domingo, 8 de abril de 2012

Por que o futebol-negócio quer proibir as torcidas


Por trás do “combate à violência” há tentativa de elitizar estádios, afastando torcedores pobre – os novos “indesejáveis”

Por Irlan Simões*, em Futebol além da mercadoria
Foi logo na tarde da segunda-feira, 26/3. A Federação Paulista de Futebol (FPF) lançou a Resolução 66/2012proibindo a entrada de duas torcidas organizadas nos estádios. Mais precisamente a Gaviões da Fiel, ligada ao Corinthians e a Mancha Alviverde, do Palmeiras.
A motivação foi o confronto entre integrantes das duas torcidas, ocorrido às 10h da véspera, dia em que acontecera o maior clássico paulista. A confusão causou a morte, até o momento, de dois integrantes da Mancha Alviverde. André Alves Lezo, de 21 anos, faleceu ainda no domingo, ao ser atingido por um tiro na cabeça. Na terça-feira foi confirmada a morte cerebral de Guilherme Vinicius Jovanelli Moreira, de 19 anos.
Alguns meios de comunicação afirmaram que os assassinatos são decorrentes de um ato de vingança pela morte do integrante da Gaviões da Fiel, Douglas Karim Silva, em 29 de Agosto de 2011.
Retomemos os parágrafos anteriores, nos são apontados dia, horário, local e motivação do confronto. A partir deles, façamos uma análise do que significou o ocorrido, no contexto geral do futebol.
O domingo, 25 de março, era marcado por um dos maiores clássicos do futebol brasileiro, Corinthians x Palmeiras, valendo a liderança do campeonato paulista. Contaria, obviamente, com a presença de duas das maiores e mais agressivas torcidas organizadas do país. Rivais históricos há muitos anos, é claro que estariam mobilizados e fardados para a ocasião.
A “Batalha da Inajar de Souza” aconteceu às 10h da manhã. Cerca de seis horas antes do horário oficial do jogo, quando nem o aparato técnico da Rede Globo devia estar presente no estádio.
A avenida Inajar de Souza fica na Zona Norte de São Paulo, a 13 km do palco do clássico, o PacaembuUm local distante o suficiente do estádio para que não houvesse concentração de torcedores a pé. Mesmo assim, é local recorrente de confrontos entre os grupos, conhecido da Policia Militar, informado há bom tempo pelas próprias lideranças das torcidas organizadas.
Conflito entre “organizadas” independe dos jogos.

Brigas não são casuais, mas confrontos combinados,
tratados como evento histórico pelos integrantes das torcidas

A motivação da briga foi uma retaliação já escancarada em todas as redes sociais. Basta pesquisar um pouco para encontrar citações sobre a possibilidade do confronto, ressaltando inclusive o sentimento de vingança por parte dos integrantes da Gaviões da Fiel. No último confronto, marcado na própria internet, os corintianos alegam que os torcedores rivais não seguiram as “regras” esperadas para os conflitos, matando um adversário.
Diante dos elementos expostos acima, o que é possível concluir? Que o conflito entre torcidas organizadas independe dos jogos. As brigas não são casuais, nem obra da insanidade desses jovens que se prestam a se agredir em plena luz do dia. São confrontos combinados, tratados como evento histórico pelos integrantes das torcidas organizadas.
Estas, por sua vez, não possuem uma estrutura organizativa que lhes permita planejar tais enfrentamentos, nem centralizar ou controlar a ação dos seus integrantes. São formadas por núcleos descentralizados e sem hierarquia, que podem articular suas ações independentes do que avaliam os dirigentes do grupo.
Os confrontos físicos são desejados por parte desses integrantes. É uma atividade que lhes dá ânimo e prazer. Viajam centenas, às vezes milhares de quilômetros para outras cidades, uniformizados, esperando uma torcida adversária buscar confusão.
Se isso é certo ou errado, cabe a cada um escolher. A realidade é que não é um problema de fácil solução, nem qualquer medida punitiva que vai acabar com as torcidas organizadas. Ou, pelo menos, com seus integrantes violentos. Inclusive pela pluralidade dos setores envolvidos nesses grupos mais violentos.
É isso que nos permite afirmar, sobre a imprensa esportiva brasileira: ou lhe falta clareza sobre o funcionamento das torcidas organizadas, ou não tem honestidade intelectual e disposição para investigar as relações promíscuas entre o futebol e certos interesses privados. A segunda hipótese parece mais provável.
A FPF sustenta que puniu Gaviões e Mancha Verde com base no Estatuto do Torcedor, uma lei que sofre críticas generalizadas tanto por parte das torcidas quando dos movimentos que querem resgatar o futebol. Ele eliminou diversos direitos dos que assistem às partidas nos estádios, e não impede, por exemplo, que os preços dos ingressos sejam cada vez mais proibitivos – nem que as antigas áreas populares tenham sido suprimidas. Nos últimos anos, mesmo pagando cada vez mais caro para poder assistir ao seu time de coração, os brasileiros foram confrontados com uma sequencia de ataques à sua cultura torcedora.
 Viabilização do modelo inclui restringir torcedor “indesejado”.

No Rio de Janeiro, polícia instrui as empresas de ônibus
diminuir suas frotas, em dias de jogos

Entre elas, estão a restrição do uso de faixas e bandeiras com mensagens de qualquer ordem; a proibição ao consumo de bebidas alcoólicas; o cadastramento obrigatório de torcedores e até a obrigação de assistir ao jogo sentado.
A situação só piora quando a FPF declara que reagiu a um pedido da Delegacia de Polícia de Repressão aos Crimes Raciais e Delitos de Intolerância. Essa informação ganha contornos de uma grande piada, quando analisamos qual a origem dessa concepção de “segurança nos estádios”.
A política de segurança para grandes jogos, criada pela Polícia Militar e pelos órgãos do Estado que incidem sobre futebol, foi construída nas últimas décadas com o apoio da grande mídia e da cartolagem. As medidas tomadas e as regras criadas coincidem com o que prega a cartilha de um certo programa político para o “futebol” em todo o mundo.
Trata-se de mercantilizar cada vez mais o esporte, estabelecendo a lógica de “consumo do espetáculo”. Os clubes passam a potencializar suas fontes de renda, a se rentabilizar de forma agressiva. Isso inclui o aumento do valor dos ingressos, numa perspectiva totalmente equivocada dadas as condições sócio-econômicas do país.
Os estádios vão se convertendo gradativamente em centros de consumo, verdadeiros shoppings centers, elitizados e higienizados. A busca do “público ideal” também sofre mudanças.
A viabilização desse modelo exige das federações, dos clubes e do Estado diversas medidas de restrição da entrada de torcedores “indesejados”. O caráter anti-popular de algumas destas regras é escancarado. No Rio de Janeiro, o Grupo Especial de Policiamento nos Estádios (GEPE) instrui as empresas de ônibus adiminuir, em dias de jogos, suas frotas, nas regiões próximas a estádios.
A implantação deste já está muito avançada em países da Europa e revela o possível futuro do futebol brasileiro, caso não haja resistência: público assistente composto majoritariamente pela alta classe-média, torcedores com mais de 30 anos e turistas.
Exclui-se o antigo torcedor trabalhador de outros tempos, de baixo poder aquisitivo, que lotou estádios e garantiu por décadas a renda dos clubes. Segundo a ideologia do “futebol-negócio”, a ele restará apenas, para acompanhar seu clube querido, o boteco da esquina.
Mas, como evitar esses “indesejados” sem que isso gere grandes discussões? Fácil: colocando em cena um bode expiatório.
Diante da ofensiva dos partidários do futebol-negócio,

lideranças de torcidas poderiam exercer papel
de resistência – mas se omitem

Pode ser até que houvesse boas intenções, por parte dos idealizadores das primeiras medidas contra a violência nos estádios brasileiros. Algumas delas são inclusive defendidas por representantes de setores progressistas da sociedade, que não compram cegamente a velha ideologia da vigilância e punição.
O problema é que, aos poucos, o “combate à violência” tornou-se apenas mais um engodo na carta de justificativas de quem pretende consolidar o futebol-negócio no Brasil. Não é de hoje que esse argumento é usado de forma oportunista.
As bandeiras já foram proibidas em São Paulo em 1994, no vácuo do confronto entre palmeirenses e sampaulinos no Pacaembu, num jogo de juniores. O episódio foi marcado pela displicência dos órgãos responsáveis, que permitiram um jogo entre torcidas rivais num estádio em reforma, com materiais de construção expostos e o acesso ao gramado desprotegido.
As bebidas alcoólicas foram vetadas em 2009, novamente sob o argumento de que contribuíam com a violência. Quem frequenta estádios sabe que não faz o menor sentido. Mas o mais grotesco é que hoje, quando o tema volta a ser debatido, é em nome do “direito à comercialização” das marcas patrocinadoras da Copa – não da liberdade individual do torcedor, que não está autorizado a levar sua cervejinha para o estádio.
A Mancha Alviverde já mudou de nome uma vez, e provavelmente vai mudar de novo. A torcida Gaviões da Fiel é um instrumento político do atual grupo dirigente do Corinthians. Será muito difícil mantê-la proibida por muito tempo. Da mesma forma que a proibição de adereços alusivos às torcidas não muda nada. Ou só piora: as torcidas organizadas estarão ainda mais presentes nos estádios – e agora, não identificadas.
A proibição, como se viu, é hipócrita e interesseira. Mas vale, diante da ofensiva dos partidários do futebol-negócio, chamar atenção para o papel que as lideranças de torcidas organizadas poderiam exercer – mas se omitem. Mesmo com os diversos alertas lançados nos últimos anos, elas muito pouco fizeram para impedir as medidas coercitivas.
Às vésperas da Copa do Mundo no Brasil, e num momento decisivo para definição dos rumos do futebol no país, elas não agem diante da mercantilização. No máximo, adotam as respeitáveis, mas pouco convincentes, iniciativas de criação de “Grupos de Ação Social”.
Os órgãos punitivos tampouco se dão ao trabalho de investigar ou apontar quem financia as torcidas organizadas. Já se sabe há anos que diversos cartolas injetam recursos materiais e as usam como instrumento de promoção política pessoal, dentro e fora dos estádios.
É responsabilidade crucial dos integrantes mais sérios das torcidas – aqueles que pensam na magia do jogo e nos direitos do torcedor – trazer uma nova “ideologia” a estes grupos. Transformá-las, para garantir que estejam do lado do torcedor na batalha contra a mercantilização do esporte.

*Irlan Simões é estudante de Comunicação Social e torcedor do Esporte Clube Vitória. Atua no Movimento Somos Mais Vitória, na Associação Nacional dos Torcedores, na Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social e acha que o futebol deve ser jogador pela ala esquerda.

sábado, 7 de abril de 2012

Timor Leste: porque o mais pobre é ameaça para o poderoso


por John Pilger
Timor Leste: porque o mais pobre é ameaça para o poderoso. 16803.jpeg
A partilha. O truísmo de Milan Kundera, "a luta do povo contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento", descreve Timor Leste. No dia em que decidi filmar ali clandestinamente, em 1993, fui à loja de mapas Stanfords, no Covent Garden de Londres. "Timor?", disse um assistente de vendas hesitante. Pusemo-nos a examinar prateleiras marcadas Sudeste Asiático. "Desculpe-me, onde é exatamente?"

Após uma pesquisa ele encontrou um velho mapa aeronáutico com áreas em branco assinaladas: "Dados de auxílio incompletos". Nunca lhe fora pedido Timor-Leste, o qual está a Norte da Austrália. Tal era o silêncio que envolvia a colônia portuguesa a seguir à sua invasão e ocupação pela Indonésia, em 1975. Mas nem mesmo Pol Pot conseguiu, proporcionalmente, matar tantos cambodgianos quanto o ditador Suharto, da Indonésia, matou em Timor-Leste.
No meu filme, Morte de uma nação, há a cena de um brinde a bordo de um avião australiano a voar sobre a ilha de Timor. Decorre numa festa e dois homens de fato estão a brindar-se com champanhe. "Isto é um momento histórico único", balbucia um deles, "é verdadeiramente histórico e único". Trata-se de Gareth Evans, ministro dos Negócios Estrangeiros da Austrália. O outro homem é Ali Alatas, o porta-voz principal de Suharto. Passa-se em 1989 e eles estão a fazer um voo simbólico para celebrar a assinatura de um tratado pirata que permitiu à Austrália e às companhias internacionais de petróleo e gás explorarem o fundo do mar ao largo de Timor-Leste. Por baixo deles há vales crivados de cruzes negras onde aviões caça fornecidos por britânicos e americanos estraçalharam pessoas em bocados. Em 1993, o Comité de Assuntos Estrangeiros do Parlamento australiano relatou que "pelo menos 200 mil", um terço da população, havia perecido sob Suharto. Graças a Evans, em grande parte, a Austrália foi o único país ocidental a reconhecer formalmente a conquista genocida de Suharto. As forças especiais assassinas da Indonésia, conhecidas como Kopassus, foram treinadas na Austrália. O prêmio, disse Evans, eram "ziliões" de dólares.
Ao contrário de Muammar al-Kaddafi e Saddam Hussein, Suharto morreu pacificamente em 2008 cercado pela melhor ajuda médica que os seus milhares de milhões podiam comprar. Ele nunca correu o risco de ser processado pela "comunidade internacional". Margaret Thatcher disse-lhe: "Você é um dos nossos melhores e mais válidos amigos". O primeiro-ministro australiano Paul Keating encarava-o como uma figura paternal. Um grupo australiano de editores de jornais, conduzido pelo veterano servidor de Rupert Murdoch, Paul Kelly, voou a Djacarta para prestar homenagem ao ditador; há uma foto de um deles a fazer uma reverência.
Em 1991, Evans descreveu o massacre de mais de 200 pessoas por tropas indonésias, no cemitério de Santa Curz, em Dili, capital do Timor-Leste, como uma "aberração". Quando manifestantes colocaram cruzes do lado de fora da embaixada da Indonésia em Canberra, Evans ordenou a sua retirada.
Em 17 de Março, Evans estava em Melbourne para falar num seminário sobre o Médio Oriente e a Primavera Árabe. Mergulhado agora no ocupado mundo dos "think tanks", ele explana acerca de estratégias de grandes potências, nomeadamente a elegante "Responsabilidade de proteger", a qual é utilizada pela OTAN para atacar ou ameaçar ditadores arrogantes ou desfavorecidos sob o falso pretexto de libertar seus povos. A Líbia é um exemplo recente. No seminário também estava presente Stephen Zunes, professor de política na San Francisco University, que recordou à audiência o longo e crítico apoio de Evans a Suharto.
Quanto acabou a sessão, Evans, um homem de fusível limitado, atacou Zumes e gritou: "Quem raios é você? De onde raios você saiu?" Disseram a Zumes, confirmou Evans posteriormente, que tais observações críticas mereciam "um soco no nariz". O episódio foi oportuno. A celebrar o décimo aniversário de uma independência que Evans outrora negava, Timor-Leste está nas convulsões da eleição de um novo presidente; a segunda volta da votação é em 21 de Abril, seguida pelas eleições parlamentares.
Para muitos timorenses, com seus filhos mal nutridos e atrofiados, a democracia é uma noção. Anos de ocupação sangrenta, apoiada pela Austrália, Grã-Bretanha e EUA, foram seguidos por uma campanha implacável de intimidação por parte do governo australiano para afastar a pequena nova nação da fatia a que tem direito das receitas de petróleo e gás do seu leito marítimo. Tendo recusado reconhecer a jurisdição do Tribunal Internacional de Justiça e a Lei do Mar, a Austrália mudou unilateralmente a fronteira marítima.
Em 2006 foi finalmente assinado um acordo, em grande medida nos termos da Austrália. Logo após, o primeiro-ministro Mari Alkatiri, um nacionalista que enfrentou Canberra e opôs-se à interferência estrangeira e ao endividamento ao Banco Mundial, foi efetivamente deposto naquilo a que chamou uma "tentativa de golpe" por "elementos externos". A Austrália tem tropas de "manutenção da paz" em Timor-Leste e treinou seus opositores. Segundo um documento escapado do Departamento da Defesa australiano, o "primeiro objetivo" da Austrália em Timor-Leste é que os seus militares "tenham acesso" de modo a que possa exercer "influência sobre a tomada de decisões em Timor-Leste". Dos dois atuais candidatos presidenciais, um é Taur Matan Rauk, um general e o homem de Canberra que ajudou a afastar o incômodo Alkitiri.
Um pequeno país independente montado sobre recursos naturais lucrativos e caminhos marítimos estratégicos é objeto de preocupação séria para os Estados Unidos e o seu "vice xerife" em Canberra. (O presidente George W. Bush promoveu realmente a Austrália a xerife pleno). Isso explica em grande medida porque o regime Suharto exigiu tanta devoção dos seus patrocinadores ocidentais. A obsessão permanente de Washington na Ásia é a China, a qual hoje oferece a países em desenvolvimento investimento, qualificação e infraestrutura em troca de recursos.
Ao visitar a Austrália em Novembro, o presidente Barack Obama emitiu outra das suas ameaças veladas à China e anunciou o estabelecimento de uma base dos US Marines em Darwin, bem em frente às águas de Timor-Leste. Ele entende que países pequenos e empobrecidos podem muitas vez apresentar a maior ameaça à potência predatória, porque se eles não puderem ser intimidados e controlados, quem poderá?
O original encontra-se em www.johnpilger.com/...
Este artigo encontra-se em http://resistir.info

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Brilhante Ustra incita represálias contra manifestantes dos "escrachos"


Brilhante Ustra incita represálias contra manifestantes dos "escrachos"


Informações pessoais de cinco manifestantes que protestaram contra a comemoração do Golpe de 64 em frente ao Clube Militar foram postadas na página do torturador
04/04/2012
Celso Lungaretti (*)
O site do torturador Brilhante Ustra publicou (vide aqui) nome, foto e dados pessoais do manifestante que cuspiu num dos oficiais da reserva participantes da criminosa apologia do totalitarismo e do terrorismo de estado que teve lugar dia 29 no Clube Militar do Rio de Janeiro, bem como de outros quatro cidadãos que se posicionaram contra aquela abominação.

O objetivo alegado foi "disponibilizar material para que o Clube Militar, assim como o agredido possam acionar a justiça".
Mas, há sempre possibilidade de eles se tornarem alvos das práticas habituais do antigo DOI-Codi: sequestros, torturas, assassinatos.
Os defensores dos direitos humanos devem tomar imediatas providências para a proteção da vida e da integridade física dos cinco.
Se qualquer um deles sofrer uma agressão covarde como as que são marca registrada da ditadura militar, já sabemos quem deve ser responsabilizado como indiscutível instigador e provável mandante.
Finalmente, eis algumas perguntas que não querem calar:
  • O que mais agride as leis do País, a cusparada que um jovem de 22 anos, justificadamente indignado, aplicou no coronel aviador Juarez Gomes da Silva, presidente do Ternuma-RJ, ou a própria atuação do Ternuma-RJ na justificação/exaltação do arbítrio, minimização de atrocidades e manutenção de campanhas de ódio permanentes (incluindo as de difamações, calúnias e injúrias  contra os heróis e mártires da resistência à tirania)?
  • Que consideração merece tal personagem, um destrambelhado que já apareceu na IstoÉ se propondo a desenvolver uma campanha publicitária para denunciar autoridades federais (inclusive a então ministra Dilma Rousseff) como "terroristas" e declarando que o então ministro da Justiça Tarso Genro não passaria de um "canalha" (vide aqui)?
  • Quem levantou os nomes e dados pessoais dos quatro outros manifestantes, afora o do sociólogo Gustavo Santana, que apareceu no noticiário como vítima de agressão bestial da PM (teve o braço quebrado)?
O Brilhante Ustra parece ter montado um DOI-Codi privado em plena democracia.
É o caso de averiguarmos se ele não está usurpando funções da polícia ao realizar investigações, e da imprensa ao divulgar os resultados.
Não sei se é legal. Mas moral, com certeza, não é.
Trata-se do preço que estamos pagando por não havermos instalado em 1985 um tribunal como o de Nuremberg. Redemocratização pela metade dá nisso.
* jornalista, escritor e ex-preso político. http://naufrago-da-utopia.blogpot.com 

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Alguns Poemas de Ernesto "Che" Guevara de La Serna



Contra o Vento e as Marés


Este poema (contra o vento e as marés) levará minha assinatura.
Deixo-lhes seis sílabas sonoras,
um olhar que sempre traz (como um passarinho ferido) ternura,

Um anseio de profundas águas mornas,
um gabinete escuro em que a única luz são esses versos meus,
um dedal muito usado para suas noites de enfado,
um retrato de nossos filhos.

A mais linda bala desta pistola que sempre me acompanha,
a memória indelével (sempre latente e profunda) das crianças
que, um dia, você e eu concebemos,
e o pedaço de vida que resta em mim.

Isso eu dou (convicto e feliz) à revolução
Nada que nos pode unir terá força maior.

(Ernesto "Che" Guevara - Poema dedicado à Aleida, sua esposa)

****************************

Eu sei! Eu sei!
Se sair daqui, o rio me engolirá...
É o meu destino: hoje devo morrer!
Mas não, a força de vontade pode superar tudo
Há obstáculos, eu reconheço
Não quero sair.
Se tenho que morrer, será nesta caverna.

As balas, o que podem as balas fazer comigo
se meu destino é morrer afogado? Mas vou
vencer o destino. O destino pode ser
conseguido pela força de vontade.

Morrer, sim, mas crivado de
balas, destroçado pelas baionetas, se não, não. Afogado não...
Uma recordação mais duradoura do que meu nome
É lutar, morrer lutando.

(Ernesto Guevara – 17 de janeiro de 1947)

***************************

Pobre velha María...
não reze para o deus inclemente que frustrou suas esperanças,
sua vida inteira,
não peça clemência desde a sua morte,
sua vida foi horrivelmente coberta de fome
e termina coberta pela asma.
Mas eu lhe quero anunciar,
numa voz baixa viril de esperanças,
a mais vermelha e viril das vinganças.
Quero jurá-la na exata
dimensão de meus ideais.
Pegue esta mão de homem que parece a de um menino
entre as suas, polidas pelo sabão amarelo,
esfregue os calos duros e os nós puros
na suave vingança de minhas mãos de médico.
Descanse em paz, María,
descanse em paz, velha lutadora,
seus netos viverão todos para ver a alvorada.

(Ernesto Guevara - Homenagem à sua paciente, ainda na época de médico, que morre vítima da asfixia da asma e do descaso social)

****************************

Canto a Fidel

Vamos, ardoso profeta da alvorada,
por caminhos longínquos e desconhecidos,
liberar o grande caimão verde* que você tanto ama...
Quando soar o primeiro tiro
e na virginal surpresa toda selva despertar,
lá, ao seu lado, seremos combatentes
você nos terá.
Quando sua voz proclamar para os quatro ventos
reforma agrária, justiça, pão e liberdade,
lá, ao seu lado, com sotaque idêntico,
você nos terá.
E quando o final da batalha
para a operação de limpeza contra o tirano chegar,
lá, ao seu lado, prontos para a última batalha,
você nos terá...
E se o nosso caminho for bloqueado pelo ferro,
pedimos uma mortalha de lágrimas cubanas
para cobrir nossos ossos guerrilheiros
no trânsito para a história da América.
Nada mais.

* Caimão verde era o nome alegórico atribuído à ilha de Cuba.

(Ernesto "Che" Guevara - poema escrito pouco tempo antes de embarcarem no iate Granma rumo à Cuba)

*************************

Poema de Nicolás Guillén

Che Guevara

Como se a mão pura de San Martín
Tivesse se estendido para seu irmão, Martí,
E o Prata, de margens verdejantes, corresse pelo mar
Para se juntar à embocadura cheia de amor do Cauto.

Assim Guevara, gaúcho de voz forte, agiu para dedicar
Seu sangue guerrilheiro a Fidel,
E sua mão larga teve mais espírito de camaradagem
Quando nossa noite era mais negro, mais escura.

A morte recuou. De suas sombras impuras,
Do punhal, do veneno e das feras,
Só restam lembranças selvagens.

Fundida dos dois, uma única alma brilha,
Como se a mão pura de San Martín
Tivesse se estendido para seu irmão, Martí.

(Poema de Nicolás Guillén, o mais destacado poeta cubano vivo na época da revolução)

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Reflexões de Fidel: O mundo maravilhoso do capitalismo



A procura da verdade política sempre será uma tarefa dura, mesmo em nossos tempos quando a ciência tem colocado em nossas mãos um grande número de conhecimentos. Um dos mais importantes foi conhecer e estudar o fabuloso poder da energia contida na matéria.
O descobridor dessa energia e seu possível uso era um homem pacífico e bonachão que, apesar de sua rejeição à violência e à guerra, solicitou seu desenvolvimento aos Estados Unidos, presidido então por Franklin D. Roosevelt, de conhecida posição antifascista, líder de um país capitalista em profunda crise, que tinha contribuído a salvar com fortes medidas que lhe ganharam o ódio da extrema direita de sua própria classe. Hoje esse Estado impõe ao mundo a mais brutal e perigosa tirania que conhecera nossa frágil espécie.
As notícias procedentes dos Estados Unidos e seus aliados da NATO se referem aos desmandos cometidos por eles e seus cúmplices. As cidades mais importantes dos Estados Unidos e da Europa refletem constantes batalhas campais entre os manifestantes e a polícia bem treinada e alimentada, com carros blindados e escafandros, distribuindo golpes, pontapés e gases contra mulheres e homens, torcendo mãos e pescoços de jovens e velhos, mostrando ao mundo as cobardes ações que são cometidas contra os direitos e a vida dos cidadãos de seus próprios países.
Até quando podem durar semelhantes barbáries?
Para não ser extenso, visto que estas tragédias ir-se-ão apresentando cada vez mais pela televisão e pela imprensa em geral, e serão como o pão que cada dia é negado aos que menos têm, citarei a informação, recebida hoje, de uma importante agência de notícias ocidental:
“Boa parte das costas japonesas do Pacífico poderia ficar inundada por uma onda gigantesca superior aos 34 metros (112 pés) caso acontecesse um sismo poderoso, conforme os cálculos revistos por um painel do governo.
“Qualquer tsunami desencadeado por um terremoto de magnitude 9 na depressão de Nankai, que vai desde a principal ilha nipônica de Honshu até a ilha de Kyushu no sul, poderia atingir os 34 metros de altura, apontou o comitê.
“Um cálculo anterior em 2003 estimava que a altura máxima da referida onda fosse inferior aos 20 metros (66 pés).”
“A planta de Fukushima fora construída para resistir um tsunami de 6 metros (20 pés), menos da metade da altura da onda que a impactou a 11 de março de 2011.”
Mas não existem razões para se preocupar. Outro telex datado há dois dias, a 30 de março, pode-nos tranquilizar. Procede de um meio realmente bem informado. Em breves palavras sintetizarei: “Se você fosse futebolista, xeque árabe ou diretivo de uma grande multinacional, quê tipo de tecnologia o faria suspirar”?
“Recentemente, uns conhecidos armazéns de luxo em Londres inauguraram uma seção inteira dedicada a amantes da tecnologia com volumosas carteiras.
“Televisores de um milhão de dólares, câmaras de vídeo Ferrari e submarinos individuais são alguns dos talismãs para fazer das delícias do milionário.”
“O televisor do milhão de dólares é a joia da coroa.”
“No caso de Apple, a empresa se compromete a entregar seus novos produtos no mesmo dia do lançamento no mercado.”
“Suponhamos que saímos da nossa mansão e já estamos cansados de andar por aí com nosso iate, limusine, helicóptero ou Jet. Ainda nos resta a opção de comprar um submarino individual ou para duas pessoas.”
A oferta prossegue com celulares com carcaça de aço inox, processador de 1,2 GHz e 8 Gb de memória, e tecnologia NFC para realizar pagamentos através do celular. Videocâmara com selo Ferrari.
Verdade, compatriotas, que o capitalismo é coisa maravilhosa! Se calhar somos os culpados de que cada cidadão não tenha um submarino particular na praia.
São eles e não eu quem misturaram nesse mesmo saco os xeques árabes e os diretivos das grandes transnacionais com os futebolistas. Pelo menos estes últimos são o entretimento de milhões de pessoas e não são inimigos de Cuba. É bom que esclareça isso.
Fidel Castro Ruz
1 de abril de 2012

terça-feira, 3 de abril de 2012

Desmobilizados e desorganizados?


Fernando Perlatto - Março 2012


Em artigo publicado no jornal O Globo em 11 de julho de 2011, Juan Arias, correspondente do jornal El Pais no Brasil, motivado pelas manifestações dos “Indignados” contra o sistema político e financeiro nas praças de Barcelona, questionou a passividade do povo brasileiro. Ao contrário do que ocorria por lá, nossa sociedade, ainda que assolada por diversas mazelas, sobretudo associadas à corrupção, permanecia em silêncio, parecendo ignorar os desvios do dinheiro público. Tal diagnóstico acerca da passividade do povo brasileiro não foi isolado e ganhou novos contornos com as comparações que se estabeleciam entre a realidade aqui e as diversas eclosões populares que sacudiram o mundo em 2011, desde as manifestações na Praça Tahrir, no Egito, até o Occupy Wall Street, que comprovavam uma percepção muito forte no senso comum nacional: nossa sociedade civil seria desmobilizada.

Esse tipo de imaginação não se move no vazio, possuindo terreno a sustentá-la, ancorado em análises clássicas das ciências sociais brasileiras. Para uma forma de interpretação consolidada, nossa sociedade seria marcada pela desmobilização, salvo em momentos específicos da nossa história, como os anos 1960, que antecederam o golpe militar, ou os anos 1980. Nesses contextos, movimento operário, intelectualidade, setores religiosos e partidos políticos teriam criado mecanismos de articulação capazes de fazer frente aostatus quo. Nos outros momentos da nossa história, apenas o silêncio de um povo desorganizado, acostumado com os desmandos do poder e incapaz de tecer redes de solidariedade, bem como criar estruturas organizativas. A ler nossa história pelos termos habermasianos, os sistemas da política (Estado) e do dinheiro (mercado) dominaram a nossa trajetória, em diferentes momentos, como decorrência da natural indiferença do nosso povo, insolidário pela sua própria natureza, contendo desde o início dos tempos coloniais o DNA da indiferença. Na parte de baixo do mundo, nada se moveu e ainda não se move.

Será isso mesmo uma verdade? Nossa sociedade civil foi e ainda é desorganizada? A meu ver, não é possível corroborar esta tese. Diversas pesquisas historiográficas recentes vêm procurando demonstrar que desde o Império, passando pela Primeira República e atravessando o século XX, o mundo de baixo da sociedade brasileira tem se organizado para além das estruturas formais de poder. Naturalmente, essas formas de organização não assumiram as características dos mecanismos associativos idênticos ao mundo europeu. Muitas vezes elas se manifestavam não por “falas públicas”, mas assumindoformas ocultas, que configuravam, nos termos de James Scott, em Domination and the Arts of Resistance, uma infrapolítica dos subalternos. Em face do espaço negado no “discurso público”, os setores populares exerceram práticas e criaram formas expressivas fora da cena pública, constituindo “discursos ocultos”, por meio dos quais buscaram romper, de diferentes maneiras, com a aparente homogeneidade da fala oficial.

Em diálogo com as formulações de Nancy Fraser acerca dos subaltern counterpublics, podemos apontar para a existência de uma esfera pública subalterna no Brasil, constituída por espaços heterogêneos de fala e organização, mediante os quais os setores populares e médios lograram descobrir e articular espaços que testavam em todos os momentos os limites da ordem. Uma forma de resistência difusa — que se manifestava desde a resistência dos escravos para além da luta aberta contra os senhores no período imperial até a constituição de associações operárias no começo da Primeira República, passando pelas irmandades religiosas formadas pelos negros ao longo do XIX — se articulou e buscou constituir um lugar diferente de fala. Não se trata, é óbvio, de afirmar que discursos e práticas constituídos nesta esfera pública subalterna eram necessariamente virtuosos. O que se está aqui a dizer é que eles existiam, e isso é o que tem importância para a nossa discussão.

A reflexão aqui proposta busca chamar a atenção para o fato de que perceber e compreender este mundo implica um olhar diferenciado, uma perspectiva que não parta de modelos preconcebidos de organização e agregação, tomados do mundo europeu. Trata-se de abrir nossas capacidades cognitivas para formas diferentes de associativismo, que se configuraram no decorrer da nossa história e que ainda permanecem fortemente presentes na sociedade brasileira, assumindo, obviamente, novos elementos. Esta nova forma de olhar deve ser capaz de perceber uma sociedade civil que se movimenta, ainda que mobilizando canais alternativos e informais de organização.

Ir para as ruas em época de carnaval, observar a organização dos blocos e das escolas de samba, e dizer que o povo brasileiro não se organiza é uma enorme contradição. Pelo menos 300 blocos ocuparam as ruas e avenidas do Rio de Janeiro neste carnaval, além de tantos outros em todo o país, em uma apropriação diferente, mas democrática do espaço público. Escolas de samba, não apenas na capital fluminense, muitas dotadas de enormes recursos, outras se aproveitando de sobras e remendos, mobilizaram pessoas, criaram redes de sociabilidade e articulação. Caso lancemos um olhar mais generoso para o país, sem termos em mente modelos de organização preconcebidos anteriormente, veremos uma sociedade que se mobiliza de diferentes formas, seja artisticamente — como testemunham as diversas manifestações culturais, como festas e círculos de forró, música brega e sertaneja, saraus de poesia, bailes funk e de hip hop, rodas de samba e pagode, etc., que explodem pelas periferias do país e das grandes cidades, potencializadas pelas novas ferramentas da internet, como o twitter —, seja esportivamente — com a criação de diversos clubes e campeonatos amadores, “peladas” nos finais de semana, reuniões para assistir conjuntamente a um jogo de futebol —, seja religiosamente — mediante a mobilização de pessoas de diferentes idades em cultos, procissões e festas religiosas por todo o país.

Reitero novamente que não estou a afirmar o virtuosismo necessário inscrito nas práticas e nos discursos formulados nesses espaços, os quais muitas vezes devem ser objeto de crítica, sobretudo devido ao fato de não conseguirem chegar ao mundo da política. Mas este é outro ponto. Dizer que a forma não existe por conta do conteúdo é uma balela. Do mesmo modo, poderíamos afirmar a superficialidade do movimento dos “Indignados” na Espanha, destacando o fato de que, enquanto ocupavam as ruas protestando contra a política in toto, o Partido Socialista perdia as eleições para o Partido Popular e sua coalização conservadora. Não o fazemos, pois, ainda que questionando eventuais reivindicações, sabemos valorizar a importância de pessoas estarem nas ruas protestando contra o sistema financeiro e as mazelas de uma classe política completamente distanciada daqueles a quem devia representar. O ponto aqui é: a sociedade brasileira se organiza e se mobiliza, assim como o fazem os espanhóis, porém de forma diferente; nem melhor nem pior, apenas diferente.

Desloca-se, pois, o foco da questão: não há uma sociedade civil “parada” por sua essência natural. Não temos um povo naturalmente apático. Há, pelo contrário, uma sociedade que se move de diferentes maneiras, sobretudo naquilo que genericamente chamei de esfera pública subalterna. A questão — e isso importa ressaltar — é que não houve historicamente, nem por parte das ciências sociais brasileiras nem por parte dos partidos políticos de esquerda, uma atenção para este mundo, que se movimenta e se reinventa a cada nova conjuntura. Quando se olhava e ainda se olha para ele, se buscava e ainda se busca uma classe nos padrões europeus, se deseja uma forma de organização organizada que não passa pela organização desorganizada dos nossos mecanismos associativos, que mobilizam mecanismos muito mais expressivistas do que racionais, muito mais ancorados na emoção e nos sentimentos do que nas palavras de ordem prontas e bem formuladas. A espera de um modelo ideal de mobilização turva a vista para a percepção das potencialidades de um mundo complexo que se organizou e ainda está se organizando fora dos padrões tidos como corretos.

Para além da necessidade de um novo olhar por parte das ciências sociais brasileiras e dos partidos políticos sobre esta sociedade civil, está colocada, no âmbito da política, a necessidade da ampliação da democratização da esfera pública, mediante não apenas a institucionalização de procedimentos democráticos capazes de dar vazão a argumentos “racionais”, mas de mecanismos que a tornem mais porosa aos valores, demandas, reivindicações e manifestações expressivistas desta esfera pública subalterna. A ideia subjacente a esta perspectiva é a da necessidade da ampliação de canais que permitam que suas potencialidades possam se manifestar em uma esfera pública renovada e democrática.

----------

Fernando Perlatto é professor de Ciências Sociais da UFJF.



Fonte: Revista Pittacos & Gramsci e o Brasil.