sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

100 livros clássicos para download


Uma compilação com 100 obras, entre autores brasileiros e estrangeiros, escolhidas entre os 10 mil títulos disponíveis no portal Domínio Público. A lista, traz desde livros seminais, formadores da cultural ocidental, como “Arte Poética”, de Aristóteles, até o célebre “Ulisses”, de James Joyce, considerado um dos livros mais influentes do século 20, além de clássicos brasileiros e portugueses. Todo o acervo do portal DP é composto por obras em domínio público ou que tiveram seus direitos de divulgação cedidos pelos detentores legais. No Brasil, os direitos autorais duram setenta anos contados de 1° de janeiro do ano subsequente à morte do autor. 

A Divina Comédia — Dante Alighieri
Ulysses — James Joyce
A Metamorfose — Franz Kafka
Don Quixote. Vol. 1 — Miguel de Cervantes Saavedra
Don Quixote. Vol. 2 — Miguel de Cervantes Saavedra
Cândido — Voltaire
Uma Estação no Inferno — Arthur Rimbaud
Iluminuras —Arthur Rimbaud
A Esfinge sem Segredo — Oscar Wilde 


Viagens de Gulliver — Jonathan Swift


Poemas — Safo
O Elixir da Longa Vida — Honoré de Balzac
Arte Poética — Aristóteles


Via—Láctea — Olavo Bilac


As Viagens — Olavo Bilac
Contos para Velhos — Olavo Bilac
A Mensageira das Violetas — Florbela Espanca
Poemas Selecionados — Florbela Espanca
Livro de Mágoas — Florbela Espanca
Charneca em Flor — Florbela Espanca
Livro de Sóror Saudade — Florbela Espanca
O Livro D'ele — Florbela Espanca
O Guardador de Rebanhos — Fernando Pessoa


Poemas de Fernando Pessoa — Fernando Pessoa


Poemas de Álvaro de Campos — Fernando Pessoa
Poemas de Ricardo Reis — Fernando Pessoa
Primeiro Fausto — Fernando Pessoa
O Pastor Amoroso — Fernando Pessoa
A Cidade e as Serras — Eça de Queirós
Os Maias — Eça de Queirós
Contos —Eça de Queirós
A Ilustre Casa de Ramires — Eça de Queirós
A Relíquia — Eça de Queirós
O Crime do Padre Amaro — Eça de Queirós
Vozes d'África — Castro Alves
Os Escravos —  Castro Alves
O Navio Negreiro — Castro Alves
Espumas Flutuantes — Castro Alves
Eu e Outras Poesias — Augusto dos Anjos
Eterna Mágoa — Augusto dos Anjos
Os Sertões — Euclides da Cunha
Canção do Exílio — Antônio Gonçalves Dias 


Dom Casmurro — Machado de Assis


Esaú e Jacó — Machado de Assis
Quincas Borba — Machado de Assis
Contos Fluminenses — Machado de Assis
O Alienista — Machado de Assis
As Academias de Sião — Machado de Assis
Memorial de Aires — Machado de Assis 


Romeu e Julieta — William Shakespeare


A Comédia dos Erros — William Shakespeare
A Megera Domada — William Shakespeare
Macbeth — William Shakespeare
Hamlet — William Shakespeare
Otelo, O Mouro de Veneza — William Shakespeare
O Mercador de Veneza — William Shakespeare
Antônio e Cleópatra — William Shakespeare
Ricardo III — William Shakespeare
Os Lusíadas — Luís Vaz de Camões
Redondilhas — Luís Vaz de Camões
Canções e Elegias — Luís Vaz de Camões
A Carta — Pero Vaz de Caminha
Fausto — Johann Wolfgang von Goethe
Lira dos Vinte Anos — Álvares de Azevedo
Noite na Taverna — Álvares de Azevedo
Obras Seletas — Rui Barbosa
Odisseia — Homero
Iliada — Homero
História da Literatura Brasileira — José Veríssimo Dias de Matos
Utopia — Thomas Morus
A Carne — Júlio Ribeiro
Édipo—Rei — Sófocles
Memórias de um Sargento de Milícias — Manuel Antônio de Almeida
A Dama das Camélias — Alexandre Dumas Filho
A Dança dos Ossos — Bernardo Guimarães
A Escrava Isaura — Bernardo Guimarães
A Orgia dos Duendes — Bernardo Guimarães
Seleção de Obras Poéticas — Gregório de Matos
Contos de Lima Barreto — Lima Barreto
Diário Íntimo — Lima Barreto
O Livro de Cesário Verde — José Joaquim Cesário Verde
Brás, Bexiga e Barra Funda — Alcântara Machado
Schopenhauer — Thomas Mann 


A Capital Federal — Artur Azevedo


Antigonas — Sofócles
A Poesia Interminável —  Cruz e Sousa
Antologia — Antero de Quental
A Conquista — Coelho Neto
As Primaveras — Casimiro de Abreu
Carolina — Casimiro de Abreu
A Desobediência Civil — Henry David Thoreau

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Moradores removidos por obra olímpica há dois anos continuam sem indenização no Rio de Janeiro



Há dois anos, Michel aguarda indenização da Prefeitura após perder sua casa e oficina
Em 17 de dezembro de 2010, Michel Souza dos Santos e Francisca Melo, ex-moradores da Restinga, no Recreio dos Bandeirantes, viram suas casas serem destruídas pelos tratores da Prefeitura em questão de minutos. Não apenas o trauma ficou daquele dia, mas a sensação de injustiça com indenizações irrisórias ou simplesmente o esquecimento por parte do poder público. Os dois faziam parte do grupo que mais resistiu à remoção forçada.
“Nós lutamos contra a remoção, e parece que servimos de exemplo para as outras comunidades não brigarem por seus direitos. Não me arrependo, faria tudo de novo, mas agora estamos nessa situação”, disse Michel, que é um dos cerca de 20 moradores que não recebeu nenhum centavo da Prefeitura do Rio. Sem ter para onde ir, ele morou de favor, de aluguel, e agora está construindo uma casa em Pilares.
Vila Harmonia se transformou em estacionamento para máquinas da Prefeitura
“Antes morava num lugar tranquilo, agora estou perto do morro e é tiroteio direto. Não pego o BRT porque não dá, vem lotado, e acabo demorando duas horas pra ir e mais duas pra voltar”, completou. Além da casa, Michel tinha uma oficina na Restinga há 12 anos. Apesar de continuar trabalhando no local para manter seus clientes, agora está numa loja alugada.
Já Francisca, com a ajuda de parentes, está refazendo a sua vida na comunidade do Fontela (conheça a sua história no mini-documentário abaixo). “O Secretário de Habitação (na época Jorge Bittar) falava que a gente já saía encaminhado para um trabalho, o que não aconteceu de maneira nenhuma. Nós saímos de lá sem nada. Então é falho isso, é uma grande falha falarem que as pessoas estão sendo remanejadas dentro dos seus direitos, negativo”, enfatizou Francisca.
Casos como o de Michel e Francisca estão sendo tratados na Comissão de Moradores Atingidos pela Transoeste, grupo que tem se reunido para dar visibilidade às violações de direitos que aconteceram na região, exigir reparações adequadas aos danos causados e fortalecer a luta de comunidades vizinhas.
“Muitas questões ainda não foram resolvidas e os moradores estão numa situação pior do que antes. A experiência que a gente passou com relação à Transoeste pode ser útil, pode ajudar nos desafios que estão postos a outras comunidades”, disse Alexandre Mendes, que na época era Defensor Público e atendeu com a equipe do Núcleo de Terras e Habitação as comunidades do Recreio.
Assim como a Restinga, Vila Recreio II e Vila Harmonia também sofreram ofensivas no período e já não existem mais. O motivo seria a construção do BRT Transoeste, mas hoje grande parte dos terrenos estão desocupados ou tendo outros usos, o que tem sido questionado pelos atingidos. Nada foi feito no local da Vila Recreio II e a Vila Harmonia se transformou em estacionamento para máquinas da Prefeitura. Já a área removida da Restinga deu espaço a três novas pistas para carros, não para o BRT.
Área antes ocupada pela Vila Recreio II permanece sem uso
“Queremos justiça, mostrar que eles estavam errados, para que isso não volte a acontecer nunca mais”, finalizou Michel.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

A situação da Síria, vista pelo Partido Comunista Sírio



Comunicado sobre a reunião do Comité Central do Partido Comunista Sírio, facção Khalid Bakdash.

O Comitê Central do Partido Comunista Sírio fez uma reunião ampliada, em 5 de dezembro de 2012, liderada por seu secretário geral Camarada Ammar Bagdache, em companhia dos membros do Comitê Central, membros do Comitê de supervisão e secretários de comitês regionais, começando com um minuto de silêncio em respeito ao Camarada Wissal Farha Bagdash, líder do partido, e em luto pelos mártires da pátria.

Durante a discussão da situação política, o Comitê Central voltou-se para o desenvolvimento da situação interna do país, onde os confrontos armados estão aumentando entre as forças do governo - que defendem uma visão nacional síria, contrária aos planos agressivos e expansionistas do sionismo e do imperialismo - e forças rebeldes cujo poder de fogo é constituído por facções terroristas que são leais ao imperialismo e aos regimes reacionários árabes que visam destruir a Síria como a fortaleza liberal no mundo árabe, e como um elemento importante da luta de libertação anti-imperialista internacional.

Apesar da expansão e intensificação da insurreição, ela não atingiu os seus objetivos de derrubar o regime através da destruição da capacidade de luta do Exército Árabe Sírio, que corajosamente enfrenta os repetidos ataques dos rebeldes na capital Damasco, e Aleppo tem permanecido inabalável, levantando orgulhosamente a bandeira da nação e da dignidade. Até mesmo a rejeição das massas sírias vem aumentando contra os rebeldes, cujos rostos bárbaros se tornam cada vez mais claros através dos crimes cometidos contra a população civil, especialmente em áreas que se recusam a aceitá-los. Quanto à eficácia do confronto entre as forças armadas rebeldes, as operações terroristas que visam comunidades e alvos civis estão aumentando, o que fará o ódio popular contra eles crescer exponencialmente.

O Comitê Central considera que não seria possível para a insurreição atingir este amplo alcance se não fosse o grande apoio recebido pelos rebeldes dos estados imperialistas e dos regimes reacionários árabes, em particular dos Estados do Golfo e a Turquia de Erdogan, que é o posto avançado da OTAN na região, trabalhando constantemente contra a Síria. Não podemos classificar esses fatos de acordo com as normas do direito internacional, apenas como atos agressivos. Uma das últimas manifestações da linha de agressividade turca foi a implantação do sistema de mísseis Patriot Atlântico no seu território.

A Turquia também dá suporte insolentemente a operações militares que partem de seu território contra a Síria e na prática participa nestas operações, como aconteceu na cidade de Ras al-Ain. É sabido por todos que a Turquia apóia as bases de rebeldes armados em seu território bem como a base de inteligência atlântica, que lidera e coordena o trabalho dos rebeldes na Turquia.

O Comitê Central considera que o principal dever dos comunistas, como de todos os patriotas, encontra-se na defesa da independência nacional da Síria e na defesa da unidade do território nacional, em face de conspirações imperialistas sionistas reacionárias árabes, e no enfrentamento aos atos criminosos dos inimigos da pátria, os executores da vontade do colonizador.

Durante a discussão da situação sócio-econômica, os camaradas refletiram sobre o sofrimento das massas, a deterioração das condições de vida do povo causada pelo declínio do poder de compra das famílias sírias, e a onda de aumento de preços, com a perda dos elementos básicos necessários para a vida. Além disso, o encontro reflete as inúmeras dificuldades que a produção nacional e os produtores estão enfrentando. O Comitê Central considera que uma grande parte dessa situação se deve ao cerco imposto à Síria e aos atos de sabotagem. Mas, ao mesmo tempo, este governo não fez ações rigorosas para enfrentar a situação, e não fez o necessário enfrentamento com a abordagem econômica liberal, que basicamente contribuiu para criar as condições da crise vivida pela Síria agora.

O que é necessário agora é intensificar o controle estatal sobre as articulações básicas da economia nacional, aumentar o seu papel particularmente no abastecimento e comércio interno, restaurando as suas posições no comércio exterior, especificamente em materiais necessários estratégicos para a continuidade da produção e fornecimento para as necessidades dos cidadãos . O Comitê Central considera que o que foi feito por algumas autoridades econômicas governamentais, para a procrastinação da resolução do problema e adiamento da escolha de uma política econômica alternativa, estende a duração da crise e aumenta a probabilidade de consequências difíceis. Especialmente quando se tornou claro que, após as potências coloniais não terem conseguido obter uma rápida vitória militar sobre a Síria, estão buscando esgotá-la em todas as áreas, a fim de fazer a Síria sair de sua crise incapacitada de efetivamente enfrentar o imperialismo expansionista e os planos sionistas na região.

Daí vem a importância do front econômico-social, a importância de seguir uma política econômica que proteja e reforce a produção nacional, atendendo aos interesses das massas populares que são o esteio da honrada firmeza nacional da Síria, e isso só pode ser conseguido através de mudança radical nas orientações econômicas e sociais e do enfrentamento final com o liberalismo econômico em todas as suas manifestações.

O Comitê Central considera que há no mundo um aumento da condenação às ações de hostilidade perpetradas pelo imperialismo internacional e suas forças leais e mercenárias contra a Síria, tendo como uma das manifestações evidentes a declaração de solidariedade com a Síria emitida pelos Partidos Comunistas e Operários participantes da 14ª reunião internacional. A rejeição à intervenção militar direta contra a Síria também está aumentando nos Estados Unidos e nos centros imperialistas em si. Também aumenta a compreensão para os riscos das conseqüências da crise síria em todo o mundo.

Essa situação aumenta a loucura dos regimes reacionários árabes contra a Síria. Estes regimes percebem que a sua existência estaria ameaçada em caso de fracasso das conspirações contra a Síria. Isso aumenta a agressividade desses regimes e seu apoio para todas as operações agressivas e subversivas contra a Síria, em plena coordenação da Turquia e governantes reacionários.

O Partido Comunista Sírio confirma, como confirmara anteriormente, que a resistência não é apenas um dever, mas é possível. Todas as evidências no cenário nacional, regional e internacional confirmam isso. O importante agora é promover, fortalecer e suportar todos os fatores que tragam consigo a capacidade de mobilização das massas populares e de luta do Exército Árabe da Síria, bem como a manutenção da produção nacional.

O Comitê Central discutiu a participação de nosso partido na reunião dos partidos nacionais e das forças da coalizão, enfatizando a importância da aliança de todas as forças nacionais e sua unidade especialmente nas circunstâncias difíceis enfrentadas por nosso país. A unidade da Frente Nacional é um dever em face da unidade das forças reacionárias.

Na arena árabe mostra-se claramente o rosto terrível e o conteúdo obscurantista das forças reacionárias disfarçadas, que fazem no combate o contraste aos conceitos de democracia e progresso, aos conceitos que tratam de civilização e humanidade. Isto é claramente demonstrado pelos acontecimentos na Tunísia e na Líbia, e especialmente na situação vivida pelo Egito, onde as grandes massas do povo resistem às tentativas de se impor um regime obscurantista e ditatorial leal ao imperialismo, não menos do que os regimes anteriores. O rápido desenvolvimento dos acontecimentos no mundo árabe prediz inúmeras inflexões no movimento de libertação nacional árabe.

O Comitê Central declara a sua solidariedade para com todas as pessoas livres do mundo árabe, que rejeitam o controle colonial e a autoridade reacionária de todas as cores, opondo-se ao risco das forças obscurantistas.

Durante a discussão da situação internacional, o Comitê Central decidiu pela manutenção do que o nosso partido diagnosticou em sua documentação sobre a escalada de todas as contradições imperialistas contemporâneas, especialmente nas circunstâncias da crise estrutural vivida pelos centros imperialistas, a escalada dos confrontos entre o trabalho e o capital em seu interior, bem como a recuperação do movimento global de libertação nacional em sua resistência à política de empobrecimento e às tentativas de impor a dominação absoluta pelo capital financeiro global.

O Comitê Central envia uma saudação a todos os progressistas e forças anti-imperialistas do mundo, especialmente aos partidos comunistas que estão na dianteira da luta contra a dominação do capital. Destaca, ainda, que a luta dos comunistas sírios para fortalecer a firmeza da Síria nacional é também tarefa internacional para fortalecer a frente anti-imperialista global.

O Comitê Central reporta as atividades dedicadas ao centenário do nascimento do camarada Khalid Bagdache, líder histórico dos comunistas sírios, que foram conduzidas pelas organizações partidárias em todo o país, apesar das condições difíceis, concentrando-se nos aspectos da luta de classes, nacional e internacional, do Partido Comunista Sírio.

O Comitê Central também discutiu algumas questões de organização e tomou as decisões e recomendações necessárias nesta área. O Comitê Central elogiou as atividades das organizações partidárias e a luta dos camaradas comunistas ombro a ombro com todos os patriotas pela defesa da pátria, da sua soberania e dignidade.

Damasco, 5 de dezembro de 2012.

Comitê Central do Partido Comunista Sírio.

Fonte: Diário da Liberdade

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Tropicalismo, um movimento libertário?


Por IHU On-Line

O tropicalismo marcou uma época porque foi capaz de aceitar a outridade e conseguiu sintetizar o transe em canções, afirma o doutorando.

O tropicalismo quebrou as barreiras entre o pop e o folclore; entre a cultura erudita e a de massa; entre a tradição e a vanguarda. Para Pedro Bustamante Teixeira, o movimento conseguiu estes êxitos jogando com os estereótipos de brasilidade. “Na justaposição de suas imagens, o tropicalismo expunha com amor, já que ele sabe que isto também o constitui, o ridículo destas”, diz, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.

Segundo ele, ao focar as imagens constantemente relacionadas a uma identidade brasileira: as bananas, os pandeiros, as mulatas, Carmen Miranda, Bossa Nova, Chico Buarque, Vicente Celestino, o tropicalismo operava na desconstrução de uma identidade endossada por um mito-Brasil em nome de uma diversidade identitária que lhes parecia inequívoca e irremediável. A partir da “desconstrução de estereótipos através de escrachos, novas possibilidades são criadas. De modo que se torna possível unir o fino da bossa ao programa do Roberto Carlos, o rock e o baião, o Brasil e o mundo, o bumba-meu-boi e o iê-iê-iê, Rogério Duprat e Os Mutantes, Caetano Veloso e Chico Buarque etc.”

Pedro Bustamante Teixeira possui graduação em Língua Portuguesa e em Língua Italiana (e em suas respectivas literaturas), e mestrado em Letras: Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF. É doutorando do Programa de Pós-Graduação em Letras: Estudos Literários e Representações Culturais na mesma instituição.


IHU On-Line – O tropicalismo conseguiu “modernizar” a cultura brasileira em apenas um ano, que correspondeu à duração do movimento? Como isso foi possível?

Pedro Bustamante Teixeira – Primeiramente, é preciso lembrar que esse foi um momento ímpar na história brasileira. E não só por conta da ação tropicalista. No cinema, no teatro, na música, nas artes plásticas, nos jornais, apesar da ditadura da direita, soprava um “vento pré-revolucionário” que afetava as estruturas e convocava o artista à participação política. “O Brasil estava irreconhecivelmente inteligente”, diria o marxista Roberto Schwarz sobre esse tempo no ensaio Cultura e política, 1964-1969. No entanto, ao se pretender se servir da cultura para a conscientização das massas e à revolução, a esquerda incorria num erro político, detectado posteriormente por Gilberto Felisberto Vasconcellos, que era o de substituir a luta pela ação cultural. O tropicalismo vem a reboque dos ventos pré-revolucionários, mas se posta para além da causa, pois enxerga na política cultural das esquerdas uma visão deveras reducionista do que poderia ser a cultura brasileira.

Devir identitário

O movimento tropicalista se rebela contra o nacional-popular. Percebe nele uma séria ameaça ao devir da cultura brasileira. Desatando-se das diretrizes culturais da esquerda, vide CPC, o movimento, ao mesmo tempo em que se tornava célebre pelas apresentações conturbadas nos festivais, causava um mal-estar generalizado nas alas progressistas. A terra estava em transe, não só no Brasil, não só em Eldorado. O tropicalismo marcou uma época porque foi capaz de aceitar a outridade e conseguiu sintetizar o transe em canções.

Assim, a prática tropicalista resultou na edificação de uma identidade nacional mais complexa, mais tolerante, mais atenta, híbrida e maior. Uma identidade que existe mais através da práxis antropofágica do que pela preservação de uma essência originária. Em menos de um ano, a tropicália foi capaz de implodir com as bases do nacional-popular que de certa forma uniam a direita à esquerda, e de introduzir na cultura popular brasileira uma nova forma de pensamento. Agora, mais próximo dos manifestos de Oswald de Andrade do que do Ensaio sobre a música brasileira, de Mário de Andrade. Por fim, a rebeldia tropicalista resultou no devir de uma identidade cultural brasileira múltipla, de infinitas possibilidades e que nem por isso parecia menos brasileira do que a anterior. 

IHU On-Line – De que maneira o tropicalismo quebrou as barreiras entre o pop e o folclore? Entre a cultura erudita e a de massa? Entre a tradição e a vanguarda?

Pedro Bustamante Teixeira – Jogando com os estereótipos de brasilidade. Na justaposição de suas imagens, o tropicalismo expunha com amor, já que ele sabe que isso também o constitui, o ridículo destas. Ao focar as imagens constantemente relacionadas a uma identidade brasileira: as bananas, os pandeiros, as mulatas, Carmen Miranda, Bossa Nova, Chico Buarque, Vicente Celestino... o tropicalismo operava na desconstrução de uma identidade endossada por um mito-Brasil em nome de uma diversidade identitária que lhes parecia inequívoca e irremediável.

O jovem Caetano já dizia: “me recuso a folclorizar meu subdesenvolvimento”. E assim, da desconstrução de estereótipos através de escrachos, novas possibilidades são criadas. De modo que se torna possível unir o fino da bossa ao programa do Roberto Carlos, o rock e o baião, o Brasil e o mundo, o bumba-meu-boi e o iê-iê-iê, Rogério Duprat e Os Mutantes, Caetano Veloso e Chico Buarque etc. A tropicália chega à conclusão promissora que para se escolher um caminho não é preciso ignorar seus outros possíveis. E por isso é também um movimento libertário. Rita Lee disse em uma entrevista que Caetano Veloso e Gilberto Gil lhe fizeram ver que ela era – apesar de paulista, roqueira e filha de americano – tão brasileira quanto o Garrincha.


IHU On-Line – Em que sentido o movimento sofisticou a estética e a cultura brasileiras?

Pedro Bustamante Teixeira – Não combina muito com a estética tropicalista a palavra sofisticação, que talvez sirva melhor para nos referirmos ao movimento da bossa nova. O tropicalismo joga o tempo todo com o brega, o cafona, justapondo-os ao que pode haver de mais sofisticado na música brasileira e internacional. Apesar de uma vontade de superação do subdesenvolvimento, presente nas experimentações com os instrumentos elétricos, a incorporação de elementos da eletrônica e uma experimentação cada vez mais incisiva nos estúdios, a sofisticação jamais foi um desejo da tropicália, que é, antes de tudo, escracho, escândalo e jogo. A sofisticação sublima, mas não assusta. E o tropicalismo viera munido do Kitsch, do brega , do rock e do pop, justamente para assustar “as pessoas da sala de jantar”.

IHU On-Line – “O nome de um movimento só existe enquanto o movimento existe. E o tropicalismo não existe mais como movimento.” Como avalia essa frase de Caetano Veloso, proferida em um programa português, recuperada de forma inédita recentemente no documentário Tropicália?

Pedro Bustamante Teixeira – No momento em que Caetano faz essa afirmação, nem ele nem Gil, nem mais ninguém poderia responder por um movimento que tinha sido dissipado, junto a tantos outros, com a promulgação do Ato Institucional no. 5 e a seguinte intensificação da reação aos tais ares pré-revolucionários. No momento em que Caetano e Gil não poderiam nem mais pisar em seus trópicos que doravante pareciam, mais uma vez, tristes; o tropicalismo não fazia mais sentido algum. O absurdo alegre tornava-se uma violenta desilusão. Era o momento de se restabelecer o mínimo, “o mínimo Eu”. Os ombros mal suportavam o próprio peso que dirá o do movimento. Caetano e Gil, depois do itinerário que vai da “transa” ao transe, e do tranco e da tranca, teriam que cuidar de si mesmos para não sucumbirem à dor.

IHU On-Line – Podemos afirmar que o tropicalismo foi além da música? O movimento influenciou também as artes plásticas, o teatro e o cinema? De que forma?

Pedro Bustamante Teixeira – Devido à diversidade de frentes de atuação, Flora Süssekind  prefere o termo momento tropicalista ao mais usado movimento tropicalista. E já que estamos falando de um momento heterogêneo, é bastante complicado mapear quem influenciou quem. O que há é o surgimento de uma nova sensibilidade que rejeita tanto a filiação automática às diretrizes esquerdistas dos Centros Populares quanto uma inclinação nacionalista em nome da liberdade e da experimentação de novas formas artísticas. Sensibilidade que passa a ser sentida no teatro de José Celso Martinez Corrêa, no cinema de Glauber Rocha, nas artes plásticas com Hélio Oiticica, Lygia Clark e Rubens Gerchman, na Literatura de José Agrippino de Paula  e na música tropicalista. Em cada área há uma ruptura intrínseca a ela. Para cada ruptura, uma nova batalha, a vitória de uns não dispensa a luta dos demais, mas também não deixa de ajudar.

IHU On-Line – Qual foi o papel que a televisão teve para a divulgação do movimento, dos cantores e da própria canção, na época?

Pedro Bustamante Teixeira – Como já dissemos, sem a televisão certamente não haveria o susto tropicalista. O susto tropicalista só é possível através das transmissões dos festivais e dos programas tropicalistas. Só é possível com a subversão da imagem do artista de televisão, a adoção de trajes e penteado indiscretos, das guitarras e dos gritos. A transmissão da juventude sorridente do rock em meio aos festivais da música popular brasileira reduzia um preconceito e uma resistência que se preservavam apenas pelo medo do diferente. A transmissão dessas imagens ao vivo evitava qualquer apropriação indébita. Os rostos jovens e sorridentes dos Mutantes, acompanhando Gilberto Gil e a orquestra regida por Duprat, falavam por si só. O sorriso de Caetano enfrentando as vaias, para defender Alegria, alegria, também. A televisão foi a plataforma ideal para os happenings tropicalistas. Transmitiu o início, no Festival da Record, em 1967, e o seu enterro, no primeiro e único programa de Divino Maravilhoso. A TV foi uma fresta pela qual os tropicalistas puderam emitir os seus sinais diretamente para as massas. Em suma, sem a televisão, o movimento não teria acontecido.

 

IHU On-Line – Qual a diferença entre tropicália e tropicalismo?

Pedro Bustamante TeixeiraFrederico Coelho faz uma distinção que pode ser muito produtiva nos estudos acadêmicos desenvolvidos sobre o assunto. O pesquisador separa o tropicalismo musical da tropicália. Segunda a sua divisão, o primeiro diz respeito ao lado musical do movimento e está centrado nas figuras de Gilberto Gil e Caetano Veloso; o segundo, mais abrangente, faz menção a diferentes áreas artísticas e não se centra em uma área específica.

No entanto, como o lado musical, no momento tropicalista, está muito imbricado com os demais, acho a tarefa um tanto quanto complicada. Um campo alimenta o outro, um artista de uma área está sempre influenciando um artista de outra área. Havia uma cena artística muito diversificada que se frequentava. Não é fácil fazer o inventário do movimento. Gosto muito da fala de Gil no documentário Tropicália, em que ele diz: “Tropicália é uma ilha, um território, uma utopia”, “o –ismo era coisa de momento”, passou.

 

IHU On-Line – Podemos dizer que, à época, nem todo mundo entendeu o tropicalismo? Por quê?

Pedro Bustamante Teixeira – Se o tropicalismo hoje ainda é mal entendido, imagine só naquele momento. Na época, ainda pesava uma dupla suspeita em relação à tropicália. Por um lado, ela era acusada de servir aos interesses da ditadura militar e do imperialismo Ianque; por outro, ela parecia representar uma séria ameaça à moral e aos bons costumes. Este lado reagiu sorrateiramente até o ato da prisão de Gil e de Caetano, aquele de imediato, com as vaias e as denúncias. Para estes, Caetano e Gil seriam espécies de instrumentos da atual conjuntura para a desmobilização da juventude brasileira. A esquerda que, segundo Schwarz, manteve de 1964 até o Ato 5 uma relativa hegemonia na cultura do Brasil, via na nova abordagem proposta por Caetano e Gil uma rendição incosequente ao mercado e uma adesão ao projeto de modernização proposto pelos militares. Curiosamente, essas suspeitas só seriam sanadas com a chegada mais que tardia da notícia da prisão de Gil e de Caetano. Poucos sabiam, na época, o que realmente tinha acontecido aos dois. E, além do mais, quando eles puderam retornar do exílio em 1972, ainda não havia espaço para maiores esclarecimentos.

O adeus

Ademais, não lhes interessava mais essa briga; o objetivo do movimento já tinha sido de algum modo alcançado. As estruturas estéticas já estavam descerradas. Além do mais, era preciso seguir em frente, pois já tinham perdido tempo demais de trabalho. O mal-entendido que houve se estendeu e foi de tal maneira recalcado que, volta e meia, ainda pesam denúncias contra o movimento. Uma das motivações para que Caetano Veloso escrevesse Verdade tropical era a de desfazer os malentendidos, recontando em detalhes a sua parte nessa história, mas essa história não termina aqui: ainda têm o ensaio de Schwarz de 2012, as respostas e as canções.

Retirado do site IHU On-Line.

IHU On-Line é um jornal da web
 
Fonte: Algo a Dizer

domingo, 23 de dezembro de 2012

Hugo Chávez: e Cuba?


A presença da Venezuela e sua revolução bolivariana é de importância imensa para Cuba, que passa por uma etapa de transformações significativas em sua economia, com reflexos óbvios em seu cotidiano. Nicolás Maduro, indicado por Chávez para sucedê-lo, conta com a confiança de Fidel e Raúl Castro. Aliás, esse foi um dos pontos que pesaram a seu favor no momento da escolha para a difícil tarefa de suceder o condutor do processo bolivariano na Venezuela. O artigo é de Eric Nepomuceno.



Por Eric Nepomuceno


A cada dia que passa aportam em Cuba cem mil barris de petróleo venezuelano. Chegam a preços favorecidos. Se fosse recorrer ao mercado, o estado cubano não teria como pagar esses cem mil barris vitais. Ou até que teria, mas boa parte dos parcos recursos país sucumbiria. É disso que se trata. 

Como se fosse pouco, a Venezuela é uma das mais generosas fontes de ingressos para Cuba. Faz décadas que a ilha obtém divisas em quantidades essenciais com a venda de serviços profissionais ao exterior. 

Esse é, aliás, o segmento que mais recursos propicia a Cuba: no ano passado, foram seis bilhões de dólares, o triplo do turismo (dois bilhões) e cinco vezes mais que as exportações de níquel (um bilhão e duzentos milhões). 

Em todo o mundo, o país que mais gera recursos pagando por serviços profissionais a Cuba é a Venezuela. Existem pelo menos 40 mil profissionais cubanos, todos altamente especializados, trabalhando no país presidido por Hugo Chávez. 

São, em sua maioria, médicos. Mas também há assistentes sociais, engenheiros, psicólogos e profissionais de várias outras áreas trabalhando principalmente nas chamadas missões sociais, gigantescos mutirões dedicados a construir e equipar bairros populares, destinados à população carente. Somente em 2012 funcionaram 47 projetos conjuntos entre os dois países, que vão de educação a esporte, de agricultura a saúde. Isso, para não mencionar empresas binacionais e uma vasta gama de assessoria em gestão, segurança pública e instrução militar que Cuba presta aos venezuelanos.

Por essas e por outras, a presença da Venezuela e sua revolução bolivariana é de importância imensa para Cuba, que passa por uma etapa de transformações significativas em sua economia, com reflexos óbvios em seu cotidiano. 

Para trás ficaram os tempos de agrura provocados pelo fim abrupto da antiga União Soviética, quando da noite para o dia a ilha perdeu 85% de seu comércio exterior e a economia entrou em colapso. Depois de terem alcançado um estágio de relativa bonança ao longo dos anos 80, de forma igualitária e estável, os cubanos viram como em apenas três anos – entre 1990 e 1993 – o PIB do país despencou quase 40%. 

A vida cotidiana virou um tormento, com apagões diários que em alguns bairros de Havana duravam até 16 horas, e o país praticamente ficou sem transporte. Um tempo de sacrifício e resistência árdua, marcado para sempre na memória de gerações.

O cenário, hoje, é certamente diferente. Ao longo dos últimos seis anos foram implantadas reformas que estão significando um forte estímulo à produção, enquanto a economia cresce a taxas sólidas. Mas ainda assim há problemas sérios. 

A ilha continua dependendo da importação de alimentos, e a demanda, que afeta a tudo que é tipo de produtos e serviços, é muito superior à oferta nacional. Há um evidente hiato nessa etapa de transição, e todos em Cuba – tanto no governo como nas ruas – têm plena consciência de que esse processo será lento. Tentar apressá-lo seria pôr tudo em risco.

Pois bem: nesse quadro, uma eventual interrupção da cooperação venezuelana teria consequências funestas em Cuba. Não seria, é verdade, como o colapso da primeira metade dos anos 90. Mas ainda assim, o peso da falta seria tremendo, e se faria sentir de maneira contundente.

Os cubanos sabem disso. Os venezuelanos sabem disso. Os opositores dos dois governos não apenas sabem, como já traçam projeções do que acontecerá caso a cooperação seja suspensa, e não parecem exatamente preocupados com as consequências. Que, aliás, seriam sentidas fortemente nos dois países. 

Na Venezuela, porque, entre outras coisas, a saúde pública entraria em pane, e essa é uma das conquistas mais valorizadas pelos milhões de venezuelanos beneficiados pelo governo. Em Cuba, pelo corte abrupto do petróleo e de todo o resto.

Nicolás Maduro, indicado por Chávez para sucedê-lo, conta com a confiança de Fidel e Raúl Castro. Aliás, esse foi um dos pontos que pesaram a seu favor no momento da escolha para a difícil, muito difícil tarefa de suceder o condutor do processo bolivariano na Venezuela. 

Na eventualidade de uma nova eleição, caso Hugo Chávez não possa assumir seu quarto mandato consecutivo, Maduro é o candidato favorito. Ele certamente manterá os acordos entre seu país e Cuba. Será, porém, um desafio a mais: a oposição terá mais força, e seu principal dirigente, Henrique Capriles, o mesmo que Chávez derrotou com folga em outubro passado, já deixou mais do que claro que se opõe terminantemente à ideia de continuar beneficiando a ilha. 

Não há dúvida que, aconteça o que acontecer com Chávez, e isso vale inclusive para a possibilidade de um afastamento definitivo, as linhas básicas e centrais da revolução bolivariana serão preservadas. Mesmo sem ele, o chavismo continuará determinando o processo político venezuelano por muitos anos. Mas alguns de seus aspectos – e a forte ajuda que o país presta principalmente a Cuba, mas também a outros governos da região – com certeza passarão a ser alvo preferencial da oposição. Impedidos de acabar os programas sociais que beneficiam milhões de venezuelanos (a reação popular seria de dimensões impensáveis), os que se opõem a Chávez e seu governo irão buscar brechas para despejar sua artilharia. 

A solidariedade internacional será um dos ímãs para seus ataques. Todos sabem disso – a começar, claro, pelos cubanos. E, com razão, estão preocupados.


Fonte: Carta Maior

sábado, 22 de dezembro de 2012

Um diretor de escola a favor da educação igualitária no filme “Machuca” - Download do Filme



Por José Paz Rodrigues

Um dos momentos mais extraordinários que houve no mundo para o desenvolvimento de uma educação renovadora, e para o renascer da cultura do povo, com um entusiasmo desbordante e uma grande paixão de jovens e docentes, que se envolveram em todas as atividades, foi o período de governo da Unidade Popular de Salvador Allende no Chile. Infelizmente durou pouco tempo e terminou com um golpe de estado fascista, patrocinado polo sanguinário Pinochet, com a ajuda dos EUA.

Salvador Allende que foi, para mim, um dos políticos mais dignos, presidiu ao governo chileno de 4 de novembro de 1970 a 11 de setembro de 1973. Para ele, que era médico, o prioritário era a educação e culturização do povo, para além da sua saúde. Durante os três anos do seu mandato, com uma grande efervescência dos cidadãos (muitos dos quais o chamavam com carinho e admiração, “Companheiro Presidente”), desenvolveu-se no Chile um programa educativo-cultural fantástico, que a mim muito me lembra o dos três ou quatro primeiros anos da nossa República dos anos trinta. Uma nova lei de reforma educativa modelar levou-se para a frente em todo o país, estendendo a escolaridade a todas as camadas sociais. E um “Trem da cultura popular”, parecido ao das nossas “Missões Pedagógicas”, percorreu o Chile de Norte a Sul. No comboio iam estudantes universitários todos entusiasmados, para alfabetizar, dinamizar com música, cantigas, cinema, pintura mural, livros e conta-contos, os cidadãos das vilas e aldeias mais afastadas.
Produto deste fantástico programa nascera no Chile o movimento da nova canção (Jara, Violeta Parra, Quilapayun, Inti-Illimani) e do novo cinema (Littin, Soto, Solás, Francia, Guzmán). O filme que hoje serve de nosso comentário, desenvolve a sua ação no último ano do governo democrático chileno, poucos meses antes do golpe. Um diretor dum colégio privado de elite na capital chilena, chamado Gerardo Whelan (no filme oculto sob o nome de Padre McEnroe), quer derrubar as desigualdades sociais, admitindo de forma gratuita no seu estabelecimento rapazes filhos de famílias de trabalhadores e com problemas económicos. Não só para desenvolver uma educação igualitária, como também para conseguir nos alunos valores de solidariedade, tolerância e respeito. Um pouco na linha da política do governo do momento. Não deve admirar, pois, que a sua escola fosse uma das primeiras ocupadas polos militares e o seu diretor expulso de imediato.
Ficha Técnica do Filme:
Título original: Machuca
Diretor: Andrés Wood (Chile-Espanha, 2004, 120 min., a cores).
Fotografia: Miguel J. Littin.
Intérpretes: Matias Quer, Ariel Mateluna, Manuela Martelli, Ernesto Malbrán e Federico Luppi, entre outros.
Filme premiado nos festivais de: Cannes, Vancouver, Portland e Philadelphia.
Argumento: Ambientado em 1973 em Santiago de Chile, durante o governo de Allende, o filme conta a história de dous amigos, um de família abastada burguesa, e outro (Pedro Machuca) de família pobre, o que, entre outros rapazes da sua classe social, é integrado num estabelecimento para estudantes de classe alta, o Saint Patrick, uma escola católica situada no setor Oriental da capital. O projeto de integração social é encabeçado polo diretor do estabelecimento, o padre McEnroe, que ao implementar estas medidas dividiu os pais, especialmente inimizando os de mais poder económico, contrários ao seu experimento. As suas medidas levaram à sua expulsão depois do golpe pinochetiano. O filme está baseado em factos reais e, em parte, é autobiográfico do diretor, que num estabelecimento similar, sendo estudante, viveu ao vivo algo similar naquela altura.

Análise do Filme:
O diretor do estabelecimento, padre McEnroe, (na realidade padre Gerardo Whelan), está a favor de uma educação igualitária. É um idealista e um sonhador, como costumam ser os bons mestres. No seu estabelecimento privado religioso tenta fazer realidade o sonho de integrar nas aulas elitistas rapazes de famílias de escassos recursos, procedentes de povoados marginais. Com o firme objetivo de que aprendam a respeitar-se mutuamente. O caminho não há de resultar fácil, pois vão ficar claros os preconceitos instalados nas mentes de pais, mães, alunos e docentes. A sociedade em geral boicotará a formosa e nobre ideia do diretor da escola. Dificuldades que vão ver-se incrementadas polo clima de aberto enfrentamento social que nesses momentos vive a sociedade chilena. Mas também há motivos para a esperança.
Uma formosa amizade surge entre os dous rapazes protagonistas. A cumplicidade entre ambos e o apoio mútuo, tanto como no conhecimento das suas diferenças e a possibilidade de medrar e enriquecer-se com elas, animam-nos a continuar a sonhar com que um outro mundo é possível. Paralelamente também surge o despertar dos adolescentes aos primeiros amores. E vemos a problemática dos rapazes que, por falta de meios, não podem escolarizar-se. Problema que é maior no caso das raparigas, como a protagonista do filme (Silvana), amiga do Gonçalo e do Pedro. É interessante o debate em assembleia dos pais dos rapazes e poder refletir que as escolas não são entes abstratos e neutrais, pois vivem em contextos sociais reais e os problemas quotidianos de todo o tipo repercutem no ensino diário dos estabelecimentos educativos e no labor de docentes e diretores. Algo que acontece em muitas das nossas escolas atuais, com alunos filhos de emigrantes, procedentes de variadas nacionalidades: senegaleses, equatorianos, brasileiros, venezuelanos, colombianos, marroquinos...
Temas para Refletir:
Debater porque é tão difícil aceitar as pessoas diferentes nas aulas dos estabelecimentos educativos. O mesmo, porque docentes e diretores, que querem desenvolver modelos didáticos inovadores, se encontram com tantas dificuldades para os levar à prática.
Analisar de que maneira os contextos sociais, com todos os seus problemas e dinâmicas sociais, influenciam na educação, no funcionamento das escolas, nas relações humanas entre alunos, docentes e pais, e no labor docente do dia-a-dia. Procurar, para além do caso do Chile, outros em outros países do planeta. Tanto históricos como atuais.
Analisar a atitude do diretor da escola que aparece no filme. E como posteriormente, depois de ser expulso, até a sua morte, trabalhou com cidadãos chilenos moradores em bairros marginais. Que é a melhor maneira de pôr em prática o evangelho de Jesus.
José Paz Rodrigues é Didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.


Link para download via torrent: Machuca

Link da Legenda: Machuca PT-BR

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A Guerra do Fogo - Link para download do filme legendado


A Guerra do Fogo (La Guerre du feu, 81, FRA/CAN)
Dir.: Jean-Jacques Annaud. Com: Everett McGill, Rae Dawn Chong, Ron Perlman, Nameer El Kadi.



por Rodrigo Cunha

Um dos temas que envolvem a discussão sobre a naturalidade da linguagem falada é o que versa sobre a sua origem. O filme A Guerra do Fogo, de Jean-Jacques Annaud, é uma interessante especulação a esse respeito, e ajuda a refletir sobre a questão.



O filme trata de dois grupos de hominídios pré-históricos: um que cultuava o fogo como algo sobrenatural e outro que dominava a tecnologia de fazer o fogo. Em termos de linguagem, o primeiro não está muito longe dos demais primatas, emitindo gritos e grunhidos quase na totalidade vocálicos. Esse tipo de comunicação assemelha-se ao que Rousseau considera, em seu Ensaio sobre a origem das línguas, como a primeira manifestação de linguagem no homem, que é a expressão de suas paixões, como a dor e o prazer. Já o segundo grupo parece ter uma comunicação mais complexa, com maior número de sons articulados. Há outros elementos culturais, como habitações e ritos, que denotam um maior grau de complexidade do segundo grupo com relação ao primeiro.


No que concerne apenas à questão da linguagem, uma possível interpretação seria a seguinte: em um determinado estágio de sua evolução biológica, o homem, já se locomovendo como bípede e tendo suas mãos livres, aprendeu a manipular instrumentos, a interferir no seu meio e a fazer, dentre outras coisas, o fogo. A necessidade de preservação desse conhecimento, dessa tecnologia, levou-o a sofisticar a sua capacidade de comunicação. A princípio, sua linguagem pode ter sido meramente gestual, mas ele descobriu que os sons também poderiam se prestar a essa função.

Assim como, ao tornar-se Homo Erectus viu-se com as mãos livres (antes usadas principalmente na locomoção) e descobriu que poderia usá-las para manipular as coisas; assim como, ao tornar-se Homo Sapiens descobriu que poderia usar essa capacidade de manipulação para interferir no seu meio; da mesma forma, descobriu que os órgãos utilizados para funções vitais como a respiração e a digestão, também serviam para emitir sons. A partir do momento em que aprendeu a diversificar os sons através das articulações, conseguiu aumentar as possibilidades de combinação entre eles. Uma vez estabelecidas determinadas convenções entre os seus semelhantes, possibilitou-se a troca de informações (como a tecnologia de fazer o fogo) de um indivíduo para o outro.



A sofisticação da linguagem serviu para facilitar a comunicação de uma informação complexa, talvez não expressável meramente pelo gesto. Portanto, como diria o pai da Linguística Moderna, Ferdinand de Saussure, "não é a linguagem que é natural ao homem, mas a faculdade de construir uma língua, vale dizer: um sistema de signos distintos correspondentes a idéias distintas".


As divagações acima são apenas leituras possíveis do interessante filme de Annaud. E os indícios linguísticos (a distinção entre a linguagem de uma tribo e de outra) foram pensados pelo foneticista Anthony Burgess, que assina o roteiro. Burgess ficou conhecido pelo livro Laranja Mecância, que foi adaptado para o cinema por Stanley Kubrick.

A Guerra do Fogo, com roteiro de Burgess e direção de Annaud, pode ser monótono e cansativo para quem não tem curiosidade pelo tema. Mas aqueles que se interessam não só pela origem da linguagem, mas pelas raízes da espécie humana e pelo florescer da razão e das tecnologias, irá apreciar o filme.

Link via torrent: A Guerra do Fogo

Link da legenda: A Guerra do Fogo PT-BR