Niall Farguson em Lima (2012): velho defensor da oligarquia financeira, ele apela agora para outros “argumentos”…
Defensor de uma “austeridade” cada vez mais impopular e
insustentável, historiador Niall Ferguson rejeita ideias de Keynes
alegando sua homossexualidade.
Como dois economistas conservadores muito
influentes omitiram dados e manipularam planilhas, para “demonstrar” que
os Estados devem cortar gastos sociais
Por Álvaro Bianchi
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Niall Ferguson, historiador britânico e professor da Universidade de
Harvard, manifestou-se de modo extremamente infeliz em uma palestra na
Califórnia para um grupo de mais de 500 investidores, no início de maio.
Na opinião do historiador conservador, a teoria econômica de John
Maynard Keynes, o economista mais importante do século XX, deve ser
rejeitada pelo fato de Keynes ser gay e não ter tido filhos, o que faria
com que ele não se preocupasse com as gerações futuras. Em sua fala,
Ferguson, inclusive, afirmou que Keynes “preferia poesia a fazer sexo
com sua esposa bailarina”, fazendo referência à bailaria russa Lydia
Lopokova com quem o economista se casou.
Após rápida repercussão na internet, Ferguson publicou um pedido de
desculpas no sábado, dia 4, através do seu website, dizendo que não é
homofóbico, que havia esquecido que Lydia sofrera um aborto e que
pessoas que não têm filhos também se preocupam com o futuro.
Embora reconheça que falou algo estúpido e insensível, Ferguson
justifica que a declaração foi de improviso, no momento das perguntas
que sucederam sua palestra. Porém, foi justamente falando de improviso
que seus preconceitos vieram novamente à tona. Não teria sido a primeira
vez que Ferguson faz comentários deste tipo. Em seu livro The Pity of
War, publicado em 1999, ele sugere que Keynes posicionou-se contra a I
Guerra Mundial por razões sexuais, já que jovens garotos ingleses
estavam no front.
O argumento de Ferguson é duplamente desqualificável. Primeiro, por
questionar a teoria keynesiana pelo fato de seu autor ser homossexual e
não ter tido filhos. Segundo, por não ter compreendido sua teoria,
utilizando uma citação totalmente descontextualizada. A famosa frase de
Keynes, na qual Ferguson baseou-se para fazer suas declarações, “a longo
prazo estaremos todos mortos” é exaustivamente referida, porém, pouco
compreendida.
A sentença famosa está presente no Tratado da Reforma Monetária,
publicado em 1923, quando Keynes começou a rejeitar as ideias dos
economistas clássicos relacionadas ao fato de que os mercados se ajustam
e entram em equilíbrio. Ampliando-se o resgate do excerto no original,
Keynes afirmava que “este longo prazo é um guia enganoso para a
atualidade. A longo prazo todos estaremos mortos. Os economistas
estabeleceram para si mesmos uma tarefa demasiado fácil e demasiado
inútil se, em épocas tempestuosas, só nos conseguem dizer que depois da
tempestade, o mar volta a ficar calmo.”
Keynes jamais afirmou que o longo prazo não importa. O ponto central é
que não devemos sacrificar o presente com desemprego em massa,
aguardando que o mercado corrija o desemprego no momento em que os
trabalhadores aceitem salários menores.
Sua preocupação com o futuro é ressaltada em As Consequências
Econômicas da Paz, obra publicada em 1919, na qual Keynes criticava o
Tratado de Versalhes, que submeteu a Alemanha a condições humilhantes ao
ter que pagar as reparações de guerra, criando as condições que abriram
espaço para a ascensão do nazismo. Nesta obra, Keynes apresenta as
consequências do desemprego (ignoradas por seus críticos, inclusive, o
célebre historiador de Harvard). Nas palavras de Keynes: “Nem sempre as
pessoas aceitam morrer de fome em silêncio: algumas são dominadas pela
letargia e o desespero, mas outros temperamentos inflamam-se, possuídos
pela instabilidade nervosa da histeria, podendo destruir o que resta da
organização social, e submergindo a civilização com suas tentativas de
satisfazer desesperadamente as necessidades individuais. É contra esse
perigo que todos os nossos recursos, nossa coragem e idealismo devem
cooperar.”
Inicialmente, a posição de Keynes em relação ao tratado de paz não
foi bem recebida pelos britânicos. No entanto, a história mostrou que
ele tinha razão, com a Alemanha mergulhando no caos, numa situação que
culminou na II Guerra Mundial. Ferguson, obviamente, associou esta
posição ao homossexualismo em seu referido livro de 1999, sugerindo que
Keynes defendia a Alemanha por ter se apaixonado por um negociador
alemão durante as negociações do armistício.
Além de preconceituosos e simplistas, os argumentos de Fergunson são
também mal intencionados e buscam incidir sobre os dilemas
contemporâneos das economias europeias. A maior contribuição teórica de
Keynes foi a publicação em 1936 da Teoria Geral do Emprego, do Juro e da
Moeda, obra que revolucionou a teoria econômica. Nela, desenvolve-se a
base teórica para intervenção estatal na economia nos momentos de crise.
Quando a economia entra em crise, a confiança dos empresários é
abalada, afetando os investimentos e gerando desemprego. É nestes
momentos que deve entrar em cena a ação do Estado. Os economistas
keynesianos, portanto, defendem que em momentos de crise os governos
devem conduzir déficits orçamentários até que o estado de confiança da
economia seja restaurado e as empresas voltem a contratar. Este é
justamente o ponto em discussão nas economias centrais atualmente – e
parece ser o real motivo da fala de Ferguson, um defensor das políticas
de “austeridade”.
Cabe ainda lembrar que Keynes participou da conferência de Bretton
Woods, que reconfigurou o sistema financeiro mundial pós-guerra. Sua
preocupação era justamente evitar o erro cometido no Tratado de
Versalhes. O sistema que emergiu em Bretton Woods visava manter a
sanidade da economia mundial, evitando que os eventos insanos da Segunda
Guerra Mundial voltassem a ocorrer. Sim, Keynes preocupava-se com o
futuro da humanidade.
Improvável, mas recorrente, muitos acadêmicos de renome baseiam suas
opiniões em interpretações de segunda mão sobre Keynes. Desconhecem suas
obras originais e manifestam interpretações equivocadas. Niall
Ferguson, além de expressar preconceito inaceitável, rejeita uma teoria
de valor inestimável para tempos de crise e depressão. Não surpreende,
porém, a rejeição a priori da teoria do economista que mais se preocupou
com o desemprego ser manifestada por este historiador, fã do General
Pinochet e de Margaret Thatcher.
–
*Marcelo Mallet Siqueira Campos é professor do IFRS e doutorando em Economia PPGE-UFRGS
Em sua cruzada contra o totalitarismo, Arthur Koestler disse que é
possível explicar o racismo e identificar a origem da brutalidade dos
torturadores e dos genocidas. Mas é necessário combatê-los, isolá-los,
impedir que nos agridam e matem. Em alguns casos, podemos até mesmo
curá-los. Mas isso não significa que devamos perdoá-los
.
A aceitação das ideias alheias, que é o sumo das sociedades
democráticas, tem limites e eles se encontram na intolerância dos
fanáticos e extremistas.
Na verdade, dois são os vetores da brutalidade: o medo e a loucura.
Os grandes assassinos são movidos pela paranoia, e a paranoia oscila
entre o ilusório sentimento de absoluta potência e a frustração da
impotência. É dessa forma que Adorno, em Mínima moralia, diz que o fascista é um masoquista, que só a mentira transforma em sádico, em agente da repressão.
Quem são esses jovens embrutecidos que agrediram
um nordestino junto à Estação das Barcas, em Niterói — e foram contidos
pelas pessoas que ali se encontravam? São trastes humanos, ainda que
sejam trabalhadores e estudantes, tenham família e amigos. O que os faz
reunir-se, armar-se, sair às ruas, a fim de agredir e — quando podem —
matar outras pessoas?
Individualmente, apesar de suas artes marciais, seus socos ingleses,
seus punhais e correntes de aço, são apenas seres acoelhados, agachados
atrás de si mesmos, que só crescem quando se agrupam e se multiplicam,
em suas patas, seus punhos, suas armas.
Eles não nasceram com garras, nem tendo a cruz suástica e outros
símbolos riscados na pele. Foram crianças iguais às outras, que
encontraram pela frente uma sociedade brutalizada pelo egoísmo.
Não é difícil que tenham sentido no lar o eco de uma civilização
corrompida pela competição e destruída, em sua alma, sob o capitalismo
sem freios. Às vezes nos esquecemos que só um por cento dos homens
controla toda a riqueza do mundo.
Tampouco nasceram assim os que matam os moradores de rua, movidos
pelo mesmo medo e pela mesma ideia de que é preciso manter as cidades
“limpas”. Nestes últimos meses, tem aumentado o número de moradores de
rua assassinados em todo o país — mas mais intensamente em São Paulo, no
Rio, em Belo Horizonte, em Goiânia.
De acordo com as estatísticas, 195 deles foram mortos em 2012 e nos
primeiros meses deste ano. A imprensa internacional está debitando o
massacre à conveniência de “sanear” as maiores cidades, antes do afluxo
de visitantes que se esperam para a Jornada Mundial da Juventude, neste
ano, e para a Copa do Mundo, no ano que vem.
É bom lembrar que a matança de crianças na Candelária foi atribuída a
uma “caixinha” de comerciantes da região, interessados em varrer as
ruas desses bichos “incômodos e sujos”, que são os meninos pobres.
Há historiadores e antropólogos que amenizam o mal-estar
contemporâneo diante dessa realidade, com a afirmação de que, desde as
cavernas, o homem é naturalmente predador. Ocorre que, contra essa
perturbadora condição de bichos que somos, prevaleceu o sentimento de
solidariedade que nos tornou humanos, e foi possível sobreviver às
catástrofes naturais, como os terremotos e as pestes, e às guerras
continuadas. Mas, dentro da ideia dialética de que a quantidade altera a
qualidade, chegamos a um ponto insuportável.
Há dois caminhos na luta contra essa nova barbárie. Um é o da fé
religiosa, outro o da razão materialista. A fé — um acordo entre o homem
primitivo e o mistério da vida, a que ele deu o nome de Deus — tem sido
o principal suporte da espécie, sempre e quando ela não se perde no
fanatismo.
A razão se encontra com a fé no exercício do humanismo. Mas há sempre
razão na fé, como há fé na lógica do ateu. As duas posturas são de
autodefesa da sociedade humana e se realizam na coerente ação política.
Como disse Tomás de Aquino, a filosofia das coisas humanas só se
concretiza com a prática da política.
Há novos pensadores, sobretudo na velha França, que buscam recuperar o
humanismo de Marx, o do jovem filósofo dos Manuscritos econômicos e
filosóficos, de 1844, e as suas reflexões sobre a alienação. O trabalho
de Marx correspondeu à necessidade de defesa dos trabalhadores contra o
liberalismo do século 19, e a desapiedada exploração dos pobres pelas
oligarquias burguesas, substitutas do velho feudalismo.
Retornar a Marx é buscar novas e mais eficazes respostas contra o
neoliberalismo de nossos dias. É ainda possível a aliança entre o
humanismo cristão e os pensadores agnósticos, fundada em uma constatação
fácil, a de que é preciso salvar o homem de si mesmo. É urgente
salvá-lo do barbarismo reencontrado na estupidez do egoísmo neoliberal.
Isso faria do planeta o seguro espaço da vida. O retorno esperado à
Teologia da Libertação é uma das vias de acesso à Terra Prometida.
O filósofo francês Dany-Robert Dufour, em um de seus ensaios,
pergunta que homem emergirá do ultraliberalismo de hoje. Não é
necessária a pergunta: ele já está aí, no corpo volumoso adquirido nas
academias e nutrido de anabolizantes; na cabeça reduzida pelas mensagens
de uma cultura castradora, fundada no efêmero e no inútil; na pele
usada como o anúncio de cada um, mediante as tatuagens; na ilusão da
fama e da eternidade, nas postagens arrogantes no Facebook; no ódio ao
outro, celebrado no culto à morte.
Essa visão nublada do mundo está contaminando grande parte de nossa
juventude, nas escolas e universidades. É preciso que as escolas deixem o
tecnicismo que as reduz, e voltem ao módulo ético, para fazer dos
homens, homens, e deles afastar os instintos dos predadores.
É preciso reagir. Os alemães dos anos 20 e 30 não reagiram, quando
grupos de nazistas atacavam os judeus e os comunistas. Os democratas
europeus não reagiram contra as chantagens de Hitler no caso do Sarre,
da anexação da Áustria, do ultimato de Munique. Dezenas de milhões
pagaram, com o sofrimento e a vida, essa acovardada tolerância.
Há 125
anos, no dia 13 de maio de 1888 foi assinada a Lei Áurea. Em 1998, o
então senador Abdias do Nascimento, chamava a atenção da nação para o 13
de maio – data em que por muito tempo o Brasil comemorou a abolição da
escravidão - como uma mentira cívica. Na oportunidade, ele pronunciou o
seguinte discurso no Senado, arquivado na Secretaria de Informação e Documentação:
Mídia
e conservadores reabrem debate oportunista e vazio, com objetivos
eleitoreiros. Esquerda precisa preparar-se para propor segurança cidadã
Por Luís Fernando Vitagliano | imagem: Carlos Bassan
Uma
dentista assassinada por bandidos que atearam fogo em seu corpo por ter
somente 30 reais em sua conta bancária; um garoto assassinado com um
tiro a queima roupa na cabeça por não entregar sua mochila. A crueldade
dos crimes praticados por menores de idade chama a atenção midiática
nesses dois casos. Somados a isso, os índices divulgados na semana
passada só vêm comprovar o que a percepção da população já havia
expressado: o aumento significativo da criminalidade em São Paulo,
principalmente de assassinatos e latrocínios.
Voltou
à tona uma discussão – casuística e rasa – sobre a maioridade (ou menor
idade) penal. Com 18 anos uma pessoa está perdida o suficiente para
ingressar no sistema penitenciário brasileiro? As casas de menores são
instituições que não recuperam nem geram outras oportunidades para
jovens infratores. Fato. Mas, os criminosos e assassinos menores de
idade são minorias e casos à parte – tratar o todo pela exceção não
resolve, só piora o problema. Falar, portanto, de redução da maioridade
penal sem discutir recuperação penitenciária, ou as causas que levam às
praticas do menor infrator, ou medidas como aumento das penalidades para
quem usa menores como cúmplices é um debate viciado e oportunista.
Ainda mais quando se explora meia dúzia de casos expostos pela mídia.
Em vez
de aceitar esta armadilha, é mais útil examinar a consequência direta
do debate sobre a violência em São Paulo: as eleições. Já sabemos que o
desgaste natural, a falta de opções de renovação em seu partido e as
ultimas derrotas políticas colocaram o governador Geraldo Alckmin na
berlinda. Mas enganam-se aqueles que defendem que as eleições são apenas
propaganda e popularidade, desprovidas de conteúdo político. Alguns
temas que tomam a agenda de campanha são muito importantes para a
ascensão ou queda dos candidatos. E a crescente violência urbana no
Estado tornou-se o calcanhar de Aquiles do governo que já foi cobrado a
dar uma resposta urgente aos eleitores. A segurança pública será
certamente o tema mais explorado do debate paulista do próximo ano e
neste ponto há de se destacar que as esquerdas patinam.
São
Paulo é um caso especial de conservadorismo e desenvolvimento que tem
uma dinâmica única eleitoral. Os eleitores paulistas vivem uma
polarização própria: os tradicionalistas que querem manter a ordem e o
progresso e os inovadores que defendem políticas liberais. Vai-se do
“rouba mais faz” à defesa consequente dos direitos humanos – sendo que,
no interior do estado, as forças conservadoras são muito presentes.
Conformou-se um colégio eleitoral que majoritariamente apoiou o
“estupra, mas não mata”, ratificou a frase “bandido bom é bandido morto”
e aceita as recentes declarações do próprio governador em exercício
sobre uma ação criminosa da polícia: “esta vivo quem não reagiu”.
O mais
dramático é que as esquerdas não têm uma plataforma clara sobre o tema
específico da segurança pública. Não há uma proposta na agenda para além
da ausência de propostas. Desde a ditadura militar – quando se
denunciava o uso do tema segurança pública para perseguir, prender e
torturar –, a oposição de esquerda, não demonstra preocupação com as
instituições policiais. Além disso, a ideia de uma ruptura da ordem,
presente em várias concepções de esquerda, tem levado a não considerar
essas instituições como legítimas. Oposições ao exército e às forças da
ordem reforçam a noção de que essas instituições são repressivas e
opressivas, o que leva muitos militantes a desconsiderar a esfera da
segurança pública. Na base do silêncio e da resignação, frustrou-se a
possibilidade de construir uma proposta de segurança cidadã, baseada nos
direitos humanos. Isso impede o diálogo com parte importante das
frações médias da sociedade paulista.
A
ideia vulgar, hoje predominante, é que só os “humanos direitos” merecem
direitos humanos. Ou seja, tais direitos não se aplicam aos criminosos.
Promove-se um escândalo de capa de revista quando um cidadão de classe
média sofre violações físicas, mas não são dignas de nota as torturas e
violações de direitos praticadas constantemente em delegacias de polícia
e presídios. Parece haver carta branca contra aqueles que são
indiciados como criminosos. Nesse ambiente, as esquerdas tendem a se
opor às instituições policiais e a despreza a necessidades de reformar e
reorganizar o sistema com base nos direitos humanos. Isso pode servir
ao próprio governador, que procura identificar-se com os pontos de
vistas conservadores – e majoritários – sobre o tema.
Sem
uma plataforma séria, que responda às ondas crescentes de criminalidade
urbana com propostas práticas e efetivas de redução da violência, as
esquerdas vão perder espaço. Sem um sistema policial com respeito aos
direitos humanos, formação de policiais com capacidade de fazer cumprir
os direitos cidadãos e possibilidade de cumprir sua missão e garantir a
segurança da população, as esquerdas desperdiçarão a oportunidade de
renovar sua própria relação com instituições políticas que serviram a
ditadura em outra época, mas hoje devem servir a sociedade democrática
de direito baseada na cidadania.
–
Luís Fernando Vitagliano é cientista político e professor.
Imagine que um executivo de alto escalão em um dos bancos mais
importantes do mundo manda empresários para a prisão, em artimanha
combinada com um juiz corrupto, para chantageá-los e cobrar algumas
dívidas. Imagine que o engodo é descoberto e que o banqueiro é
condenado, mas os sucessivos governos de seu país – todos, das mais
diferentes cores – fazem e desfazem conforme sua vontade para evitar que
ele cumpra a pena. Imagine que ele continue no cargo durante mais de
dois anos, inatingível, apesar de seus antecedentes criminais. Imagine,
além disso, que por esse cargo ele recebeu € 11,604 milhões em 2011 (mais de US$ 15 milhões), remuneração superior a do CEO do Morgan Stanley (US$ 13 milhões), por exemplo.
Parece uma história de filme, de poderosos modificando as leis de
acordo com sua vontade, reescrevendo as normas do Estado de direito em
seu próprio benefício. Mas esse homem é Alfredo Sáenz, o CEO do banco
Santander – o maior banco da zona do euro – até sua renúncia neste 29 de
abril. A saída
“voluntária” do braço direito de Emílio Botín deu-se momentos antes do
Banco da Espanha decidir se ele deveria ser impedido de exercer o cargo,
em um processo que pôs fim a uma longa história de favores políticos
destinados a garantir a posição do executivo depois de uma sentença
judicial que o havia tornado inabilitado para dirigir bancos.
Chantagens através de denúncias falsas para cobrar uma dívida
Já faz mais de dois anos que Sáenz foi condenado por mover falsa
acusação e denúncia. Pode parecer um delito pequeno, mas este enredo é
complicado e complexo desde o primeiro minuto. Em 1994, Sáenz utilizou
documentos manipulados para incriminar um grupo de empresários. Seu
objetivo era chantageá-los para que pagassem uma dívida contraída com
Banesto, empresa da qual era presidente.
Suas táticas mafiosas contaram com um cúmplice de luxo: o juiz Luís
Pascual Estevill, que durante anos utilizou sua posição para extorquir,
condenar inocentes e dar sentenças em troco de quantidades apetitosas de
dinheiro. Os investigadores mostraram que, juntos, denunciante e juiz, e
outros altos executivos do Banesto, conseguiram enviar injustamente
para a prisão três empresários: Pedro Olabarría, Luis Fernando Romero e
Modesto González.
O plano daquele que se tornaria o número dois de Botín teria sido
perfeito se não fosse o fato de os empresários não cederem à chantagem, e
da Procuradoria Anticorrupção ter descoberto o crime logo depois do
desmantelamento da rede de corrupção do juiz Estevill, protagonista de
uma das histórias mais obscuras da justiça espanhola (foi condenado por
suborno, extorsão, transgressão e detenção ilegal).
Após a denúncia dos empresários, David Martinez Madero
(um dos fiscais anticorrupção mais agressivos da Espanha, morto
recentemente) se juntou à causa e conseguiu uma vitória parcial: o
Tribunal Provincial de Barcelona sentenciou Sáenz a seis meses de prisão
e desqualificação (inscrição no registro criminal), uma pena que teria
sido muito maior se tivesse sido demonstrada uma conexão direta entre o
juiz corrupto e o empresário bancário, ou seja, se os investigadores
tivessem encontrado provas dos pagamentos do banqueiro ao magistrado por
seus serviços. Quando veio a sentença, Sáenz já era conselheiro
delegado do Santander. Emilio Botín não o demitiu.
Sáenz recorreu da decisão ao Supremo Tribunal, que reduziu sua sentença
para três meses por razões formais, mas manteve a desqualificação,
chave nesta história. O problema não eram os três meses de prisão (que
não cumpriria se não tivesse antecedentes criminais), mas a sua
inscrição no registro penal de presos e rebeldes. A lei espanhola não
permite que pessoas com antecedentes criminais exerçam funções de alto
escalão nos bancos. A regra é clara, a “reconhecida honorabilidade
comercial e profissional” exigida não poderia incluir uma condenação.
O banqueiro deveria ser expulso de sua função como conselheiro
delegado do Santander. Mas não se deu por vencido e, logo depois de
falhar na tentativa de se esquivar da pena através do poder judicial,
solicitou indulto ao poder Executivo. Em paralelo, também pediu que
paralisassem seu processo de expulsão do cargo até que o governo
decidisse se concederia a graça ou não. Ainda assim, a Procuradoria
Provincial de Barcelona decidiu, num exemplo de firmeza judicial,
inscrever seu nome no registro de condenados.
Primeiro favor: o indulto do governo socialista
O governo da Espanha, liderado então por José Luís Rodríguez
Zapatero, do Partido Socialista Trabalhador Espanhol (PSOE, na sigla em
espanhol), foi muito mais indulgente que os juízes. Em 25 de novembro de
2011 concedeu um indulto ao
número dois do Santander. A decisão foi tomada no último Conselho de
Ministros do governo socialista, reunido depois de perder as eleições.
Como o governo fundamentou essa decisão de última hora para o
representante do Santander? “Entendeu-se que era razoável. E pronto”, argumentou Zapatero na época.
O indulto
na Espanha é fruto de uma lei assinada em 1870 intitulada “Medida
provisória do exercício do direito da graça”. Mas o texto da norma – que
nenhum governo se atreveu em reformar – deixa claro que se trata de uma
medida excepcional. Ou deveria sê-lo.
Assim, o governo se utilizou mais uma vez de uma prerrogativa que
deveria ser usada em raras ocasiões para salvar Sáenz da
desqualificação. Mas o Supremo Tribunal, uma vez mais, se interpôs no
caminho do banqueiro. Em decisão inédita,
o juiz determinou que o governo não tinha poder para remover a
desqualificação implícita na sentença e o acusou de “extrapolar” suas
funções. Os argumentos eram claros e consistentes com a lei: o governo
pode indultar a pena de prisão, mas não pode evitar que seu exercício
como banqueiro fosse proibido, pois não pode apagar os antecedentes
criminais do condenado.
Segundo favor: como as leis mudam, graças ao PP
Quando a sentença do Supremo chegou, o governo da Espanha já estava
nas mãos do Partido Popular (PP), de Mariano Rajoy. Se o PSOE fez o que
pôde para salvar Sáenz logo antes de deixar La Moncloa, o que faria o
PP? Reescrever as leis, sem mais nem menos.
No último 12 de abril, o Conselho de Ministros aprovou um
Decreto Real para que os antecedentes criminais não interfiram na
declaração de honorabilidade de um banqueiro. Se até o momento os
banqueiros de alto escalão com antecedentes criminais eram expulsos
imediatamente, agora é o Banco da Espanha que decide se a sentença
imposta fere a honorabilidade do personagem em questão.
Se o PSOE não apresentou motivos para o indulto de Saénz, as razões
que o PP apresentou para mudar a lei foram, no mínimo, falsas. A
vice-presidenta do governo espanhol afirma que a reforma foi imposta por
uma mudança na legislação europeia. Na verdade, as regras europeias
mudaram, mas apenas para permitir que os Estados-Membros decidam
autonomamente os critérios sobre a honra de um banqueiro. E o governo
espanhol tomou sua decisão livre e voluntariamente: antecedentes
criminais não ofuscam a reputação.
A bola passou então para o telhado da entidade que controla o mercado
financeiro espanhol, mas diante da possibilidade do Banco da Espanha
decretar sua cassação, Sáenz abandonou voluntariamente o cargo no dia 29
de abril. A diretoria o dispensou com um “apreço e agradecimento ao
trabalho extraordinário” que ele tinha feito durante os seus quase 20
anos de trabalho para a entidade.
A influência do Santander
Mas que influência tem o Banco Santander para fazer com que os dois
partidos políticos que chegaram ao poder nos últimos anos na Espanha
reescrevam leis e assinem indultos para salvar um executivo?
A empresa, a mais importante da Espanha, é uma das muitas que já perdoou, durante anos, dívidas de partidos políticos.
Quanto, em dinheiro, o Santander já perdoou ao PP e ao PSOE? Impossível
saber exatamente. O Banco da Espanha se recusa a fornecer informações
e, no momento, as negociações entre o banco e os partidos são fechadas mesmo com o questionamento dos cidadãos sobre o assunto por meio do site Seu Direito de Saber e pelo Tribunal de Contas.
De acordo com relatórios do Tribunal de Contas, tanto o PP como o PSOE somavam
cada um cerca de 60 milhões de dívidas com o banco em 2007, data do
último relatório. O perdão das dívidas aos partidos, em uma época
marcada por despejos diários na Espanha para aqueles que não podem pagar
hipoteca, agora tem alguns limites: uma reforma legal limita as
isenções em 100 mil euros por ano, ainda assim uma cifra que está longe
de ser desprezível.
Amigos nos governos e na monarquia
Além de ser habitué nas reuniões em La Moncloa (o palácio do
governo espanhol), o Banco Santander também tem boas relações com a
monarquia espanhola. De fato, seu vice-presidente, Matías Rodríguez
Inciarte, também é presidente desde 2008 da Fundação Príncipe de
Asturias, criada para vincular a imagem do herdeiro do trono com
atividades positivas, como o esporte, a cultura e a paz. Como um dos
patrocinadores – junto com a Telefonica, Cepsa, Repsol, El Corte Inglés –
o Santander colabora com o financiamento da entidade, que em 2011 teve
uma receita de € 6.314.104
(mais de US$ 8 milhões). Nesse orçamento, 63% vêm de doações privadas,
ou seja, da contribuição de seus patrocinadores, embora o montante pago
por cada um deles seja um mistério. Além disso, Emilio Botín é um dos
acompanhantes habituais do rei em suas viagens e reuniões, públicas e
privadas.
Graças a esses apoios políticos, Sáenz tem sido, há mais de dois
anos, o único executivo em um cargo de alto escalão em um banco espanhol
que possui antecedentes criminais. E o Santander é o único banco que
teve em suas fileiras um CEO condenado por enviar inocentes para a
prisão.
A renúncia de Sáenz põe fim a esta história, mas é apenas o começo de
uma era de ouro para a aposentadoria do ex-CEO, que irá cobrar uma
pensão por conta do Banco Santander no valor de € 88.174.000, a maior do grupo, ainda muito mais substancial do que a de seu patrono e protetor, Emilio Botin (€ 25.566.000).
* Eva Belmonte é jornalista e diretora de projetos na Civio (www.civio.es), uma fundação espanhola que trabalha pela transparência e pela abertura de dados públicos.