segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Entrevista de Fidel Castro ao Roda Viva em 1990


Para comemorar os 86 anos do Comandante Fidel Castro, publico a sua entrevista dada ao Programa Roda Viva da TV Cultura em 1990.

Jorge Escosteguy: Boa noite. Estamos começando mais um Roda Viva pela TV Cultura de São Paulo. Hoje é um Roda Viva especial, gravado fora dos estúdios. Portanto, os telespectadores não poderão fazer perguntas por telefone. É um Roda Viva especial, porque trazemos um convidado especial e, de certa forma, difícil de ser entrevistado até pelas preocupações com a segurança da sua equipe. Nós vamos entrevistar hoje, o presidente de Cuba, Fidel Castro.

Para entrevistar Fidel Castro esta noite no Roda Viva nós convidamos os seguintes jornalistas: Márcio Chaer, doJornal do Brasil; Clóvis Rossi, da Folha de S. Paulo; José Antônio Severo, da Gazeta Mercantil; e Alceu Náder, doJornal da Tarde. Esta é a segunda visita que Fidel Castro faz ao país. Há trinta anos ele governa Cuba e tem se tornado, ao longo dos anos, uma espécie de inspiração ou mito para os movimentos de esquerda na América Latina, junto com Ernesto Che Guevara. Nesses últimos meses, de Perestroika no resto do mundo, de certa forma Fidel Castro tem sido colocado no meio de uma polêmica: sobre que mudanças poderão ocorrer em Cuba diante dos reflexos da Perestroika, principalmente no leste Europeu.

Boa noite, presidente. Eu gostaria primeiro de lhe fazer uma pergunta específica sobre a questão de segurança. O senhor chegou ao Brasil cercado de certa forma por um aparato de segurança muito grande. O senhor tem medo de algum atentado? Medo de que alguém atente contra a sua vida?

Fidel Castro: Eu não tenho temor de um atentado. Mas pode ser que os responsáveis por minha segurança tenham medo. Falou-se também de algumas armas que teriam vindo de lá e que foram devolvidas. O que eu sei... Eu não me ocupo disso. Sou mesmo quem protesta contra isso... A política que se adotou é que cada uma das delegações poderia tomar suas medidas de segurança, além das medidas de segurança que tomassem as autoridades do governo. Comigo há alguns antecedentes. Durante muito tempo a CIA e o governo dos Estados Unidos tentaram me eliminar fisicamente. Isso foi reconhecido no próprio Senado dos Estados Unidos. E eles não abandonaram esta prática. Assim, cada vez que eu me movimento, os setores contra-revolucionários, os inimigos do país, geralmente fazem planos. Sempre têm a esperança de caçar Castro. Em um lugar ou em outro. E isso, naturalmente, desperta inquietações nos companheiros em nosso país quanto à segurança; e tratam de tomar o máximo possível de medidas de segurança. Agora eu, como disse recentemente, confio nas autoridades do país. Quem pode dar verdadeiras medidas de segurança são as autoridades do país. Foi assim na minha viagem ao Equador, ao México, à Venezuela e ao Brasil. Se dependesse de mim, eu não necessitaria de qualquer tipo de segurança. Mas os companheiros acham que devem ajudar no equipamento, numa série de coisas. Mas minha segurança aqui no Brasil quem garante são as autoridades do Brasil. Pude observar muito profissionalismo, muita organização, eficiência no pessoal da segurança.

Jorge Escosteguy: O senhor tem acompanhado, de certa forma, esses movimentos no Leste Europeu, principalmente na União Soviética, a chamada Perestroika e os movimentos de liberalização em outros países europeus. Que reflexos o senhor acha que esses movimentos terão em Cuba? Há alguma perspectiva de mudanças a nível institucional no seu país?

Fidel Castro:
 Bom, tudo isso é um fenômeno que ganhou destaque recentemente. Eu não tenho certeza de que os que elaboraram as idéias na União Soviética, com objetivo correto de aperfeiçoar o socialismo, o que não pode ser questionado, sabiam que repercussões isso poderia ter na Europa Oriental. Porque realmente o processo que está ocorrendo na Europa Oriental é um processo de desmantelamento do socialismo.

José Antônio Severo:
 O senhor acredita que os países do Leste Europeu entrarão no capitalismo, simplesmente, ou eles manterão muitas das chamadas conquistas do socialismo?

Fidel Castro: Acho que havia erros que deveriam ser corrigidos. Havia coisas que deveriam ser superadas. Mas o fenômeno que realmente está ocorrendo é o desmantelamento do socialismo. Em alguns com maior força que em outros. Em países como a Polônia já se está fazendo um desenvolvimento capitalista. E inclusive orientado por especialistas norte-americanos. Privatizar a indústria, estabelecer uma economia de mercado. E o que é o capitalismo se não a propriedade privada e a economia de mercado? Ou agora se chama de outra maneira?

Clóvis Rossi:
 Os erros que havia nesses países: há também em Cuba esse tipo de erro e quais são?

Fidel Castro: 
Eu creio que em Cuba havia poucos erros como os que existiam nesses países. E vou explicar por que. Nós nunca cometemos muitos dos erros que se cometeram lá na Europa Oriental. Posso dar um exemplo. E sempre diferenciando a União Soviética dos países socialista da Europa. Porque são situações diferentes. Dois papéis diferentes jogados na história. Na URSS, houve uma revolução autêntica. Não foi uma revolução importada de algum lugar. Como na China houve uma revolução autêntica. Como em Cuba houve uma revolução autêntica. E as revoluções autênticas que nascem do povo são diferentes daquelas revoluções que ocorrem por razões conjunturais. E não há dúvidas de que as revoluções socialistas nos países do Leste ocorreram por razões conjunturais, em função do final da II Guerra Mundial. Não esqueçam que mesmo no caso da República Democrática Alemã [Alemanha Oriental], o socialismo se constrói a partir das ruínas do fascismo na parte menos desenvolvida da antiga Alemanha. Mas, na União Soviética, ocorreram problemas como o stalinismo. E esse fenômeno do stalinismo nunca se conheceu em nosso país, nem nada parecido. De abuso de autoridade, de crimes que evidentemente se cometeram na URSS. Fizeram grandes coisas por um lado. Mas, de outro, ocorreram muitos abusos de autoridade, grandes erros nesse terreno que foram reconhecidos. Nós não temos que retificar um problema que não conhecemos, que não sofremos. Quem conhece a verdadeira história de Cuba - não a que escrevem os ianques - sabe como são as coisas em Cuba. Em nosso país se criou um sentimento muito forte contra todo o abuso de autoridade, pois nosso país conheceu isso, conheceu abusos, torturas, crimes. E nós resolvemos defender a Revolução sem abuso do poder, sem cometer violências contra a pessoa humana. Temos leis e tribunais e se aplicam as punições e algumas são duras. Mas nunca saímos da lei. Em nosso país não há um só caso de desaparecido. Em nosso país não há um só caso de assassinato político. Mas posso dizer mais - e digam o que digam mil vezes na propaganda imperialista - em nosso país nunca houve homem torturado. Porque os primeiros a não admitir isso seríamos nós, os revolucionários, os que nos educamos no ódio contra isso. Nosso povo não é um povo capaz de ser cúmplice de fatos dessa natureza. Temos uma folha na história de nosso país que creio que um dia a história vai contar. Creio que não há um país no mundo que seja mais cuidadoso e mais escrupuloso no exercício do poder. Na URSS, se criou o fenômeno do governo unipessoal e se cometeram abusos historicamente comprovados. E fenômeno como o stalinismo, nós não conhecemos em Cuba.

Jorge Escosteguy: 
O senhor mencionou o poder unipessoal. No caso de Cuba, a sua presença durante três décadas não seria um exemplo de unipersonalismo?

Fidel Castro: 
Poderia parecer, porque simplesmente me coube jogar um papel. Então, tudo se atribui a Castro. Dizem: a revolução de Castro, o governo de Castro. Castro decidiu isso. Eu tinha um poder unipessoal como o comandante-em-chefe das forças revolucionárias quando estávamos na luta. E ainda assim tínhamos uma direção coletiva. Desde que se organizou nosso movimento, desde que éramos dez ou doze, já tínhamos uma direção coletiva de vários membros da direção do movimento. E três de nós éramos os executivos. Os que tinham o segredo das coisas fundamentais. Depois vem a guerra, eu era chefe da expedição. Tinha a responsabilidade de tomar as decisões, como em qualquer ação desta natureza. Depois, na "Sierra Maestra", era chefe das unidades de combate. Mas ainda assim nosso movimento tinha uma direção. E as questões políticas fundamentais eram analisadas e discutidas. E mais de uma vez nos enganamos. E mais de uma vez eu tinha um critério e a direção tinha outro. E cumpríamos os critérios da direção. Quando triunfa a Revolução em Cuba, eu sou comandante-em-chefe de um exército vitorioso que foi dirigido na guerra, as responsabilidade das operações na guerra eram minhas. Mesmo assim o primeiro que fizemos tão logo termina a guerra, foi construir uma direção coletiva. E depois, quando unimos todas as organizações revolucionárias, após um longo processo, foi constituída uma direção da Revolução. E desde então tem sido a prática em nosso país, quando se fundou o partido, o Comitê Central, direção coletiva do partido, a direção coletiva do Estado. Não temos um governo presidencialista. Nós temos uma direção coletiva. Eu sou o presidente do Conselho de Estado. Não vou negar que tenho autoridade, que tenho influência. Bom, porque todos que fundaram a Revolução têm autoridade e têm influência. Se não cometeram grandes erros, se conseguem contar com a confiança dos outros. Nesse sentido tenho influência grande. Mas as decisões estratégicas fundamentais em nosso país são tomadas coletivamente. O presidente dos Estados Unidos tem muito mais atribuições do que eu. Incomparavelmente mais atribuições.  Anda inclusive com uma maletinha onde estão as chaves atômicas e pode começar uma guerra nuclear sem consultar ninguém. O presidente dos Estados Unidos tem poderes que nem Nero tinha. Nero é acusado de ter incendiado Roma. Nero podia incendiar o mundo. E temos nos Estados Unidos um presidente com muito mais poder que um imperador romano. Ele pode prestar contas depois. Vinte ou trinta dias depois. Imaginem, na era nuclear o presidente dando contas vinte ou trinta dias depois de seus atos. Invade tal país e depois presta contas. Faz a guerra... eu não tenho nenhuma dessas atribuições, nem parecidas. E digo a vocês que os presidentes da América Latina têm mais direitos presidenciais do que eu. Eu posso ter influência. Não nego que a tenho. Mas não tenho essas atribuições, não gosto de usar e muito menos de abusar das atribuições que me conferem a lei e a Constituição. E não só a lei e a Constituição, mas nossos próprios princípios, nossas normas históricas.

Alceu Náder: Levando em conta que o ser humano é mortal, o que será de Cuba depois de Fidel?

Fidel Castro: Bom, creio que se depois de Fidel, Cuba não fosse nada, que se depois de Fidel a revolução não pudesse ir adiante, o trabalho de nosso povo durante trinta anos teria sido inútil. Primeiro, isso me tiraria o sono, se não confiasse no povo, se não confiasse nas gerações de milhares e dezenas de milhares e de centenas de milhões de jovens que se educaram, que receberam um nível educacional, cultural, científico, político... Porque o importante é que os homens compartilhem idéias, um pensamento, um estilo de governo, uma tradição. Eu tenho uma confiança plena e absoluta, porque o que fizemos foi promover muitos novos quadros e também distribuir funções. Eu não sou um indivíduo que gosta de centralizar tudo. Em toda a minha vida distribui o máximo possível as funções da direção e administração do Estado e da direção política do país. E há um nível de atribuições muito grande. Eu coordeno, ajudo, estimulo, inspiro, falo... Mas em nosso país há muita gente que aprendeu qual é o seu ofício e suas funções. Estamos organizados e preparados para isso. Assim, se eu por enfermidade não puder exercer as funções, não seria nenhum problema. Se eu morro, não seria nenhum problema. Porque não creio no providencialismo. Sei que os homens têm um papel na história. Mas creio que o papel na história quem tem são os povos. E um homem não é nada sem o povo. Não há nada sem a colaboração de centenas de milhares, de milhões de pessoas. Nós temos instituições. Teria sido talvez pior no meio da guerra, ou nos primeiros tempos, ou em certos momentos muitos difíceis. Mas, na medida em que passa o tempo, é extraordinária a quantidade de valores que sobem e que nós promovemos. E nossa esperança inclusive é nos que venham depois de nós... Como aconteceu em muitos outros países. Tivemos por exemplo Juarez (Benito Juarez; presidente do México entre 1864-1872. Seu governo é caracterizada pela promulgação das Leis de Reforma), grandes dirigentes na Revolução Mexicana. Depois, a Revolução Mexicana se institucionalizou e manteve a continuidade de governo durante mais de cinqüenta anos. Mudaram os homens, mas não mudou o partido. Por isso as instituições são mais importantes. Há um ditado que diz: o rei morreu, viva o rei. É possível que os homens... e como regra os homens são de si tudo o que são capazes quando assumem uma responsabilidade. Não há nada melhor do que dar responsabilidade aos homens. Então os homens demonstram do que são capazes. Eu nunca acreditei que possa haver um homem superior aos demais. Ao contrário, eu creio na capacidade mais ou menos igual de todos os homens... E é a oportunidade que faz os homens exercerem seu papel. Talvez venha um dia aqui a São Paulo, espero que assim seja, que venham homens que tenham bom... não tanta experiência, mas que sejam mais capazes que eu para representar o meu país e para fazer o trabalho que eu estou fazendo agora.

Clóvis Rossi: O senhor já criticou em vários discursos o que chama de desmantelamento do socialismo em países do leste Europeu. Mas não é apenas no Leste Europeu, os partidos comunistas do Ocidente e até um herói estrangeiro da revolução cubana, como o presidente da Etiópia, o presidente Menristo, da Etiópia, acaba de fazer uma autocrítica condenando o sistema de centralização econômica.

Fidel Castro: A posição que eu tenho em relação aos meus erros do socialismo é de que esses erros têm que ser superados. Eu não me oponho a nada que seja para aperfeiçoar o socialismo. Nem na URSS, nem em nenhuma parte. 

Clóvis Rossi: Quais são... 

Fidel Castro: Agora...[fazendo silêncio para Clóvis Rossi]...Nós temos corrigido erros. E antes que se falasse em Perestroika, no último congresso do nosso partido, que foi em princípio de 1986, há mais de quatro anos, nós colocamos a questão da retificação de erros e tendências negativas. Venho fazendo um forte trabalho nessa direção. Isso se referia principalmente às questões relacionadas com a construção do socialismo. Porque mesmo nossa Revolução tendo sido muito criativa e muito autóctone e cometeu erros por sua própria conta... Cometeu nos primeiros anos da Revolução no que se refere à organização das empresas, à utilização dos recursos. Nós num certo momento quase tínhamos desprezo pela contabilidade. Cometemos erros desse tipo. Eu diria que tentamos acelerar o processo. Quisemos saltar etapas históricas. Estávamos quase querendo construir uma sociedade comunista, e não uma sociedade socialista. Isso se explica, porque ocorreu a revolucionários de qualquer época. Houve conseqüências positivas, mas também negativas. E quando nós fomos retificar aqueles erros, cometemos o erro de copiar muitas coisas do socialismo que aparentemente já estavam provadas pela vida, pela história, pelas experiências na URSS e em outros países socialista. E copiamos. Para entender bem isso, é preciso remontar à época de Che (Guevara), quando ele foi nomeado ministro da Indústria e viu-se na necessidade de organizar a produção socialista... Aquelas indústrias. Como organizá-las. Ia ser com conceitos de rentabilidade, os salários, os prêmios, os estímulos materiais, os estímulos morais... Então eu posso dizer e assegurar categoricamente que minha admiração pelo Che cresceu na medida em que vejo e compreendo que foi um grande visionário, um grande profeta. Porque nos primeiros anos da Revolução, e quando se viu frente à tarefa, começou a questionar o método de construção do socialismo que estava estabelecido na URSS e nos países socialistas. Ele dizia que não se podiam utilizar as categorias do capitalismo na construção do socialismo. Estava contra uma série desses conceitos. Ele não viveu o tempo suficiente porque sua impaciência de lutador levou-o a entrar em ação de novo e a morrer em combate. Eu digo que foi uma perda muito grande. Na época nós víamos tudo isso como uma coisa mais ou menos acadêmica. Entre o método orçamentário que o Che propunha e o método chamado de autofinanciamento que prevalecia, que se aplicava nos países socialistas. Quando nós em 1975 copiamos muito isso, tomamos a decisão no momento em que corrigíamos os erros de idealismo e utilizamos esse método. Era o único provado. Começaram a surgir problemas. No começo não nos demos conta, só com o correr dos anos, da conseqüência altamente negativa para nosso país da aplicação desses métodos. Por isso, em 75 resolvemos dar uma virada. Não uma virada no sentido de desbaratar e desorganizar tudo o que havia, e sim retificando progressivamente e sem trauma e sem desorganizar o país... retificando aqueles erros. E às vezes fomos fazendo setor por setor. Ainda não terminou esse processo, mas estamos indo muito bem. E os resultados disso são realmente extraordinários. Mas veja, naqueles países, é claro que nem tudo o que se fez naqueles países foi ruim. Eu não poderia dizer... Estou em desacordo com uma crítica destrutiva da história da URSS.

José Antônio Severo: O Estado cubano é mais eficiente do que as máquinas, os aparatos do Estado do Leste Europeu? Ou seja, você acha que o cubano é mais eficiente que os seus correspondentes no Leste?

Fidel Castro: Antes de responder gostaria que me deixasse terminar a idéia anterior... de que eu sou contrário a uma política destrutiva da história e dos grandes méritos da União Soviética. Porque esse povo resistiu à intervenção. defendeu a primeira revolução, deu vinte milhões de vida na luta contra o fascismo. A contribuição da União Soviética foi muito grande. Deu condições de liberação aos países que estavam ainda colonizados. A União Soviética foi capaz de alcançar as armas nucleares num momento em que estava em condições de inferioridade. Capaz de participar da corrida espacial. Há grandes contribuições. É um país que produz mais de 600 milhões de toneladas de petróleo. É o maior produtor de petróleo do mundo, é o maior produtor de gás no mundo, quase um trilhão de metros cúbicos. Construiu linhas férreas, oleodutos, gasodutos, sistema energético. É uma coisa colossal. Eles construíram no meio do bloqueio, de situações difíceis. Vamos admitir os erros, mas temos que reconhecer também os grandes méritos desse país. Eu penso que na medida em que foram empregados os mecanismos do capitalismo, começaram os problemas. Foram capazes de conquistar o espaço, mas não foram capazes de faze um bom par de sapatos. 
[risos] 

Fidel Castro:Foram capazes de fazer um foguete que chegasse a Vênus, mas não faziam boas roupas. Se atrasarm em alguns campos, como o da saúde e cometeram erros no campo da educação. Houve de tudo. Mas... Foram incapazes de resolver alguns problemas. Creio que tinham um planejamento rígido. Muito rígido. Eu não posso dizer que nosso Estado funciona, melhor, assim, de forma genérica. Mas posso dizer que funciona melhor em muitas coisas. No campo da saúde pública funciona melhor que qualquer Estado socialista. E está a caminho... Funciona melhor não só que os países socialistas, mas funciona melhor que grande número de países capitalistas. Nosso sistema de saúde é superior ao dos Estados Unidos, digamos... apesar dos recursos tecnológicos e científicos daquele país, nosso sistema de educação funciona melhor, já não digo que dos países socialistas. Funciona melhor que o dos Estados Unidos. E os índices de analfabetismo são maiores nos Estados Unidos que em Cuba. Os problemas de lacunas culturais e políticas e de instrução que tem um cidadão médio nos Estados Unidos... ele está muito abaixo do nível de instrução do nosso país. Já não nos comparamos a países do Terceiro Mundo em muitos desses índices. Porque temos uma mortalidade infantil de 11,1 pontos, estamos nos comparando a países mais desenvolvidos. Ficam alguns poucos com índice melhor e nós pensamos que com as medidas que estamos adotando vamos chegar e estar entre os primeiros do mundo. A instituição do médico da família, criada em nosso país, não tem em nenhum país socialista e em nenhum capitalista, do jeito que nós temos. Nas atividades esportivas, digamos... Nosso país tem os melhores per capita do mundo em medalhas ganhas em olimpíadas, competições internacionais, em tudo... Apesar de ser um país de apenas dez milhões de habitantes. Que não era nada, nem se ouvia falar do nosso país neste campo... E creio que estamos introduzindo na organização da produção, conceitos que são muito superiores aos dos países socialistas. E estes conceitos começaram a dar frutos. Estamos num processo de retificação e de aperfeiçoamento de nosso Estado e de nosso sistema. Nós não temos o sistema de eleição como na União Soviética, em que se têm o candidato único nos distritos e este é o candidato. Nós não fazemos nada disso. Nós estabelecemos um sistema de eleição em que não é o partido que postula, mas as massas de vizinhos. Reunidos numa circunscrição, podem postular até oito candidatos, no máximo, e um mínimo de dois. E temos um segundo turno e muitas vezes há o segundo turno. Aí se elegem os delegados que nomeiam os poderes do Estado. O municipal, o provincial, o nacional. E mais de 60 por cento da Assembléia Nacional são delegados eleitos desta forma, na base, isso não fizeram outros países. Acontece que isso não se sabe... Porque desgraçadamente se conhece muito pouco. Se conhece tudo o que os Estados Unidos queiram... seus colossais meios de comunicação de massa, sua televisão... vocês sabem porque são da televisão. Mas vocês não poderiam me dizer agora o que está acontecendo na Somália. Se há um acontecimento no Egito, estou certo que vocês têm imediatamente a câmera e o satélite para informar em São Paulo o que ocorre no Egito, ou dizem eles que ocorre no Egito. Têm uma quantidade de recursos fabulosa, enorme, mobilizaram tudo, e o que se conhece no mundo é o que eles dizem. Se um país pequeno não tem esses recursos, é muito difícil fazer conhecer seu ponto de vista, sua verdade. E eu ficava assombrado com a ignorância que há em geral no mundo sobre o que ocorre em nosso país. E alguns nos criticam, porque não divulgam mais. E eu digo: mas com o quê e como? Se... bom, temos uma oportunidade como esta, magnífica, eu posso falar com o povo brasileiro, neste caso com uma grande população, de um grande país, através desses meios. Porque estou aqui, estou conversando com vocês. Mas eu não posso me encontrar com vocês todos os dias. O que eu digo em Cuba as pessoas não sabem em São Paulo. A não ser um telegrama de uma das grandes agências transnacionais ou o que os Estados Unidos enviam por satélite.

Márcio Chaer: Por todas as informações que se tem aqui no Brasil, se houvesse uma eleição para presidente hoje em Cuba, o senhor ganharia. Por que o senhor não faz essa eleição? Eu gostaria de saber se o senhor teme que um processo eleitoral vá provocar um processo de desmantelamento como o senhor diz.

Fidel Castro: Se dissesse que sim, que ganho as eleições de forma absoluta, não haveria outro argumento além do que eu estou dizendo. Qual seria sua validade? Eu tenho que me ater a outros enfoques... e dizer o seguinte: Se a Revolução não tivesse o apoio absolutamente majoritário do povo, não conseguiria se manter por mais de 30 anos, frente ao país mais poderoso da Terra, que representa uma ideologia, que tem os meios de comunicação mais sofisticados que pode ter um país, que tem um poderio econômico enorme, que nos bloqueou por todos os lados, que nos ameaçou... E o povo resistiu. Resistiu a todas a campanhas de subversão, resistiu à invasão mercenária de Giron (Baia dos Porcos), resistiu à ameaça de guerra nuclear em 1962 e resistiu a anos de bloqueio e agressões. Este pequeno país tem colaborado com outros países com médicos, professores... mais de 400 mil pessoas de Cuba prestam ajuda internacionalista em dezenas de países do mundo. Só um povo com uma alta consciência, alta cultura, faz isso. Quando os nicaragüenses nos pediram mil professores, apareceram 30 mil voluntários. Foram dois mil porque era o necessário no começo da Revolução. E quando os contras mataram alguns professores, se ofereceram cem mil. Pergunto se há algum povo no mundo capaz de praticar a solidariedade nesta escala. E eu posso dizer, por exemplo... não tomem isso como uma falta de modéstia... Se hoje alguma parte do mundo precisar de voluntários, como professores, médicos, enfermeiras, técnicos, Cuba sozinha ofereceria seguramente o dobro ou o triplo que todo o resto da América Latina junta...
 [interrompido]

Fidel Castro:...Porque em nosso país não se têm apenas os votos. Porque aqui não se sabe que em Cuba há uma Constituição. Aqui não se sabe que em Cuba há uma eleição a cada dois anos e meio. Ignora-se. Porque em nosso país o povo não tem apenas os votos. Tem as armas. Nosso país é um povo todo organizado, milhões de pessoas, homens e mulheres constituem o sistema defensivo de nosso povo... Não só um voto. 

[  ]: O senhor considera que Cuba está em guerra... 

Fidel Castro: Para que usem este direito a cada dois anos ninguém mais se lembre dele. Em nosso país, o delegado eleito pelo povo e os representantes têm que estar prestando contas incessantemente de sua gestão, e podem ser cassados. Mas, além disso, o povo tem as armas. Os estudantes têm as armas, os operários têm as armas, os camponeses, todos os cidadãos têm instrução militar. Os homens e as mulheres. Os brancos e os negros, a juventude. Poderia ser oprimido um povo, poderia aceitar um governo por 24 horas, por uma semana, uma sociedade que tem, não só os votos, mas também as armas? Às vezes me perguntam o que estaria ocorrendo na Espanha, por exemplo, se ali, em outros lugares, mesmo na Europa que os reprime com cães, com bombas de gás lacrimogêneo. Em nosso país jamais se usou um gás lacrimogêneo, um cão, um policial com máscara e capacete. Isso não se conhece lá. Como todos os dias se pode ver isso no mundo capitalista desenvolvido tão democrático... Que garantias têm quando há milhares de operários em greve ou saem em uma manifestação e são reprimidos de maneira cruel. As revistas e os jornais estão cheios dessas notícias. Jamais a Revolução fez isso. Porque há um povo unido. Entendam que nós somos uma fortaleza sitiada. Um povo unido, cercado pelos Estados Unidos. Então esse povo se defende. E são as massas, o povo organizado, as mulheres, as crianças, os pioneiros, os estudantes de nível médio, de nível superior. Isso é uma realidade. Há uma pátria a defender, uma independência, uma grande obra social a defender. Por desgraça  os sandinistas não tiveram tempo de fazer essa obra, não deixaram, com a guerra suja que lhes custou dezenas de milhares de vida, com o bloqueio. Mas vocês devem considerar que se começamos a discutir aqui e trazemos alguns dados estatísticos da situação social e da vida dos países latino-americanos, esses dados não resistem a qualquer comparação. A mim quase daria pena expô-los, porque me dói a situação terrível de mendicância, crianças abandonadas, desnutrição, desemprego, os níveis de saúde, as perspectivas de vida, a mortalidade infantil. Na América Latina está em torno de 60, e em nosso país é 11,1. Não é nem a metade, é seis vezes menos praticamente. Se virmos os índices de analfabetismo, de educação, de escolarização, se vemos a atenção que recebem nossas crianças nas escolas especiais, se vemos as instituições aonde vão os filhos das mães trabalhadoras. Considera-se que a mulher incorporada ao trabalho ganhou mais dignidade. Cinqüenta e oito por cento da força técnica do país são mulheres. E houve mudanças colossais. Eu digo que nós já resolvemos em 30 anos o que a América Latina não resolveu em 200 anos. Essa é a realidade.

Jorge Escosteguy: Presidente, o senhor mencionou o seu país como uma fortaleza sitiada e falou há pouco da Nicarágua. Cuba não se sente de certa forma isolada, solitária, diante da derrota do sandinismo no Nicarágua e os acontecimentos do L este Europeu?

Fidel Castro: Bom, é uma fortaleza sitiada no sentido militar, pode-se dizer. Em função do risco que representa a vizinhança de um país tão poderoso como os Estados Unidos. Vocês não podem imaginar isso porque são um país grande, enorme, oito milhões e meio de quilômetro, estão muito longe dos Estados Unidos, para sorte de vocês. Porque o México está perto. Tem três mil quilômetros de fronteira, o que lhe custou essa vizinhança? Primeiro foi mais da metade de seu território, as terras mais ricas em minerais e petróleo, e o que têm que sofre por isso. Nós estamos a 90 milhas. Temos até uma base ianque que está lá pela força, porque tem vontade, porque não quer sair. Sem ter qualquer direito de estar lá. E nos agridem e nos ameaçam com os meios de guerra mais sofisticados. Quero dizer então que nós temos que defender a independência e a soberania do país frente a este poder militar. Isso não significa outro tipo de isolamento. Bom, nos bloqueiam economicamente e sua capacidade de bloqueio é muito grande...

José Antônio Severo: Essa base de Guantánamo será retirada dentro de poucos anos, né?

Fidel Castro: Mais tarde ou mais cedo terão que se retirar. Nós transformamos esta questão num ponto prioritário. Em qualquer mudança nas relações de Estados Unidos e Cuba, seja qual for a solução, têm que retirar a base de Guantánamo. Eles só têm o direito de uma base militar pela força no território de outro país. Bom, então... na economia, sofremos o bloqueio. Estávamos falando...
 
Jorge Escosteguy: Dessa mudança da Nicarágua e o Leste...

Fidel Castro: Estados Unidos não só impedem o comércio de outros países com Cuba, se podem tomar alguma medidade represália... a toma. Se Cuba exporta níquel a algum país europeu eles dizem: Se tem níquel cubano, não compro. O bloqueio tem muitos tentáculos em muitos lugares. Mas também temos relações econômicas com muitos países. Temos relações políticas com muitos países. E muitos países do Terceiro Mundo. Cuba foi o presidente do Movimento de Países Não Alinhados. E Cuba acaba de ser eleita para o Conselho de Segurança das Nações Unidas por 145 votos. É uma das maiores votações já registradas. Nós mesmos nos assombramos. Porque quando as votações são secretas, muita gente se vinga e vota a nosso favor. Quando são públicas, como em Genebra, sabem que podem vir represálias econômicas... Mas nas votações secretas na ONU ( Organização da Nações UNidas) sempre temos um grande número de votos. Isso não reflete isolamento. E isso ocorreu há uma semana. Temos um companheiro que durante o mês de fevereiro presidiu o Conselho de Segurança. Fez um excelente trabalho, e tem experiência neste campo. Na África, todos os governos de esquerda ou de direita têm uma relação extraordinária com Cuba. Não esqueçam que nós temos lutado contra o Apartheid, contra a África do Sul, que durante quinze anos ajudamos a defender a soberania de Angola. Lutamos, combatemos, tivemos vitórias decisivas, que tornaram possível a solução do problema. A independência da Namíbia e grandes avanços se estão conseguindo, um processo que parece irreversível para a solução dos problemas da África do Sul e fim do Apartheid. Então, as relações que temos com países africanos, do Terceiro Mundo, não alinhados... Com a América Latina, no ano de 1965 não ficou ninguém além do México. E hoje temos relações respeitosas e crescentes com os diferentes governos da América Latina, com a maioria. Independente da ideologia polí. 

Jorge Escosteguy: Com a derrota do sandinismo na Nicarágua e esses acontecimentos no Leste Europeu, o senhor não se sente um pouco isolado politicamente?

Fidel Castro: As relações com a URSS se mantêm perfeitamente bem, e a URSS realiza grandes esforços para manter todas as relações comerciais que tem com Cuba e relações de amizade. Faz todo o esforço. Problema haverá se surgirem dificuldades grandes na própria URSS. Se surgir um conflito interno, se produz um processo desintegrador na União Soviética, isso sim poderia afetar-nos. Mas já faz tempo, vários anos, a URSS leva seu programa de reforma e de mudanças. Outra coisa são os países do Leste. Eu creio que se exagera um pouco o tipo de colaboração. Porque certamente nós vendemos nossos produtos, mas na verdade exportamos fundamentalmente alimentos, açúcar. O que nós exportamos em açúcar a esses países vale hoje exatamente 400 milhões de dólares. Exportamos cítricos, níquel, matérias-primas estratégicas. E vão crescendo neste sentido. Enquanto isso recebemos alimentos, entre 40 e 50 milhões. Para nós os alimentos são mais importantes. Se não vem a cevada checa, compramos em outro lugar. Se não vem o frango que compramos da Bulgária, não era muita quantidade, compramos em outro lugar. Porque não nos davam essas coisas de presente. E compramos deles muitos equipamentos industriais de má qualidade. Que só nós éramos capazes de fazer com isso o que fazíamos, porque nos tornamos especialistas em trabalhar com carregadeiras búlgaras, ou o ônibus Icaro. Realmente os que vocês produzem aqui no Brasil são muito melhores. Então o que vale comprar três carregadeiras, se três meses depois todas estão paradas. E tem que ir buscando peça aqui, componente ali, para fazê-lo andar, modificando a peça. É melhor comprar dois, e que os dois andem.

Jorge Escosteguy: Há pouco tempo o presidente brasileiro disse que o carro brasileiro era uma carroça. O senhor acha que o carro com os equipamentos do Leste Europeu são equivalentes às nossas carroças?

Fidel Castro: E que sentido tem a palavra carroça?

Jorge Escosteguy: Má qualidade.

Fidel Castro: Nós não temos essa opinião dos equipamentos brasileiros...

Jorge Escosteguy: O que digo é: os países do Leste Europeu compram de vocês? Porque os equipamentos são de muita má qualidade...

Fidel Castro: Sim, como regra são de tecnologia atrasada. Você compra artigos industriais e são de tecnologia atrasada.

José Antonio Severo: Isso é um defeito da organização?

Fidel Castro: Posso dizer o que fazemos com a ciência para que não aconteçam esses problemas. Em matéria de informática estamos mais avançados que esses países. As vezes compramos um torno de um desses países e o automatizamos. Fazemos os elementos de automatização, o cérebro cubano. Já estamos fabricando até robôs. E no robô não é importante apenas a parte mecânica, mas a parte de programação. Então eles descuidaram disso. E acho que foram esses mecanismos, foi essa prática de utilizar os mecanismos capitalistas, em que as empresas começaram a entrar em choque com os interesses da sociedade. Queriam saber como ganhar mais. O conceito de renda, que prevaleceu sobre o conceito de qualidade. Políticas erradas, desatenção às coisas científicas. Nós testemunhamos tudo isso. Mas nós também compramos equipamentos de muitas partes do mundo. Tornos automáticos, tornos programados e indústria de processo químico. Nós fazemos uma central açucareira completa. Quase completa, nem todos os componentes. E as centrais que fazemos são excelentes. Então, a questão da qualidade tem que ser uma política. E os mecanismos de construção do socialismo não podem entrar em conflito, não podem conspirar contra a qualidade. E muitos dos métodos salariais conspiravam contra a qualidade. "Esta parede, eu te pago tanto por esta parede. Quando terminares, te pago." E o homem saía a por tijolos a toda a velocidade, sem se importar como, qual era a qualidade. Eu posso me referir a montes de exemplos que para mim influíram nesse tipo de problema e que é precisamente o que nós precisamos evitar. Nós fazemos equipamentos e aqui no Brasil temos alguns equipamentos. O sistema ultramicroanalítico é um equipamento que levamos anos aperfeiçoando e tem todas as condições para funcionar. É um equipamento muito importante na luta, na investigação sobre AIDS, sobre diferentes doenças, trabalha com reagente produzido por nós, de uma qualidade excelente. Lembro que o primeiro que veio para o Brasil dei de presente ao governador Quércia. E já há em vários lugares do Brasil esses equipamentos. Se os produtos não têm ótima qualidade, nós não os exportamos, pois isso desprestigia o país. Mas como tínhamos relação de comércio, vendíamos alguma coisa, alguma coisa tínhamos que comprar. Assim, que danos podem fazer a nós se eles do Leste passam para o outro campo, como disseram em Genebra,  para conseguir crédito no Banco Mundial, no Fundo Monetário, cláusulas de nação mais favorecida, ficaram junto dos EUA frente à Cuba, Hungria e Bulgária, Polônia e Tchecoslováquia. Eu não vou dizer que tudo é ruim, porque não seria justo. Mas em geral são de má qualidade e de tecnologia atrasada, essa é uma grande verdade.
[  ] No próximo bloco, Fidel Castro diz que um país socialista se quiser, tem todo o direito de se tornar capitalista. Veja logo após o intervalo.

Jorge Escosteguy: Voltamos com o Roda Viva que hoje entrevista o Presidente de Cuba, Fidel Castro.

Fidel Castro: Foi uma idéia que se teve. Assim nós também podemos tomar muitas idéias daqui e levar para lá. Nós nos comprometemos a comprar dos brasileiros tudo o que os brasileiros comprarem de nós. O Brasil não gasta uma só divisa com Cuba. Uma só divisa conversível. Todo o dinheiro que recebemos do Brasil, colocamos numa conta à parte e vamos investir no Brasil. Mas se um dia não está contrabalançado o comércio e nós vendemos produtos em outro lugar. Podemos também comprar no Brasil, ainda que o Brasil não tenha comprado de nós determinado produto. Eu dizia que também agora, com as dificuldades no Leste, quem sabe quantas coisas... é preciso estudá-las porque temos que conhecer toda a produção de vocês na área química. Se muitas coisas que compramos de vocês, algumas quantidades de aço, pneus - porque é deficitária nossa produção de pneus - produtos químicos variados, produtos sintéticos, enfim, poderia fazer uma lista muito grande.

Alceu Náder: Não parece uma contradição que empresários brasileiros invistam em Cuba, querendo obter lucros com isso? Como explicar essa contradição?

 Fidel Castro: Bem, vou explicar o correto. Qualquer país gostaria de ser dono de tudo. Os brasileiros, vocês também têm multinacionais aqui.  Vocês gostariam que estas empresas fossem de vocês. Mas não tinham capital para fazê-las. Não seria razoável se nós nos puséssemos a desenvolver uma central açucareira em Cuba, em sociedade mista. Não creio que seja razoável que façamos muita coisa para o consumo interno. Mas sim se o fizermos para exportar. Se o fazemos para o consumo interno é porque pode sair mais barato do que comprar fora. Produzi-lo em sociedade, com uma empresa de outro país. Começamos com os hotéis. Nós temos centenas de quilômetros de praias em lugares excelentes. Estamos unindo os recifes que têm magníficas praias com a terra, usando pedras. Há condições de construir 250 mil habitações. Seria um negócio de bilhões. Agora, se você não tem o capital, se não tem o mercado, se não tem tecnologia, porque o turismo também é tecnologia, acima de tudo. Não pode fazer nada. Mas se aparece mercado, capital e tecnologia aí me convém. Cuba pode dizer em 50 anos fazemos isso com nossos próprios recursos. Mas nós não necessitamos tanto dinheiro para daqui a 50 anos. Precisamos dentro de oito, de dez, doze. Então, é de mútua conveniência, é uma coisa pragmática. Esse lugar que não se exportaria, esse ar, esse mar, num mundo que está desesperado por causa da contaminação, se exploraria assim. Mas não é só no turismo. Há países que têm a tecnologia, o capital e mercado. Bom, vamos ser sócios dele. Agora teremos que dar facilidades, senão não investem. Recuperam o capital em pouco tempo, mas nós também o recuperamos em pouco tempo, porque o hotel não se faz só com o capital dele, mas com o nosso também. Coloco a moeda conversível para determinados materiais e elevador de um tipo determinado que deve ser muito seguro, ou quadros elétricos de tal capacidade, ou outros artigos. E nós construímos, colocamos a força de trabalho. Construímos o cimento, a areia, a pedra, a máquina da construção, o mármore, temos um excelente mármore, e somos donos de quase metade do hotel. Se você não dá essa oportunidade a essa campanha, não investe. Você não pode se aferrar a uma idéia pura que não quer que haja nenhum investimento estrangeiro. Mas agora eu estou buscando outra coisa, investimentos nossos no exterior. Se tem uma espécie de compensação e de garantia recíproca. Vocês têm lá, nós temos aqui. Mas às vezes, um exemplo, há obstáculos de todo o tipo para o desenvolvimento do comércio. Pode-se encontrar um obstáculo alfandegário. E tem uma tecnologia, mas não vai vencer esse obstáculo. Não resta alternativa a não ser fazer um investimento fora para vencer esse obstáculo alfandegário e poder exportar o produto. Assim, que a vida é muito rica em possibilidades. E isso sem abandonar uma ponta de nossos princípios. Veja é o Estado que, de uma ou outra forma, está fazendo isso e o está fazendo para o povo. Mas o que esperamos? Que haja socialismo em toda a América para fazer integrações? Ou que nós nos tornemos capitalistas? Creio que não faz falta nenhuma das duas coisas para que possamos abrir a integração. Essa é uma coisa das mais interessantes que constatei.

Alceu Náder: Em cima desse exemplo que o senhor acabou de dizer, o senhor não acha que nós estamos caminhando para a morte definitiva da ideologia e para uma nova era de pragmatismo entre os países?

Fidel Castro: Não penso que exista a morte da ideologia. Porque te digo que todas deixaram algo. O cristianismo foi uma ideologia e deixou muitas coisas que ainda vigoram como quando falou dos pobres e de toda uma série de coisas. Da Bíblia tirei muitas idéias que posso dizer que são idéias, que do meu ponto de vista político, têm vigência,digamos. A revolução francesa tem toda uma ideologia. E criou mil formas. Avançou. Recuou. Pelos erros de Napoleão os disparates e as loucuras que ocorreram à Napoleão que quis invadir o império dos czares e fazer uma Europa napoleônica, e no fim a Revolução Francesa retrocedeu e vieram outra vez os poderes absolutos. Mas sem dúvida as idéias das revoluções que avançaram e retrocederam, hoje são as idéias que prevalecem.  Há idéias que são eternas. A da dignidade do homem, da liberdade do homem. E elas não existiram sempre, foram surgindo. E cada uma delas irá deixando o melhor. Então nunca faltará a ideologia. Nunca sobrará ... para nós, a ideologia. A solução dos problemas de que falamos, a divisão eqüitativa da riqueza, para nós é um sonho que o homem tenha, trabalhe segundo sua capacidade e receba segundo sua necessidade. Isso é o comunismo, não é o socialismo. Estamos na etapa socialista - que o homem trabalhe segundo sua capacidade e receba segundo seu trabalho, porque temos a diferença salarial. Procuramos que, entre a menor e a mais alta, não exista uma grande distância. Mas lógico, nossa fórmula socialista implica que um médico eminente ganhe mais e outro menos. Mas também pode haver um operário muito especializado que ganhe mais que um médico. Quem sabe um dia se você quiser um coveiro, talvez tenha que pagar a ele mais que a um médico.

Jorge Escosteguy: Presidente, um pouco antes de gravarmos a entrevista, comentávamos o pacote econômico brasileiro e falávamos principalmente desse confisco bancário das contas correntes. O senhor fala que houve uma revolução na economia brasileira a partir do dia 15, o senhor fez uma revolução em Cuba, houve confisco de conta corrente em Cuba quando o senhor tomou o poder?

 Fidel Castro: Este é um tema que eu e você estávamos falando, comentando e fazendo análise e eu transmitia algumas experiências. Para mim, eu devo evitar fazer análises de medidas do governo, porque já estaria me metendo em tema interno. Podem dizer que é falta de cortesia de minha parte, que faça isso. Posso falar e pensar em termos gerais. Eu estou muito interessado em todas as medidas que vocês tomarem, porque conheço os problemas que tem a América Latina. O problema da inflação e tudo isso, a dívida e as enormes dificuldades que tem qualquer governo hoje na América Latina. E sempre estou muito curioso para ver que medidas elaboram, de que forma vão resolver seus problemas, porque já tem um tempo que os governos latino-americanos tentam encontrar a solução para os seus problemas. E sabemos todos que é uma coisa muito difícil. Por isso é melhor observar o que vai ocorrer e com muito interesse, sobretudo porque vamos enriquecer nossos conhecimentos, nossa experiência sobre esses temas. E a mim como político, como dirigente, me ajuda a aprofundar na magnitude dos problemas e nas possibilidades ou não que determinadas fórmulas os resolvam. Falando disso, vocês me perguntaram como nós fizemos na Revolução. Nós tomamos medidas, naquele momento não estávamos abordando um problema de inflação, mas sim o fato de que Batista [ Fulgêncio Batista, ditador militar de Cuba entre 1952-1959] e muita gente tinha levado muito dinheiro. Havia muito dinheiro na mão de toda aquela gente e estavam começando a usar para combater a Revolução. Fizemos uma troca de moeda, mas na troca de moeda dissemos: "Depositem. Todos que tenham dinheiro em sua casa, depositem". E a todos que tinham dinheiro devolvemos uma parte. Não tudo. Quem tinha mil dólares, devolvemos os mil. Até uma quantidade determinada devolvemos tudo. Daí para cima confiscamos o dinheiro. Prestem atenção, esse era o dinheiro que não estava nos bancos. O dinheiro que havia nos bancos não tocamos nele. Havia gente que tinha até meio milhão de pesos e o peso equivalente ao dólar. Havia gente que tinha dinheiro nos bancos e nós não tocamos, nunca tocamos no dinheiro. No dinheiro que estava depositado nos bancos, porque sempre demos importância prioritária que as pessoas tenham segurança. E elas guardam seu dinheiro. Esse foi o caso. Mas não estávamos buscando o objetivo de resolver a inflação. Estávamos buscando o objetivo de privar do dinheiro a todos aqueles que haviam roubado, haviam acumulado dinheiro e o tinham escondido, enterrado ou tinham no estrangeiro e iam usá-lo contra a Revolução. São dois objetivos diferentes. Realmente não sei como faríamos. Nós evitamos medidas, por razão política evitamos medidas. Claro que nós nos defendemos por outras vias, porque temos um número de produtos racionados, estabelecidos ou tabelados. Porque ninguém nos financia. Porque se nós emitíssemos e o preço fosse livre, não teríamos regulamentação, mas tivemos que fazer diante da situação do nosso país. Qualquer aumento de dinheiro em circulação afetaria gravemente os setores de renda mais baixa. Por isso, esse mínimo que se necessita nós garantimos a preço econômico e até mesmo subsidiado, muitos deles. E também temos o mercado paralelo. Para os que ganham mais e querem comprar um produto muito mais caro. Esta é uma fonte de arrecadação importante. No nosso sistema nós podemos subsidiar certo produto e cobrar outro mais caro. Por exemplo: nós subsidiamos o leite, mas cobramos cara a cerveja, o rum, os cigarros, todas essas coisas que não são essenciais e ao mesmo tempo ajudam de certa forma os programas de saúde. Nós sabemos também, quando queremos arrecadar dinheiro... neste momento estamos emitindo. Não nos acontece o desastre do aumento dos preços das coisas com que as pessoas se alimentam todos os dias. Os preços se mantêm. Como temos um programa de saúde, nós decidimos emitir 400 milhões. Mas nós sabemos como vamos recolher estes 400 milhões. O que temos que importar em matéria-prima e a que produtos dedicar para que, com um gasto relativamente pequeno em divisas, possamos arrecadar grandes quantidades de dinheiro interno. São mecanismos que nós utilizamos para nos defender, porque os excedentes de dinheiro podem criar problemas. Se não afeta o preço dos alimentos que você está comprando, pode afetar o interesse no trabalho. Se há um casal, um pode dizer que com o trabalho dele pode resolver, pode desestimular o trabalho, e por isso nós evitamos muitos esses fenômenos que não poderíamos chamar de inflacionários, mas de excedentes de dinheiro em circulação, além da quantidade total de bens e serviços em oferta. Nestas condições, nós pudemos, e não sabem como nós nos alegramos todos os dias, nos livrar do flagelo da inflação. E assim financiamos o nosso desenvolvimento. Porque nós não temos Banco Mundial, nem Banco Interamericano, nem Fundo que nos fizesse empréstimo. Temos que tirar de nossos próprios recursos e de nossa própria imaginação .

José Antônio Severo: Presidente, o que se comenta no mundo hoje, é que o senhor estaria aprofundando pouco a pouco divergências com o presidente Gorbatchov [Mikhail Sergueievitch Gorbatchov (1933- ), presidente da URSS entre 1985-1991] da União Soviética, pela condução da política, evidentemente pela política interna dele no seu país. O senhor apoiou a intervenção na Thecoslováquia, por exemplo, em 68. O senhor acha que se deveria novamente voltar a esse tipo política para impedir casos como o da Lituânia que declara uma independência unilateral, separação da União Soviética? E isso está realmente conturbando as suas relações pessoais com o presidente soviético? 

Fidel Castro: Minhas relações com Gorbatchov sempre foram muito boas. Sempre houve um bom nível de comunicação. Falei mais de uma vez com ele na URSS. Ele visitou Cuba. Foi uma visita de muito êxito. E as relações entre os dois países seguem bem, ainda que eles façam as coisas de uma forma e nós fazemos de outra. Há uma certa tendência internacional de mostrar divergências ou inimizade, falta de amizade entre Gorbatchov e Cuba. Entre Gorbatchov e eu. É uma coisa curiosa que antes nos acusavam de ser satélites dos soviéticos e nós nunca fomos satélites dos soviéticos, porque fazíamos coisas que faziam os soviéticos. E nos criticavam. Agora nos criticam porque não fazemos as mesmas coisas que fazem os soviéticos. E eu pergunto: que dia teremos direito de fazer o que nos dê vontade? E atuar livre e soberanamente. Nós o que fazemos sempre é seguir princípios. Formávamos parte de um mundo socialista muito estreito nos períodos de maior isolamento. Não o de agora. Períodos em que quase as únicas relações que tínhamos era com os países socialistas, de cuja colaboração econômica naquele momento e também a colaboração militar dependia nossa segurança. Isso não quer dizer que nós estivéssemos sempre de acordo com todas as coisas que faziam os soviéticos. Eu pessoalmente tinha muitas críticas sobre épocas passadas. O pacto "Molotov Ribbentrop" sempre questionei e era ainda quase uma criança. Me pareceu que tirou muita simpatia da URSS. Eles sempre alegavam que o Ocidente queria jogar-lhes Hitler [Adolf Hitler - 1889-1945 - ditador da Alemanha entre 1933-1945] por cima, e eles tinham que ganhar tempo, pagar um custo político alto. Eu sempre fui crítico ao fato de que um país se deixe agarrar desprevenido. Porque com a experiência de nos defender dos Estados Unidos, estamos sempre em guarda, sempre estamos observando movimento que fazem as esquadras e as tropas dos Estados Unidos. É impossível que se possa acumular 3 milhões de homens e milhares de tanques sem que se dêem conta que vão ser invadidos. Sempre critiquei o fato de durante a guerra não terem retirado os aviões, a profundidade da retaguarda. Deixavam ali na primeira linha e foram liquidados quase que no primeiro momento com um ataque surpresa. Stalin adotou uma atitude de avestruz. Meteu a cabeça no buraco. Ele tem responsabilidade por ter deixado o país ser atacado, sem estar mobilizado. Se estivessem mobilizados, a história teria sido outra. Não teriam chegado perto de Moscou. Tenho muitas idéias e tenho conversado com eles sobre isso. Claro que não vou sair dizendo publicamente. Não é o meu papel. Não sou um professor de uma academia de história, nem de ciências políticas para estar dizendo o que me dê na veneta, na cátedra. Os governadores têm que atuar com um sentido de responsabilidade e não de maneira irresponsável, em guerra contra todo o mundo e brigando com todo o mundo. Eles fizeram, cometeram erros, não há dúvida que um dos desastres da política soviética foi a questão da Tchecoslováquia. Agora, nós não podemos nos colocar do lado dos Estados Unidos. Porque no momento em que todo o mundo... Nós atuamos com um sentido de solidariedade, e não foi a única vez, porque depois veio o "presente" do Afeganistão. E outra vez nos presentearam com a ausência da Olimpíada. Então, quando acontece a Tchecoslováquia, não podíamos nos colocar no lado contrário. Podíamos ter ficado em silêncio. Ou podíamos fazer uma análise crítica. Se é preciso salvar o campo socialista, estamos de acordo. Rompe-se o equilíbrio militar e pode por em perigo toda a comunidade, é um remédio amargo, mas bom. Podemos aceitar. Mas fiz uma análise crítica que podia estar relacionada com as coisas que me perguntaram aqui. Podem buscar. Nós imprimimos. Porque ninguém fez, nunca mais, críticas sobre nós, sobre a maneira de se conduzir... e a pergunta: por que isso acontece? Por que um país tem que ser salvo do exterior? Com os tanques do exterior. E nós meditávamos sobre isso. Porque estamos longe da URSS. Porque se um dia, por erros da revolução cubana, tivéssemos uma contra-revolução, os tanques que ali desembarcariam seriam os dos ianques. E tudo isso nos obrigou a trabalhar com esmero e a manter as relações mais estreitas entre a Revolução e o povo, entre o partido e o povo. Os outros estavam tranqüilos, sob o guarda-chuva nuclear da URSS. Parece que a política interna não preocupou. E todos esses mecanismos de que falo deixam as pessoas distantes. Passamos por essas experiências. As pessoas chegam a um ponto em que não importa mais nem pátria nem nada, importa apenas o dinheiro, o salário. Se enfraquecem a ideologia e os grandes objetivos históricos que se persegue. Eu fiz uma crítica fortíssima e por que, e por que, e por que? Se naquela ocasião ocorresse algo como a Afeganistão, nós não nos oporíamos a que se ajudasse o Afeganistão, e a URSS o ajudava. Nós íamos a outros países. O que não fizemos foi ir a algum país da fronteira e com um governo na maleta para ajudar esse país. Ajudamos os angolanos durante 15 anos. Mas sempre tivemos respeito absoluto pelo governo do país e pelos problemas internos do país. Eles eram os donos, os governantes do país. E nós éramos apenas os aliados que os ajudavam contra a África do Sul. Ajudamos a Etiópia contra a invasão estrangeira. E todos os povos viram isso como uma ajuda, porque fomos por nossa conta. Fomos porque nos pediram os governos desses países. Bom, é uma generosidade inédita, se pode dizer. Nós com toda a luta com os Estados Unidos, na luta contra o isolamento, sentíamos a necessidade de desenvolver nossas relações com o Terceiro Mundo. Mas nunca houve o menor problema, e aí estão os governos que nós ajudamos. Ninguém os trocou, ninguém mudou esses governos. E eu, não é porque me opunha ao Afeganistão, mas a forma como fizeram, entrando pela fronteira com as tropas e com um governo. Esta é uma forma de ajudar? Isso também nos criou uma situação difícil. Quando decidem por uma questão com os ianques ausentar-se das Olimpíadas de Los Angeles e nós também. Nós, cujo único contato com os Estados Unidos era através do esporte. Não é que não gostamos da idéia, mas por questão de solidariedade decidimos não ir. Quando as Olimpíadas eram na Coréia, aí perguntamos: E vão à Coréia? Por acaso lá há mais segurança que em Los Angeles? E vão esquecer da República Democrática da Coréia [do Norte]? Bom, não vamos ajudar. Nós fizemos a proposta que se dividissem os Jogos... Agora, todos eles foram de cabeça para lá, para a Coréia do Sul, nós não fomos às Olimpíadas, porque era uma questão de princípio. No momento nos sacrificávamos por solidariedade. Quando víamos que havia uma de solidariedade com outros países, nós não compartilhávamos isso. E não fomos à Olimpíada, porque é a linha que seguimos. Mas sem dúvida, foi um dos episódios tristes dessa história. Nós também sacrificamos simpatia e apoio, porque decidimos. Aos Estados Unidos, não vamos de maneira alguma, é o nosso adversário, é adversário do mundo, nós não somos nenhuma grande potência. O que nós podemos fazer é uma análise crítica, séria, dos fatores que podem ter determinado isso. Bom, é claro, estavam em crise sem dúvida esses socialismos. Porque um socialismo que tem que ser salvo desde o exterior... O que penso, bem no fundo, é que socialismo que não seja capaz de defender-se, não merece continuar sendo socialismo. Este é um ponto muito importante. Quando Gorbatchov foi à Cuba e falamos ante a Assembléia Nacional, eu coloquei publicamente meu critério de que se um país socialista - e foi antes de todos esses problemas - queria construir o capitalismo, se deveria respeitar esse direito. Que o país socialista construísse o capitalismo. Da mesma forma que entendíamos e reclamávamos e exigíamos que se um país capitalista queria construir o socialismo, é preciso respeitar e não ficar agredindo... Coloquei isso de maneira bem clara ante a Assembléia Nacional. E falei com Gorbatchov depois meus critérios sobre este assunto. Assim é possível que tenhamos colocado um pequeno grão de areia em favor do respeito desse processo, ainda que no fundo da minha alma eu não posso estar me sentindo feliz. Foi realmente muito respeitoso.

Jorge Escosteguy: E o Gorbatchov, o que disse para o senhor?

Fidel Castro: Em relação a quê?
 
Jorge Escosteguy: Que se quisesse construir o capitalismo um país socialista....

Fidel Castro: E eu creio que, minha impressão, a atitude dele foi mais de dizer: "Tomara que isso não aconteça". Mas de sua filosofia e de suas posições, de suas reações, sua maneira de pensar, eu tinha a confiança e tinha a segurança de que se ocorresse esse fenômeno, a União Soviética ia respeitá-lo. Porque eu falei primeiro que ele. Eu não tinha um discurso escrito. Ele tinha o discurso escrito. Depois, numa ceia, falamos de tudo isso. Tudo estava gravado, mas por desgraça, nesse último jantar, já mais descansados, nada se gravou, porque houve mudança de tradutor...

Jorge Escosteguy: Era um aparato da Bulgária, não é?

Fidel Castro: Não, creio que era japonês. [muitos risos]

Fidel Castro: Foram muitos temas, mas principalmente este e num momento ele disse: "é melhor não pensar". Não foi uma coisa que ele dissesse, nem eu podia perguntar-lhe isso, nem eu podia dizer, ouça, senhor... Perguntei-lhe sobre o que eu havia dito. E ele me disse que era muito interessante. Que tinha escutado com muito interesse e que era muito interessante. Mas nesse momento não deu nenhuma definição. Mas no contexto geral da conversação, ficou evidente para ele que algumas coisas não poderiam voltar a acontecer. O que eu penso e aceito, estou de pleno acordo, que se tenha respeitado o direito desses países, de fazer as mudanças que julgaram necessárias, independentemente de nos agradar ou não, as mudanças que faça.

Clóvis Rossi: O senhor tenta separar a União Soviética, dos países do Leste Europeu que estão saindo do regime socialista. Mas é evidente que a União Soviética também está adotando mecanismos capitalistas. Ou já vinha adotando mais, ainda agora. Isso se aplica também a países da África que haviam adotado o regime socialista. O senhor não se sente em algum momento como aquela pessoa que vê uma tropa marchando numa direção, o senhor está marchando numa outra direção e eles é que estão marchando errado?

Fidel Castro: Claro, as tropas que marcham numa mesma direção se dirigem ao inimigo, são as tropas que estão marchando corretamente. Não há duas situações iguais. A URSS está fazendo reformas, introduz elementos... Nós estamos fazendo. A URSS está fazendo, fala-se em arrecadar terras. Nós não falamos disso. Nós fizemos outro tipo de reforma agrária. Não obrigamos ninguém a se unir pela força. Ainda há em Cuba 70 mil camponeses independentes. Ninguém pode nos falar de camponeses independentes, uns privilegiados porque damos tudo e perdoamos as dívidas quando há seca ou calamidades. Este é o camponês de Cuba. E vemos as cooperativas que se fizeram de forma voluntária, as empresas estatais modernas, bem mecanizadas. Fizemos tudo diferente. Para nós, pegar nossas plantações de cana e dividi-las em pedaços é a ruína. Deixaríamos de ser produtor de açúcar, deixaríamos inclusive de ter a oportunidade de fazer acordo com vocês para elaborar políticas externa em relação ao desenvolvimento da produção açucareira, como dois grandes produtores. Nós não poderíamos fazer isso. Não teríamos nem a quem dar essas terras. Elas funcionam porque semeiam com avião e trabalham com máquinas, com colheitadeiras e são lugares distantes. E você não encontra em Cuba alguém para dar um pedaço. Que vá lá a um pedacinho isolado arrendar uma terra. Na realidade, na prática, não se poderia fazê-lo. A URSS não declarou que se propõe a construir uma economia capitalista, mas disse que mantém o socialismo, que mantém princípios essenciais. Os outros disseram que vão à economia de mercado e à privatização das propriedades estatais, isso de maneira aberta. A URSS não fez isso. A URSS atua com mais prudência nisso tudo. E com mais cuidado. Está ensaiando... Mas ainda assim, vamos supor que a URSS queira fazer algumas mudanças. Não é assunto nosso. Tudo depende como vão ser as relações futuras. Não é necessário ser um país socialista, quimicamente puro, para poder negociar com ele. China também fez uma série de reformas e nós mantemos excelentes relações econômicas com a China e crescem essas relações econômicas com ela. A URSS pode fazer as reformas econômicas que queira e se mantém as relações econômicas. Necessitam de nosso açúcar, nosso níquel, nosso cobalto, nossos cítricos. Até mesmo está crescendo em produtos biotecnológicos, indústria farmacêutica, equipamentos médicos. Este ano vamos mandar à URSS o equivalente a 300 milhões de rublos. Assim é a situação. Não é igual a situação de um e de outro. Eu acho que o melhor é que cada um ande onde ache melhor andar. E se respeitem os direitos dos outros, entre eles o nosso, de andar para onde cremos que devemos andar.

Jorge Escosteguy: Presidente, o nosso tempo está quase esgotado. Os seus assessores avisam que o senhor tem outro compromisso. Eu lhe faria uma última pergunta: uma das críticas que se têm feito muito ao regime cubano, é a ausência de liberdade de imprensa. No recente seminário do Memorial da América Latina, o representante da imprensa latina disse que está havendo uma certa mudança na imprensa cubana. A imprensa cubana caminha para ser mais moderna, mais aberta? Para dar mais liberdade de expressão?

Fidel Castro: Bom, nossa imprensa tem um status diferente da imprensa dos outros países latino-americanos, que são cadeias de instituições privadas. Em Cuba temos a imprensa distribuída. As organizações de massa têm seu jornal, a juventude tem o seu jornal, os camponeses têm o seu jornal, os operários têm seus órgãos de imprensa. Os militares têm seu órgão de imprensa, o Partido tem seu órgão de imprensa, as mulheres têm seu órgão de imprensa. Estão distribuídas por essas organizações de massa. Elas são os responsáveis pelo que se diz. O Partido é responsável pelo dele. E cada província tem seus órgãos de imprensa, o que nós estamos fazendo é incrementar a crítica, as análises. Estamos tratando de ampliar ao máximo a liberdade de expressão dentro das condições e do status que tem a nossa imprensa. Eu não devo negar que os que estão contra a Revolução, os que estão em sintonia com os EUA, que é uma batalha velha, de muito tempo, mas que ainda não terminou. Ao contrário, o futuro nos aguarda com períodos mais duros do que jamais tivemos. E a tarefa muito séria. Os contra-revolucionários não têm imprensa. Para eles não existe imprensa em Cuba. E a imprensa do Partido não vai fazer eco. Creio que nem em Cuba, nem em qualquer lugar da campanha dos contra-revolucionários. Nem a outra imprensa. Esta é a situação, pois eu não vou estar aqui inventando coisas. Serão sempre assim? Não tem que ser necessariamente sempre assim e nada será nunca sempre de uma forma. Mas essas são as situações que nós temos agora. E que agora não podemos mudar. É o que lhe posso responder com toda a franqueza.

Jorge Escosteguy: Muito bem. Nós agradecemos então, a entrevista com o presidente cubano, Fidel Castro. Se o senhor quiser fazer alguma última observação para se despedir dos nossos telespectadores...

Fidel Castro: Realmente tenho me sentido muito bem. Senti todo o calor da hospitalidade, da amizade e da familiaridade dos brasileiros, em especial aqui em São Paulo onde fui muito bem tratado. Ontem, no brinde final da ceia com o governador e Daniel [José Daniel Ortega Saavedra (1945-  ), presidente da Nicarágua entre 1985-1991. Regresoou ao cargo em 2006] disse: "Bom, logo vou embora". Eu quando terminei, me ocorreu dizer é que eu não vou embora, eu fico. Queria expressar com grande sinceridade que meu corpo, meu peso, minha bagagem, tudo vai embora, mas meu coração, ou uma grande parte de meu coração ficaria aqui em São Paulo.

Jorge Escosteguy: Muito obrigado então ao presidente de Cuba, Fidel Castro. Agradecemos também aos nossos jornalistas convidados. E o programa Roda Viva volta na próxima segunda-feira.


Vídeo da entrevista:


Link para o download da entrevista via torrent: Entrevista Fidel ao Roda Viva

domingo, 12 de agosto de 2012

E se a Bolívia pudesse ver o mar?

Além do Chile, Brasil e Paraguai apoderaram-se, nos séculos XIX e XX,
de grande parte do território boliviano

Nova surpresa na América do Sul: movimentos sociais e parte da população chilena consideram devolver territórios tirados do país vizinho
Por Marianela Jarroud | Tradução: Daniela Frabasile
A sociedade civil organizada do Chile começa a se levantar como uma voz a favor de uma saída para o mar da Bolívia, ao considerar que é um direito dos cidadãos desse país a recuperação de parte de seu território.
Essa sociedade “tem, em geral, um pensamento favorável à demanda marítima do Estado boliviano, no entendimento de que os povos devem ser solidários entre si e que isso constitui um obstáculo para o desenvolvimento desse país”, afirma a coordenadora de comunicação do Observatorio Ciudadano, Paulina Acevedo.
A Bolívia, um dos países latino-americanos atualmente sem litoral (como o Paraguai), perdeu seu acesso aos oceanos na Guerra do Pacífico, de 1879 a 1884, contra o Chile, que também envolveu o Peru. La Paz e Santiago firmaram um Tratado de Paz, Amizade e Comércio em 1904, que definiu as fronteiras atuais e fez da Bolívia um país sem litoral.
Os cidadãos bolivianos consideram que o acordo limitou o desenvolvimento de seu país, colocou obstáculos ao comércio e representou uma ameaça à segurança nacional. A falta de saída para o mar da Bolívia, e a reivindicação por uma, marcaram as relações bilaterais, que desde 1978 se mantém limitadas a nível consular.
Entre 2006 e 2010, La Paz e Santiago aproximaram-se e trabalharam uma agenda de treze pontos, na qual, pela primeira vez, se abordou o tema marítmo. Nesse período, o Chile era governado pela socialista Michelle Bachelet (2006-2010); e a Bolívia pelo índio de esquerda Evo Morales, que começou seu primeiro mandato em 2006 e assumiu o segundo em 2011.  Mas desde a chegada ao poder do direitista Sebastián Piñera, no Chile, o diálogo bilateral ficou congelado.
Em 23 de março deste ano, Morales tomou uma ação controversa, ao anunciar a decisão de levar aos tribunais internacionais a disputa pela saída para o mar com o Chile, diante da falta de propostas “concretas, úteis e factíveis” por parte de Santiago. Em junho último, deu novo passo adiante, ao se reunir em Haia com o presidente da Corte Internacional de Justiça, Peter Tomka, quando expôs a aspiração boliviana de resolver a disputa com ajuda do direito internacional. Também reuniu-se com representantes da Corte Penal Internacional.
Antes, durante a Assembleia Geral da Organização de Estados Americanos (OEA), realizada nos dias 4 e 5 desse mês, em Cochabamba (Bolívia), o chanceler anfitrião, David Choquehuanca, pediu ao governo de Piñera a abertura de renegociação do Tratado de 1904. O chanceler do Chile, Alfredo Moreno, afirmou que Santiado não irá ceder parte de seu território “assim como nenhum país o faria”, e que o Tratado de 1904 já havia estabelecido as fronteiras.
Porém, a postura atual do estado chileno “não representa a opinião de todos os cidadãos que o compõem”, diz Paulina Acevedo, cuja organização tem uma área de ação muito ampla e representa muitos setores sociais.
“Muitas organizações sociais de diferentes naturezas são favoráveis a encontrar uma solução de saída para o mar para a Bolívia, com ou sem soberania. Aabemos que a perda desta saída para não é foi decisão soberana, mas resultou de um conflito armado”, completou ela. Considera que o Estado chileno “insiste em não estabelecer uma relação duradoura com a sociedade civil organizada; por isso, não sabemos qual seria o resultado, em caso de um plebiscito sobre a reivindicação boliviana.
Esse tipo de consulta não é possível sem uma reforma constitucional, mas submeter o tema a um referendo não é uma proposta apenas das organizações sociais. Também houve pronunciamentos a favor por parte de figuras importantes de todo o campo político e mesmo militar. Em 2007, pour exemplo, fez-se um gesto simbólico, que expressou o ponto de vista dos movimentos sociais chilenos diante da reivindicação boliviana. O próprio Morales se surpreendeu, ao ser recebido por 20 mil pessoas que gritavam “mar para a Bolívia”, quando chegava à Cúpula dos Povos, paralela à Cúpula Iberoamericana que aconteceu em Santiago.
Em abril de 2011, uma pesquisa do jornal chileno El Mercurio, o mais influente do país e de tendência conservadora, avaliou que 64,2% das pessoas que aceitariam facilitar uma saída para o mar para a Bolívia, ainda que sem concessão de soberania. Em novembro do ano passado, uma pesquisa da empresa Adimark e da Universidade Católica revelou que 40% dos entrevistados são a favor de dar benefícios compensatórios ao país vizinho.
Juan Carlos Skewes, diretor do curso de antropologia da Universidade Alberta Hurtado, disse que no Chile existe uma civilidade “não majoritária, mas significativa”, que permite que alguns reconheçam os direitos que de outros povos. Por isso, teria surgido, da sociedade civil, “uma reflexão mais cívica, uma inspiração mais cosmopolita e mais abrangente com respeito à Bolívia ao que, entendo, são suas demandas legítimas”.
O estudioso lembrou que no norte do Chile existem uma importante convivência trinacional, com Bolívia e Peru. Baseia-se em uma raiz histórica e cultural que une o mundo andino e reconhece uma visão de mundo, práticas culturais, formas de vida e rituais que são patrimônio comum da região.
Skewes assegurou que o Chile lidou com o cenário internacional de uma forma muito individualista e separada de seu entorno regional, o que fez com que o país enfrente certas vulnerabilidades. “No conflito com a Bolívia, suspeita-se que o Chile já não tem e não terá a simpatia que historicamente teve de países como Brasil – muito menos, Peru ou Argentina”, afirma.
No julgamento do analista, desde a ditadura do falecido Augusto Pinochet (1973-1990), “o Chile não se reconhece como parte de uma região, como o fez no passado”. A economia neoliberal imposta então levou o país a “buscar vantagens comparativas com base em um conceito que acredito ser deslealdade política”. Para Skewes, o Chile “precisa de apoio regional”. “Ainda somos um enclave eurocêntrico e americanocêntrico, muito influenciados por um império”, criticou.
Esperando por uma solução à disputa entre os dois países, a Bolívia firmou acordos com Peru e Argentina, que lhe permitem acesso parcial tanto ao oceano Pacífico quanto ao Atlântico.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A corrupção ainda no primeiro plano



Por Marco Aurélio Nogueira


Nem seria preciso a recente descoberta de um vasto esquema de fraudes, ilícitos e cobrança de propinas no coração da Prefeitura de São Paulo para que a corrupção voltasse ao primeiro plano. Correndo ao lado da CPI do Cachoeira, da cassação do senador Demóstenes Torres e do vaivém que cerca o início do julgamento dos acusados pelo mensalão de 2005, as novas suspeitas turbinaram o problema. 

O caso paulistano é escabroso, para dizer o mínimo. Deixa patente que a corrupção tem mil tentáculos. Não é comandada por um centro articulador claramente localizado. Sua cabeça não está em Brasília, por exemplo. O fenômeno está disseminado, podendo se manifestar em qualquer canto do País, e talvez seja até mais grave quanto mais baixo se desce na estrutura político-administrativa do Estado, em que há menos fiscalização e controle. Também não é monopólio de nenhum grupo ou partido: todos estão sujeitos a ela e todos podem vir a praticá-la, ativa ou passivamente. Não reconhecer isso é limitação ideológica. 

Se quisermos enfrentar a sério o problema, vale a pena dilatar o conceito, para nele incluir, além dos crimes financeiros, uma série de procedimentos e atos que produzem menos frisson, mas são igualmente graves. Ou não haveria corrupção, por exemplo, na atitude de um parlamentar que se ausenta do plenário, mas permite que seus assessores registrem sua presença e votem em seu nome? Não seria corrupto um servidor público que exige do usuário dos serviços uma lista enorme de documentos e exigências só para postergar o atendimento ou justificar uma falha do sistema? Um policial que achaca e humilha um suspeito só pelo prazer de vê-lo acatar sua autoridade é tão corrupto quanto o cidadão que sonega o Imposto de Renda porque se convenceu de que o governo usa mal o dinheiro que arrecada. 

A corrupção é uma falha ética. Anda junto com o poder (político, econômico ou ideológico), como se fosse uma espécie de efeito colateral: onde há poder e poderosos há sempre a probabilidade de abuso, e no abuso está a raiz da corrupção. 

Nos tempos hipermodernos em que nos encontramos, a corrupção tornou-se um problema que desafia e surpreende. Redes, tecnologias de informação e comunicação, uso intensivo do espaço virtual, uma mentalidade que transforma tudo em mercadoria, oportunidade e negócio, um desejo socialmente incontido de consumir e ostentar, tudo isso atiça a corrupção. Faz com que ela tenda a ficar fora de controle, a ultrapassar fronteiras, a se sofisticar. O crime organizado, o narcotráfico, os atentados ambientais, a luta sôfrega por mercados, a facilidade com que se obtêm informações, são muitos os combustíveis. 

Mas o que a impulsiona também ajuda a freá-la: os mesmos fluxos virtuais funcionam como vitrines de atos escabrosos, roubando legitimidade deles e de certo modo controlando-os. A democratização da vida social faz o poder tornar-se mais visível e menos onipotente. Além do mais, o Estado brasileiro não é indefeso, está institucionalizado e bem aparelhado, dispõe de atualizados sistemas de controle internos e externos à administração pública, que criam incentivos à accountability, ao controle da burocracia, à isenção e à transparência. O poder público é vigiado pela sociedade civil, pela mídia, pela opinião pública, tem seus serviços avaliados cotidianamente pelos cidadãos. A corrupção é condenada pela opinião pública, algumas punições ocorrem e há muitos esforços governamentais para debelá-la. 

Mesmo assim, o problema persiste. O que sugere que ainda não conhecemos suficientemente os seus meandros e as suas determinações. 

Ainda não avaliamos, por exemplo, a real força que o dinheiro tem na modelagem do Estado, no exercício do poder político, no funcionamento do sistema representativo, no processo eleitoral e no modo de fazer política. Talvez por acreditarmos que um regime democrático esteja vacinado contra desvios e defeitos, menosprezamos a análise das relações entre os negócios e a democracia. Abandonamos a discussão sobre a qualidade da democracia, tema que agora frequenta alguns núcleos acadêmicos, mas ainda não estacionou no centro da agenda pública. 

Também não conhecemos a fundo o efeito que a falência dos partidos como sujeitos de programa, vontade e ação tem na maré montante da corrupção. Nossos partidos não são mais “escolas de quadros”, espaços privilegiados de seleção de lideranças ou organizadores de consensos sociais. Passaram a potencializar os defeitos do sistema partidário, sua permissividade exagerada, sua flexibilidade e sua falta de critério institucional. Colaboram, com ou sem intenção, para rebaixar a qualidade da política e aproximá-la do submundo. 

Esses dois fatores se combinam perversamente em nosso “presidencialismo de coalizão”, minando o que se tem de avanço institucional em termos de controles sobre o Estado. 

Por fim, precisamos acertar as contas com os fatores culturais da corrupção. Culpar a formação nacional ou a cultura política pelo que há de corrupção na sociedade é um mau caminho, em especial se não se levar em conta a dinâmica social e a construção do Estado. Não há uma maldição cultural oprimindo a sociedade, por mais que se tenha de reconhecer que nenhum povo é livre de moldes culturais e tradições, que aderem a seu corpo como uma segunda pele. Cultura política é uma construção social, que acompanha o desenvolvimento histórico. Não podemos ignorá-la, mas será um erro se a empregarmos para naturalizar a corrupção. 

Se juntarmos as pontas desse novelo, compreenderemos que a corrupção não é uma força da natureza, mas uma coisa dos homens. Em suma, algo que pode ser enfrentado e combatido, ainda que não possa ser peremptoriamente eliminado. 

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Marco Aurélio Nogueira é professor titular de Teoria Política e diretor do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais da Unesp. 


Fonte: Acessa.com

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A nova batalha de Hugo Chávez


Em luta contra câncer, presidente reúne e encanta multidões. Suas conquistas são inegáveis. Ele promete: “quando eu me for, serei vocês”.
Por Ignacio Ramonet | Tradução: Antonio Martins
É a décima quarta. Desde qua ganhou sua primeira eleição presidencial, em dezembro de 1998, Hugo Chávez já submeteu-se – direta ou indiretamente – treze vezes ao sufrágio dos eleitores da Venezuela. Quase sempre, ganhou [1], em condições de reconhecida legalidade democrática, avalizada por missões de observadores enviadas pelas instituições internacionais mais exigentes (ONU, União Europeia, Centro Carter e outras).
O pleito do próximo 7 de outubro constituirá, pois, o décmo quarto encontro do mandatário com os cidadãos venezuelanos [2]. Desta vez, joga-se sua reeleição à presidência. A campanha eleitoral começou em 1º de julho, com duas singularidades notáveis em relação às votações anteriores. Primeiro, Hugo Chávez está saindo de treze meses de tratamento contra um câncer, detectado em junho de 2011. Segundo, a principal oposição conservadora aposta, desta vez, na unidade. Reagrupou-se no seio de uma Mesa da Unidade Democrática (MUD), que escolheu como candidato, por meio de eleições primárias (em 12 de fevereiro), Hugo Capriles Radonski, um advogado de 40 anos, governador do Estado de Miranda.
Filho de uma das famílias mais ricas da Venezuela, Henrique Capriles foi um dos artífices do golpe de Estado de 11 de abril de 202 e participou, com um grupo de putschistas, no assalto à embaixada de Cuba em Caracas [3]. Embora tenha origem na organização ultraconservadora Tradição, Família e Propriedade [4] e seja apoaido pelos setores mais direitistas (entre eles, os meios de comunicação de massa privados, que continuam dominando amplamente a informação), Capriles faz campanha habilmente. Reivindica todas as conquistas sociais do governo bolivariano. E até jura que seu modelo político é o de esquerda, do ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva… [5] Mas aposta, sobretudo, no debilitamento físico do presidente Chávez [6].
Nisso, equivoca-se. O autor destas linhas, presente em julho passado na Venezuela, acompanhou as duas primeiras semanas de campanha do presidente, conversou várias vezes com ele, assistiu a alguns de seus extenuantes comícios para multidões. E pode testemunhar sua boa saúde e sua excepcional forma física e intelectual.
Desmentindo as falsas notícias que circularam em alguns meios de comunicação (Wall Street Journal El País], segundo as quais devido a supostas “metástases nos ossos e na espinha dorsal” teria apenas “seis ou sete meses de vida”, Chávez – que completou 58 anos em 28/7 – afirmou, para consternação de seus adversários: “Estou totalmente livre da enfermidade; a cada dia, sinto-me melhor”.
E voltou a surpreender os que apostavam numa presença apenas virtual na campanha, anunciando sua decisão de “retomar as ruas” e começar a percorrer os rincões da Venezuela, para conquistar seu terceiro mandato. “Disseram de mim: ‘Ele estará trancado em Miraflores (o palácio presidencial), numa campanha virtual por twitter e vídeos’. Zombaram de mim como quiseram. Pois aqui estou de novo, retornando, com a força indômita do furacão bolivariano. Já sentia falta do cheiro das multidões e do rugir do povo nas ruas”.
Este rugir, poucas vezes ouvi tão poderoso e tão fervoroso como nas avenidas de Barcelona (Estado de Anzoátegui) e de Barquisimeto (Estado de Lara), que acolheram Chávez em 12 e 14 de julho, respectivamente. Um oceano de povo. Uma torrente escarlate de bandeiras, símbolos, camisas vermelhas. Um maremoto de gritos, cantos, paixões, arrebatamentos.
Ao longo de quilômetros e quilômetros, no alto de um caminhão colorado que avançava abrindo espaço entre a multidão, Chávez saudou sem descanso a centenas de milhares de simpatizantes que foram vê-lo em pessoa, pela primera vez desde sua doença. Com lágrimas de emoção e beijos de agradecimento para um homem e um governo que, respeitando as liberdades e a democracia, atenderam aos humildes, resgataram a dívida social e deram a todos, por fim, educação gratuita, emprego, previdência social e habitação.
Para tirar as esperanças da oposição, Chávez, nos longos discursos eleitorais que pronunciou sem dar sinais de cansaço, começou dizendo: “Sou como o eterno retorno de Nietzche, porque na realidade venho de várias mortes… Que ninguém se engane, enquanto Deus me der vida estarei lutando pela justiça dos pobres. Mas quando eu me for fisicamente, ficarei com vocês por estas ruas e sob este céu. Porque já não sou eu, sinto-me encarnado no povo. Chávez já se fez povo e agora somos milhões. Chávez é você, mulher. Chávez é você, jovem. Chávez é você, criança; é você, soldado; são vocês, pescadores, agricultores, camponeses e comerciantes. Ocorra o que ocorrer comigo, não poderão resistir a Chávez, porque Chávez agora é um povo invencível”.
Em suas intevenções, não hesitou inclusive em criticar duramente alguns governadores e prefeitos de seu próprio partido, que descumpriram compromissos com os eleitores. “Tornei-me o primeiro opositor”, declarou. Mas também advertiu: “Pode-se criticar a revolução, mas não se pode votar na burguesia. Isso seria traição. Às vezes, podemos falhar, mas temos no coração amor de verdade pelo povo”.
Orador incomum, seus discursos são amenos e coloquiais, ilustrados de histórias, rasgos de humor e até canções. Mas são também, mesmo que não pareçam, verdadeiras composições didáticas muito elaboradas, muito estruturadas, preparadas de maneira muito séria e profissional, com objetivos concretos. Trata-se, em geral, de transmitir uma ideia central, que constitui o tronco de seu percurso discursivo. Nesta campanha, vai expondo e explicando metodicamente seu programa [7].
Mas, para não cansar nem ser pesado, Chávez afasta-se amiúde deste tronco principal e realiza o que poderíamos chamar de excursões em campos anexos (histórias, recordações, chistes, poemas), que não parecem ter nexo com seu propósito central. Mas sempre têm. E isso permite ao orador, depois de ter aparentemente abandonado por bastante tempo seu curso central, regressar a ele e retomá-lo no ponto exato onde o deixou. O que produz, de modo subliminar, um prodigioso efeito de admiração no auditório. Esta técnica retórica permite-lher fazer discursos de enorme duração.
Em seus recentes discursos eleitorais, Chávez compara as políticas de demolição do Estado de bem-estar social, executadas em vários países da União Europeia (cita, em particular, os brutais cortes feitos por Mariano Rajoy, na Espanha), com as importantes conquistas sociais de seu governo, empenhado em seguir “construindo o socialismo venezuelano”.
Em seus catorze anos de existência (1999-2012), a Revolução Bolivariana conseguiu, em âmbito regional, avanços consideráveis: criação da Petrocaribe, da Petrosul, do Banco do Sul, da ALBA, do Sucre (Sistema Único de Compensação Regional), da Unasul, da Celac, ingresso da Venezuela no Mercosul. E tantas outras políticas, que fizeram da Venezuela de Hugo Chávez um manancial de inovações para avançar até a independência definitiva da América Latina.
Ainda que campanhas agressivas de propaganda afirmem que, na Venezuela bolivariana, os meios de comunicação estão controlados pelo Estado, a realidade – verificável por qualquer testemunha de boa-fé – é que apenas uns 10% das emissoras de rádio são públicas; as 90% restantes são privadas. E não mais que 12% dos canais de TV são públicos, ficando 88% em mãos privadas ou comuntárias. Entre os jornais impressos, os principais diários, El Universal El Nacional, são privados e sistematicamente hostis ao governo.
A grande força do presidente Chávez é que sua ação concentra-se sobretudo no social (saúde, alimentação, educação, habitação), o que mais interessa aos venezuelanos humildes (75% da população). Consagra 42,5% do orçamento do Estado a inversões sociais. Reduziu à metade a mortalidade infantil. Erradicou o analfabetismo. Multiplicou por cinco o número de professsores nas escolas públicas (de 65 mil para 350 mil). A Venezuela à hoje o segundo país da região com maior número de estudantes matriculados no ensino superior (83%), atrás de Cuba mas à frente da Argentina, Uruguai e Chile; e é o quinto no plano mundial, superando Estados Unidos, Japão, China, Reino Unido, França e Espanha.
O governo bolivariano generalizou saúde e educação gratuitas. Multiplicou a construção de casas. Elevou o salário mínimo (o mais alto da América Latina). Concedeu aposentadorias a todos os trabalhadores (inclusive os informais e donas-de-casa) e todos os idosos, mesmo aqueles que nunca contribuíram. Melhorou a infra-estrutura dos hospitais. Oferece às famílias modestas, por meio do sistema Mercal, alimentos 60% mais baratos que nos supermercados privados. Limitou os latifúndios, multiplicando por dois a produção de alimentos. Assegurou formação técnica a milhões de trabalhadores. Reduziu as desigualdades. Rebaixou a pobreza a menos de 1/3. Reduziu a dívida externa. Acabou com a pesca de arrasto, antiecológica. Impulsionou o ecossocialismo…
Todas estas ações, desenvolvidas há 14 anos, explicam o apoio popular a Chávez, que promete, em sua campanha: “Tudo o que fizemos é pouco, comparado ao que faremos”.
Testemunhei que milhões de pessoas humildes o veneram como um santo. Ele – que foi garoto pobre, vendedor ambulante de doces, nas ruas de sua cidade – repete com calma: “Sou candidato dos humildes, e me consumirei a serviço dos pobres”. Seguramente irá fazê-lo. Certa vez, a escritora Alba de Céspedes perguntou a Fidel Castro como pôde ter feito tanto por seu povo. Ele respondeu simplesmente: “Com grande amor”. A respeito da Venezuela, Chávez poderia dizer o mesmo. E que pensarão os eleitores venezuelanos? Respostas em 7 de outubro.
  
[1] Perdeu apenas, por margem ínfima, o referendo de 2 de dezembro de 2007, sobre um “projeto de reforma constitucional”.
[2] Além de Hugo Chávez, outros seis candidatos disputam as eleições de 7 de outubro: Henrique Capriles Radonski, pela Mesa da Unidade (MUD); Orlando Chirinos, pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSL); Yoel Acosta Chirinos, pelo partido Vanguarda Bicentenária Republicana (VBR); Luís Reyes Castillo, pela Organização Renovadora Autêntica (ORA); María Bolivar, pelo Partido Democrático Unidos pela Paz e Liberdade (PDUPL) e Reina Sequera, pelo Partido Poder Popular (PP).
[3] Leia-se, de Gilberto Maringoni, “En Venezuela, Chávez sigue favorito”, Le Monde Diplomatique em espanhol, maio de 2012. Leia-se também, de Romain Mingus, “Henrique Capriles, candidat de la droite décomplexée du Venezuela”, Mémoire des luttes, 28/2/2012.
[4] Foi co-fundador de seu braço venezuelano.
[5] Lula enviou a Chávez, em 6 de julho, uma mensagem pública em que lhe manifestou pleno apoio na caompanha eleitoral, afirmando: “Tua vitória será nossa vitória”.
[6] Em meados de julho, as principais pesquisas de opinião davam a Chávez uma vantagem entre 15 e 20 pontos percentuais sobre Henrique Capriles.
[7] Propuesta del candidato de la patria Comandante Hugo Chávez para la gestión bolivariana socialista 2013-2019, Comando de Campanha Carabobo, Caracas, junho de 2012.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A Negação do Brasil - Links para Downloads do Documentário e do Livro





A Negação do Brasil é um dos documentários mais importantes dos últimos dez anos, pois tem como gancho para discutir a questão racial no Brasil uma coisa muito comum no cotidiano dos brasileiros, as telenovelas. Qual brasileiro que tem televisão em casa nunca teve uma novela da sua preferência? As novelas se tornaram algo muito importante de certa forma influenciadoras da nossa sociabilidade contemporânea. 

O problema não é assistir ou não as novelas, mas perceber como elas reforçam ou revitalizam certos imaginários sociais preconceituosos e racistas. O diretor, Joel Zito, vai fundo nas telenovelas ao apresentar os papéis que os atores negros tem feito faz uma discussão muito profunda sobre preconceitos, racismo, esteriótipos e construção da brasilidade, ou seja, dos parâmetros que dizem o que é ser brasileiro.

O diretor mostra que apesar do sucesso de Isaura Bruno, primeira atriz negra na novela “Direito de Nascer”, em 1965, a carreira dela não "foi para frente". Se o padrão não se repetiu totalmente, pois tivemos diversos atores(izes) trabalhando em novelas, a permanência foi o tipo de papéis que os diretores ofereciam para esses atores, independente da suas qualidades profissionais. Ela fez o papel de uma empregada, a “mamãe Dolores”, e sem saber iniciou o que seria uma constante, ou seja, os papéis de empregados subordinados. Depois de algumas décadas foi montado outro padrão que é o de famílias negras cheias de problemas e desestruturadas, quando comparadas a famílias da mesma novela.

O documentário é uma excursão na história das telenovelas no Brasil onde não é possível sair ileso ao assisti-lo. É como um véu caindo. Como entender a ausência de atores em personagens diversos. Só uma explicação é plausível para explicar o que acontece nestes mais de 40 anos de telenovelas, o racismo.

A negação do Brasil é um aviso de como as novelas negaram (e negam) espaço a metade do povo brasileiro, ou seja, os negros.


Junto com o documentário foi publicado um livro.






Filme completo online no link: A Negação do Brasil



Links para downloads do documentário e do livro:


terça-feira, 7 de agosto de 2012

INSTITUIÇÕES FEDERAIS DE EDUCAÇÃO EM GREVE: O QUE ESTÁ EM DISPUTA?


Por André Lázaro*


A greve de professores das instituições federais de educação levanta o debate necessário sobre o que está em disputa neste momento na educação brasileira. Após seis anos sem qualquer paralisação por motivos salariais, a maioria das Universidades e boa parte dos Institutos Federais, além do Colégio Pedro II, estão em greve. Trata-se do esgotamento de um modelo antigo ou da crise de um novo modelo que mal se iniciou? 

A educação tem merecido atenção crescente no debate público. A crítica feroz aos resultados atuais dos estudantes da educação básica, no entanto, nem sempre se recorda dos baixíssimos investimentos e péssimo acompanhamento da qualidade que orientaram a política da educação superior nos anos de 1990. Hoje ainda colhemos frutos desses equívocos: baixa qualidade da formação de professores, disputas de mercado entre as instituições privadas com redução de custos por meio da demissão de profissionais qualificados, instituições públicas que ignoram o compromisso com a educação básica.

Os investimentos públicos no ensino superior nos anos de 1990, sua expansão e interiorização, foram frutos dos esforços das universidades estaduais. A política que vigorou até o início dos anos 2.000 apostava no fortalecimento da iniciativa privada em educação, deixando as instituições federais à mingua. A partir do início da década passada o Governo Federal passou a investir na visão sistêmica da educação e tomou diversas iniciativas para fortalecer a educação superior, inclusive em sua articulação com a educação básica. Em destaque, a reestruturação das universidades federais pelo Reuni (Programa de Apoio a Planos de reestruturação e Expansão das Universidades Federais), que significou mais recursos de investimento e de custeio e contratação de professores e técnicos, tanto para suprir as deficiências herdadas da década anterior quanto para sustentar a expansão em curso. Do mesmo modo, a rede de educação profissional e tecnológica, negligenciada na década de 1990, recebeu novos recursos de investimento e de custeio e contratação de pessoal. Em parceria com diversas instituições de educação superior, a Universidade Aberta do Brasil foi ampliada e a educação a distância chega a municípios bastante afastados das cidades universitárias. São iniciativas de grande porte que demandam sustentação de longo prazo e políticas de Estado para lhes darem o tempo de maturação necessário. Construir é mais demorado do que desmontar...

Por outro lado, o Sinaes (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior) ganhou consistência e consequência: mesmo instituições federais foram advertidas quando seus resultados estavam aquém do necessário. E, pela primeira vez na história do país, foram fechadas vagas em cursos de baixo rendimento, tanto em pedagogia quanto em medicina e direito.

Hoje os estudantes no nível superior, pouco mais de 6,3 milhões, estão distribuídos entre instituições privadas, com 74,2% das matrículas, e instituições públicas, com 25,8%. As instituições públicas, no entanto, têm papel a cumprir: foram as que iniciaram ações afirmativas para inclusão da diversidade, são elas que seguem abrindo campi no interior do país, são elas que oferecem a maioria dos cursos de pós-graduação, que desenvolvem pesquisas e extensão universitárias.

A atual expansão da educação superior recoloca questões que já estavam à mesa, mas agora se tornam urgentes visto o papel estratégico que as Instituições passam a ter no modelo que se pretende fortalecer no país. A carreira que está em debate na greve precisa ser reformulada em valores e em estrutura. É preciso valorizar adequadamente a dedicação exclusiva, oferecer as adequadas condições para as pessoas que dedicam a vida a produzir conhecimento novo (pesquisa), formar as novas gerações (ensino) e a disseminar o conhecimento pela sociedade (extensão), além de levar esse conhecimento ao setor produtivo, numa via de mão dupla (inovação tecnológica). Isso não se faz sem professor ou sem os técnicos. 

Portanto, a greve em curso deve ser lida no contexto do crescimento e da expansão, diferente de como se dava nos anos de 1990, quando havia um contexto de agonia e esfacelamento da rede federal frente ao fortalecimento do setor privado.

Após a década de 90, repleta de greves e impasses, as negociações caminhavam para consolidar um rumo e etapas a serem cumpridas. No entanto, mudanças de governo e o trágico falecimento do secretário do planejamento que conduzia as negociações, Duvanier Ferreira (cuja morte por negligência motivou a lei recente que criminaliza a exigência de cheque caução nos hospitais) trouxeram consequências inesperadas. Parece que se perdeu o rumo da prosa e o horizonte da carreira.

Vivemos um novo momento e a greve expressa exatamente essa tensão entre o novo e o velho. A greve atual, por mais forte que seja e mais ampla que possa se tornar, representa a necessidade de superar definitivamente tanto um desenho de carreira inadequado quanto um padrão de negociação burocratizado. A dedicação que se espera das Instituições Federais de educação superior não pode estar sujeita a variações anuais. A educação é investimento de longo prazo, inclusive – e talvez principalmente – para professores e pesquisadores que necessitam de tempo e condições para desenvolver o trabalho de ensino, pesquisa e extensão. 

O país ainda está construindo as soluções que foram negadas na década de 90. Como todo percurso histórico, o atual tem suas tensões e contradições, mas tem também uma direção: dotar o Brasil de um parque de instituições capaz de produzir inteligência e inovação, ser inclusivo de sua diversidade étnico-racial, social e cultural e se distribuir por todo o território, visando à superação das históricas desigualdades regionais.



* Professor da Faculdade de Comunicação Social da UERJ e Coordenador Executivo do GEA-ES (Grupo Estratégico de Análise da Educação Superior no Brasil) da Flacso-Brasil. Foi Diretor no MEC de 2004 a 2006 e Secretário de 2006 a 2010.


Fonte: FLACSO

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Debate - Prefeitura Rio (Marcelo Freixo x Eduardo Paes) - BAND Eleições 2012


Separei algumas falas de Marcelo Freixo do debate realizado na Rede Bandeirantes, abaixo encontra-se um vídeo com o embate do verdadeiro candidato da esquerda com o atual Prefeito.

“É política de promoção pessoal, gasto abusivo e desnecessário (referente ao aumento de gastos em 13700% com publicidade na Prefeitura). É o uso de dinheiro público para interesse privado” (...) “A saúde do Rio é uma emergência. Os dados são os piores do Brasil. Não sou eu que estou dizendo: é o governo federal, aliado da prefeitura. A prefeitura vai terminar o ano gastando R$ 2,4 bilhões em Organizações Sociais. É dinheiro mal aplicado”

"Há um registro de crescimento de 13.700% dos gastos com publicidade na gestão do atual prefeito. Paralelamente, temos a cidade com a pior saúde pública do país, segundo dados do próprio Ministério da Saúde, aliado do prefeito. A nossa educação teve a pior nota do Ideb. Por que o prefeito não usa a publicidade para combater a tuberculose e a dengue? Tem como usar o dinheiro para fins realmente úteis para a população. Mas a prioridade da atual gestão é empregar a verba em prol do interesse privado" Freixo voltou a reproduzir na tréplica.

"Pelo visto o silêncio em relação ao metrô vai continuar. Esse sim é transporte de massa. Ônibus não é transporte de massa nem no Rio nem em qualquer lugar do mundo. Você sabe disso, vocês viajam muito no PMDB. Se você for para Paris ou Londres, lugares que são muito frequentados por lideranças política do Rio (citando o governador do Estado, Sérgio Cabral, que foi fotografado jantando na capital francesa com o empreiteiro Fernando Cavendish), vai perceber que o metrô funciona"

"Eu quero dizer que a licitação que você fez em 2010 para os ônibus, a que indicou o BRT, (sistema no qual) vocês anunciam que vai carregar 30 mil por hora, sendo que o BRT (cada ônibus) tem 160 vagas. Ou seja, só se passar um BRT a cada 20 segundos. Então não é verdade o que vocês dizem. Na licitação de 2010, o Tribunal de Contas do Município viu indícios fortíssimos de formação de cartel. É isso que tem por trás do seu grande apoio a Fetranspor"

“Não podemos tolerar uma transformação tão profunda sem um verdadeiro debate democrático. Questões sobre educação e saúde ficaram muito claras aqui dentro. Estamos em segundo lugar nas pesquisas. Se cada eleitor conseguir mais um voto, conseguimos ir para o segundo turno” (...)  “No PSOL nós temos princípios, diferente de alguns, como o nosso atual prefeito que já foi do PSDB, do DEM e do PFL e já foi do PV” (...) “Não fui buscar no meu vice alguém que me desse mais tempo de televisão. O Marcelo Yuka agrega valores na sua vida, que nós queremos para a política. Teremos uma campanha de rua e de rede. Não teremos tempo de TV. É uma militância que tem ideais. É com e inteligência e proposta que queremos um novo Rio de Janeiro”


Vídeo do Debate - Prefeitura Rio (Marcelo Freixo x Eduardo Paes) - BAND Eleições 2012