terça-feira, 31 de janeiro de 2012

COMO RECONHECER UM DIREITISTA ENRUSTIDO? 

André Lux, jornalista e crítico-spam (de esquerda)


Inspirado pelo texto do jornalista Leandro Fortes, resolvi fazer uma listinha básica com DICAS para quem quer aprender a identificar um direitista enrustido. Porque, como bem sabemos, ninguém tem coragem de admitir que é de direita no Brasil, mas prestando atenção aos discursos e atitudes das pessoas fica fácil identificá-los.

Vamos lá:

1) Como bem apontou Fortes, o direitista enrustido costuma bradar que odeia política e políticos em geral e quenão existe esse negócio de direita e esquerda. Mas, na prática, é diferente. O cara vota no Maluf, em alguém do DEM, do PSDB ou em qualquer um que for o anti-petista ou anti-esquerdista da vez. Se Adolf Hitler em pessoa ressuscitar e chegar ao segundo turno contra Dilma Russeff, por exemplo, adivinhem em quem ele vai votar?


2) Eles adoram xingar os abusos da Telefônica, da CPFL e os pedágios caríssimos das estradas. Enquanto você concorda, são sorrisos. Porém, na hora que você lembra que a culpa de tudo isso recai sobre as privatizações lesa-pátria ocorridas nos oito anos de governo FHC, ele fecha a cara e começa a defendê-las, alegando queantes a gente tinha que esperar anos pra conseguir um telefonee que a culpa é dasagências reguladoras(que também foram criadas pelo FHC). você explica que não é contra parcerias público-privadas, desde que elas sejam feitas em favor da população e não de um grupelho deamigos do rei. E então faz aquela fatídica constatação:Realmente, hoje você consegue uma linha rapidinho, que paga as tarifas mais caras do mundo, recebe em troca um serviço horrível e não tem ninguém para reclamar. Se depois disso a pessoa se enfurecer e começar a falar mal do Lula, do PT ou de Cuba, pode ter certeza que você está diante de um direitista.

3) Toda pessoa de direita acredita piamente que as pessoas são pobres porque querem.O problema do Brasil é que pobre não gosta de trabalhar, costumam repetir. De tanto ler a Veja e ver o Jornal Nacional, eles passam a crer que o sujeito mora numa favela e consegue trabalhar de lixeiro porquenão quis estudarounão se esforçou o suficiente para subir na vida. Quando você lembra que essas pessoas não têm condições nem para comer, são obrigadas a trabalhar desde cedo largando os estudos e, devido a tudo isso, conseguem arrumar subempregos, o direitista novamente vai fechar a cara e começar a resmungar coisas sem nexo do tipo:Pode ser, mas se um vagabundo desses entrar na minha casa eu meto tiro!.


4) Ainda em relação aos excluídos, o direitista vive dizendo que a solução para os problemas sociais do país éinvestir em educação. Claro que, como bom esquerdista, você vai concordar com ele. Mas você será obrigado a explicar que a direita, que governou o país desde que o Cabral invadiu essas terras, nunca investiu em cultura e em educação. Pelo contrário. E foi durante a ditadura militar que o sistema público de ensino sofreu seu golpe mais duro, ficando totalmente sucateado. Então vai lembrar que se todo mundo tivesse estudo e condições iguais parasubir na vida, ele (ou ela) seria obrigado(a) a fazer faxina na própria casa ou a recolher o lixo da rua, que ninguém mais precisaria se sujeitar a trabalhar nesses subempregos, exceto de forma voluntária para ajudar a comunidade - igual acontece em Cubaou no mínimo ganharia um salário igual ao de um médico. Pronto. Depois dessa é melhor você correr para um abrigo!


5) Pessoas de direita tendem a ser extremamente incoerentes. Via de regra, elas falam mal de tudo (política e políticos, programas na TV, filmes, jornalistas, sexualidade, música) e repetem queo mundo está perdido,nada mais prestaouna minha época não tinha nada disso. E geralmente terminam suas reclamações dizendo que a única solução para tudo isso éjogar uma bomba atômica e começar tudo de novo. Aí, logo depois, eles afirmar que sãoconservadores...


6) Conheço uma dúzia de caras, por exemplo, que adoram o Pink Floyd (até tocam suas músicas em bandas cover) enquanto repetem jargões que deixariam até um nazista envergonhado.Vai dizer que o Roger Waters é petista agora??costumam vociferar quando você aponta essa incongruência a eles. Obviamente, os direitistas confundem serde esquerdacomser petistaouser comunista. Quando eles cantamImagine, do Lennon, com certeza não se tocam que aquela é uma música que contesta o sistema vigente que eles defendem, ou seja, é de esquerda. E aí, voltamos à lógica esquizofrênica exposta acima: o direitista enrustido é contra tudo, acha que o mundo está perdido, que o ser humano não presta e que político é tudo FDP, mas na hora das eleições, seu voto aos sujeitos mais conservadores, reacionários e corruptos que existem. Justamente aqueles que, além de não mudar nada, vai deixar tudo ainda pior. Justamente aqueles que, como diz Mino Carta,querem deixar as coisas como estão para ver como é que ficam.


7) Uma forma fácil de identificar um(a) direitista enrustido(a) é começar a falar sobre Cuba. Disfarçado no discursoa favor da democracia e da liberdade, você vai poder identificar todos os clichês mais obtusos que a mídia de direita usa para doutrinar os incautos. Não adianta você dizer que antes do Fidel, Cuba era uma ditadura de direita na qual a maioria esmagadora da população passava fome e não tinha direitos. Nem que, depois do Fidel, ninguém mais passa fome e todos têm acesso gratuito à educação, à saúde, à alimentação e ao transporte. Também é inútil explicar que, em Cuba, não existem crianças na rua pedindo esmola e que a maioria da população tem curso superior adquirido gratuitamente. Pois o direitista vai jogar na sua cara que em Cuba não existem carros zero km, nem telefone celular, nem shopping centers, nem DVD, nem liberdade de imprensa. Sim, trata-se da mesma pessoa que acabou de vociferar queo mundo está perdido,na televisão tem porcaria,jornalista é tudo safado e a imprensa é uma merda,hoje em dia essa molecada quer gastar dinheiro com lixoeo problema do Brasil é a falta de educação e cultura. Eu disse que coerência não é o forte deles, não disse?


8) Direitista enrustido que se preze é a favor do neoliberalismo. Não, ele não tem idéia do que é isso nem quem inventou esse negócio, mas como ouviu o Arnaldo Jabor e o Django Mainardi dizendo que era a solução para os problemas do mundo, ele acreditou. E passou a repetir tudo como um bom papagaio: são contra o Estado e as Estatais (mas não reclamam quando dinheiro público é usado para salvar bancos privados da falência), a favor das privatizações (sim, as mesmas que o fazem espumar de ódio contra a Telefônica) e pregam aredução dos impostos(ao mesmo tempo em que choram de raiva por terem que pagar fortunas para ter plano de saúde privado). Como são manipulados pela mídia de direita, adoram meter o pau no governo Lula, não reconhecem nenhum mérito nele e acreditam (mesmo!) que tudo de bom que acontece hoje no país é resultado do governo FHC (embora eles odeiem política e todos os políticos, inclusive os do PSDB, lembram?).

9) Outra característica marcante da turma da direita é a certeza absoluta que são donos da verdade. Quando eles falam sobre qualquer assunto, não estão emitindo uma opinião, mas sim uma verdade única e incontestável. A melhor forma de fazer um tipinho desses sair do armário e mostrar sua verdadeira face é simplesmente contestá-lo com argumentos sólidos e muita calma. Eles até vão tentar rebater, mas quando perceberem que o que estão dizendo é APENAS uma opinião e que, por mais que tentem te ridicularizar ou denegrir, você não vai mudar a sua opinião, o direitista enrustido vai então partir para ataques chulos e de cunho pessoal, como que tentando convencer os outros que o que você diz não tem valor, afinal trata-se de uma pessoa má, feia, fedida, chata ou qualquer outra coisa. Em última instância, o direitista enrustido vai perder todas as estribeiras e acabará apelando para o último recurso usado na tentativa de calar o interlocutor: ameaçar processá-lo!


E então? Você conhece um não conhece um monte de gente assim por aí? Vai ver você é uma delas. Mas não se desespere, pois sempre é hora para mudar.

E, como diz John Lennon, eu espero que um dia você possa se juntar a nós para que o mundo possa ser um só...

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A Cuba que Dilma Visita por Emir Sader




Por Emir Sader


Assim que Fidel e seus companheiros tomaram o poder e o governo dos EUA acentuou suas articulações para tratar de derrubar o novo poder, a grande burguesia cubana e uma parte da classe média alta foram se refugiar em Miami.

Bastava esperar que mais um governo rebelde capitulasse diante das pressões norte-americanas ou fosse irremediavelmente derrubado. Afinal, nenhum governo latinoamericano rebelde tinha conseguido sobreviver. Poucos anos antes Getulio Vargas tinha se suicidado e Peron tinha abandonado o governo. Os dois governos da Guatemala que tinham ousado colocar em prática uma reforma agrária contra a United Fruis – hoje reciclada no nome para Chiquita -, sofreram um violento golpe militar.
Como um governo cubano rebelde, em plena guerra fria, a 110 quilômetros do império, conseguiria sobreviver? Cuba era o modelo do "pátio traseiro" dos EUA. Era ali que a burguesia cubana passava suas férias como se estivesse numa colônia sua. Era ali que os filmes de Hollywood encontravam os cenários para os seus melosos filmes sentimentais. Era ali que um aristocrata cubano tinha importado Esther Williams para inaugurar sua casa no centro de Havana, mergulhando numa piscina cheia de champanhe. Era em Cuba que os milionários norteamericanos desembarcavam com seus iates diretamente aos hotéis com cassinos ou às suas casas, sem sequer passar pelas alfândegas. Era ali que os marinheiros norteamericanos se embebedavam e ofendiam os cubanos de todas as formas possíveis. Era para Cuba que a Pan American inaugurou seus vôos internacionais. Era ali que as construtoras de carros norte-americanas testavam seus novos modelos, um ano antes de produzi-los nos EUA. Foi em Cuba que a máfia internacional fez seu congresso mundial no fim da segunda guerra, para repartir os seus mercados internacionais, evento para o qual contrataram o jovem cantor Frank Sinatra para animar suas festas. Em suma, Cuba era um protetorado norteamericano.
Os que abandonaram o país deixaram suas casas intactas, fecharam as portas, pegaram o dinheiro que ainda tinham guardado e foram esperar em Miami que o novo governo fosse derrubado e pudessem retomar normalmente sua vida num país de que se consideravam donos, associados aos gringos.
Há um bairro em Miami que se chama Little Havana, onde os nostálgicos ficam olhando para o sul, cada vez menos esperançosos de que possam retornar a uma ilha que já não podem reconhecer, pelas transformações radicais que sofreu. Participaram das tentativas de derrubada do regime, a mais conhecida delas a invasão na Baía dos Porcos, que durou 72 horas, mesmo se pilotada e protagonizada pelos EUA – presidido por John Kennedy naquele momento. Os EUA tiveram que mandar alimentos para crianças para conseguir recuperar os presos da invasão, numa troca humanitária.
Cuba mudou seu destino com a revolução, conseguiu ter os melhores índices sociais do continente, mesmo como país pequeno, pobre, ao lado dos EUA, que mantem o mais longo bloqueio da história – há mais de 50 anos -, tentando esmagar a Ilha.
Durante um tempo Cuba pode apoiar-se na integração ao planejamento conjunto dos países socialistas, dirigida pela URSS, que lhe propiciava petróleo e armamento, além de mercados para seus produtos de exportação. O fim da URSS e do campo socialista aparecia, para alguns, como o fim de Cuba. Depois da queda sucessiva dos países do leste europeu, a imprensa ocidental se deslocou para Cuba, instalou-se em Havana Livre, ficaram tomando mojitos e daiquiris, esperando para testemunhar a ansiada queda do regime cubano. (Entre eles estava Pedro Bial e a equipe da Globo.)
Passaram-se 23 anos e o regime cubano está de pé. Desde 1959, 10 presidentes já passaram pela Casa Branca e tiveram que conviver com a Revolução Cubana – de que todos eles previram o fim.
Cuba teve que se reciclar para sobreviver sem poder participar do planejamento coletivo dos países socialistas. Cuba teve que fazer um imenso esforço, sem cortar os direitos sociais do seu povo, sem fechar camas de hospitais, nem salas de aulas, ao invés da URSS de Gorbachev, que introduziu pacotes de ajuste e terminou acelerando o fim do regime soviético.
É essa Cuba que a Dilma vai encontrar. Em pleno processo de reciclagem de uma economia que necessita adaptar suas necessidades às condições do mundo contemporâneo. Em que Cuba intensificou seu comércio com a Venezuela, a Bolívia, o Equador – através da Alba -, assim como com a China, o Brasil, entre outros. Mas que necessita dar um novo salto econômico, para o que necessita de mais investimentos.
Necessita também aumentar sua produtividade, para o que requer incentivar o trabalho, de acordo com as formulações de Marx na Critica do Programa de Gotha, de que o principio do socialismo é o de que "a cada um conforme o seu trabalho", afim de gerar as condições do comunismo, em que a fartura permitira atender "a cada um conforme suas necessidades".
Cuba busca seus novos caminhos, sem renunciar a seu profundo compromisso com os direitos sociais para toda a população, a soberania nacional e a solidariedade internacional. Cuba segue desenvolvendo suas políticas solidárias, que permitiram o fim do analfabetismo na Venezuela e na Bolívia e o avanço decisivo nessa direção em países como o Equador e a Nicarágua.
Cuba mantem sempre, há mais de dez anos, a Escola Latinoamericana de Medicina, que já formou na melhor medicina social do mundo, de forma gratuita, a milhares de jovens originários de comunidades carentes todo o continente – incluídos os EUA. Cuba promove a Operação Milagre, que ja' permitiu que mais de 3 mil latino-americanos pudessem recuperar plenamente sua visão.
Cuba é um sociedade humanista, que privilegia o atendimento das necessidades dos seus cidadãos e dos de todos os outros países necessitados do mundo. Que busca combinar os mecanismos de planejamento centralizado com incentivos a iniciativas individuais e a atração de investimentos, na busca de um novo modelo de crescimento, que preserve os direitos adquiridos pela Revolução e permite um novo ciclo de expansão econômica.
Aqueles que se preocupam com o sistema politico interno de Cuba, tem que olhar não para Havana, mas para Washington. Ninguém pode pedir a Cuba relaxar seus mecanismos de segurança interna, sendo vítima do bloqueio e das agressões da mais violenta potência imperial da história da humanidade. A pressão tem que se voltar e se concentrar sobre o governo dos EUA, para o fim do bloqueio, a retirada da base naval de Guantanamo do território cubano e a normalização da relação entre os dois países.
É essa Cuba que a Dilma vai se encontrar, intensificando e ampliando os laços de amizade e os intercâmbios econômicos com Cuba. Não por acaso o Brasil só restabeleceu relações com Cuba depois que a ditadura terminou, intensificando essas relações no governo Lula e dando continuidade a essa política com o governo Dilma.

domingo, 29 de janeiro de 2012

A metade pobre dos EUA - Marx estava certo: aumenta o fosso entre os 99% e os 1%

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Jornal Mudar de Vida - O capitalismo não pode responder às necessidades humanas.

Em Novembro último, o New York Times publicou os dados sobre a pobreza nos EUA, baseados num novo método de cálculo, e avançou que 100 milhões de pessoas, uma em cada três, eram pobres. O número foi chocante. No mês seguinte, a Associated Press revelou que 150 milhões, cerca de uma em cada duas pessoas, era pobre ou "quase pobre". Isto foi ainda mais chocante. É da relação entre o aumento da pobreza e o crescimento capitalista que fala o artigo de Fred Goldstein, publicado em 21 de Dezembro no jornal Workers World.
O número de pessoas que são oficialmente pobres ou "quase pobres" nos EUA tornou-se uma questão controversa.
O Gabinete de Censos (Census Bureau) alterou o método através do qual mede a pobreza oficial. Agora, diferenças regionais são consideradas ao calcular os custos de sustento de uma família, assim como são acrescentados quaisquer apoios governamentais – como vales alimentares – ao rendimento de uma família enquanto são subtraídas despesas médicas, de transporte, de creches e outras.
O New York Times solicitou ao Gabinete de Censos números baseados nestes novos métodos de calcular a pobreza oficial. A nova percentagem foi chocante. O Times publicou os resultados em Novembro, avançando que 100 milhões viviam na pobreza, ou uma em cada três pessoas nos EUA.
Mas um mês depois, em Dezembro, a Associated Press publicou os dados baseados nos novos cálculos. Revelou que 150 milhões – o que significa cerca de uma em cada duas pessoas – era pobre ou "quase pobre". Quase pobre significa debater-se com dificuldades para conseguir pagar contas. Isto foi ainda mais chocante.
Ambos os números se basearam nos mesmos dados do Gabinete de Censos. A diferença é que o primeiro estudo contou todas as pessoas que vivem até 150% acima do nível de pobreza. O nível de pobreza oficial para uma família de quatro pessoas, com dois filhos, de acordo com os novos índices adoptados pelo Gabinete, foi ajustado para um rendimento anual de 24.343 dólares.
O segundo estudo, utilizando os mesmos dados, incluíu pessoas que vivem até 200% acima do nível de pobreza. Revelou que uma família de quatro pessoas, incluindo dois filhos, com um rendimento anual de 48.686 dólares também se debatia com dificuldades para sobreviver e vivia precariamente, próxima da falência. Qualquer um que tente manter uma família de quatro pessoas com este rendimento estará certamente de acordo com esta interpretação mais abrangente.
O Gabinete de Censos apressou-se a "clarificar" a situação, declarando que considerar que metade das pessoas nos EUA eram pobres ou "quase pobres" estava errado. De qualquer modo, disse o Gabinete, o governo não tem definição para "baixo rendimento" ou "quase pobre", de modo que toda a discussão não tinha sentido. E a discussão desapareceu, então, rapidamente das grandes empresas de comunicação social.
"Não é preciso um meteorologista"
Independentemente dos números sejam adoptados, o facto é que os salários reais têm vindo a cair nos últimos 30 anos enquanto os capitalistas introduzem novas tecnologias, aceleram ritmos de trabalho e forçam milhões de trabalhadores a horários a tempo parcial. Desde que a crise económica começou, em Agosto de 2007, os salários têm caído ainda mais drasticamente. Pelo menos 30 milhões estão desempregados ou subempregados. Milhões foram despejados das suas casas. E os apoios governamentais estão a ser cortados até "ao osso" aos níveis federal, estadual e local.
Por outras palavras, o debate sobre quanta pobreza existe de acordo com as estatísticas do governo é apenas um debate sobre interpretações do governo e índices do Gabinete de Censos. Debate à parte, pobreza e o sofrimento são reais e crescentes. Até mesmo pelas estatísticas oficiais, a pobreza nos EUA cresceu 2,6 milhões de 2009 para 2010.
Como costuma dizer-se, não é necessário um meteorologista para sabermos de que lado sopra o vento. A pobreza é inerente ao capitalismo. Durante uma crise económica com esta duração e severidade, a pobreza cresce em maior profundidade e maior extensão.
Karl Marx sobre os 1% e os 99%
É importante reiterar que o crescimento da pobreza é inerente ao capitalismo. De facto, Karl Marx, ao escrever em 1848 o Manifesto Comunista, antecipou a descrição dos 1% versus os 99%.
Argumentando contra os capitalistas, que se queixavam do programa comunista de abolir a propriedade privada dos meios de produção, Marx escreveu:
"Horrorizais-vos por querermos suprimir a propriedade privada. Mas na vossa sociedade, a propriedade privada está já abolida para nove décimos da sua população; ela existe para alguns precisamente pelo facto de não existir para nove décimos. Censurais-nos, portanto, por querermos suprimir uma forma de propriedade que é condição necessária para que a imensa maioria da sociedade não possua propriedade.
Numa palavra, censurais-nos por querermos suprimir a vossa propriedade. É precisamente isso que queremos."
Marx escreveu acerca de um décimo da população versus os nove décimos durante as primeiras fases do capitalismo, antes de a vasta concentração de riqueza, que ele previu, ter alcançado as proporções do século XXI. De facto, hoje apenas uma minúscula fracção dos 1%, os bilionários, controla realmente a riqueza.
Marx escreveu há 160 anos, antes da era do capital financeiro com os seus hedge funds (fundos de investimento especulativo) e uma riqueza inimaginável. Apesar de ter escrito sobre os 10 e os 90 por cento, ele observou e analisou a tendência do capitalismo para concentrar riqueza em cada vez menos mãos, deixando as massas sem bens e a viver na pobreza. Ao cabo de mais 20 anos de novos estudos do capitalismo, em 1867, Marx escreveu em O Capital (Livro 1, capítulo 25) acerca da Lei Geral da Acumulação Capitalista. Descreveu o papel da tecnologia na criação de pobreza e de um número sempre crescente de trabalhadores desempregados, que designou como "o exército de reserva do trabalho":
"Ou seja, a lei que mantém o equilíbrio entre a sobrepopulação relativa, ou o exército de reserva industrial, e a ampliação e a vitalidade da acumulação aprisiona o trabalhador ao capital mais solidamente do que os grilhões de Vulcano aprisionaram Prometeu ao seu rochedo. É essa lei que estabelece uma correlação fatal entre a acumulação do capital e a acumulação da miséria. A acumulação da riqueza num pólo é, ao mesmo tempo, acumulação de miséria, de sofrimento, de escravatura, de ignorância, de embrutecimento, de degradação moral, no pólo oposto, i.e., no lado da classe que produz o próprio capital."
Mas Marx não descreveu apenas a pobreza e a desigualdade de riqueza. Ele analisou as suas origens na relação do trabalho com o capital. Mostrou que o sistema do lucro, o sistema da propriedade privada, se fundamenta na venda da força do trabalho pelos trabalhadores aos seus empregadores, que a utilizam para aumentar o seu capital, os seus lucros e a sua riqueza pessoal.
Isto é tão verdadeiro hoje como o era em 1848 e 1867. As mesmas leis descritas por Marx produziram a crise económica mundial que estamos agora a viver. As leis do capitalismo, especialmente a procura, permanente e intrínseca, do lucro, também orientam a tecnologia, acelerações de ritmo de trabalho, baixos salários, sobreprodução e, por fim, a destruição de empregos e de rendimentos para as massas do povo. 
A polarização da sociedade entre os 1% e os 99% é sistémica. E é o sistema que, a prazo, deve ser destruído.
O movimento Occupy Wall Street (OWS) levou a sociedade a dar um grande passo em frente ao denunciar os ricos e ao agir contra eles. Desta forma despertou diversos sectores da sociedade para a compreensão de que a sua pobreza, os seus empregos sem perspectivas, as suas lutas pela sobrevivência, não são resultado de uma falha sua, mas sim da falha do sistema.
Assim, o movimento OWS legitimou e disseminou amplamente a oposição ao sistema, levando-nos a dar mais um passo para sermos capazes de nos livrarmos do 1% e estabelecermos o regime dos 99% – ou seja, livrarmo-nos da autocrática classe capitalista dominante e estabelecermos o regime democrático dos trabalhadores e dos oprimidos.


Tradução e adaptação: Cristina Meneses


O original encontra-se em http://www.workers.org/2011/us/poverty_1229/