quinta-feira, 9 de maio de 2013

Ponha-se na Rua: há 200 anos é assim que o governo lida com as comunidades cariocas

Comunidade após as remoções por conta do Metrô-Mangueira (Foto: Paula Paiva Paulo)


Por Andrea Dip

Com a chegada da família real ao Brasil, em 1808, 10 mil casas foram pintadas com as letras “PR”, de Príncipe Regente, abreviatura que significava na prática que o morador teria que sair de sua casa para dar lugar à realeza. Logo, a sigla “PR” ficou popularmente conhecida como “Ponha-se na Rua”. Hoje, as casas removidas no Rio de Janeiro são marcadas com as letras “SMH”, de Secretaria Municipal de Habitação. A população também criou um apelido para a sigla: “Sai do Morro Hoje”.

Essa associação entre as duas eras de despejo – que afetam sempre a mesma população – é feita em “Do ‘Ponha-se na Rua’ ao ‘Sai do Morro Hoje’: das raízes históricas das remoções à construção da “cidade olímpica”, trabalho de conclusão de curso da jornalista Paula Paiva Paulo. Em entrevista à Pública, ela fala pela primeira vez sobre o estudo que revê as transformações no espaço público carioca e as remoções compulsórias que preparam o cenário. E afirma: Os despejos não acontecem por  “falta de planejamento” urbano. “É simplesmente privilegiar a especulação imobiliária ao invés do direito a moradia”, explicita.

Por que você escolheu esse tema para o trabalho de conclusão?

Quando comecei a pensar sobre o tema da minha monografia, não foi difícil, o tema da habitação sempre me atraiu. A minha ideia inicial era abordar tudo: um histórico de políticas públicas para habitação, o que diz a Constituição sobre direito à moradia, qual o déficit do país, o que esse déficit causa, o descaso do governo, o sonho da casa própria, e as histórias de pessoas afetadas – pelo menos um relato de um morador de rua, um de ocupação urbana e um de área de risco.

Em março de 2012 comecei a participar do Grupo de Trabalho (GT) Remoções do Comitê Popular Rio para Copa e Olimpíadas, organização civil que reúne representantes de ONGs, de movimentos sociais, estudantes e qualquer pessoa que queira discutir e pesquisar sobre as violações de direitos humanos na preparação para os megaeventos no Rio de Janeiro. Ao entrar em contato com os moradores de comunidades ameaçadas, como Arroio Pavuna e Vila Autódromo, achei o meu gancho. O meu trabalho seria uma grande reportagem sobre as remoções que estavam acontecendo em razão da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas em 2016.

Das comunidades removidas para os megaeventos, qual ou quais você acredita serem as mais emblemáticas desta época?

Considero duas bem emblemáticas: a Restinga, no Recreio dos Bandeirantes, e o Metrô-Mangueira, na Mangueira. Na Restinga aconteceu todo o processo que tem sido padrão de reclamação dos moradores das comunidades removidas: falta de informação relativa ao projeto, falta de participação durante as remoções, oferecimento de alternativas desinteressantes para as famílias e truculência policial no ato da remoção. Essa última queixa é que torna a Restinga emblemática. O dia da remoção, dia 17 de dezembro de 2010, uma sexta-feira, foi considerado muitíssimo traumático pelos moradores. Sem aviso prévio, com forte aparato policial, remoções acontecendo madrugada adentro, sem as famílias terem sido indenizadas. Para o defensor público que atendeu a comunidade na época, Alexandre Mendes, foi a comunidade que mais sofreu nesse processo.

Já o caso do Metrô-Mangueira, que fica a 500 metros do Maracanã é emblemático pela situação que alguns moradores ficaram durante um ano e meio. Após as primeiras remoções, as casas eram demolidas, e quem ficava tinha que viver entre os entulhos, que não eram retirados, e acumulavam lixo, água parada, ratos.Como me disse um ex- morador, Eomar Freitas: “Se você conseguir entrar em alguma casa que ainda está de pé, vai ver o odor de merda que tem, e a gente tinha de almoçar, a gente tinha de jantar, a gente tinha de conviver com esse cheiro”.

O que mais te chocou ou entristeceu durante a pesquisa?

O que mais me entristeceu foi o tratamento recebido pelas famílias removidas. É tudo feito com muita brutalidade, desde o anúncio da remoção. É pressão o tempo inteiro, e os moradores são tratados como “ilegais”, independente de sua situação fundiária, mesmo com os direitos adquiridos que nossas leis nos reservam.

 Casas demolidas nas proximidades da estação de metrô Mangueira (Foto: Paula Paiva Paulo)

A moradia vai muito além de quatro paredes, ela está ligada ao direito ao trabalho, ao lazer, à saúde. É um processo muito traumático, e no qual não se faz nada para que ele seja menos traumático, muito pelo contrário. O ideal seria que esses processos fossem acompanhados de assistência psicológica aos moradores. Na verdade, ideal mesmo é que se buscassem outras soluções em vez da remoção forçada.

Apesar de não ser novidade na história do Rio de Janeiro, agora vivemos situação específica inaugurada por dois megaeventos esportivos e pelas transformações urbanísticas que eles impõem à cidade. E há um grande agravante: as remoções estão acontecendo de forma sistêmica e integrada nas 12 cidades-sede da Copa no Brasil, com a justificativa da urgência e com uma paixão nacional como bandeira. É praticamente um herege quem vai de encontro a um projeto desses.

Em seu estudo você fala de várias outras transformações no espaço público carioca. Quais foram as principais? Elas também removeram muita gente?

Acredito que a principal tenha sido a reforma realizada pelo engenheiro Francisco Pereira Passos, nomeado prefeito do Rio de Janeiro pelo então presidente Rodrigues Alves, em 1904. Inspirado em Haussmann, o prefeito de Paris responsável pela sua reforma urbana no final do século XIX, a reforma de Pereira Passos teve como principais características o alargamento das principais artérias do Centro, a criação da Avenida Beira Mar para melhorar o acesso da Zona Sul ao Centro; a construção do Teatro Municipal; a ligação da Lapa com o Estácio; guerra aos quiosques e ambulantes; inauguração de estátuas imponentes e arborização no centro. Na maioria dos casos, a prefeitura desapropriou mais prédios do que eram necessários para depois vender o que ficou valorizado. Em paralelo às obras da prefeitura, a União também realizou grandes obras, como a construção da Avenida Central, atual Rio Branco, que demoliu de duas a três mil casas, o novo porto do Rio de Janeiro, e a abertura das avenidas que lhe davam acesso, a Francisco Bicalho e a Rodrigues Alves. É a partir daí que os morros do Centro (Providência, Santo Antônio, Castelo e outros) até então pouco habitados, passam a ser rapidamente ocupados. Ainda assim, a maior parte das pessoas que perderam suas casas não foi para as favelas centrais, e sim para o subúrbio, principalmente Engenho Novo e Inhaúma.

O que você chama de era das remoções?

Esse termo foi retirado do excelente livro do historiador Mário Brum, “Cidade Alta – História, memórias e estigma de favela num conjunto habitacional do Rio de Janeiro”.

Ele se refere ao período de 1963 a 1975, no qual foram removidas mais de 175 mil pessoas somente no Rio de Janeiro. O então governador do Estado da Guanabara, Carlos Lacerda, trabalhou com as duas perspectivas, primeiro, com o criado Serviço Especial de Recuperação de Favelas e Habitações Anti-Higiênicas (Serfha), com a perspectiva da urbanização. Depois, com a extinção do Serfha e a subordinação dos órgãos habitacionais à Secretaria de Serviços Sociais, criada em 1963, a política habitacional passou a trabalhar com muito empenho com a perspectiva remocionista, já que, com a especulação imobiliária, políticos e construtoras tinham interesse na “desfavelização” da Zona Sul.

De acordo com Mário Brum, as primeiras remoções foram em áreas de obras, como as favelas da Avenida Brasil, removidas para a construção do Mercado de São Sebastião, e a favela do Esqueleto, retirada para a construção da UERJ, no Maracanã. Em um segundo momento, as remoções visaram favelas em terrenos de alto valor imobiliário, como o caso da Favela do Pasmado, em Botafogo.

 Casas demolidas nas proximidades da estação de metrô Mangueira (Foto: Paula Paiva Paulo)

Com o financiamento americano (Usaid), entre 1962 e 1965, foram construídas a Cidade de Deus e as Vilas Kennedy, Aliança e Esperança. Por outro lado, algumas favelas foram urbanizadas. Em 1964, com o golpe militar e o início da ditadura no Brasil, o fechamento dos canais democráticos criou as condições necessárias para as remoções arbitrárias. Além disso, na conjuntura da Guerra Fria, o favelado era um revolucionário em potencial aos olhos do governo.

Nesse mesmo ano foi criado o Banco Nacional de Habitação (BNH), órgão financiador e responsável por programas habitacionais. As construções dos conjuntos habitacionais acompanhavam a remoção de favelas. Em 1964, 2273 famílias perderiam suas casas com a remoção completa de comunidades em Botafogo, Leblon, Ramos, Duque de Caxias; e despejos parciais no Humaitá, na Gávea, no Caju.

E as remoções continuaram no ano seguinte, sendo a maior delas a da comunidade do Esqueleto, no Maracanã. Segundo dados da Cohab, no governo Lacerda foram removidas 6.290 famílias, sendo 4.800 de janeiro de 64 a julho de 65. Até 1965, 30 mil pessoas foram removidas, o que foi pouco perto do que estava por vir.

Em 1968, a Federação das Associações de Favelas do Estado da Guanabara (Fafeg) ainda realizou seu 2º Congresso. No entanto, com traumáticas remoções na região da Lagoa Rodrigo de Freitas, a resistência perdeu espaço para o receio: a resistência dos moradores da Praia do Pinto, por exemplo, terminou com um misterioso incêndio na favela. Nese mesmo ano, o governo federal criou a Coordenação da Habitação de Interesse Social da Área Metropolitana do Grande Rio (Chisam), com o objetivo de criar uma política única de favela para o Rio. A Chisam definia a favela como um “espaço urbano deformado” e sua missão declarada era erradicá-las. Na ditadura, a Chisam virou a “autoridade” do programa remocionista. Era ela quem decidia quais favelas a serem removidas e onde ficariam os conjuntos, pois muitos terrenos eram do governo federal. E, na prática, quem executava as coisas era o governo do Estado.

 Criança brinca num campinho improvisado na Vila Autódromo (Foto: Paula Paiva Paulo)

A Chisam, extinta em 1973, removeu mais de 175 mil moradores de 62 favelas (remoção total ou parcial), transferindo-os para novas 35.517 unidades habitacionais em conjuntos nas zonas Norte e Oeste. A construção desses conjuntos habitacionais nem de longe resolveu o problema da habitação popular, mas modificou substancialmente a forma-aparência dos subúrbios, além de levar uma demanda grande de pessoas para onde não havia a infraestrutura necessária.

Após esse período, houve o esvaziamento do programa de remoções que tinha um alto custo político pela resistência dos moradores e que já tinha cumprido sua função de desocupar áreas de grande valor imobiliário e desmantelar a organização política dos favelados. Com a redemocratização do país, houve a revalorização da “moeda voto”.

O que você vê de diferente entre este histórico de remoções no Rio e o que está acontecendo agora? Há diferença de abordagem?

Antes era imperativa a ideia de remoção total das favelas como solução para a cidade. Isso foi superado depois da grande força dos movimentos sociais dos anos 80 e da nossa Constituição de 88. No Plano Diretor do Rio de Janeiro de 1992 se consolida o pensamento de integração das favelas à cidade; o Plano prevê a urbanização e a regularização fundiária, e a favela é definida por características técnicas de sua estrutura, e não mais por características morais dos moradores. Sem dúvida isso é uma evolução e deu partida a projetos como o Favela-Bairro.

No entanto, os movimentos que lutam pelos direitos humanos, sendo o direito à moradia um deles, não conseguir garantir esse direito na prática. E esse é um grande passo para trás. Outro passo para trás: apesar de não haver mais a justificativa da remoção como solução urbanística, ela está mais mascarada. E há um grande agravante, que são as remoções acontecendo de forma sistêmica e integrada nas 12 cidades-sede da Copa no Brasil, com a justificativa da urgência e com uma paixão nacional como bandeira. As obras para mobilidade urbana e construção de equipamentos esportivos não são consideradas questionáveis, e quem questiona é chamado de “do contra, baderneiro”.

A que você acha que se deve este histórico?

A primeira coisa que me vem à cabeça é “falta de planejamento urbano”. Mas na verdade o que não faltou foi planejamento. Acho que esse histórico se deve a predominância do interesse do capital na construção e ocupação da cidade. Preferiu-se e ainda se prefere privilegiar a especulação imobiliária ao direito à moradia.



Fonte: Pública

terça-feira, 7 de maio de 2013

Os limites internos da cor

Por Giso Amendola | Trad. UniNômade Brasil

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Resenha de La razza al lavoro [A raça ao trabalho] (org. Anna Curcio e Miguel Mellino, manifestolibri 2012).

Traduzido de I confini interni del colore, publicado na UniNômade Itália.

As raças não existem. Nenhuma pessoa com um mínimo de bom senso democrático sonharia hoje em negar essa afirmação. Por isso, há tempos, contra o obscurantismo dos racismos, o irracionalismo feroz deles, tem sido contraposta uma boa e civil pedagogia antirracista, que considera a raça um buraco negro ideológico, uma noção cientificamente infundada. Bastaria, segundo essa pedagogia, difundir as luzes honestas da razão, esclarecer as trevas da ignorância, revelar a série irrefutável de fatos científicos que evidenciam a todos como o dogma da desigualdade racial não é outra coisa que uma mentira feroz. O considerado “paradigma antirracista da Unesco”, desenvolvido no segundo pós-guerra, concebeu dessa maneira a prática antirracista: como um bom exercício iluminista de educação cívica.

Um dos motivos que faz La razza al lavoro (manifestolibri, 2012, pp. 172), organizado por Anna Curcio e Miguel Mellino, um livro inteligentemente provocativo, capaz de colocar em discussão terrenos consolidados, está em abrir o campo à experimentação de novas práticas políticas na luta antirracista, e que seja urgente arruinar a mencionada pedagogia iluminista. A raça não é um resíduo irracional do passado, curável por meio de discurso cívico “progressista” e esclarecedor. Que as raças propriamente não existam, não significa em nada que sejam redutíveis a simples engodo ideológico. Contra toda redução “culturalista”, Curcio e Mellino insistem em vez disso sobre a dimensão material e estruturante do racismo: o discurso da raça, agregado desde o início à dominação de classe, é um dispositivo de comando central de todas as formações capitalistas modernas.

A ilusão iluminista

Daí errarem de alvo as tendências que, frequentes na sociologia e na antropologia, adotam como instrumento de crítica da raça e do racismo um simplório antiessencialismo construtivista. Insistir, ainda uma vez, sobre o fato que dentro da raça não haja alguma realidade, fazendo da raça nada mais do que uma “construção social”, repete, em certa maneira mais sofisticada, o mesmo erro da velha pedagogia iluminista. Termina por confundir “construção social” com mera “ficção”. Mas o construtivismo não deveria esquecer o fato que a realidade ser construída socialmente não significa que os dispositivos que a constituam não sejam dispositivos materiais, que ajam segundo específicas relações de força, e que, portanto, somente a partir de uma análise radicada pelo materialismo possam ser eficazmente criticadas e transformadas.

Do ponto de vista político, ainda, a pedagogia iluminista, com a ilusão de dissolver pela força do racionalismo o mito da raça, tem se mostrado gravemente contraproducente. Ao relegar o racismo às margens da modernidade capitalista, como elemento secundário e não constitutivo, e reduzindo-o a fenômeno a uma mera recusa do progresso, essa pedagogia acabou por absolver, em larga medida, a própria modernidade e sua ideia de desenvolvimento. Desse modo, o antirracismo pedagógico não somente revelou a própria natureza eurocêntrica, assim como, sobretudo, serviu aos europeus como mecanismo de consolação e reforço da confiança em sua própria identidade antirracista, como aliás bem sabem os “italianos brava gente”. Batizar o racismo de fenômeno de atraso cultural ou mera mistificação leva a crer que consista numa patologia, onde a cidadania como instrumento de integração poderia ser a cura. Eliminam-se assim todos aqueles aspectos pelos quais a própria cidadania, em realidade, aparece como um problemático campo de batalha entre a inclusão e a exclusão. Nesse aspecto, um dos autores dos artigos, Costanza Margiotta recorda, indagando a disciplina jurídica das migrações, como o direito contemporâneo, a partir da construção mesma da cidadania europeia, participa amplamente dos processos de racialização hoje atuantes na Europa. Fariam bem os juristas, então, tomar plena consciência da presença do discurso racial na cultura da maioria das instituições jurídicas. Usando um termo tomado emprestado da psicanálise de Lacan, os organizadores sintetizam a posição da raça na ordem do discurso contemporâneo: em posição de foraclusão. Não simplesmente reprimido ou suprimido, o discurso da raça está excluído do âmbito do dizível e do simbólico. Mas, exatamente através da exclusão do elemento “imundo” que a acompanha, o discurso civil e aparentemente antirracismo consegue fabricar para si a estabilidade, ou pelo menos um semblante dela. Ainda uma vez, a exclusão constitutiva, contra o que o próprio afirmar explicitamente a persistência da raça, significa fazer agir uma potente política da memória, uma capaz de forçar essa foraclusão, e de fazer emergir aquilo que não deveria ser dito. Diversos artigos, no livro, experimentam no corpo vivo da história italiana essa política da memória. A raça está verdadeiramente foracluída, por exemplo, nas celebrações da Unidade Italiana, uma foraclusão operante desde a origem espúria dessa Unidade; e também aqui, jamais nas margens, ou em qualquer espaço do irracionalismo reacionário, mas, sim, no positivismo “científico” de um Alfredo Niceforo [1]. Este, com sua teoria das duas raças, “ariana” no Norte e “negróide” no Sul, traduzia na linguagem do determinismo biológico as práticas concretas de produção de subalternidade que haviam caracterizado o imediato período pós-unidade italiana. Um positivismo que, como assinala Caterina Miele, terá não pequeno papel na construção da linha de cor nas colônias italianas.

Inclusão excludente

Antissulismo e colonialismo estruturam em profundidade a mesma constituição material da unidade italiana. Assim, a raça reemergiu prepotentemente como dispositivo de gestão das migrações internas do segundo pós-guerra, quando a construção abertamente racista da “alteridade” dos sulistas [meridionali] se torna instrumento fundamental para o controle dos fluxos de uma força-trabalho que jamais foi verdadeiramente bloqueada, porque sempre foi necessária, ao mesmo tempo em que era inferiorizada, e sempre temida. E temida por boas razões, uma vez que sempre foi capaz de resistir contra os dispositivos de exploração. Nas lutas dos anos 1960, protagonistas e jovens sulistas demostraram isso (vide a atenta análise das migrações internas por Enrica Capussotti). Portanto, hoje, de várias maneiras, a raça continua a funcionar como dispositivo de controle e gestão da força-trabalho. A raça, verdadeiro “suplemento interno na construção do mercado de trabalho” (Queirolo Palmas), certamente não divide linearmente os excluídos dos incluídos. O racismo se articula, em vez disso, sobre processos mais complexos e estratificados de gestão, no sentido de uma “inclusão excludente”. A complexidade dos dispositivos de racialização é presentemente tamanha, que se apropria com frequência do próprio discurso igualitário: como acontece com os discursos sobre a igualdade de gênero e orientação sexual. Retraduzidos não poucas vezes em chave racista e nacionalista, como sublinha Chiara Bonfiglioli, recordando as pesquisas feministas no tema do macho-nacionalismo. Mas essa governança contemporânea continua só porque costuma encontrra na raça não um simples suplemento psicológico ou cobertura ideológica, mas um dispositivo concreto de fabricação de subordinação e exploração.

O livro, no entanto, não se limita a mapear o papel da raça em sua longa duração, seguindo-o até os desembarques de Lampedusa [2], onde, quase sintetizando a história italiana da raça, antissulista e colonial, se vê em ação um verdadeiro e próprio racismo em dobro: contra os imigrantes internacionais e os sulistas, representados como “incapazes” a conter-se. A racialização não é redutível a uma dimensão exclusiva e linear de exploração e dominação: antes disso, é um campo de batalha, atravessado continuamente por lutas que também sabem retomar o significante “raça”, para transformá-lo, de dispositivo de assujeitamento em dispositivo de subjetivação. A raça é também resistência, e como ensina a abordagem pós-colonial, de subjetivação. Não se trata então de um uso desconstrutivo e crítico da raça, mas também positivo. Este certamente se arrisca fracassar, e no livro há quem, como Renate Siebert, não esconde a sua posição crítica, considerando o uso positivo como potencialmente perigoso do significante raça.

Viradas paradoxais

Os conflitos ensinaram, por exemplo, como o escancaramento do estereótipo para ultrapassar o próprio estereótipo seja uma das armas irônicas mais produtivas, para evidenciar os processos de racialização e miná-los do interior: tal como o Django Livre do diretor Quentin Tarantino, um tapa na cara, levando ao extremo e virando-a do avesso, paradoxalmente, toda a sua “raça”. Mas, também, além dos usos irônicos, é fato que o significante raça move as lutas, põe-nas em uma diferença específica, em uma parcialidade concreta, crítica de todo universalismo abstrato e de qualquer tipo de recaída nas retóricas da integração (Grappi). A aposta autêntica consiste agora em orientar esses movimentos, essas práticas de subjetivação — como escrevem os organizadores — não em direção a uma “simples reivindicação da diferença”, mas, sim, da “produção do comum”. Este é o problema crucial de um antirracismo não-retórico e não-pedagógico: conjugar juntas a especifidade das subjetivações imigrantes e a articulação de “novas configurações de igualdade e liberdade” (Mezzadra). Trata-se de aprender a ler a parcialidade insuprimível das lutas de subalternos e racializados, não como significado fechado e identitário, mas como significante aberto, signo da heterogeneidade do trabalho vivo contemporâneo e motor de sua recomposição possível.


Tradutor: Bruno Cava

Notas do tradutor:

[1] Criminólogo italiano (1876-1960), adepto do “racismo científico”, de escola lombrosiana, sustentava que todo ser humano possui um “ego profundo” que remete aos tempos pré-históricos e que é a fonte de uma perversidade obscura e sombria. Argumentou, por exemplo, que a composição social do norte da Itália era etnicamente marcada pela raça ariana (euroasiática) e o sul pela negróide (euroafricana).

[2] Ilha no meio do Mediterrâneo, entre o sul da Itália e a Líbia, onde funciona um famoso centro de detenção (“recepção”) de imigrantes do governo italiano.


segunda-feira, 6 de maio de 2013

O terrorismo israelense e o conflito sem solução na Síria



Estes últimos atos de terrorismo israelense são, no entanto, medidos para irritar Assad, presidente da Síria, e forçá-lo a retaliar, causando dois efeitos perigosos para si e para a Síria.

Por Raphael Tsavkko Garcia

Os recentes ataques aéreos israelenses contra alvos sírios, inclusive nas proximidades de Damasco, capital do país árabe, coroados com constantes invasões do espaço aéreo sírio só podem ser chamados por um nome: Terrorismo.

O último ataque com mísseis nas proximidades de Damasco tinha como objetivo, afirmam fontes israelenses, um carregamento de mísseis iranianos destinados ao Hezbollah libanês e são injustificáveis por três razões principais.

 

Em primeiro lugar, não há qualquer prova de que tal carregamento, que se encontrava nos arredores de Damasco, a centenas de quilômetros da fronteira libanesa, iria para o Hezbollah ou qualquer outro grupo, o que nos leva ao segundo ponto, que é o fato de não ser da alçada israelense intervir, sem mandato internacional, dentro da Síria, em carregamentos militares, mesmo que este fosse efetivamente destinado ao Hezbollah.

Caberia ao governo libanês se movimentar contra a iniciativa se fosse de sue interesse e não Israel se imiscuir nos assuntos de dois Estados soberanos.

Terceiro ponto é a hipocrisia que chama atenção no caso, quando Israel e aliados (notadamente EUA) financiam e mesmo equipam guerrilhas islâmicas anti-Assad na Síria, intervindo indevidamente e mesmo ilegalmente em um conflito interno sírio, buscando desestabilizar o governo central.

E desestabilizar é o que Israel faz de melhor, haja visto as invasões ilegais ao Líbano no passado, levando à morte centenas de civis com bombardeios "cirúrgicos" a alvos supostamente militares, em geral escolas, hospitais e residências. Além disso, não podemos esquecer as pressões políticas aos vizinhos, a insistência por parte de Israel em manter o controle sobre as Colinas de Golã (território sírio ao norte de Israel) e que Israel manteve por anos o controle sobre porção significativa do sul do Líbano.

 

Estes últimos atos de terrorismo israelense são, no entanto, medidos para irritar Assad, presidente da Síria, e forçá-lo a retaliar, causando dois efeitos perigosos para si e para a Síria.

De um lado, Israel explora a batida tática de dividir para conquistar, ou seja, enquanto a Síria busca se defender dos ataques de diversos grupos guerrilheiros e terroristas, com o maior deles, a Frente Al-Nusra, ligado à Al Qaeda e sendo pesadamente financiado pelos EUA, Israel pressiona para que Assad abra uma nova frente, conta Israel. Este conflito, aliás, tem ainda o entusiasmo da Arábia Saudita que, como os EUA, financia a Frente al-Nusra e a Al Qaeda.

Mesmo a preocupação em se defender das agressões israelenses impõe um dilema a Assad, que teria de desviar atenção e recursos para se defender. Do outro lado, e como consequência, Israel provoca sabendo que qualquer reação síria seria pequena em comparação ao poderio militar israelense e que, caso atacada, ganharia ainda mais apoio internacional, ou ao menos dos EUA e União Europeia, fazendo-se de vítima, no que continua sendo o principal recurso do teatro retórico vitimista israelense.

Os EUA continuam em sua posição comodista e cúmplice. De um lado apoiam a Al Qaeda na Síria, do outro defendem e garantem sustentação à retórica e aos ataques israelenses. De quebra, conseguem, via propaganda, acusar o Irã de estar ligado, mesmo que indiretamente, por ser o responsável por suprir a Síria e o Hezbollah de mísseis.

Israel mantêm-se confortável, atacando um inimigo livremente, fazendo sua economia bélica girar e, caso haja resposta, poderão intervir mais diretamente contra um inimigo histórico.

Tanto Obama quanto representantes do Reino Unido manifestaram seu apoio ao "direito israelense de se defender", sem explicar de que forma Israel estaria se defendendo ao atacar a síria em sua capital e sem qualquer tipo de provocação.

É a velha desculpa dos "ataques preventivos" que serviram para justificar ataques, invasões e guerras americanas pelo oriente médio sem que houvesse efetivamente nenhum perigo aos EUA ou qualquer aliado.
A crise síria não tem solução fácil e, na verdade, sequer tem uma solução, se isto pressupõe uma saída pacífica ou que resulte em menos derramamento de sangue.

Uma vitória de grupos ligados aos EUA, Israel, Arábia Saudita e a Al Qaeda - acreditem, não há contradição nesta aliança - provavelmente abririam caminho para um banho de sangue imenso, com perseguições às minorias cristãs, drusas e alauítas (grupo ao qual pertence Assad) e uma crise humanitária sem precedentes aliada à possível imposição de um regime islâmico no país.

 

Isto, bem ao gosto dos EUA e Israel, poderia facilitar uma intervenção e imposição de governo simpático aos interesses "ocidentais", como no Iraque (que, por sua vez, continua em franca escalada violenta). A acusação - até o momento infundada - por parte de Israel de que a Síria teria armas químicas vai nesta direção, na preparação do terreno para uma invasão.

Uma vitória de Assad significaria a perseguição aos remanescentes dos grupos que lutaram para derrubá-lo e talvez um recrudescimento do regime, assim como um aumento de animosidade contra Israel e a ampliação do financiamento do Hezbollah e outros grupos anti-Israel.


 
Os caminhos para a vitória de um ou outro lado são todos sangrentos, violentos e extremamente complicados e mesmo improváveis. E a situação se complica quando, em uma guerra civil, diversos interesses estrangeiros colidem e resultam em terrorismo e declarações veladas de guerra.


domingo, 5 de maio de 2013

Karl Marx por Friedrich Engels



O homem que primeiro deu ao socialismo — e, com ele, a todo o movimento operário dos nossos dias — uma base científica, Karl Marx, nasceu em Trier em 1818. Ele estudou em Bonn e em Berlim, em primeiro lugar, ciências jurídicas, mas, em breve, se dedicou exclusivamente ao estudo da história e da filosofia e, em 1842, estava a ponto de concorrer para professor [Dozent] de filosofia [na Universidade], quando o movimento político surgido após a morte de Frederico III o atirou para outra carreira. Com a colaboração dele, os cabecilhas da burguesia liberal renana — os Camphausen, Hansemann, etc. — fundaram, em Colónia, a Rheinische Zeitung[N47], e Marx, cuja crítica dos debates do Landtag provincial renano tinha causado grande sensação, foi, no Outono de 1842, posto à frente da folha. A Rheinische Zeitung publicava-se, naturalmente, sob censura, mas a censura não conseguia fazer nada dela(1*). A Rheinische Zeitung quase sempre fazia passar os artigos que convinha; atira-va-se primeiro ao censor palha da mais insignificante para cortar, até que ele desistia por si próprio ou era forçado à desistência pela ameaça de que a gazeta se não publicaria no dia seguinte. Houvesse dez gazetas que tivessem a mesma coragem do que a Rheinische e cujos editores tivessem deixado gastar uns centos de táleres mais em custos de composição — e a censura na Alemanha teria sido tornada impossível já em 1843. Mas, os donos dos jornais alemães eram pequeno-burgueses [Spiessbürger] mesquinhos, timoratos, e a Rheinische Zeitung travava a luta sozinha. Ela consumia censor atrás de censor; finalmente, foi censurada duplamente, de modo tal que, depois da primeira censura, o Regierungspräsident(2*) tinha, mais uma vez e definitivamente, de a censurar. Isto também não serviu. Nos começos de 1843, o governo declarou que não conseguia fazer nada deste jornal e suprimiu-o sem mais. 

Marx — que, entretanto, se casara com a irmã do posteriormente ministro da reacção von Westphalen(3*) — mudou-se para Paris e editou aí, com A. Ruge, os Deutsch-Französische Jahrbúcher[N49], nos quais ele inaugurou a série dos seus escritos socialistas com uma Kritik der Hegelschen Rechtsphilosophie(4*). Além disso, com F. Engels: Die heilige Familie. Gegen Bruno Bauer und Consorten(5*), uma crítica satiríca de uma das últimas formas a que o idealismo filosófico alemão de então tinha ido dar. 

O estudo da economia política e da história da grande Revolução Francesa(6*) ainda deixou sempre tempo a Marx para ataques ocasionais ao governo prussiano; este vingou-se, na Primavera de 1845, ao conseguir, junto do ministério Guizot — o senhor Alexander von Humboldt deve ter feito de intermediário —, a sua expulsão de França[N50]. Marx transferiu a sua residência para Bruxelas e publicou aí em língua francesa em 1848 um Discours sur le libre échange [Discurso sobre o Livre-Câmbio](7*) e, em 1847: Misère de la philosophie [Miséria da Filosofia](8*), uma crítica da Philosophie de la misère [Filosofia da Miséria](9*) de Proudhon. Simultaneamente, encontrou oportunidade para fundar em Bruxelas uma Associação Operária Alemã[N51] e entrou, desse modo, na agitação prática. Esta tornou-se para ele ainda mais importante desde que ele e os seus amigos políticos entraram, em 1847, na Liga secreta dos Comunistas que existia já há longos anos. A organização [Einrichtung] toda foi, então, revolucionada; a união [Verbindung], até então mais ou menos conspiratória, transformou-se numa simples organização [Organisation] — secreta, apenas por necessidade —, a primeira organização do Partido Social-Democrata alemão. A Liga existia onde quer que existissem associações operárias alemãs; quase em todas estas associações de Inglaterra, da Bélgica, da França e da Suíça e em muitas associações da Alemanha, os membros dirigentes pertenciam à Liga e a quota-parte da Liga no movimento operário alemão que surgia foi muito significativa. Mas, além disso, a nossa Liga foi a primeira que pôs em evidência o carácter internacional do movimento operário todo e também o provou praticamente, tendo como membros: ingleses, belgas, húngaros, polacos, etc, e organizando, nomeadamente, em Londres, reuniões internacionais de operários. 

A reorganização da Liga completou-se em dois congressos que se realizaram no ano de 1847, o segundo dos quais decidiu a elaboração e publicação das bases do Partido num manifesto a redigir por Marx e Engels. Nasceu assim o Manifesto do Partido Comunista, que se publicou, pela primeira vez, em 1848, pouco antes da revolução de Fevereiro[N52] e que, desde então, foi traduzido em quase todas as línguas europeias. 

A Deutsche-Brüsseler Zeitung[N53], em que Marx participava e onde a beatitude da policial pátria era impiedosamente posta a nu, levou de novo o governo prussiano a agir para a expulsão de Marx, mas em vão. Quando, porém, a revolução de Fevereiro teve por consequência, em Bruxelas também, movimentos populares e parecia iminente uma reviravolta [Umschwung] na Bélgica, o governo belga prendeu Marx sem cerimónias e expulsou-o. Entretanto, o governo provisório de França, através de Flocon, tinha-o convidado a voltar de novo a Paris e ele aceitou esse convite. 

Em Paris, contrapôs-se, antes de tudo, à tontice que se propagava entre os alemães de lá e que pretendia, em França, formar os operários alemães em legiões armadas e, desse modo, introduzir na Alemanha revolução e república. Por um lado, a Alemanha tinha de fazer a sua própria revolução e, por outro lado, toda a legião revolucionária estrangeira que se formasse em França era de antemão denunciada pelos Lamartine do governo provisório ao governo a derrubar, como também acontecera na Bélgica e em Baden. 

Após a revolução de Março 54, Marx foi para Colónia e fundou lá a Neue Rheinische Zeitung, que existiu de 1 de Junho de 1848 até 19 de Maio de 1849 — a única folha que, no interior do movimento democrático de então, representava o ponto de vista do proletariado e isto já através da sua tomada de partido sem reservas a favor dos insurrectos de Junho parisienses de 1848[N55], que fez desertar da folha quase todos os seus accionistas. Em vão aludiu a Kreuz-Zeitung[N56] à «insolência de Chimborazo»(10*) com que a Neue Rheinische Zeitung atacava tudo o que era sagrado, desde o rei e do vigário do Império [Reichsverweser] até aos gendarmes, e isto numa fortaleza prussiana com uma guarnição de 8000 homens; em vão se inflamou o filistério [Philisterium] renano liberal, tornado de repente reaccionário; em vão o estado de sítio de Colónia suspendeu a folha, no Outono de 1848, durante muito tempo; em vão denunciou o ministério imperial da justiça, de Frankfurt, artigo sobre artigo ao procurador de justiça de Colónia, para instauração de processo judicial; a folha continuou calmamente a ser redigida e impressa, sob os olhos do posto principal da guarda [Hauptwache], a expansão e a reputação da gazeta cresceram com a veemência dos ataques ao governo e à burguesia. Quando o golpe de Estado prussiano ocorreu, em Novembro de 1848, a Rheinische Zeitung apelou, no cabeçalho de cada número, ao povo para que se recusasse [a pagar] impostos e para que ripostasse à força com a força. Na Primavera de 1849, por isto, assim como por causa de um outro artigo, foi levada perante os jurados, sendo absolvida de ambas as vezes(11*). Finalmente, quando as insurreições de Maio de 1849, em Dresden e na Província Renana[N57], foram reprimidas e a campanha prussiana contra a insurreição de Baden-Palatinado foi inaugurada pela concentração e mobilização de massas significativas de tropa, o governo achou-se suficientemente forte para suprimir pela força a Neue Rheinische Zeitung. O último número — impresso a vermelho — publicou-se a 19 de Maio. 

Marx foi de novo para Paris, mas, logo poucas semanas após a manifestação do 13 de Junho de 1849[N58], foi posto pelo governo francês perante a opção de estabelecer a sua residência na Bretanha ou de abandonar a França. Ele preferiu a última e instalou-se em Londres, onde, desde então, tem residido ininterruptamente. 

Uma tentativa para continuar a fazer publicar (em 1850) a Neue Rheinische Zeitung sob a forma de uma revista (em Hamburgo)[N59] teve de ser abandonada, depois de algum tempo, em virtude da reacção se conduzir de um modo cada vez mais violento. Logo após o golpe de Estado em França, em Dezembro de 1851[N60], Marx publicou: O 18 de Brumário de Louis Bonaparte (New York, 1852; segunda edição em Hamburgo, em 1869, pouco antes da guerra). Em 1853, ele escreveu: Revelações sobre o Processo dos Comunistas de Colónia(12*) (impresso primeiro em Basileia, mais tarde em Boston, recentemente de novo em Leipzig). 

Depois da condenação dos membros da Liga dos Comunistas em Colónia[N61], Marx retirou-se da agitação política e dedicou-se, por um lado, durante dez anos, à exploração dos ricos tesouros que a biblioteca do Museu Britânico oferece no domínio da economia política, e, por outro lado, à colaboração no New-York Tribune[N62], que até à deflagração da guerra civil americana[N63] trouxe não apenas correspondências assinadas por ele, mas também inúmeros artigos de fundo sobre as condições na Europa e na Ásia saídos da sua pena. Os seus ataques contra Lord Palmerston, fundados num estudo exaustivo de documentos oficiais ingleses, foram reimpressos em Londres como panfleto. 

Como primeiro fruto dos seus estudos económicos de longos anos, apareceu, em 1859: Para a Crítica da Economia Política, primeiro fascículo (Berlin, Duncker)(13*). Este escrito contém a primeira exposição seguida da teoria do valor de Marx, incluindo a doutrina do dinheiro. Durante a guerra italiana[N64], Marx combateu, no jornal alemão Das Volk[N65], que se publicava em Londres, o bonapartismo, que nessa altura se coloria de liberal e brincava aos libertadores de nacionalidades oprimidas, assim como a política prussiana da altura que, sob o manto da neutralidade, procurava pescar em águas turvas. Nesta oportunidade, o senhor Karl Vogt tinha também que ser atacado, ele que, nessa altura, por ordem do príncipe Napoléon (Plon-Plon) e a soldo de Louis-Napoléon fazia agitação a favor da neutralidade e mesmo da simpatia da Alemanha. Coberto por Vogt com as calúnias mais infames e cientemente mentirosas, Marx respondeu em: Herr Vogt [O Senhor Vogt](14*), London, 1860, onde Vogt e os restantes senhores do bando imperialista(15*) de falsos democratas foram desmascarados e Vogt acusado, a partir de fundamentos externos e internos, de suborno [pago] pelo Império de Dezembro [Dezemberkaisertum]. Exactamente dez anos mais tarde veio a confirmação: na lista dos mercenários bonapartistas, encontrada nas Tulherias[N66] em 1870 e publicada pelo governo de Setembro[N67], encontra-se na letra V: «Vogt — em Agosto de 1859 foram-lhe entregues... 40 000 francos»(16*)

Finalmente, em 1867, apareceu em Hamburgo: Das Kapital. Kritik der politischen Oekonomie. Erster Band [O Capital. Crítica da Economia Política. Primeiro Volume] — a obra principal de Marx, que expõe as bases das suas perspectivas [Anschauungen] económico-socialistas e as linhas principais da sua crítica da sociedade existente, do modo de produção capitalista e das suas consequências. A segunda edição desta obra que faz época apareceu em 1872; o autor ocupa-se [presentemente] com a elaboração do segundo volume. 

Entretanto, nos diversos países da Europa, o movimento operário tinha-se fortalecido de novo tanto que Marx pôde pensar em levar a cabo um desejo de há muito alimentado: a fundação de uma associação operária abarcando os países mais progressistas da Europa e América, que devia demonstrar, por assim dizer, corporalmente, o carácter internacional do movimento socialista tanto aos próprios operários como aos burgueses e aos governos — para encorajamento e fortalecimento do proletariado e para terror dos seus inimigos. Uma reunião popular a favor da Polónia — precisamente então oprimida de novo pela Rússia[N68] — realizada em 28 de Setembro de 1864 em St. Martins Hall em Londres, forneceu a ocasião de avançar com a coisa, que foi tomada com entusiasmo. Foi fundada a Associação Internacional dos Trabalhadores; foi eleito na reunião um Conselho Geral provisório com sede em Londres, e a alma desse [conselho], bem como de todos os conselhos gerais seguintes até ao Congresso da Haia[N5], foi Marx. Foram redigidas por ele quase todas as peças escritas publicadas pelo Conselho Geral da Internacional, desde a Mensagem Inaugural de 1864 até à mensagem sobre a guerra civil em França, de 1871(17*). Descrever a actividade de Marx na Internacional significaria escrever a história dessa mesma associação que, de resto, vive ainda na memória dos operários europeus. 

A queda da Comuna de Paris levou a Internacional a uma situação impossível. Ela era empurrada para o primeiro plano da história europeia, num momento em que, por toda a parte, lhe era cortada a possibilidade de qualquer acção prática bem sucedida. Os acontecimentos que a elevaram a sétima grande potência impediram-na, ao mesmo tempo, de mobilizar as suas forças de combate e de as empregar activamente, sob pena de derrota inevitável e de retrocesso do movimento operário por decénios. Além disso, de diversos lados, empurraram-se para a frente elementos que procuravam explorar a reputação tão subitamente acrescida da Associação para fins de vaidade pessoal ou de ambição pessoal, sem compreensão da situação real da Internacional ou sem atender a ela. Tinha que ser tomada uma decisão heróica, e foi de novo Marx que a tomou e a levou a cabo no Congresso da Haia. A Internacional, numa resolução solene, declarou-se livre de qualquer responsabilidade pelas manobras dos bakuninistas, que formavam o centro daqueles elementos desra-zoáveis e sujos; então, em presença da impossibilidade de corresponder, face à reacção geral, às exigências crescentes que também lhe eram postas e de manter a sua plena eficácia de outro modo que não fosse por uma série de sacrifícios em que o movimento operário teria tido de morrer de hemorragia — em presença desta situação, a Internacional retirou-se provisoriamente da cena, ao transferir o Conselho Geral para a América. O que se seguiu demonstrou como esta resolução — na altura e desde então frequentemente reprovada — era correcta. Por um lado, embotaram-se — e continuaram embotadas — todas as tentativas para fazer golpes [Putsche] inúteis em nome da Internacional; por outro lado, porém, o íntimo intercâmbio contínuo entre os partidos operários socialistas dos diversos países provou que a consciência da igualdade de interesses e da solidariedade do proletariado de todos os países, desperta pela Internacional, sabe manter a sua validade, mesmo sem o vínculo — tornado, de momento, uma peia — de uma associação internacional em forma. 

Depois do Congresso da Haia, Marx encontrou finalmente de novo tempo e vagar para retomar os seus trabalhos teóricos e espera-se que dentro de não muito mais tempo possa entregar para impressão o segundo volume do Capital.
 
Das muitas descobertas importantes com que Marx inscreveu o seu nome na história da ciência, podemos aqui pôr em evidência apenas duas. 

A primeira é o revolucionamento, por ele completado, em toda a concepção da história mundial. Toda a visão da história até aqui repousava sobre a representação de que era de procurar os fundamentos últimos de todas as mudanças históricas nas ideias, que mudam, dos homens, e que, de todas as mudanças históricas, de novo, as políticas seriam as mais importantes, dominando toda a história. De onde vêm, porém, aos homens as ideias e quais são as causas motoras das mudanças políticas, por isso nunca se tinha perguntado. Só à escola mais moderna de historiógrafos franceses e, em parte, também à dos ingleses se impôs a convicção de que, pelo menos, desde a Idade Média, na história europeia, a força motora foi a luta da burguesia, que se desenvolvia, contra a nobreza feudal pela dominação social e política. Ora, Marx demonstrou que toda a história até aqui é uma história de lutas de classes, que em todas as múltiplas e complexas lutas políticas se trata apenas da dominação social e política de classes da sociedade, da manutenção da dominação pelo lado das classes mais antigas, da conquista da dominação pelo lado das classes recentemente ascendentes. Mas, por que nascem e continuam a existir estas classes? Pelas condições materiais, grosseiramente sensíveis, de cada altura, em que a sociedade, num dado tempo, produz e troca o sustento da sua vida. A dominação feudal da Idade Média repousava sobre a economia auto-suficiente de pequenas comunidades de camponeses, produzindo elas próprias quase tudo o que lhes era necessário, quase sem troca, às quais a nobreza belicosa concedia protecção contra o exterior e coesão nacional ou, pelo menos, política; quando vieram as cidades e, com elas, uma indústria oficinal separada e um intercâmbio comercial — primeiro, no espaço do país, mais tarde: internacional —, a burguesia citadina desenvolveu-se e conquistou para si, em luta com a nobreza, ainda na Idade Média, a sua inserção como estado [Stand] igualmente privilegiado na ordem feudal. Mas, com a descoberta da Terra extra-europeia, a partir de meados do século quinze, esta burguesia adquiriu um campo de comércio muito mais abrangente e, com isso, um novo acicate para a sua indústria; nos ramos mais importantes, a oficina artesanal [Handwerk] foi suplantada pela manufactura já fabril e esta foi-o de novo pela grande indústria, tornada possível pelas invenções do século anterior, nomeadamente, a máquina a vapor, [grande indústria essa] que, de novo, retroagiu sobre o comércio, ao suplantar, nos países que tinham ficado para trás, o antigo trabalho manual e ao criar, nos mais desenvolvidos, os presentes novos meios de comunicação: máquinas a vapor, caminhos-de-ferro, telégrafos eléctricos. A burguesia reuniu, assim, cada vez mais, as riquezas sociais e o poder social nas suas mãos, enquanto, durante longo tempo ainda, permaneceu excluída do poder político que se encontrava nas mãos da nobreza e da realeza apoiada pela nobreza. Mas, num certo estádio — em França, desde a grande revolução —, ela conquistou também este [poder político] e, pelo seu lado, tornou-se, então, classe dominante face ao proletariado e aos pequenos camponeses. A partir deste ponto de vista — com conhecimento suficiente da situação económica da sociedade de cada altura, o qual falta, sem dúvida, totalmente aos nossos historiógrafos de profissão — explicam-se todos os fenómenos históricos da maneira mais simples e explicam-se, do mesmo modo, de maneira sumamente simples as representações e ideias de cada período da história, a partir das condições económicas de vida e das relações sociais e políticas desse período, por aquelas por sua vez condicionadas. A história foi pela primeira vez colocada sobre as suas bases reais; o facto palpável, mas sobre o qual até aqui se passou totalmente por cima, de que os homens, antes de tudo, têm de comer, beber, abrigar-se e vestir-se, portanto, têm que trabalhar, antes de poderem lutar pela dominação, fazer política, religião, filosofia, etc. — este facto palpável acedeu agora finalmente ao seu direito histórico(18*)

Para a visão socialista, porém, esta nova concepção da história teve o maior significado. Ela demonstrou que toda a história até aqui se move em oposições de classes e lutas de classes, que sempre houve classes dominantes e dominadas, exploradoras e exploradas e que a grande maioria dos homens sempre esteve condenada a trabalho duro e pouca fruição. Porquê isto? Simplesmente porque, em todos os estádios anteriores do desenvolvimento da humanidade, a produção estava ainda tão pouco desenvolvida que o desenvolvimento histórico só podia ocorrer nesta forma oposicional, que o progresso histórico, grosso modo, estava remetido à actividade de uma pequena minoria privilegiada, enquanto a grande massa permanecia condenada a conseguir pelo seu trabalho o magro sustento da vida para si e, além disso ainda, para os privilegiados que se tornavam sempre mais ricos. Mas, a mesma investigação da história que, desta maneira, explica natural e racionalmente a dominação das classes até aqui — de outro modo só explicável a partir da maldade dos homens — leva também à compreensão [Einsicht] de que, em consequência das forças de produção [Produktionskräfte], tão colossalmente aumentadas, do presente, se desvaneceu também o último pretexto para uma separação dos homens em dominantes e dominados, exploradores e explorados, pelo menos, nos países que mais progrediram; de que a grande burguesia dominante [já] cumpriu a sua vocação histórica, de que não está mais à altura da direcção [Leitung] da sociedade e se tornou mesmo um obstáculo para o desenvolvimento da produção, como as crises comerciais e, nomeadamente, o último grande craque[N46], e a situação deprimida da indústria em todos os países demonstram; de que a direcção histórica passou para o proletariado, uma classe que, por toda a sua situação na sociedade, só se pode libertar se, em geral, eliminar toda a dominação de classe, toda a servidão e toda a exploração; e de que as forças produtivas [Produktivkräfte] sociais que extravasam das mãos da burguesia apenas anseiam pela tomada de posse [delas] pelo proletariado associado para estabelecerem um estado [de coisas] que possibilite a cada membro da sociedade a participação, não apenas na produção, mas também na repartição e administração das riquezas sociais e que aumente de tal modo as forças produtivas sociais e os seus rendimentos [Erträge], pela exploração planificada de toda a produção, que a satisfação de todas as necessidades racionais de cada um permaneça assegurada numa medida sempre crescente. 

A segunda descoberta importante de Marx é o esclarecimento [Aufklärung] definitivo da relação de capital e trabalho, por outras palavras, a demonstração de como, na sociedade actual, no modo de produção capitalista existente, se completa a exploração [Ausbeutung] do operário pelo capitalista. Desde que a economia política estabeleceu o princípio de que o trabalho é a fonte de toda a riqueza e de todo o valor, tornara-se inevitável a pergunta: como é, então, conciliável com isso que o operário assalariado não receba toda a soma de valor criada pelo seu trabalho, mas tenha de entregar uma parte dela ao capitalista? Tanto os economistas burgueses como os socialistas se esforçaram por dar uma resposta cientificamente sólida à pergunta, mas em vão, até que finalmente Marx avançou com a solução. Esta solução é a seguinte: o modo de produção capitalista hodierno tem por pressuposto a existência de duas classes da sociedade; de um lado, os capitalistas, que se encontram na posse dos meios de produção e dos meios de vida e, do outro lado, os proletários que, excluídos dessa posse, apenas têm para vender uma única mercadoria: a sua força de trabalho; e que, portanto, têm que vender esta sua força de trabalho para ficarem de posse de meios de vida. O valor de uma mercadoria é, porém, determinado pela quantidade de trabalho socialmente necessário incorporado na sua produção, portanto, também na sua reprodução; o valor da força de trabalho de um homem médio durante um dia, mês, ano, [é determinado], portanto, pela quantidade de trabalho que está incorporada na quantidade de meios de vida necessária para a manutenção desta força de trabalho durante um dia, mês, ano. Se admitirmos que os meios de vida do operário, para um dia, requerem seis horas de trabalho para a sua produção ou, o que é o mesmo, que o trabalho neles contido representa uma quantidade de trabalho de seis horas — então o valor da força de trabalho por um dia exprime-se numa soma de dinheiro que igualmente incorpora em si seis horas de trabalho. Se admitirmos, além disso, que o capitalista que emprega o nosso operário lhe paga essa soma, [paga-lhe], portanto, o valor completo da sua força de trabalho. Se, agora, o operário trabalha seis horas do dia para o capitalista, ele reembolsou de novo completamente esse seu desembolso — seis horas de trabalho por seis horas de trabalho. Com isto, não ficava por certo nada para o capitalista e este concebe por isso a coisa de uma maneira totalmente diferente: Eu comprei, diz ele, a força de trabalho deste operário, não por seis horas, mas por um dia todo e, em conformidade, faz o operário trabalhar, segundo as circunstâncias, 8, 10, 12, 14 e mais horas, de tal modo que o produto da sétima, oitava e seguintes horas seja um produto de trabalho não-pago e, que antes do mais, entra para o bolso do capitalista. Deste modo, o operário ao serviço do capitalista reproduz, não apenas o valor da sua força de trabalho, pelo qual ele é pago, mas produz também, além e acima disso, uma mais-valia que, apropriada antes do mais pelo capitalista, no curso ulterior, se reparte pela classe toda dos capitalistas, segundo leis económicas determinadas, e forma o fundo básico [Grundstock] de onde saem renda fundiária, lucro, acumulação de capital, em suma, todas as riquezas consumidas ou acumuladas pelas classes não-trabalhadoras. Com isto era também demonstrado que a aquisição de riqueza pelos capitalistas de hoje consiste tanto na apropriação de trabalho alheio não-pago como a do dono de escravos ou a do senhor feudal que explorava o trabalho servo e que todas estas formas da exploração só se diferenciam pela maneira diversa em que o trabalho não-pago é apropriado. Com isto, porém, retirava-se também de debaixo dos pés a todos os ditos hipócritas das classes possidentes a última base, segundo a qual na ordem social actual reinam direito e justiça, igualdade de direitos e de deveres e harmonia geral de interesses; e desvendava-se a sociedade burguesa de hoje, não menos do que as suas predecessoras, como uma grandiosa instituição para exploração da imensa maioria do povo por uma minoria mínima e que se torna cada vez mais pequena. 

O socialismo científico, moderno, fundamenta-se nestes dois factos importantes. No segundo volume do Capital, estas e outras não muito menos importantes descobertas científicas [referentes] ao sistema capitalista de sociedade serão mais desenvolvidas e, com elas, também os aspectos da economia política ainda não aflorados no primeiro volume serão submetidos a um revolucionamento. Assim possa Marx em breve poder entregá-los para impressão. 

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*Escrito por Engels em meados de Junho de 1877.