intelectual de associar marxismo e nazismo?


Leandro Dias

Fonte: Rio Revolta

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Uma mentira que durou 21 anos

Por Marcelo Castañeda, sociólogo e UniNômade, para o dossiê 50 anos do golpe
“Assumir a ditadura que cada um carrega e lutar contra ela pode ser um bom exercício para pavimentar uma sociedade democrática no Brasil.”

Agenda 2014 do Banco Itaú, que apoiou, financiou e integrou diretamente a ditadura,
ainda fala em “revolução” 50 anos depois. Diante das denúncias, o banco recolheu as agendas.

O golpe de 1964 tomou forma no dia primeiro de abril, o folclórico “dia da mentira” no Brasil. Para não ser motivo de chacota, os militares firmaram o dia 31 de março, para marcar o que chamam de “revolução” até hoje. E não são só os militares. A agenda que o Banco Itaú distribuiu entre alguns clientes no início do ano também aponta isso. Estou certo de que ainda existem muitos que estão, quem diria, comemorando em círculos privados, bem como acreditam que a ditadura é a solução para o Brasil, em especial aqueles que acreditam que o grande problema que enfrentamos é a corrupção, como se esta não proliferasse no regime militar. Fora isso, existe pelo menos um deputado federal que assume esta posição publicamente e não preciso citar o nome dele.
No entanto, 50 anos depois, muitas pessoas estão “descomemorando” a data, promovendo debates e atos que chamem a atenção da memória para essa página infeliz da nossa história. Estou entre esses, seja refletindo e escrevendo, seja compartilhando notícias ou colocando como foto no Facebook o rosto de algum desaparecido, morto ou torturado pelo regime militar. Esta reflexão se insere nesta perspectiva descomemorativa, focando em três pontos a fim de mostrar como a ditadura continua entre nós, muito além deste deputado. Estes pontos não esgotam as possibilidades, pense você em várias outras.
Antes disso, vale lembrar que, além dos 50 anos do Golpe, em 2014, faz 25 anos que aconteceu a primeira eleição do período democrático brasileiro que se inicia em 1985 com o governo Sarney (se é que isso pode ser chamado de redemocratização: ser governado por alguém que sempre defender a ditadura). De um lado, 50 anos de golpe; de outro, 25 anos de eleições diretas para todos os cargos públicos: uma incipiente democracia num país marcado por períodos autoritários. Mesmo assim, trata-se do maior período democrático da história brasileira, quase 30 anos de governos civis.
As Comissões da Verdade, que começaram a funcionar somente em 2012, bem depois de vários países latino-americanos que foram palcos de ditaduras, cumprem um papel fundamental no resgate da memória, tendo em vista o verdadeiro vazio documental que os militares deixaram, dificultando a construção de uma história de tortura e arbítrio. Até mesmo as fontes jornalísticas são raras, seja pela censura, seja pelo alinhamento dos principais meios de comunicação de massa ao regime militar. Um caso que me vem à mente quando escrevo é o do Instituto Penal Cândido Mendes, o outrora presídio da Ilha Grande, que foi implodido em 1994. Não há documentação sobre os presos políticos que passaram por esta unidade na década de 1970. Muitos outros exemplos de vazio podem ser citados.
Mas por que digo que a ditadura continua? Melhor ainda é perguntar: por que ela não sai de nós, de cada um de nós?
O primeiro ponto é demográfico e cultural. Talvez somente agora, tenhamos uma primeira geração que se formou no ambiente democrático. Me refiro aos que estão com seus 25 anos. Mesmo assim, foram formados por instituições que se moldaram no regime militar (famílias, escolas, universidades etc). Cada um de nós, por mais que lutemos contra, ainda traz um tanto da ditadura dentro de si e isso se reflete nos comportamentos, nas relações que estabelecemos com as pessoas, o que pode ser visto no machismo, no racismo, na homofobia que permeiam e caracterizam a nossa sociedade. Como ser democrático sendo machista, racista e homofóbico? Assumir a ditadura que cada um carrega e lutar contra ela pode ser um bom exercício para pavimentar uma sociedade democrática no Brasil.
Um segundo ponto é o estado de exceção que se verifica entre a população moradora de favelas no Rio de Janeiro, mas também nas periferias das grandes cidades e no meio rural e interior do Brasil, em especial quando estão em jogo grandes empreendimentos e disputas de terra. Ameaças, intimidações, desaparecimentos, assassinatos, perseguições políticas, tudo isso continua acontecendo, muitas vezes capitaneado pelo Estado que se diz “Democrático de Direito”. Cito dois exemplos recentes. Primeiro, Amarildo de Souza, o pedreiro que “desapareceu” na Rocinha em julho de 2013 quando foi convidado a entrar na sede de uma Unidade de Polícia Pacificadora. Nunca mais foi visto, foi tido como desaparecido e já é dado como morto, sua família sofre revezes até hoje. Segundo, um caso mais recente: a morte absurda de Cláudia Silva Ferreira. Quando saía para comprar um café foi baleada na Favela do Congonha, em Madureira, por policiais e colocada por eles no porta-malas do carro, tendo sido arrastada de forma criminosa “a caminho do hospital”. Essa atrocidade chamada Polícia Militar é uma das evidências de que a ditadura permanece entre nós, matando e desaparecendo com pessoas que são invisíveis para os que se mantém informados pela mídia oligopolista brasileira e que, de vez em quando, vem à tona para mostrar a dura realidade de quem é periférico.
São muitos Amarildos e muitas Cláudias na nossa incipiente democracia com traços de ditadura. Isso me leva ao terceiro e último ponto desta reflexão: como falar em democracia com uma mídia oligopolizada, controlada por algumas famílias e com concessões que remontam o regime militar? As redes sociais abrem uma perspectiva democratizante, mas ainda são pequenos fragmentos na formação da opinião pública, que foram muito importantes para conferir visibilidade ao desaparecimento de Amarildo e ao assassinato de Cláudia. Mas o que falar da invisibilidade que os meios de comunicação “de massa” (me refiro aqui aos jornais impressos mais vendidos e aos canais de televisão mais assistidos) conferem aos vários casos de desaparecimento e assassinatos cometidos pelo Estado ou acobertados por ele?
A democracia e a construção da paz só serão possíveis se conjugarmos mudanças culturais, desmilitarização da polícia e democratização da mídia. Outros pontos são importantes, tais como a participação popular e a legalização das drogas, mas estes três pontos que destaquei mostram como a ditadura ainda permanece entre nós. Por fim, três questões. Como uma mentira pode perdurar por tanto tempo e se fazer passar por verdade para muitos ainda? Como pode haver gente que defenda a ditadura? Como pode haver gente que, em nome da democracia, ainda reproduz a ditadura? A sociedade que construímos e participamos pode oferecer as melhores respostas.


Fonte: UniNômade